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PELAS RUAS DE BELÉM


OS MELHORES DO FUTEBOL

REVISITANDO 1964 – EM BELÉM E NO RIO

Final de ano, a crônica esportiva, por tradição, gosta de eleger os melhores da temporada. Acredito que cada jornalista ou radialista especializado tem os seus “melhores” – apenas, por praticidade, às vezes, apresentam em bloco. Pensando bem, todo mundo que gosta de esporte tem na cabeça os seus melhores... e não devem haver duas listas iguais...

O hábito é antigo. Na mesma edição de A Província do Pará, de 25/12/1964, de onde captamos o artigo de Evaristo Cardoso que está no post imediatamente abaixo, encontramos uma análise dos “Melhores de 1964”, no Rio de Janeiro e pelas ruas de Belém, assinada pelo jornalista Electo Reis, nome de tradição no jornalismo esportivo daquele tempo. Vale a leitura: o Melhor Técnico carioca é bem conhecido nosso, pois treinou o Paysandu e, se você tem queixas dos juízes, veja que o mal é velho...

MELHORES DE 1964

Por Electo REIS

Ao findar-se o ano de 1964, surge a oportunidade de serem apontados aqueles que mais se destacaram no futebol durante todo este ano. Após detalhada análise, que fizemos de todos os que estiveram em ação no campeonato carioca e no campeonato paraense, damos abaixo a lista daqueles que, para nós, são os melhores do ano em seus respectivos Estados e posições:

SELEÇÃO CARIOCA DO ANO — Ubirajara (Bangu), Carlos Alberto (Fluminense) e Brito (Vasco da Gama), Jaime (Bonsucesso), Nilton Santos (Botafogo) e Paulo Henrique (Flamengo), Jairzinho (Botafogo), Célio (Vasco da Gama), Parada (Bangu), Joaquinzinho (Fluminense) e Abel (América).

CRACK DO ANO — Por suas brilhantes atuações durante todo o certame guanabarino apontamos o atacante Parada, do Bangu, como o «crack» de 1964.

MELHOR TÉCNICO — Trabalhando num clube modesto, onde se torna presente a falta dos grandes jogadores, Gentil Cardoso, conseguiu classificar, numa sensacional virada o time da Portuguesa, que para muitos já estava desclassificado. Por seu grande trabalho à frente do modesto plantel luso é que apontamos Gentil Cardoso como o melhor técnico do ano.

MELHOR JUIZ — Dificílimo é apontar o melhor juiz do ano, uma vez que os árbitros guanabarinos foram infelizes na maior parte das arbitragens que fizeram no ano de 64, provocando protestos de vários clubes que se sentiram prejudicados. Um nome porém, despontou com brilhantismo, apesar de só ter funcionado nas últimas pelejas do campeonato . Trata-se do jovem árbitro José Teixeira de Carvalho, merecedor dos maiores elogios da crônica carioca pelo ótimo desempenho nas partidas que dirigiu. José Teixeira de Carvalho é, para nós, o melhor juiz da Guanabara em 1964.

SELEÇÃO PARAENSE DO ANO — Délcio (Tuna), Oliveira (Paissandu) e Prata (Tuna), Zé Luiz (Remo), Socó (Remo) e Almeida (Tuna), Zé Ilidío (Remo) Mário (Tuna), Coutinho (Paissandu), Beto (Paissandu) e Santiago (Tuna).

CRACK DO ANO — Por suas grandes performances na meta cruzmaltina o goleiro Délcio revelou-se o melhor guardião de nossos gramados, sendo inclusive cobiçado por clubes de outros Estados. Délcio, por isso mesmo, merece o titulo de melhor jogador no futebol guajarino.

MELHOR TÉCNICO — Contratado pela diretoria tunante, num momento em que o quadro de futebol da Tuna jogava abaixo da crítica, Sávio Ferreira conseguiu reabilitar completamente o time cruzmaltino, fazendo-o portanto campeão invicto do primeiro turno. Ao Sávio cabem portanto as honras de melhor técnico de 64.

