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PELAS RUAS DE BELÉM


TIPITI PRA ESPANHOL VER

INGREDIENTES PARAENSES EM AULA GASTRONÔMICA NA ESPANHA.

Da comienzo el esperadísimo taller de @alexatala y Felipe Rameh sobre La Versatilidad de la Mandioca

Microblog Twitter @madridfusion, 22/01/2013

Foi assim, classificando-a de “esperadíssima” que no Twitter o Madrid Fusión 2013 anunciou a oficina sobre a mandioca e seus diferentes usos, apresentada pelo chef Alex Atala, com apoio de Felipe Rameh (que trabalhou com Alex muitos anos em SP e hoje está com um restaurante em BH). O “Madrid Fusión” é um dos mais destacados eventos gastronômicos do mundo e o maior da Espanha, uma das mecas da alta gastronomia mundial. O brasileiro Alex Atala foi uma das principais atrações da versão 2013, com duas consagradas intervenções, semana passada.

A mensagem tinha esta fotografia anexada:


Conhece alguns elementos que estão na foto? Em primeiro plano, legítimas cuias paraenses, logo adiante, verdadeiras mandiocas, colhidas em terras paraoaras, ao fundo, um autêntico tipiti!

Para esta palestra o chef Alex Atala encomendou ao restaurante “Lá em Casa” alguns ingredientes com que convivemos pelas ruas de Belém e os utilizou nesta oficina sobre a mandioca. Tive acesso à lista e divido com vocês:

 

Farinha de Tapioca
Farinha Suruí (seca fina)
Farinha d'água
Farinha d'água (puba)
Farinha Mandioca Amarela semi-puba
Farinha de Uarini Ovinha
Farinha de Carimã
Farinha Amarela
Tucupi
Goma
Beijuzinho de Tapioca
Pimentinha Verde
Jambu Fresco
Maniva (Moída, Crua)
Maniva (Moída Pré-Cozida)
Camarão Seco
Tipiti Grande
Cuias para Tacacá
Mandiocas in natura
Polpa de Cupuaçu.

 

Veja só o balcão de trabalho do Alex, com a exposição de farinhas em primeiro plano, em outra foto que captei dos veículos de divulgação do Madrid Fusión:

 

Não é de espantar que Alex tenha sido o maior sucesso do MF2013: com esses ingredientes, a competência e a fineza dele, só tinha mesmo que bombar. Só faltou mesmo uma bandeira paraense. Mas é que o governo federal escolheu Minas Gerais, terra da mais europeia das cozinhas brasileiras, para representar o país lá e, exceção feita ao paulista Atala, que era convidado diretamente do evento e por conta dele estava lá, todos os outros chefs que se apresentaram eram mineiros. Aliás, até o governador de Minas estava lá. A Embratur ainda convidou uns outros chefs, mas apenas para figurarem no estande nacional. Mas esqueceram do Pará e da Amazônia, onde está a mais brasileira das cozinhas brasileiras, porque originária diretamente da cultura indígena e dos produtos da floresta e dos rios amazônicos. São coisas que acontecem...

Tipiti pra europeu ver: olha o chef Alex Atala a movimentar o tipiti, mostrando como se tira o tucupi e como se faz a farinha. Foi uma “aula prática” com todos os efes e erres, como dizia o meu avô:

 

Ou será este um passo da “Dança do Tipiti”, do saudoso maestro Wilson Fonseca, o mago das músicas de Santarém, para ensinar como se faz um tipiti? Não consegui encontrar uma gravação dela, mas a letra está aqui:

Cada qual pegue sua tala,
Se quiser ter tucupi,
Pra tecer com harmonia
Um perfeito tipiti.

 Estribilho:
Ai, ai, ai!
Vai girando sem parar,
Vai tecendo, vai tecendo
Num trabalho de encantar!

 Instrumento indispensável
Na lavoura do Pará
Que prepara a mandioca
Pra farinha e tacacá.

 Terminamos a missão.
Tudo pronto, vejam aqui:
Já podemos ter farinha,
Tapioca e tucupi.

 Desandando a nossa roda
Sem perder a animação,
Vamos todos dar um viva!
A São Pedro e São João!

 Estribilho final:
Ai, ai, ai!
Vai girando que nem mó
Destecendo nosso cesto
Que em pouco é tala só!



Escrito por Fernando Jares às 17h18
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O MISTERIOSO AUTOR DE “O PRÓDIGO”

NARRATIVA EM QUE SE NAVEGA POR UM RIO DE RAIVAS PARA
CHEGAR COM SEGURANÇA A UMA CIDADE TRANSITIVA

Na semana passada este blog republicou, na forma de folhetim, em três partes, o conto de mistério “O Pródigo”, originariamente publicado na revista Mistério Magazine de Ellery Queen, em 1971. O nome do autor foi um mistério a mais, a desafiar o leitor. Para quem não leu, aqui estão os links – basta clicar nos títulos: 1ª parte; 2ª parte; 3ª parte.

Na época em que li pela primeira vez o conto, como muitos, fiquei a imaginar quem seria o autor. A revista identificava Amazonas de Oliveira, mas reconhecia que era pseudônimo de um leitor de Belém do Pará. De fato era alguém que andava regularmente pelas ruas de Belém: conhecia bem a cidade, seus habitantes, seus hábitos, e produziu um conto-crônica leve sobre esse cenário.

Achando que havia uma pista logo no início da primeira frase: “Meu nome é Hermano Manique”, entendi que o autor seria o escritor e jornalista Haroldo Maranhão, de fina estirpe das letras paraenses e aguçado humor. As iniciais coincidiam, daí... Quase 20 anos depois, Haroldo Maranhão lançou o livro “Rio de Raivas” (Livraria Francisco Alves, 1987) e imaginei ter ali a confirmação, pelo estilo da escrita e, especialmente, pelos personagens belenenses que desfilam no livro, do jornal Folharal ao seu titular, Palma Cavalão, o governador, coronel Cagarraios Palácio e tantos outros que o Lúcio Flávio uma vez fez um “dicionário” para tentar traduzir em criaturas paraoaras reais aquela ficção.

Mas ao “investigar” sobre o autor para a presente publicação folhetinesca neste blog, conversei com o publicitário e jornalista Oswaldo Mendes, cuja agência Mendes Publicidade é citada no conto (está na segunda parte, aqui). Na conversa, chegamos ao mistério do autor. Assunto antigo de quatro décadas, estava-nos completamente esquecido. Mas fomos reavivando momentos e logo ele me informou: “é do Armando. Foi o Armando que o escreveu” Referia-se a seu irmão, um dos grandes pensadores do Pará, uma mente literalmente brilhante, falecido no ano passado (leia “Nada há de melhor para o homem do que alegrar-se com o fruto de seus trabalhos” clicando aqui). Sem dúvida o dr. Armando era dono de um estilo duplo ao escrever. Quem lê seus livros sobre a economia da Amazônia encontra a seriedade e profundidade que o tema exige; quem lê, por exemplo, o memorial “Cidade Transitiva” delicia-se com a leveza do texto e das histórias.

Disse-me mais OM: Armando era um apaixonado leitor da revista Ellery Queen. E relembrou que, quando ambos trabalhavam como jornalistas, na Folha do Norte, Armando exercitava esse lado de cronista urbano, usando nomes ficcionais, de certa forma lembrando nomes reais. Para tal – e para evitar problemas com os “homenageados”... – criou um pseudônimo: Said Menor. Said numa inversão de Dias (seu nome completo é Armando Dias Mendes) e Menor que, de alguma forma, lembrava Mendes. E relembrou um folhetim de mistério que Armando inventou e foi publicado na Folha Vespertina, sendo os capítulos escritos por quatro jornalistas, todos sob pseudônimo, sendo que cada um só escrevia seu capítulo após a publicação do anterior.

A história desse folhetim está contada no “Cidade Transitiva – Rascunho de Recordância e recorte de saudade da Belém do meio do século” (Imprensa Oficial do Estado, Belém, 1998). O folhetim tinha como título “Quem matou?” e como autores identificados Afonso de Alencar, Said Menor, Flávio Machado e Joel Guimarães. Aí ele faz uma brincadeira, criando mais mistério para o leitor, e só revela os nomes reais dos quatro autores lá no final do livro, quando lista as “Fontes” consultadas para a obra. Fui lá e trago cá a solução do enigma destes nomes, na ordem listada aí antes: Elmiro Nogueira, Armando Mendes, Pery Augusto e Oswaldo Mendes, todos da redação das Folhas.

 

Ainda há dúvida? Pois bem, ela é totalmente esclarecida em outro livro de Armando Mendes, “O cidadão transeunte – Almanaque de Viveres Almenara de olhares sobre Cidades e Cidadãos” (Imprensa Oficial do Estado, Belém, 2007). Quase a completar 40 anos de publicação do conto, dr. Armando republicou-o inteiramente e fez “notas explicativas” preciosas na contextualização da obra, além de uma completa análise da história e seus personagens e locais. Não afirma diretamente ser o autor, mas publica um novo e inédito conto de Amazonas de Oliveira, pista definitiva. Mas a confirmação está no livro, ou melhor, na orelha do livro, que é de ninguém menos do que nosso maior filósofo e crítico literário, Benedito Nunes! Afirma-o claramente, ao citar o conteúdo do livro apresentado: “um conto policial do autor publicado na Mistério Magazine,...”