MELHOR JUIZ — Durante o decorrer de 1964 tivemos em Belém um rosário de péssimas arbitragens a exemplo do que ocorreu no Rio de Janeiro. Entretanto, um juiz sobressaiu entre nós por mostrar-se conhecedor profundo das regras do futebol, além de agir com pulso firmenão tolerando indiscuplina seja de que jogador for. Trata-se de Manoel Nery Filho, que apontamos por isso mesmo o melhor juiz do ano que vai se encerrar.



Escrito por Fernando Jares às 09h50
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FLUMINENSE CAMPEÃO, 1964 E 2012

“UM ESTADO D'ALMA, QUE TRANSBORDA”

O Fluminense, campeão carioca e nacional deste ano, foi também campeão em 1964. Por que estes êxitos do tricolor vieram bater neste post de final de ano? Veja só:

Quando pesquisei no jornal A Província do Pará, edição de 25/12/1964, para o post do Dia de Natal, encontrei um artigo do grande jornalista Evaristo Cardoso sobre o final do campeonato carioca. Evaristo foi um dos bons profissionais que militou na imprensa pelas ruas de Belém por muitos anos, vindo depois a transferir-se para o sul do país. Ele vem a ser o pai da também muito competente jornalista Vera Lúcia Cardoso Castro, que todos os domingos assina as páginas sociais muito bem informadas do jornal Diário do Pará.

O texto, que transcrevo, é uma delícia, belo exemplo de como se fazia crônica esportiva naqueles tempos do meio do século passado – com notória simpatia pelo tricolor carioca...

Outra ligação: o goleiro campeão pelo Flu era Castilho que, no ano seguinte, foi campeão paraense pelo Paysandu, encerrando sua carreira de jogador profissional pelas ruas de Belém.

Após a transcrição você encontra uma contribuição à contextualização do artigo.


ESPORTE, ÀS VEZES

FIBRA, AMOR, CLASSE E CORAÇÃO

Evaristo CARDOSO

RIO, Dezembro (Meridional) – Não, não era preciso fazer profecia. O que é preciso, agora, é esnobar. Falar de classe, de fibra, de coração, de amor. O Fluminense é mais que uma legião. E um estado d'alma, que transborda carinhosamente nos instantes mais necessários. Assim foi ontem, quando aos 55 minutos de jogo, ali estava o grande campeão, a desfilar na imensa passarela do Maracanã, esbanjando classe e demonstrando que um título não se ganha à-toa. De nada estava valendo a exaltação à mediocridade que tantos fizeram para o grande campeão de 1964. Falaram de falta de classe, de falta de conjunto, de uma tonelada de inverdades sufocando mágoas que se haviam acumulado durante anos. E nem bem outros clubes deixaram a "cabeça da prova", trataram de fazer do Bangu o grande elefante branco. Esqueceram-se todos que para ganhar um campeonato é preciso ter classe. Dispor de um mínimo de condições. Somar um conjunto de fatores à organização que visa alguma coisa. É preciso ser clube, mesmo. E o Fluminense o, foi, naquela sua grandeza olímpica, que fez deste campeonato de 64, a mais sublime de todas as guerras.

Já se falou na vitalidade da torcida carioca. Vinda de um Fla x Bota com 90 milhões de cruzeiros, logo depois despejou nas bilheterias do Maracanã mais 38 milhões. No sábado, mais 54 milhões e ontem, outros 46 milhões. Esta nossa torcida estava precisando de bons espetáculos. Porque só assim foi possível superar a arrecadação paulista do ano corrente. Quando há espetáculo de qualidade, o público vai. Vai, para ver um campeão, como foi o caso de ontem. Aquele delírio de bandeiras e pó-de-arroz era muito sintomático. Jamais o Maracanã vira uma nuvem de pó-de-arroz. Era o prenúncio da vitória, da grande conquista. E quando aquelas pernas tricolores, que somavam u'a média de 23 anos, despontaram no segundo tempo, caiu o castelo do Bangu. Por insídia, por despeito, por raiva, até, procura-se jogar sobre o goleiro Aldo, a carpa da derrota. Não querem uns poucos, isto é verdade, que a superioridade tricolor tenha sentido. Só têm a amargura do paulista Aldo.

Quando o Fluminense tomou o único goal, não chegou a haver abalo total. A diferença era uma grande pedra no caminho. Restavam, todavia, 45 minutos de mais futebol. E o Fluminense teria chances de fazer alguma coisa, de mostrar que tinha condições para ser campeão. Deixando Parada só, apertando o cerco pelas extremas com o auxílio precioso de Oldair, o Fluminense dava mostras de que tinha um sistema para executar. Da fibra, do coração, da inteligência desses rapazes dependeria o triunfo. E ele veio, através de um experimentado homem de meia cancha e de dois jovens rapazes. Consolidara-se o triunfo, nascido dos pés de Joaquinzinho, de Jorginho e de Gilson Nunes. Uma palavra, todavia, para esse veterano Carlos Castilho, homem de quatro Copas, de muitos títulos, de muita experiência. Castilho soube garantir o triunfo. Triunfo de qualidade, para um time de qualidade.

Nestas duas partidas contra o Bangu, o Fluminense foi diferente. Uma nova estrutura permitiu uma ação mais livre, uma desenvoltura impressionante. Na 4a feira passada o Fluminense deu realmente um «show» de bola. E um pênalti deu a vitória. Fatores diversos não permitiram vitória mais expressiva. No domingo, a coisa foi diferente. Partindo de uma desvantagem mínima, o tricolor terminou por se avantajar sobremaneira. Um triunfo que mostrou a boa direção de Tim sem perturbar-se com a desvantagem. E um meio de campo que se entendeu bem com Denilson e Oldair em tarde de excelente inspiração.

Faltou ao Bangu serenidade e boa dosagem psicológica, dependendo da atuação de Parada, firmando seu jogo em torno apenas de um jogador, a     direção técnica banguense esqueceu-se de explorar a boa performance de Paulo Borges, um jogador de excelente qualidade técnica. E deu-se ao exagero dos passes curtos, da penetração individual, com Bianchini e Parada pretendendo resolver tudo. Para acabar com essa pretensão, Procópio, Carlos Alberto e Altair estiveram bem inspirados.

E assim terminou o campeonato de 1964. Terminou, como deveria terminar porque o Fluminense teve sempre condições para ser o grande vencedor. Houve tropeços, é certo. Mas o time que tem condições para ser campeão precisa enfrentar a adversidade também e vencê-la com categoria. Isso o Fluminense fez. E sua campanha brilhante teve a coroa-la esse apoio popular, que invadiu as dependências de Álvaro Chaves para confraternizar. O Fluminense também é um clube popular, a despeito de sua alta condição social. É um autêntico campeão digno de todo e qualquer aplauso.

Veja abaixo a ficha dos dois jogos referidos por Evaristo, que busquei no Blog do Marcão, especialista em fichas técnicas de campeonatos.

E em seguida um filme do lendário Canal 100, que produzia “cinejornais”, documentários noticiosos que eram exibidos antes da projeção de filmes nos cinemas. Repare na narrativa e nas imagens, inclusive a nuvem de pó-de-arroz de que nos fala Evaristo Cardoso...

16/dez/1964
FLUMINENSE 1 x 0 BANGU
Local: Estádio do Maracanã
Renda: Cr$ 39.871.575,50.
Público: 64.084 pagantes
Árbitro: Cláudio Magalhães.
Gol: Amoroso (p.), aos 54'
Fluminense: Castilho; Carlos Alberto Torres, Procópio, Valdez e Altair; Denilson e Odair; Jorginho, Amoroso, Joaquinzinho e Gilson Nunes.
Técnico: Tim.
Bangu: Ubirajara Mota; Fidélis, Mário Tito, Paulo e Nilton Santos; Ocimar e Roberto Pinto; Paulo Borges, Parada, Bianchini e Canhoto.
Técnico: Plácido Monsores.