Enigma esclarecido!

S. M. J.



Escrito por Fernando Jares às 18h56
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QUEM SERÁ “O PRÓDIGO” DE BELÉM?

MISTÉRIO NA BELÉM DOS ANOS 70 (3º capítulo)

Chegamos à terceira e última parte em que foi divido, ao estilo dos folhetins, o conto de mistério “O Pródigo”, publicado em 1971 na revista “Mistério Magazine de Ellery Queen” e assinado por Amazonas de Oliveira, confessadamente pseudônimo de um leitor da revista em Belém do Pará. Utilizando personagens com nomes que lembram figuras da política, da sociedade, da cultura paraense, ambientando a ação pelas ruas de Belém, o autor tece uma crônica muito agradável da cidade naquele começo dos anos 70 do século passado.

O enigma é finalmente desvendado e quem o esclarece é um jornalista, repórter do extinto jornal Folha do Norte. Vamos às aventuras de hoje:

— Mas, interditá-lo por quê?

— Descobrimos que êle é o Pródigo.

— ! ! !

— Certeza absoluta.

Olavo, é claro, não sabe que eu próprio sou um dos contemplados.

Contou, então, uma história rocambolesca. Alguns dias antes, Pedro, o Afoito, fôra surpreendido no tôpo do muro baixo de uma modesta casa de subúrbio. Eram altas horas da noite, o vigilante noturno flagrou-o no que os jornais locais chamam de "atitude suspeita". Deu-lhe voz de prisão. Pedro tentou fugir, inùtilmente. Levado à Delegacia mais próxima, negou-se a fornecer qualquer explicação. Revistado, descobriram em um dos bolsos de sua calça um pacote. Aberto, revelou conter trinta mil cruzeiros, em cédulas novas, de cem cruzeiros, etc., etc. (v. Cap. 2).

Foi acusado de furto. Ao ser lavrado o flagrante, forçado a identificar-se, a revelação de seu nome causou espanto. Jamais se podia supor que uma pessoa do seu nível social, de família conhecida e respeitada, se transformasse em um reles ladrão. Quiçá, dado o seu status, cleptomaníaco.

O escândalo converteu-se em perplexidade, quando o dono da casa supostamente assaltada, chamado a depor, confessou que não possuía aquela quantia. Funcionário público humilde, trinta mil cruzeiros equivaleriam ao seu salário acumulado de quatro anos.

O repórter policial da Fôlha do Norte, presente, teve o estalo:

— Êste cara não ia roubar, ia deixar.

— Deixar?!

— Sim. Não estão vendo que êle só pode ser o Pródigo?

As coisas esclareceram-se repentinamente e tudo começou a encaixar-se nos seus respectivos lugares. Pedro tinha procuração para administrar os bens deixados pelo falecido pai, mantidos em condomínio. Vendera alguns recentemente, dos quais nunca prestara contas. A fartura familiar é tão grande, e os processos de administração continuam tão rotineiros, que jamais alguém chegara a suspeitar que Pedro pudesse estar agindo como depositário e administrador infiel. O escândalo, porém, foi abafado e não alcançou ainda as colunas ais jornais, mas já é conhecido em círculos restritos.

Essa a história que Olavo me contou. O resto é constituído de descobertas, deduções e meias-confissões do cunhado. Parece que, influenciado pela educação religiosa recebida em colégio de jesuítas, no sul do País e no Exterior, e depois como participante de movimentos de ação social, na Universidade, imbuíra-se da convicção da necessidade de devolver literalmente a fortuna que, por muitos meios injustos e ilícitos, fora acumulada pelo pai.

— O Santarrão! – esbravejava Olavo no meu escritório. – Fazia profissão de fé de virtude, para andar distribuindo os nossos tostões à folgaça!

Olavo gostava muito de palavras de baixo curso. A referência aos tostões fica por conta da aparência de modéstia financeira que se esforça contraditòriamente em apregoar. A reclamação, no entanto, é mais profunda, uma vez que Olavo, muito dado na juventude a mulheres e bebidas, jamais perdoou ao cunhado o comportamento diferente.

O que me pede, pois, são os meus serviços profissionais, para interdição do cunhado como Pródigo, na forma do art. 6º do Código Civil:

Art. 6º – São incapazes, relativamente a certos atos (art. 147, nº 1) ou à maneira de os exercer:

I – Os maiores de 16 e menores de 21 anos (arts. 134 e 156).

II – Os pródigos.

III – Os silvícolas.

Parágrafo único – ...''

Pedro deveria ser considerado, portanto, parcialmente incapaz e sujeito à curatela de alguém especialmente designado (Código Civil, art. 446, III), ficaria privado da faculdade de praticar certos atos, salvo com assistência do curador (id., art. 459), etc.

Olavo, por si, queria mesmo, se possível, internar o cunhado por "loucura de todo o gênero", na forma do art. 5º, II, do Código Civil.

5 – Êsse é o problema que desde ontem me atormenta. Não posso contribuir para que uma pessoa, evidentemente honesta, que distribui riqueza ilìcitamente arrecadada, se veja privado de seus direitos civis só para que outra, locupletando-se na mesma riqueza, através dos prazeres que lhe pode proporcionar, assegure-se a continuação do bródio (para usar uma palavra rebuscada do seu gôsto).

Meu pai fôra modesto e mal remunerado empregado do pai de Pedro e Fátima, sei bem como consolidou e ampliou sua fortuna. O dinheiro que Pedro vinha repartindo nada mais é, portanto, do que uma restituição, aos explorados e/ou descendentes. Aliás, tem-na feito conscienciosamente segundo o figurino oficial: com correção monetária.

Ou, "no fundo do fundão", para usar expressão patenteada de meu amigo Bernardo Macambira, recuso a causa por ter sido pessoalmente beneficiado pelo Pródigo? Não por amor à Justiça, mas por cobiça?

Não importa. Ignorabimus. Creio que, de qualquer forma, Olavo terá uma grande surprêsa: se eu vier a patrocinar esta causa, será como procurador do Pródigo.

S. M. J.

Enigma revelado, com forte apelo social, até homenageando, no finalzinho, um dos grandes socialistas de Belém: ao citar o personagem “Bernardo Macambira”, por certo se refere o enigmático autor ao brilhante advogado Cléo Bernardo de Macambira Braga aquém eu muito gostava de ouvir e entrevistar.

Falando em enigmático autor, quem seria ele? Sim, Amazonas de Oliveira, quem será?

Ao longo destes muitos anos tinha uma quase certeza de quem seria, por uma pista encontrada logo ao início do texto. Agora, após reler o texto e de algumas “investigações”, tenho outro fortíssimo “suspeito”. Vou aproveitar o fim de semana para levantar novas pistas, ler alguns “autos” que se podem relacionar ao comportamento do autor no desenvolver da história e dos personagens por ele conduzidos e, na segunda-feira retorno com as “teorias” sobre a “identidade secreta” do autor...

Agora, para finalizar, um brinde aos “mais velhos pouquinha coisa”, como diria o sempre lembrado jornalista Edwaldo Martins: um anúncio que foi publicado na mesma revista “Mistério Magazine de Ellery Queen”. Vende um curso de inglês “em tape cassete” para você ouvir em qualquer lugar, inclusive “enquanto dirige seu carro” – e naquela época nem havia o tanto de engarrafamentos que temos hoje... O carro, pelas “investigações” realizadas, é um fusca Volkswagen:

 



Escrito por Fernando Jares às 16h46
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BOAS LEMBRANÇAS NO PRATO

ARTE NA GASTRONOMIA NO PARÁ

Alguns bons restaurantes brasileiros têm sempre um prato especial para ser guardado como lembrança, literalmente. Você degusta o prato (no sentido de comida, alimento) e ganha um prato (no sentido de recipiente para a comida) de cerâmica, pintado à mão, com imagens dos ingredientes do prato-conteúdo. Sempre bonito, é uma peça de arte, de decoração. Arte para comer e guardar. E colecionar.

A Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança foi criada em 1994 por iniciativa do chef Danio Braga, que se inspirou nos “Piatti del Buon Ricordo”, da Itália, e teve no Pará um de seus fundadores: o “Lá em Casa”, sendo Paulo Martins um dos entusiastas do projeto, um dos primeiros a aderir, como diz Danio no prefácio do livro “Os Restaurantes da Boa Lembrança” (Danusia Barbara, 1995): “Na hora, gostando do que ouvia, ele disse: ‘Estou com vocês!’”

O Pará tem três restaurantes filiados: o fundador “Lá em Casa”, depois veio o “Famiglia Sicilia” (antigo D. Giuseppe) e mais recentemente o Remanso do Peixe.

...

Mas eles não estarão mais sozinhos. Está chegando o mais novo restaurante da Boa Lembrança do Pará, o “Dom Mani”, de Santarém, que tem o comando do chef Sandro Mota. Segundo me informou a diretora regional da Associação, Tânia Martins, ele já foi aprovado pela assembleia da Associação e está prestes a lançar o primeiro prato. Sandro tem tradição na Pérola do Tapajós, desde a sua pizzaria “Mania de Pizza”, muito considerada. Em 2011 ele esteve aqui pelas ruas de Belém, participando do festival “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, fez sucesso e foi assunto no post que fiz sobre o evento (clique aqui). No ano passado ele ganhou um prêmio internacional em Rimini, na Itália, ao fazer parte da equipe brasileira que conquistou a Copa Mundial de Gelateria com a “Melhor Casquinha do Mundo”. Não sei se vocês concordam, mas o nome deste restaurante mocorongo, parece uma composição em homenagem a dois dos mais famosos restaurantes brasileiros, ambos na lista dos melhores do mundo: o “D.O.M.” de Alex Atala, 4º lugar e, segundo falam as boas línguas, candidatíssimo a ser o primeiro este ano, e o “Mani”, de Helena Rizzo, o 51º nesse ranking. Mas, conforme Sandro Mota, Dom Mani quer dizer “Senhor das Mãos” e refere o instrumento principal de trabalho do chef, as suas mãos.

Acompanho a história dos restaurantes da Boa Lembrança e tenho alguns pratos valiosos na minha parede a eles dedicada, como do “Locanda dela Mimosa” (Petrópolis), do “Marcel” (SP), “Alice” (Brasília), “66 Bistrô” (Rio), “Da Carmine” (Niterói), etc.

Atenção especial para os dez do “Lá em Casa”, que têm parede especial, como você pode ver abaixo:

 

São estes, pela ordem das datas de lançamento, os pratos do “Lá em Casa”: “Macarrão paraense”, 1994; “Filhote pai d’égua”, 1996; “Pato do imperador”, 1999; “Filé marajoara”, 2003; “Peixe escondido”, 2004; “Ravióli negro de maniçoba com haddock paraense”, 2006; “Filhote Boa Lembrança com bacuri”, 2007; “Haddock paraense”, 2010; “Filhote no leite da castanha-do-pará”, 2011; e “Pescada pai d’égua” (2012).  Alguns deles já foram apreciados, aliás, todos foram apreciados no sentido de degustar e os mais recentes apreciados no sentido de comentar... cá por estas linhas virtuais. A pescada-sereia, do prato mais recente está aqui.



Escrito por Fernando Jares às 18h31
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UM PRÓDIGO EM BELÉM?

MISTÉRIO NA BELÉM DOS ANOS 70 (2º capítulo)

Como a cidade reagiria se descobrisse que havia alguém a dar dinheiro, muito dinheiro, a outra pessoa, sem que o beneficiado soubesse o motivo? É isto que vamos saber no segundo capítulo do folhetim “O Pródigo” e conhecer um pouco da vida de Belém naquele início dos anos 1970. A primeira parte deste conto que dividimos em capítulos você lê clicando aqui.

Os nomes dos personagens que aqui desfilam não são reais, mas alguns são próximos e fornecem boas pistas de pessoas ainda vivas ou já mortas – e isso não é mera coincidência... Rotary Clube e Câmara Júnior eram foruns de respeitados cidadãos a discutir temas da sociedade e para a melhoria da cidade. O Grupo de Ouro, agrupamento de senhores também muito respeitados, discutia sem tanto formalismo mas, igualmente, com calor tropical e alimentar.

Até a agência Mendes Publicidade entra na história (veja reprodução abaixo). E isso justifica que eu tenha lido – e guardado – o exemplar do Mistério Magazine, que apresentei no primeiro capítulo deste conto de mistério que transformei em folhetim. Eu trabalhava lá, nesse tempo. Quem seria o autor Amazonas de Oliveira, identificado pela própria redação da revista como pseudônimo de “um leitor nosso de Belém do Pará”? Discutimos, na época, bastante sobre o enigma. Haverá no texto alguma pista para chegar ao autor? E os nomes citados neste capítulo, quem os desvenda e, possivelmente, os conhece ou conheceu? Vamos exercitar a mente nestes mistérios ficcionalmente acontecidos pelas ruas de Belém:

 

O PRÓDIGO

2º capítulo

— “Magister dixit” — pensei eu, mas pensei alto.

— Que é isso – indagou Olívia "Palito", assim chamada pelos irmãos. De tão absorto, nem respondi.

Já Ivo e Urbano se haviam apoderado de algumas cédulas, ameaçando levá-las para a escola, a fim de mostrá-las aos colegas. Custou evitar que a fortuna tão inesperadamente conquistada começasse a dissipar-se prematuramente.

— Vai ver, isto é propaganda comercial – voltava meu fantasma a aventar descrente. – Deve ser campanha da Mendes Publicidade.

—  Mas campanha de que, homem de Deus? – tornava a minha mulher, persistente, realista:

— Onde já se viu fazer propaganda sem dizer coisas e loisas? Publicidade às escondidas, não exibindo a mercadoria, dispendiosa?! Não faz sentido.

Não fazia. No fundo, a formação e experiência de homem de leis deixavam-me o receio de que o uso daquele dinheiro pudesse envolver-me em um ilícito penal. E se viesse a ser prêso, acusado de passar dinheiro falso?

Êsses terrores geraram algumas insônias e posteriores pesadelos. Mas deixei a pequena fortuna no pequeno cofre doméstico e estabeleci uma condição: que nela não se mexesse durante um mês, até podermos decidir, com mais calma, sobre o destino a dar-lhe.

E deveríamos evitar a divulgação do fato.

“Ita speratur”

3 – As semanas subsequentes alteraram substancialmente o panorama, porque deixamos de ser os únicos aquinhoados. Sùbitamente, as chamadas imprensas falada (sic) e escrita encheram-se de notícias sobre outras remessas de dinheiro, aos destinatários os mais variados, em quantias as mais diversificadas. Modestos servidores públicos, médicos, advogados, engraxates, balconistas, vaqueiros do Marajó, estudantes, padres, a Delegacia Regional da Receita Federal e a Recebedoria de Rendas do Estado, entidades assistenciais, verdureiros, a Associação dos Antigos Alunos Maristas, vendedores de jornais e muitos outros. Os valôres iam de modestos duzentos, quinhentos cruzeiros, a cem mil, individualmente. Segundo os jornais, o rádio e a televisão, mais de dois milhões, no total. Sem computar, evidentemente, os meus cinqüenta mil e de outros que, por muitos motivos, teriam preferido, como eu, ficar no anonimato.

Em todos os casos, o mesmo processo e o mesmo mistério: entrega anônima, via Correio, por baixo da porta ou por cima do muro a horas caladas da noite, os endereços datilografados, o remetente oculto e o dinheiro, sabe-se agora, absolutamente verdadeiro. A Polícia Federal, temendo tratar-se de alguma manobra subversiva, promoveu a perícia das cédulas e não resta dúvida alguma quanto à sua autenticidade.

O que ninguém entende é o critério das escolhas. Nada parece unir os beneficiados confessos entre si. Quanto aos ocultos, et pour cause, nada se pode dizer. Os funcionários da Receita Federal, por seu lado, temem que diversos contribuintes do impôsto sôbre a renda invoquem doações semelhantes, porventura inexistentes, para encobrir fontes de receita menos confessáveis.

O meu brilhante colega Ó de Alonso explicou, em almoços do Rotary Club e em jantares do Grupo de Ouro, o que é juridìcamente um Pródigo e as conseqüências de sê-lo. O conceituado economista Rosomiro de Belém falou, na Câmara Júnior, sobre algo como "O Pródigo e suas implicações no desenvolvimento da Amazônia". Álvaro ("Vaim") Macedo, líder do jovem empresariado local, deu entrevista aos jornais sobre a repercussão da prodigalidade no sistema federal de incentivos fiscais que favorecem a Região Amazônica. O Pe. Samuel Porto, recém-chegado de um curso de sociologia religiosa na França, foi ouvido sôbre os aspectos morais do episódio. Realizaram-se “enquetes” populares. A Câmara Municipal de Belém, por proposta do vereador Cesário Alvim dos Santos, discute até hoje acaloradamente, a concessão do título de "Cidadão de Belém" ao Pródigo.

Mas há quinze dias não se tem notícia de novas doações.

4 – Olavo Amoras é meu velho conhecido. Fomos colegas no primário e no ginásio. Separamo-nos apenas ao ingressar no curso superior, uma vez que eu escolhi Direito e êle Medicina. Mas procuramos sempre cultivar a boa amizade com o passar dos anos.

Nossas afinidades não são agora, porém, muitas: o jogo de xadrez, o futebol e pouco mais. O que permanece, mesmo, são restos de coleguismo. Os anos posteriores, imperceptivelmente, foram-nos afastando, mais do que nossas origens. Inês, com quem casei, era plebéia, educada com muito sacrifício por parte dos pais, de humilde status. Fátima, mulher de Olavo, ao contrário, foi nascida em berço de ouro, filha de um dos maiores fazendeiros do Marajó, da velha estirpe, conhecido pão-duro. Educada na Suíça, sofisticada, cultivadora das belas-artes, depois de casada iniciou o meu velho colega nos segredos e prazeres das altas rodas. Férias anuais no Sul, apartamento em Copacabana, um pulo bienal à Europa ou aos Estados Unidos, freqüência indispensável às grandes festas e promoções sociais, cavalos de corridas no Rio, automóveis importados, "secos e molhados" (como diria o meu avô, de boa cêpa lusitana) os mais requintados; e assim por diante. Enfim, gastam à tripa forra – para recorrer uma vez mais ao português castiço do meu antepassado. Fátima é uma das dez (aliás, treze) mais elegantes, há já um qüinqüênio, foi a hostess do ano não há muito, e ostenta outros conceituados títulos sociais.