20/dez/1964
FLUMINENSE 3 x 1 BANGU
Local – Maracanã
Público: 75.106 pagantes
Renda: Cr$ 46.833.339,00.
Árbitro – Frederico Lopes
Gols – Bianchini aos 28', Joaquinzinho aos 50', Jorginho aos 53' e Gilson Nunes aos 67'.
Fluminense – Castilho, Carlos Alberto Torres, Procópio, Valdez e Altair; Denílson e Oldair; Jorginho, Amoroso, Joaquinzinho e Gílson Nunes.
Técnico: Elba de Pádua Lima “Tim”.
Bangu – Aldo, Fidélis, Mário Tito, Paulo e Nílton Santos; Ocimar e Roberto Pinto; Paulo Borges, Parada, Bianchini e Cabralzinho.
Técnico: Plácido Monsores.
O documentário sobre o jogo você acessa clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 09h45
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DEGUSTAÇÃO EM OITO ETAPAS

BRASA E CARVÃO & CIA. NO REMANSO

A associação dos ingredientes certos, na quantidade adequada e com o processamento com técnica apropriada, na gastronomia contemporânea, serve não apenas para a geração de um prato saboroso, mas, ao agregar elementos estéticos na distribuição dos ingredientes na montagem do prato, no próprio design do elemento em que é servido, ganha atração visual, o que lhe confere o status, definitivo, de obra de arte – culinária e plástica.

Vê-se isso em plenitude no chamado menu degustação, praticado já de alguns anos por restaurantes mais sofisticados, em que uma série de pratos são servidos, sempre em pequenas porções, seguindo uma sequência estratégica bem elaborada de forma a satisfazer o comensal (ops, que palavra mais antiga!!! Vale pelo contraste... e fica).

Os jovens chefs Thiago e Felipe Castanho, donos de técnica apurada, criatividade e bom gosto requintados, e tendo à disposição a incomensurável “despensa” de produtos naturais da Amazônia (abastecem-se diariamente pelas ruas de Belém, como no Ver-o-Peso, na feira da avenida Maiorana e até em ilhas vizinhas) estão fazendo muito sucesso com o menu degustação que oferecem no restaurante “Remanso do Bosque”.

Dia destes eles convidaram este blog a conhecer um elenco de oito etapas do menu degustação, com algumas novidades recentíssimas, geradas e aprovadas na muito bem equipada cozinha da casa.

Vamos acompanhar etapa por etapa.


A primeira entrada ficou por conta de um beiju cica (aquele beiju sequinho, crocante, feito da goma da mandioca) que você vê aí com alho negro e um incrível patê de queijo do marajó defumado, servido em prato/placa de ardósia. O alho negro que Thiago utiliza é fornecido por Marisa Ono, de São Paulo, que detém essa técnica de produção e fornece para  alguns dos principais chefs do Brasil, como Felipe Bronze, que o apresentou há uns domingos no “Fantástico”.

 

Parecem dois carvões? Não são, mas são dois pedaços de “Macaxeira na brasa com pimentões tostados”, cobertos com uma farofa de açaí, justo para dar esse visual carvonífero, sofisticado pelo sabor de flor do sal. Acompanhando, um purê de pimentões tostados. A combinação surpreendente tem resultado, em sabor, excelente.


“Ravióli aberto de pupunha com manteiga defumada e farofa de castanha-do-pará”. A manteiga enegrecida pela defumação complicou a foto, mas não o sabor, inclusive pela qualidade da massa, bem leve.

 

“Filhote na brasa, tucupi, algas e missô (ou miso) de três anos” este utilizado para temperar o tucupi, que forma o caldo que envolve o filhote e é servido na mesa, no prato. Este missô de três anos é requinte fornecido pela mesma Marisa Ono. O “Remanso do Bosque” é especializado em grelhados e afins e sabe muito bem trabalhar este processo que utiliza brasas e carvões, obtendo o melhor resultado dos ingredientes. Muito bom.


“Panceta de porco com rapadura na lenha, com purê de feijão manteiguinha de Santarém e farofa de limão”. A disputada carne da barriga do porco estava no ponto e bem acompanhada pela rapadura. A farofa foi um tento à parte: feita com farinha d’água, da baguda, tostadinha de forma a ser fácil de mastigar. Sou fá declarado e consumidor contumaz de farinhas e sou chegado a uma farofa de farinha grossa, que muita gente rejeita. Bem feita, é uma obra-prima.