Olavo procurou-me ontem; fazia muito que não o via. Deseja interditar o cunhado, Pedro, bacharel diplomado mas não praticante, solteirão impertérrito, com fama de esquisito.

— Mas, interditá-lo por quê?

E agora? O que esta ação tem a ver com nossa história? Nesta sexta-feira você terá revelações extraordinárias, inclusive sobre a atuação de um repórter policial do já extinto jornal Folha do Norte na solução do misterioso caso do Pródigo de Belém do Pará!



Escrito por Fernando Jares às 18h04
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JOAQUIM ANTUNES

FAZ QUE SAI, MAS NÃO SAI, SEU COLEGA1

Jornalista, radialista, televisista2, Joaquim Antunes é, antes de tudo, um repórter. Durante dezenas de anos acompanhei-o em colunas de jornal, no programa de televisão “Bolso do Repórter”, que esteve no ar em diversas emissoras, mais moderadamente no “Banco de Praça”, em rádio.

Hoje o encontrei assinando um “suelto atrasado”, como ele mesmo classificou, em O Liberal. Onde por tantos anos escreveu. Deixou as redações 1991, há vinte anos, portanto, e vive aquilo que ele mesmo qualificou e consagrou como “netocracia”, naturalmente um misto de aposentadoria, democracia e o domínio (absolutista, em verdade) dos netos. Bendita netocracia, que ele usufrui há tantos anos e onde somente há pouco cheguei...

Ainda faltou dizer que o Joaquim Antunes é um trocadilhista de primeira mão, jogando com facilidade com as palavras. Sempre se despedia de mim dizendo: “Até já_res”. Vez por outra a gente ainda se encontra pelas ruas de Belém, mesmo que rapidamente, como na missa pelos 20 anos de falecimento do jornalista Roberto Jares.

Ele já andou cá por estas linhas virtuais, como quando contei a história da vinda a Belém da cantora Maysa, captada do blog em que ele escreve vez por outra (muito mais outra do que as vezes que os sete remanescentes gostariam...). Para ler "Maysa em Belém - Não foi fácil", clique aqui.

Como achei que o “suelto atrasado” do Antunes saiu pequenino e em letrinhas menores ainda e, em homenagem ao grande repórter de sempre, decidi reproduzir o texto e sua gostosa história. Não sai não, seu colega. Só faz que sai, mas não sai...

Hora de sair
Joaquim Antunes, jornalista
Estava na fila dos idosos de um caixa de supermercado quando uma senhora, também na faixa dos oitenta anos, soprou-me nos ouvidos: “Tem um prato cheio pro seu programa de hoje". Voltei-me e falei: "A senhora não vê televisão há quanto tempo? Ela disse: “O Bolso do Repórter acabou? Por que? Era tão bom”. Redargui: “É melhor ouvir era tão bom, do que este chato tá na hora de parar”.
Relato o episódio para comprovar como, apresar de passados mais de dez anos (parei exatamente em 1991) meus sete continuam fiéis e lembram até de trocadilhos e piadas que fazia ao tirar do Bolso as noticias que colhia durante o dia. Tudo começou nos anos sessenta na saudosa TV Marajoara quando, integrando uma equipe de escola do jornalismo paraense, participávamos do programa “Notícias a Rigor”. Vestíamos smoking e cada um dava uma notícia ou fazia uma entrevista. Eu, instintivamente, tirava papeizinhos do bolso o que levou o saudoso amigo e confrade Roberto Jares, a sugerir, que fizesse um programa exclusivo chamado "Bolso do Repórter". Dali pra frente se iniciava uma trajetória que já incluía jornal, rádio e televisão. A atividade foi interrompida algumas vezes por conveniência da direção dos veículos que não concordavam com certas notícias que dava. Foi assim, passando da TV Marajoara para a TV Liberal quando o amigo Romulo Maiorana decidiu lançar a televisão que até hoje lidera a audiência. O Programa "Bolso do Repórter" entrou logo na grade da programação da TV Liberal e com seus cinco minutos ficou famoso.
Mas, como dizia seu colega Edgar Proença: "É preciso saber a hora de parar", E acrescentava: Não cai no ringue: saia vitorioso. "Pensei bem e conclui que precisava parar, e ficar só com a lembrança de um tempo maravilhoso - afinal foram trinta e sete anos, se contarmos jornal, rádio e tv – fomos pra arquibancada e a partir dali sou leitor, ouvinte e telespectador.
Para não enferrujar, e matar a saudade dos mesmos sete (eu dizia que só tinha sete que me assistiam, ouviam e liam) mantenho na internet um blog que pode ser acessado pelos amigos. Demostrando modéstia o intitulei "Memórias de um eterno foca” (foca é a gíria que se diz nas redações de jornais denominando os novos repórteres, como quando comecei nos idos de cinquenta). Os que quiserem me dar o prazer de uma visita podem digitar: http://jf.antunes.zip.net. Ali eu rememoro minhas reportagens, meus comentários e passagens de minha longa vida jornalística. Como dizem os poetas: "Recordar é viver".
Este é um suelto atrasado pois estava devendo uma satisfação aos que me distinguiram com sua leitura e audiência. Agradeço até hoje manifestação como a da senhora citada no inicio dessa conversa. Mas recomendo: Saiba a HORA DE SAIR.
Joaquim Antunes é Jornalista aposentado.

 

Joaquim Antunes aí na foto com o saudoso Roberto Jares, em foto que captei do excelente álbum “Memória da Televisão Paraense” (org. João Carlos Pereira) que comemorou os 25 anos da TV Liberal.

Pois nem bem o Antunes anunciou o artigo em O Liberal no seu blog e já tinha um comentário. Imagina de quem? De outro grande repórter, o Abílio Couceiro. Olhaí os pioneiros, aposentados, ativos e atentos às mídias recentes. Isso é muito legal.

 1Seu colega é uma forma antunesiana de tratar os colegas jornalistas...

2Como andam a chamar aos profissionais de televisão – concordam?



Escrito por Fernando Jares às 17h44
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QUEM É O AUTOR?

MISTÉRIO NA BELÉM DOS ANOS 70 (1º capítulo)

Nos idos de 1971 um escritor paraense anônimo escreveu uma crônica sobre o dia a dia de Belém, na forma de um conto de mistério. Era uma história tão boa que emplacou a revista Mistério Magazine de Ellery Queen, que era o maior sucesso em circulação no país e que publicava contos traduzidos e um autor nacional a cada edição. Nesta, de setembro, tivemos como destaque o indigitado desconhecido “Amazonas de Oliveira”, que a revista explica a origem a seguir.

A cidade desfila ao longo do texto, muito agradável. É uma crônica urbana da classe média belenense daqueles anos.

Mais de 40 anos depois, vamos revisitar o texto, que será publicado em capítulos, ao estilo dos folhetins de antigamente – ou microsséries, em linguagem mais atual... Procurei preservar o texto original, de antes da reforma ortográfica dos anos 70, cheio de acentos circunflexos, mas o programa digitalizador corrige tudo, pela novíssima ortografia dos anos 2000 – aí tive de descorrigir, mas pode ter passado alguma atualização indesejada.

Vamos viver a vida pelas ruas de Belém dos 70, muito mais tranquila, mas que é agitada subitamente...

E o autor? Vamos descobrir?


O PRÓDIGO

Amazonas de Oliveira

Amazonas de Oliveira é o pseudônimo dum leitor nosso de Belém do Pará. Dele descobrimos o seguinte (e não vai nisso grande argúcia de nossa parte): escreve muito bem, é dono dum senso de humor invejável e só pode ser advogado e dos que mais militam. Sua estória é dessas que agradam gregos e troianos e divide-se em cinco breves capítulos: no primeiro, o narrador se identifica; no segundo, expõe os fatos; no terceiro, instala o mistério; no quarto, dá suas razões e no último se decide. Como se vê, Amazonas de Oliveira é ordeiro. Quer dizer, reconhece que um bom conto de mistério deve sobretudo ser claro e conseqüente como um problema de matemática.

 

1 Meu nome é Hermano Manique, sou natural do Estado do Pará, onde nasci, cresci, estudei, casei e moro. Bacharel em Direito "como tôda gente", estou com 36 anos, uma mulher e cinco filhos. Advogo e sou Professor Adjunto de Direito no Centro Socioeconômico da Universidade Federal do Pará. Estabilizei a miopia e aumento, com pesar a calvície. Dizem-me sêco de carnes e de humor.

Saio de casa às sete, para iniciar aula meia hora depois. É, também, a hora dos cheques. Minha mulher tem, não sei por que metafísicos motivos, especial predileção por êste momento, para fazer a requisição de todos os créditos a fim de enfrentar o dia ou a semana (em verdade, são créditos adicionais, de vez que ela tem sua mesada respeitada religiosamente). Mal sento à mesa, apresenta-me a conta da padaria, e/ou as duplicatas do armazém de materiais de construção (nossa casa está sendo construída em ritmo anti-Brasília), requisição de meios para presentes destinados a parentes, contra-parentes e aderentes por mil motivos, e/ou ainda a nota do jornaleiro, a do Centro Cultural Brasil-Estados Unidos, a da Alliance Française, e mais recibos da Corporação da Vigilância Noturna, do dízimo da Paróquia da Santíssima Trindade, do Cine-Clube, do Diner's Club, da Assembleia Paraense (que também é clube, não é a Legislativa). E a da prestação da Enciclopédia Amazônica, da Livraria Forense, de várias coleções de livros para as crianças. E eventuais.

As vêzes não espera, sequer, que chegue à mesa. Por várias ocasiões me tem batido à porta do banheiro, de cheque em punho ("já está preenchido, é só assinar"), surpreendendo-me de rosto ensaboado ou pior.

Não cheguei a conformar-me, porém desisti de lutar. Pela "Paz" conjugal.

2 Há cerca de dois meses minha mulher – perdão, devo apresentá-la: Inês, 33 anos, licenciada em Línguas Anglo-Saxônicas, por profissão atual "prendas domésticas", um metro e setenta, manequim 38 e, se me permitem a imodéstia, inteligente, baiana e bonita. Sou conhecido, também, pelo bom gôsto. Muito obrigado.

Há cerca de dois meses, portanto, minha mulher sentou à mesa no desagradável MMPC (Momento Matinal de Prestação de Contas), dessa vez tendo à mão, não um cheque ou uma fatura, mas um pequeno volume envolto em papel impermeável, amarrado com cordão, endereçado a mim, vindo pelo Correio.

— Que é?
— Não sei, chegou agora.
— Quem manda?
— Não diz.
— Abre, por favor.
Abriu.
— Oh!
— Que foi?
— É dinheiro!
— Dinheiro?!
— E muito.
Em resumo cinqüenta mil cruzeiros (Cr$ 50.000,00). Conferidos e reconferidos a quatro mãos. Quinhentas cédulas de cem cruzeiros, das que o Aluízio Magalhães desenhou, o Banco Central emite, a Casa da Moeda imprime e Delfim Neto e Emane Galvêas assinam (quase dizia "meu amigo Ernane Galvêas", já que fui seu aluno em Curso de Análise Econômica, há cerca de uma década, aqui mesmo em Belém). Quinhentos florianos.

— Incrível!

— Que bom! Podemos trocar a enceradeira e o liquidificador, completar os móveis da sala e ir passar as férias na Europa.

A exclamação foi minha. O Plano de Aplicação (aliás, ambicioso), de Inês.

Nenhum esclarecimento acompanhava o dinheiro. Continuava atoleimado. Já agora havia um comício ao redor da mesa. Além de Inês e eu, estavam as duas empregadas, o encerador e os meus cinco filhos. Mais uma vez, perdão, apresento-os com as respectivas idades: Armênio (12), Eva (10), Ivo (8), Olívia (6) e Urbano (4). Como vêem, família planejada: prole bienal, batizada por ordem de vogais, sexos alternados. No conjunto, grupo precursor do Plano de Integração Nacional: estamos povoando a Amazônia.

As empregadas domésticas: Maria das Dores (35, mãe solteira, alfabetizada pelo MOBRAL, eleitora estreante) e Maria José (19, solteira mas não mãe, curso primário completo, fazendo o ginasial pelo 99). O encerador é João Antônio, faxineiro do Banco do Brasil nas horas de serviço e biscateiro nas horas de folga (sic).

Há também um gato branco, um cachorro preto, dois periquitos azuis e um papagaio verde, que para os efeitos deste relato não foram recenceados. Em relação ao papagaio, aliás, a exclusão envolve uma certa injustiça, de vez que tem espírito de rico, e quando viu do que se tratava desatou a sua algaravia confusa, a falar em milhões e mais milhões. Ainda não se converteu ao cruzeiro nôvo.

Estávamos, portanto, às sete horas da manhã, primeiro semi-estremunhados pelo sono, depois despertados completamente pelo choque, com cinqüenta mil cruzeiros nas mãos.

— Impossível! – insistia eu, sem muita originalidade.

— Não podia chegar em melhor hora – insistia a minha mulher, subitamente investida nas funções de Ministra do Planejamento e da Coordenação, mas ampliando perigosamente as suas Diretrizes e Bases do Govêrno Doméstico:

— Pagamos as dívidas, completamos a casa e vamos, finalmente, gozar as férias prometidas na Europa, na próxima "Viagem da Primavera".

Aos não iniciados: esta é uma promoção turística, em avião especialmente fretado, que segue de Belém direto a Lisboa, todos os anos, em maio.

— Êste dinheiro não pode ser verdadeiro — surpreendia-me eu a dizer.

— Chi! Papai – replicava o Armênio, que é entendido em artes plásticas (faz curso particular, é favor incluir no Cap. 1, no balanço das responsabilidades). — É igualzinho ao outro.

— Mas quem é que nos ia mandar quinhentas cédulas de cem cruzeiros? – prosseguia eu, incrédulo "em espécie", pessimista, por natureza, cético por filosofia, desconfiado por profissão, apostador da Loteria Esportiva absolutamente fracassado.

— Não sei nem quero saber — retrucava minha mulher, prática, determinada e implacável, quase a "mulher forte" do Evangelho.

— O dinheiro chegou, ninguém o pediu, não interessa saber quem o mandou, é bom, não foi achado e veio diretamente a nós – (a mim, fiz eu a restrição mental, mas era inócua: somos casados no regime de comunhão universal de bens) – precisamos dêle e vamos usá-lo.

— “Magister dixit” — pensei eu, mas pensei alto...

 No segundo capítulo, quarta-feira, vamos conhecer gente famosa da cidade, como o economista Rosomiro de Belém ou o rotariano Ó de Alonso. Até uma famosa agência de publicidade entra na história...



Escrito por Fernando Jares às 18h34
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SABORES AMAZÔNICOS

UMA AVENTURA CULINÁRIA

La varietà di ingredienti esotici disponibili nella cucina di Thiago e Felipe è il sogno di uno chef.”

 Os irmãos Castanho, Thiago e Felipe, dos restaurantes “Remanso do Bosque” e “Remanso do Peixe” (este último em conjunto com os pais, Carmen e Francisco, os criadores do restaurante) vão participar do megaevento gastronômico europeu “Identità Golose - Milano”, o congresso internacional dos chefs, na Itália, apresentando-se no dia 10 de fevereiro. Os dois estão em um grupo só de jovens destaques mundiais, apresentados como “Os novos leões da cozinha mundial”, que tem representantes do Brasil (apenas Thiago e Felipe Castanho), Espanha, França, Suécia e Cingapura.

Esta semana o site do festival apresentou a dupla de chefs paraenses e foi de lá que busquei a frase lá de cima: “A variedade de ingredientes exóticos disponíveis na cozinha de Thiago e Felipe é o sonho de um chef.

 

Antes faz um flash da história dos dois, desde a sala de estar transformada em restaurante pelo seu Francisco – a primeira vez que fui ao Remanso ainda era assim, aliás, nem era Remanso ainda, embora já fosse um belo remanso de peixes deliciosamente preparados... O texto conta ainda sobre Belém (em parte da floresta amazônica), o mercado do Ver-o-Peso e a cozinha paraense, a única região do país com uma cozinha de terroir, com ingredientes indígenas. Explica das linhas de trabalho dos dois irmãos e do “Remanso do Bosque”, ao lado de um parque nacional da Amazônia, sua abordagem contemporânea e tradicional ao mesmo tempo, baseada em produtos locais. O trabalho junto a produtores e entidades oficiais, em busca de melhorar métodos de produção e armazenamento dos ingredientes amazônicos.

Ao chegar aos ditos produtos amazônicos é que vem a festa, aberta com essa frase sobre o “sogno di uno chef”. Explica que o tucupi, após o cozimento, torna-se uma iguaria.

Algumas ervas e flores exóticas podem produzir sensações muito diferentes, transformando um simples peixe em uma aventura culinária. Os ingredientes principais são peixes como o pirarucu, castanha brasileira e uma longa lista de frutas que a maioria das pessoas nunca viu antes”. A castanha brasileira é a nossa castanha-do-pará que, no exterior assume essa brasilidade, “castanha do Brasil”.

Depois de afirmar que temos por cá o que representa “a expressão mais autêntica da culinária brasileira” o texto – da ítalo-brasileira jornalista e chef Luciana Bianchi, da S.Pellegrino World’s 50 Best Restaurants e editora internacional da revista Prazeres da Mesa que andou aqui pelas ruas de Belém para buscar informações – ainda apresenta o programa Visita Gourmet e anuncia que Thiago e Felipe Castanho estão preparando seu primeiro livro, com lançamento previsto para o Brasil e no exterior.

A participação deles no Identità Golose Milan foi notícia de primeira aqui.