 

Acho que não tem como ir a um menu degustação sem ter a tentação de pontuar os pratos: este é o melhor, primeirão, ops, este outro já está melhor. Provoca, inclusive, saborosas (literalmente) discussões à mesa. Durante boa parte deste opíparo festim gastronômico a entrada de macaxeira era a primeirona, mas com a chegada em cena, ou melhor, à mesa, deste “Peito de pato moqueado e pirão de tucupi com jambu”, perdeu o posto. O sabor do pato moqueado é surpreendente, principalmente para paladares viciados em patos no tucupi... e mostra que os antigos, que tanto gostavam de moqueios, estavam certíssimos. A presença da flor de jambu no consistente pirão deu um up-grade e tanto ao velho pirão de guerra. Em poucos centímetros, uma demonstração de como reler receitas tradicionais, utilizar processos tradicionais, agregando técnicas modernas e a capacidade inovadora.

 

A primeira sobremesa foi uma pequena revolução no prato: “Bacuri e sua casca”, pois tudo o que nos foi servido nesse prato foi produzido a partir da casca do bacuri, uma das frutas mais exclusivas - e saborosas - da floresta amazônica. A partir do reaproveitamento da casca, inclusive um certo pedaço do que poderia ser a fruta: o gosto era idêntico. O sorbet fez a delícia da Rita, que não pode se dar ao luxo dos leites e lactoses: perfeito no sabor e na saudabilidade.

 

“Chocolate e cupuaçu da ilha do Combu”, nome rimado que eu preferiria alterar para “Chocolate e Cupuaçu – Uma Sinfonia de Sabores Naturais da Ilha do Combu”, tal a harmonia conseguida com este dueto incomparável e insuperável. Primos entre si, o casamento da dupla forma um conjunto admirável e agradável. Principalmente neste caso, em que os Castanho vão buscar o produto naturalíssimo e fresquíssimo, junto a fornecedores da ilha do Combu, aqui em frente a Belém. Compõe o prato uma camada de doce de cupuaçu sobre a qual são dispostas diversas formas do chocolate produzido na base de cacau 100% do Combu.



Escrito por Fernando Jares às 15h57
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AINDA NA CONTA DO NATAL (2)

NATAL, AGOSTINHO, CLARICE E EINSTEIN

O Natal provoca as mais diversas reações nos mais diversos tipos de pessoas. Os que pintam, pintam; os que cantam, cantam; os que dançam, dançam; os que escrevem, escrevem. Uns a favor, outros contra. Dificilmente alguém fica indiferente diante de um fenômeno tão forte, tão disseminado por todo o mundo, tão resistente, há mais de 2 mil anos. Nada disso deve ou pode ser por acaso. Discute-se ou reza-se pelo mundo, discute-se ou reza-se pelas ruas de Belém.

O jornalista paraense Nélio Palheta, nascido na nobre Vigia de Nazaré, pensou, pensou e escreveu um conto sobre o Natal. Depois pensou sobre o conto e escreveu um artigo sobre a questão de Deus na humanidade, colocando em linha os pensamentos de Santo Agostinho, Clarice Lispector, Albert Einstein, Bento XVI e outros mais.

Mandou-me o artigo. Li e gostei tanto que resolvi partilhar com os leitores deste blog. Nélio já andou cá por estas linhas virtuais e é bom que sempre esteja cá por estas bandas. O texto vale a leitura, principalmente se você busca Deus e mais principalmente se você não busca ou não crê em Deus. Boa leitura.

 

Neste Natal escrevi um conto sobre o nascimento de Nosso Senhor. Os personagens são, além do próprio Jesus, seus pais e alguns anjos e os evangelistas, narradores da história de Jesus menino, desde o nascimento - São Lucas e São Marcos. Escrevi para me divertir, fazendo dos autores sagrados contadores de histórias.