Para ler a apresentação de Thiago e Felipe Castanho no “Identità Golose Web”, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 17h05
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SEMANA BELÉM 397 ANOS - GASTRONOMIA

A BOA LEMBRANÇA DE UMA PESCADA-SEREIA PAPACHIBÉ

Os papachibés gostam muito de comer peixes. Um dos peixes mais consumidos pelos papachibés é a pescada, embora eles gostem também de piramutabas, filhotes, tucunarés, tamuatás, pirapitingas, pacus e um rol sem-fim de habitantes dos rios amazônicos e mares vizinhos – riqueza que todos têm, mais ou menos, por perto, seja em um mercado, ou “ali na beira”, em um supermercado, ou embaixo mesmo de casa...

Os papachibés somos nós, os nascidos no Pará. Que, geralmente, gostamos de chibé. Chibé vem a ser um “pirão de farinha d’água diluída em água, formando caldo grosso que pode receber sal e pimenta e acompanhar o peixe ou a caça”, explica o “Glossário abaeteense”, de Jorge Macedo, que traduz a línguagem típica do povo de Abaetetuba (Abaeté, para os mais íntimos), aqui pertinho.

Harmonizando essas histórias e conteúdos, chegamos à “Pescada Papachibé” (R$ 59,00), que é o Prato da Boa Lembrança em temporada no restaurante “Lá em Casa” – o cliente que o consumir ainda leva para casa um belo e exclusivo prato em cerâmica.

Pra início de conversa, vamos conhecer esta senhora pescada, em foto posada e caprichada, do portfólio de divulgação do restaurante:

 

Trata-se de uma posta de pescada amarela na chapa, acompanhada de pirão de camarão regional e um arroz de aviú, aquele macrodelicioso microcamarão de nossas melhores águas. A chef Daniela Martins combinou aqui seus conhecimentos técnicos, a tradição familiar (é neta de Anna Maria Martins e filha de Paulo Martins!), e a riqueza da cozinha popular e dos ingredientes paraenses. Te digo, mano, o resultado não poderia ser mais... pai d’éguamente papachibé. Como dizia minha avó, “acertou na mão”.

Veja os ingredientes que ela combinou: pescada amarela, casca de camarão, tomate, cebola, pimentinha verde, alfavaca, chicória, cheiro verde, sal, camarão regional, farinha, arroz branco, aviú (microcamarão de água doce), azeite e sal.

Que fique claro para certas autoridades da área e antes que façam com ele coisas tipo fizeram com o caranguejo: aviú não é filhote de camarão... é um camarãozinho minúsculo, assim mesmo, de nascença e DNA. Tipo o chihuahua, que é um cachorro pequenino, mesmo quando adulto...

Ao dar o nome de “Papachibé” ao prato Daniela reforçou a integração que o mesmo representa no Pará: a pescada vem da Costa Atlântica, o camarão “das águas dos rios que cortam todo o nosso Estado”, e o aviú, da região do Tapajós, o oeste paraense.

Este é o décimo Prato da Boa Lembrança do “Lá em Casa”, que é um dos restaurantes fundadores da “Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança”: seu primeiro prato é o “Macarrão paraense”, lançado em 1994.

Todos os membros da Associação (aqui pelas ruas de Belém temos, além do "Lá em Casa", mais o “Famiglia Sicilia” e o “Remanso do Peixe”) mantém um prato especial que dá direito ao prato de cerâmica, que é uma obra de arte assinada. Quem pedir uma “Pescada Papachibé” vai ganhar este prato lindinho:


Está aí d. Pescada sentadinha em uma casa típica das margens dos rios parauaras, com uma pose de sereia meio, digamos... sensual, muito bem produzida, como de fato acontece com o prato, e a despertar um olhar curioso da mocinha de dentro da casa. Cena de encantamento amazônico, transportada para a gastronomia.



Escrito por Fernando Jares às 18h00
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SEMANA BELÉM 397 ANOS - HUMOR

PIADINHA BELENENSE

“A Globo evitou que a casa do BBB13 se tornasse um cemitério ao impedir o encontro dos seguintes ex-vencedores do BBB: Max e Dhomini”.

O jornalista, bacharel em Direito, analista de Mídias Sociais, professor, servidor público, diretor de Comunicação do Paysandu, blogueiro e tuiteiro de prima, Pedro Loureiro de Bragança, o @Pedrox na mídia social, saiu-se com essa mensagem acima no Twitter, na madrugada de hoje.

Piadinha que só é entendida por quem é belenense ou tem a ventura de viver ou ter vivido pelas ruas de Belém.

Muito justo ganhar destaque na semana de festejos pelo aniversário da cidade.

Ah, você não entendeu, porque não é nem nunca veio a Belém?

Primeiro passo para entender: planeje-se para vir a Belém. Além de entender a piadinha vai conhecer locais lindos, gente animada e muito legal, umas comidinhas gostosas que não tem igual em nenhum outro lugar!

Segundo passo: busque uma pista, que está bem aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h41
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SEMANA BELÉM 397 ANOS

CEDULA CONSISTORIALIS

Vamos prosseguir comemorando os 397 anos da fundação de Belém, trazendo aqui a “certidão de criação” da sede episcopal, isto é, a nomeação pelo Papa Clemente XI do primeiro bispo de Belém, D. Frei Bartholomeu Del Pilar:


Este documento abre o clássico livro-guia “Santa Maria de Belém do Grão Pará”, de Leandro Tocantins, em sua terceira edição, de 1987, pela Editora Itatiaia – não constando da primeira edição, de 1963, pela Editora Civilização Brasileira.

O mestre Leandro Tocantins colocou abaixo da reprodução do documento a seguinte legenda:

Frontispício da “Cedula Consistorialis” de 4 de março de 1720. Tradução: “Cédula do desmembramento da Vila de Santa Maria de Belém do Pará, da Diocese de São Luís do Maranhão, com a elevação da Vila em Episcopado, e provisionamento da Igreja por Bartolomeu Del Pilar, presbítero e irmão professor da Ordem dos Irmãos de Santa Maria do Monte Carmelo, de antiga observância.” (Tradução do professor Rômulo Augusto de Souza na monografia de José Maria de Azevedo Barbosa: “Santa Maria de Belém do Grão Pará – o nome da capital paraense”).

Este primeiro bispo do Pará nasceu em 1667 em Vila das Velas, na ilha de São Jorge, nos Açores, foi ordenado padre, religioso carmelita, em 01/11/1687, e bispo em 22/12/1720 e chegou a Belém em 1724. Viveu onze anos pelas ruas de Belém, implantando a diocese e exercendo sua atividade pastoral, vindo a falecer em 09/04/1733, aos 65 anos. Tinha formação esmerada conquistada em Coimbra e doutorou-se em Teologia em Lisboa. Foi professor de filosofia e teologia em Recife, antes de ser nomeado bispo para Belém.



Escrito por Fernando Jares às 17h29
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VISÕES SOBRE BELÉM

DA “CYCLOPEDIA OF NAMES” À WIKIPEDIA

Ao pesquisar sobre Belém um cidadão do mundo, hoje, aniversário da cidade, se for à Wikipedia, saberá que a cidade é capital do Estado do Pará, no norte brasileiro, com população de 1.392.031 habitantes, a maior densidade demográfica da região Norte, com 1.307,17 hab/km2 em seus 1.064,91km2. Basta clicar aqui que vai encontrar muita coisa interessante.

Nos idos do final do século XIX o cidadão do mundo, ao pesquisar sobre Belém, talvez fosse a esta publicação:

 

E ele encontraria esta cidade, identificada como era usual na época: “Pará, or Belem” e em seguida o nome completo: “Santa Maria de Belem do Grão Pará”, especificando a pronúncia para os de língua inglesa, já que a publicação era originária dos Estados Unidos. E encontraria mais acepções para o termo “Pará”:


Segundo esta enciclopédia de nomes Pará teria três sentidos. O primeiro refere-se ao rio (estranhamente indicado no nordeste do Brasil?), no estuário do Tocantins, que receberia muita água do Amazonas. De fato, até hoje esse conjunto de águas de inúmeros rios é denominado de rio Pará. Mas Belém hoje é tida como às margens do rio Guamá e baia do Guajará.

Em seguida explica que se trata também do nome de um Estado “mais nordestino” do Brasil. (Northeasternmost – é isso mesmo?). Talvez pelo grande número de imigrantes do nordeste... Mas isto é outro assunto. Em dados de 1888 (quando estava começando o ciclo da borracha...) o Estado teria 407.350 habitantes.

Para “The Century Cyclopedia of Names” Pará era ainda o nome comumente usado para designar sua capital, Belém, um grande porto, situado no rio Pará, centro de negócios na região, exportando borracha, cacau, copaíba, castanhas, etc. E aí vem uma informação que, para muitos pode parecer novidade ou errada: “Its was founded in Dec., 1615”. Ops, estamos festejando depois? A discussão é antiga, e este registro serve para comprovar que a informação de que Belém foi fundada em dezembro de 1615, e não em janeiro de 1616, era corrente nos meios de informação e estudo naqueles tempos. Mas o historiador Ernesto Cruz em seu memorável trabalho “História do Pará” (Universidade do Pará, 1963, dois volumes), nas páginas 60 a 64 esclarece e comprova que a confusão é originária de um antigo livro (“Anais Históricos do Maranhão”, Berredo) que apontava a saída da expedição de Caldeira Castelo Branco, do Maranhão, “estando adiantado o mês de novembro” de 1615. Mas, citando documentos da época, garante que a saída da expedição foi em 25 de dezembro de 1615, tendo a viagem durado 18 dias, Castelo “chegou e desembarcou em Belém a 12 de janeiro de 1616” (página 64). A população era de cerca de 65.000 habitantes.

 

“The Century Cyclopedia of Names” não tem a data na capa ou na folha de rosto, mas encontramos a citação da data da publicação (1895) em uma nota à segunda edição, abaixo. Deve ter feito muito sucesso, pois a primeira edição fora lançada um ano antes. Aliás, não há dúvida do sucesso editorial, pois este exemplar que fotografei veio dar com os costados pelas ruas de Belém... depois de morar muitos anos na biblioteca de meu pai, em Capanema.

 



Escrito por Fernando Jares às 11h14
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FLAGRANTES DA CIDADE MORENA

Faz tempo que não temos por aqui os flagrantes da Cidade Morena (minha carinhosa homenagem ao grande radialista e jornalista Edgar Proença, um dos fundadores da Rádio Clube, e criador deste “apelido” maravilhoso para Belém), retratos que vamos fazendo pelas ruas de Belém, às vezes em andanças pedonais, às vezes em andanças veiculares...

MANGUEIRICÍDIO CULPOSO

 

A legislação belenense devia prever o crime de mangueiricídio, isto é, o assassinato de mangueiras, árvores que caracterizam Belém, emprestando-lhe, até, o título de “Cidade das Mangueiras”. Quem atentasse contra a existência de nossa árvore-símbolo responderia criminalmente por isso, nas formas previstas nas práticas do direito penal. Isso garantiria a proteção às mangueiras, responsabilizando não apenas quem faz algum ato contra, mas também quem se omite de ações de preservação e manutenção. A mangueira em via pública não é apenas de uma árvore na rua, mas um símbolo cultural, um patrimônio da gente belenense. Ultimamente a prefeitura não tem cuidado delas e o que vemos é que, diante de tempestades, grandes ventanias, cai uma aqui, cai outra acolá, outra tem que ser sacrificada. Sempre vítimas de maus-tratos. É o que se poderia qualificar de mangueiricídio culposo! Não apenas das autoridades que têm essa responsabilidade, mas também de algumas pessoas, pelos mais diversos motivos e, às vezes, sem nenhum motivo... ou que seja a falta de um pouco de atenção à “irmã árvore”. Esta semana em que a cidade vai fazer aniversário, foi-se mais uma e diz-que os responsáveis por serviços públicos acusam-se de causarem o fim dela. A foto acima não é de uma mangueira, mas encontrei esta coitadinha condenada sabe-se lá por qual motivo, toda sequinha e torço para que possa “voltar”, mas parece difícil. E assim poupo as mangueiras desta nota quase policial...

GATO DE LIVRARIA

 

O bichano aí em cima dorme o sono dos justos, em dia com suas responsabilidades (sono que os mangueiricidas não devem dormir...). Ao contrário do que pode parecer, não se trata um gato-de-rua a dormir em um banco público. O felino dorme tranquilamente depois de alimentado (física e intelectualmente...), em frente de sua casa: a livraria Fox Vídeo. Tempo desses, em 2011, eu o conheci e seu companheiro de trabalho e imaginei como vivem entre livros, DVDs e CDs... Estavam a comer, também em hora de almoço, no mesmo local que encontrei este, às vésperas do Natal. Agora ele está largadão, prova de que comeu bem... Para ler “Flagrante em Felinosbel” clique aqui e saiba o nome dos bichanos nos comentários.



Escrito por Fernando Jares às 19h00
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PROVOCAR E INTERAGIR

UMA LEMBRANÇA EMOCIONAL E CLASSUDA

Provocar. Este é um verbo que deve ser muito bem conjugado por quem quer fazer boa comunicação publicitária. Provocar, estimular, não passar despercebido/a.

Interação. Na comunicação moderna este substantivo torna-se fundamental. Provocar uma ação recíproca, interagir com o receptor da mensagem.

Esta abertura gramaticista é para falar da lembrança de final de ano da Mendes Comunicação. A tradicional agência, ao longo dos tempos, prima pela qualidade dessa mensagem institucional.

Em 2009 nos questionava sobre plantar “Um pé de quê?” Explicando: “Plantar uma árvore é plantar um pé de esperança. É cultivar um sonho de ter um futuro e que esse futuro seja o melhor.” Você pode conhecer o cartão clicando aqui.

No ano seguinte o cartão tinha umas plantas “embutidas”, isto é, sementes de rúcula e de boca-de-leão no interior de cartelas em papel especial. Você pode ir até o cartão clicando aqui.

Em 2011 houve um apelo sensorial: a espocoterapia! O cartão vinha dentro de um envelope de papel-bolha, desse que se usa para embrulhar objetos frágeis, incentivando as pessoas a uma sessão de “espocoterapia”, isto é, a deliciosa ação de espocar essas bolhinhas (o revisor ortográfico insiste que deve ser “bolinhas”, mas se são pequenas bolhas... são bolhinhas. Ops, esta palavra está faltando no VOLP!). “Pratique a espocoterapia. Seja você mesmo com novas atitudes”, recomendava. Guardei-o e hoje o esporte é procurar qual bolhinha ainda não foi espocada. Fez muito sucesso e até ganhou Medalha de Prata no “Creativity Annual”, festival publicitário norte-americano.

Embora estivesse fora de Belém, ouvi uns rumores (positivos) sobre a versão 2012 da mensagem. Eis que chego e encontro uma bela caixinha enviada pela Mendes a aguardar-me:


Continha a utilíssima agenda que todos os anos nos presta importantes serviços, um saquinho lindinho e um cartão com um convite irresistível e a revelar o que havia no saquinho: petecas. O convite é para voltar aos bons tempos de criança – abandonemos, portanto, os eventuais maus tempos que nos tenham acontecido:

 

Viajemos nas petecas. Espie o que diz o texto completo:

Um convite para voltar aos bons tempos de criança.
Quem não brincou de peteca na sua meninice?
“Eu sou pri, você é fona”, lembra?

“Não dou teco”, lembra também?

E quantas vezes você comemorou a “tecada bandada”?

Convide um amigo para dividir a alegria da volta aos bons tempos de antigamente.

“Afubite” pra valer!

Tomara que estas “colombianas” ajudem a tornar mais divertido o seu ano novo.

Um ano “pai-d’égua”!

(Logo abaixo um glossário, mais que necessário nos dias informatizados e webtizados de hoje)

“Pri”, o primeiro a jogar. “Fona”, o último.
“Não dou teco” – quando uma peteca choca-se com a outra sem fazer barulho.

“Tecada bandada” – peteca quebrada.
“Afubite”- Ganhar todas as petecas do jogo.

“Colombianas” – petecas coloridas.

[Pra quem não é do Pará] “Pai-d’égua” – excelente!

E a mensagem está por aí a provocar as pessoas, a motivar ações e reações, interagindo com as lembranças, a sensibilidade, a emoção de cada um.

Dois artistas de primeiríssima grandeza, por quem tenho grande admiração, o fotógrafo Luiz Braga e o cronista João Carlos Pereira, usaram suas artes para dizer de sua relação com o brinde. O João Carlos sentiu-se “vencedor de todos os campeonatos de peteca” (leia a crônica “No Ano Novo, a infância que brinca”, clicando aqui). O Braga revelou “o quanto que a lembrança de Natal da Mendes me tocou” em bilhete acompanhado da fotografia abaixo. Leia “Luiz Braga e as colombianas”, clicando aqui.

 

De minha parte, mano, quando era criança pequena lá em Capanema, também brinquei de peteca, mas, muito mais, de tucum. Nos idos de 2009 contei essa história aqui pelas ruas de Belém, tendo como mote uma crônica do Raimundo Sodré: leia “As petecas do Sodré e os meus tucuns” clicando aqui.

Neste comecinho de 2013 uma das coisas que me sensibilizou nesta lembrança, além de atiçar mil lembranças de tacadas pela praça São Sebastião ou pela praça Moura, foi... a embalagem do brinde, como você pode ver nas fotos lá em cima. O cuidado, o esmero, a classe, na caixinha, onde a fita adesiva de fechamento é da mesma cor e tonalidade, na etiqueta (da qual apaguei o endereço...), no saquinho com as petecas, fechado com uma fita com dois laços, até no cartão, com essa tranquilizante e desafiadora cor da logo da Mendes. Classuda!, diria o saudoso jornalista Edwaldo Martins. Lembro-me muito bem dos cuidados de Oswaldo Mendes, o pai, ainda nos anos 70, com a apresentação de tudo que produzia: dos textos sem erros ortográficos (salve, salve, José Otávio Pinto!) e perfeitamente “datilografados” (salve, salve, Ana Lúcia!) sem nenhuma rasura, até o requinte de ter “papel de embrulho” próprio, com a logomarca da Mendes.

Continua firme!



Escrito por Fernando Jares às 18h51
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UM FESTIVAL DE TARTARUGAS!