Nesse diletantismo, pensei numa porção de coisas a respeito do Natal; deixando de lado a brincadeira (no bom sentido) com Lucas e Marcos, lembrei-me, quase num sentido oposto, do texto de Clarice Lispector, escritora de coração inquieto, sobre o mundo e o homem desse mundo, resgatado pelo obituário do arquiteto de Brasília, Oscar Niemayer. “Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades”, disse a escritora de origem ucraniana, na crônica “Brasília”.

O raciocínio de Clarice leva-nos à pergunta: Quem foi o homem que Deus Criou? A resposta é relativamente fácil por um lado e difícil por outro. É fácil quando se sabe ser o homem um projeto à imagem e semelhança do próprio Criador. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...”. O livro primeiro da Bíblia Sagrada diz no versículo seguinte: “Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”.  Ponto!

A segunda resposta é difícil, porque, mesmo criado à imagem e semelhança de Deus, o homem tem a tendência de se deformar – não por causa da liberdade concedida por Deus, mas porque a usa equivocadamente, a ponto de ignorar o próprio Deus. Na ânsia da busca pela felicidade, por exemplo, ele foge do Real, esconde-se na vã racionalidade, exatamente para não encontrar Deus. Acovarda-se. E, assim, torna-se um ser difícil.

Haveria maneira melhor de o homem se tornar Realidade? Os dois versículos do Livro do Gênesis explicam tudo.  É desconcertante admitir que o homem, tendo sido criado para dar certo, perde-se, infelizmente, numa grande confusão, diante da qual Deus está sempre pronto para salvá-lo. Ofereceu o próprio Filho em sacrifício, como Verdade, Caminho e Vida.  “Da mesma forma como precisamos de alimento, precisamos ter a certeza de haver encontrado o caminho adequado”. Esse caminho é Cristo. A frase é de Julian Carrón, o orientador mundial do Movimento Comunhão e Libertação.

O Natal é um bom momento para refletir sobre a “confusão” criada pelo homem. Talvez não entendamos o significado de termos sido criados à imagem e à semelhança e, por isso, não se compreenda o sentido do nosso tempo no mundo, as angústias, as quimeras. Enfim, a própria vida. O sentido de viver a plena liberdade a nós dada.

Se o homem deformou-se ao usar a liberdade, e fez da razão uma plataforma para forjar o mundo segundo a sua vontade e percepção, essa é uma questão de uso da liberdade. Entretanto, é preciso compreender: a liberdade não é uma coisa do homem, mas para o homem. É algo dado, concedido. Quando tudo se reduz a uma experiência racional, possível de ser explicada matematicamente, ou por outra ciência, eis a Real possibilidade do niilismo, ao qual o homem se reduz dentro do contexto de aniquilação de tudo, inclusive da justiça, do amor, da vontade de ser. Tudo é nada. Inclusive Deus.

As teorias panteístas também colaboram para a confusão. Mas nem Albert Einstein resistiu ao Panteísmo. Para alguns, o físico alemão fora um panteísta ao concordar em alguns pontos, nesse campo, com Espinoza, autor das teorias panteístas. Para o pensador do século XVII, Deus não tem formas antropomórficas e é toda a natureza, todo o Universo. No fim da vida, preocupado com os rumos tomados pela Física, Einstein foi se convencendo do fato de que o Universo não pode ser completamente definido ou explicado – ao menos no mundo de prótons e elétrons, a escala atômica -, pois há incertezas profundas que podem influenciar o mundo macroscópico. O cientista teria admitido, no fundo do seu coração, que aquilo não explicado pela Física teria o dedo de Deus?

Certa vez, alguém perguntou a Clarice Lispector, judia e autodeclarada sem religião:

- Você tem alguma formação ou intenção religiosa?

- Não!

- O que é Deus para você?

- Irrespondível.