TARTARUGANDO SEM RISCO DE ENFASTIAMENTO

Todo dia, até tartaruga do Trombetas acaba enfastiando a gente.

Turco, personagem do romance “Sementes do sol”, de Ademar Ayres do Amaral, ao justificar porque precisava ter uma “rapariga”... além da “patroa”.

Tartaruga é uma das maiores gostosuras que já provei e isso já disse anteriormente nestas linhas virtuais. Igual, somente o seu primo jabuti e quando feito no leite da castanha-do-pará – iguaria hoje proibida. Mas a tartaruga não perde... quando é bem preparada – nesta vida de variadas mesas, já provei tartaruga literalmente perdida, por temperos e cozimentos indevidos.

O personagem “Turco”, famoso “namorador” da Óbidos antiga, do início do século passado, coloca a tartaruga em primeiríssimo plano em seus “sabores” preferidos...

Este papo prefacial é para chegarmos ao tartarugal armado em um restaurante por onde andei agora em dezembro. Proibida por lei de ser caçada, a tartaruga é cuidadosamente vigiada pelas autoridades, principalmente nos aeroportos e portos. Qualquer vestígio do animal, a carga é confiscada... Mas ela pode ser criada em locais legalmente habilitados e, com isso, ser consumida sem que um crime seja consumado. Lógico que não serão como aquelas “do Trombetas”, que tive oportunidade de degustar, em priscas e abençoadas eras, preparadas pela minha sogra, nascida e criada nas margens do dito cujo rio Trombetas, e reconhecidamente uma das maiores especialistas na arte de cozinhar tartarugas daquelas plagas. Estas, de criadouros, não têm a infinidade de alternativas de alimentação daquelas que viajam pela imensidão dos rios da Amazônia, o que se reflete no sabor das carnes. Mas, se bem preparadas, podem ser ótimas. Foi isso que encontrei no Festival da Tartaruga do restaurante “Divina Comida”, aqui mesmo, pelas ruas de Belém. Com um registro importante: as que comandam o restaurante são... de Oriximiná, a “Princesa do Trombetas”.

Vamos aos tesouros que lá encontramos, começando pela exposição:


O sarapatel é um dos pratos mais disputados pelos amantes das tartarugadas. As carnes e cartilagens do animal são preparadas no sangue que é recolhido no momento em que ele é abatido. Normalmente é neste prato que ficam os valiosos ovos do quelônio. Você quer saber como é que se mata e prepara uma tartaruga? Basta ler “A arte de preparar uma tartaruga”, clicando aqui.


O paxicá, para mim o prato mais delicioso deste elenco que a natureza amazônica nos oferece, é feito a partir das vísceras, ou melhor, dos miúdos, como se falava no interior. Nham, nham...


O picadinho da tartaruga é feito com suas carnes brancas, incluindo o precioso filé. É manjar normalmente disputado, porque estas carnes especiais são poucas e rende pouco picadinho. A não ser que seja uma tartaruga centenária... mas acho que essas ainda não existem nos criatórios.


A farofa do casco é uma preciosidade. É feita, como indica o nome, colocando a farinha diretamente no casco da tartaruga, sobre brasas, aproveitando todas as gorduras e sobras de carne que por lá ficaram. Ganha um certo sabor de assado na brasa. Embora, como se vê na foto, esta estivesse indicada como “farofa de tartaruga”, tinha o gostinho das carninhas assadas/fritas na própria gordura. A apresentação não era digna do conteúdo: sobre um casco escondido com papel laminado, a coisa estava um tanto tosca.

 

Feito o passeio pela rampa do buffet, vamos ao prato preparado para ser degustado. Momento superior, de expectativa muito grande. Quer dizer, como já escrevi acima sobre as delícias encontradas, a expectativa agora não existe mais, mas naquela hora, nem imagine... Aí estão, começando à esquerda e no sentido horário, o picadinho, o paxicá, a farofa e o sarapatel, cá embaixo. As porções devem ser controladas, pois o preço é elevado: R$ 15,00 por 100g, ou seja, R$ 150,00 o quilo. Pra levar custa R$ 180,00 o quilo. Mais R$ 1,50 a embalagem.


Ora direis, é caro! E quanto custará criar tartarugas, imagino que dentro de cuidadosas e criteriosas exigências técnicas das autoridades? Quanto tempo? Esses elementos devem ser considerados na composição do preço. E o saber preparar o prato agrega um belo valor. É saber gastronômico raro, nos tempos de hoje. Tudo isso exige do participante atenção especial, como usar uma camisa de temática tartaruguífera para degustar tão valioso (literalmente!) manjar.

 

Lógico que o valor elevado limita as “investidas” aos réchauds... Havia alternativas de pratos, mas fomos, os quatro à mesa, ao mesmo grupo clássico, exceção feita a uma “jnvestida” extra que realizei, vista na foto acima: “Tartaruga no leite da castanha-do-pará”, uma sentida homenagem ao sempre saudoso jabuti – do qual dei a provar aos demais companheiros do ágape. Pelo menos assim, não há risco de enfastiamentos...



Escrito por Fernando Jares às 09h04
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A TOGA E A LIRA*

VICENTE FONSECA E A HISTÓRIA DA MÚSICA

“Chegou a hora? Já? Como é que a gente tem que fazer?” Esta fala não estava no script da cerimônia de posse do músico, escritor, professor e magistrado, desembargador do trabalho, Vicente José Malheiros da Fonseca, no Instituto Histórico e Geográfico do Pará, no último dia 14/12. Foi o que ele disse quando a Comissão de Recepção, formada por três acadêmicos, foi buscá-lo para entrar no auditório “Aloysio Chaves” (do Tribunal Regional do Trabalho), para as formalidades da posse. Bem ao estilo do artista.

Vicente é um desses caras que é brilhante em tudo o que faz, desde os tempos de estudante, quando fomos colegas de faculdade. Nos últimos anos ele dedicou-se com muito carinho à pesquisa sobre a vida e a obra de um dos maiores compositores paraenses de todos os tempos, Wilson Fonseca. O resultado desse trabalho está aqui:

 

Credencial e tanto – além de inúmeros trabalhos de pesquisa nesta área e na área jurídica – para ocupar uma cadeira do IHGP. Vicente leva uma vantagem: é filho do queridíssimo Maestro Isoca, nascido em Santarém, em 1912, portanto, completando centenário no ano passado.

“O livro representa uma autêntica ‘missão de vida’. Um livro de homenagem filial. A realização de um ideal.” Disse o novo imortal no discurso de posse.

O trabalho não foi fácil. São mais de 1.600 composições dos mais variados estilos, em riqueza sem igual, do folclórico ao erudito, do popular ao sacro. A dita vantagem do Vicente também é vantagem para o leitor: além de acesso a um ângulo da informação nem sempre disponível aos estudiosos “externos”, tem o “compromisso” do amor de filho, herdeiro de um saber musical de primeiríssima.

Trata-se de uma obra que se torna referência para o estudo sobre o Maestro Isoca, ao analisar suas composições musicais, discografia, bibliografia, influências, parcerias, além de farta iconografia, etc.

Destacado magistrado, conceituado nacionalmente, Vicente Fonseca afirma: “sou essencialmente músico (pianista e compositor)” e já anda na casa das mil composições, como seu pai, dos mais variados estilos musicais. Por exemplo, a série “Valsas Santarenas” já são 94; há uma série de canções sobre  poemas de Fernando Pessoa (isto precisa ser gravado, urgentemente!) e os hinos dedicados a instituições ou organizações já são cerca de 50, do Tribunal de Justiça ao Teatro da Paz, Academia Paraense de Música, Câmara Municipal de Belém, Catedral Metropolitana, escolas. E até o possível Estado do Tapajós, que ainda nem foi criado, já tem seu hino.

Pois bem, o IHGP (são 40 cadeiras) que já tem 112 anos de existência, ao receber o novo associado Vicente Fonseca, ganhou logo seu hino! com letra de outro acadêmico nascido no oeste paraense, Célio Simões.

Os discursos da cerimônia merecem leitura por quem se interessa pela música e pela cultura mocoronga (“sou mocorongo!” bradou Vicente em meio a seu pronunciamento, fugindo, novamente, ao script, em estilo que marca firmemente o compositor criativo e o diferencia do magistrado...) e você os encontra no site do jornal Uruá-Tapera, da jornalista Franssinete Florenzano. Para o discurso de saudação por Célio Simões, clique aqui e para a “Oração de Posse” de Vicente Fonseca, clique aqui.

Ambas as falas foram recheadas de informações preciosas e agradáveis, assim como da presidente do IHGP, Anailza Virgolino. Da programação constou até um número de dança, pela dupla de bailarinos Carlos Sarmento e Cris Esquerdo que apresentou o bolero “Um Poema de Amor”, do Maestro Isoca. Como a dupla é especializada em tangos, Vicente os presenteou com a partitura da música “Lábios”, o primeiro tango que compôs, no último 11 de dezembro, que ele nem sabia ser o Dia do Tango... Letra de Edvaldo Campos.

*A Toga e a Lira é o título da oração proferida pelo des. Vicente Fonseca na sua posse como presidente do TRT-8ª Região, em dezembro de 1998.



Escrito por Fernando Jares às 22h34
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