Clarice teria lido Confissões? Lá se encontra uma das mais belas respostas para a pergunta irrespondível. Santo Agostinho, um dos sábios da Igreja, perguntou e respondeu: “Quem é Deus? Perguntei-o a Terra, e (ela) disse-me: ‘Eu não sou’. E tudo o que nela existe respondeu-me o mesmo. Interroguei o mar, os abismos e os répteis animados e vivos e responderam-me: ‘Não somos o teu Deus; busca-o acima de nós’”. Agostinho perguntou a mesma coisa também aos ventos, ao ar “com seus habitantes” e todos responderam: “Anaxímenes está enganado; eu não seu teu Deus”. O céu, o sol, a lua, as estrelas disseram a mesma coisa: “Nós também não somos o Deus que procuras”. Com o coração conturbado antes de se converter, Agostinho indagou a todos os seres que rodeavam “as portas da carne”: “Já que não sois meu Deus, falai-me de meu Deus, dizei-me ao menos alguma coisa d’Ele”. E exclamaram com alarido: “Foi Ele quem nos criou”. Ainda não satisfeito, perguntou a si mesmo: “E tu, quem és? ‘Um homem’”, respondeu. Estaria aliviado o sábio?

A angústia do homem é não compreender Deus, embora as respostas sejam claras. Por mais que tente, o homem, sozinho, com a sua mais arguta razão, não terá respostas para essa experiência de amor simbolizado pela criação. Pela profundeza de Confissões, com Santo Agostinho, não teria sido diferente. E foi mais fundo. Uma das questões mais cruciais elaboradas pelo pensador católico foi esta: “O que fazia Deus antes de criar o Céu e a Terra?" Ele responde: “Nada”. A afirmação perturbadora, aparentemente paradoxal, só pode ser entendida no contexto da obra, mas é uma boa deixa para se compreender o insondável Mistério da criação. "Meu Deus, que sois o Criador de tudo, o que foi criado? Se pelo nome de "céu e terra" se compreendem todas as criaturas, não temo afirmar que antes de criardes o céu e a terra não fazíeis coisa alguma. Pois se tivésseis feito alguma coisa, que poderia ser senão criatura vossa?" A resposta de Agostinho dissipa a questão de Clarice sobre como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar”. Não seria, pois o homem precisava de um Paraíso e, assim, ...”no princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Disse Deus: haja luz. E houve luz”. Bem, o homem, como se sabe, foi criado no sexto dia.

Teria Clarice perguntado também aos ventos, aos pássaros, ao sol e aos demais astros do céu; aos seres do mar e aos da terra; aos abismos e aos rios, “quem é Deus”? Einstein fizera a mesma indagação? Clarice tivera uma relação ambígua com Deus desde a morte de sua mãe, quando tinha apenas nove anos. Ela implorara para a mãe ser salva, provavelmente da sífilis. Ainda menina, a escritora sentia-se culpada por ter fracassado no seu apelo a Deus. Ao abandonar o judaísmo, rompeu com Deus. Benjamim Moser, autor de Clarice, uma biografia, a mais festejada biografia da escritora, disse sobre esse aspecto da vida da escritora famosa: "A menina implora a Deus que salve a mãe, e Deus não a salva. Então, ela rompe com Deus, e o abandona como Ele a abandonou". Na verdade, a escritora despreza Deus. "O Deus de Clarice é absolutamente inumano, ele não toma conta das questões e das dores humanas. Ele é uma essência vital, está nos animais, na natureza, no mundo sem linguagem", disse o biógrafo.

Como assim, “Deus não a salva”? Eis boa demonstração de confusão diante de Deus. Clarice é exemplo de um coração que veio à tona em busca da verdade e, talvez, não a tenha encontrado, exatamente por acreditar na inumanidade de Deus.  “Mas, quem é que Vos invoca se antes não Vos conhece? Esse, na sua ignorância, corre perigo de invocar a outrem” – indaga, com profunda pedagogia, Santo Agostinho.

Cabe, neste ponto, também, a reflexão de outro padre católico, Luigi Giussani: “O coração é o lugar dos grandes pedidos: o pedido de verdade, de justiça, de amor, de felicidade”. Que verdades os corações de Clarice e de Einstein guardaram? Que dúvidas consumiram essas mentes brilhantes? As angústias de Agostinho ele deu-nos a conhecer em detalhes, deixando lições maravilhosas. 

Cristo nasceu para esclarecer ao homem esses sentimentos. Verdades que sozinhos não conseguimos decifrar, e que, muito comum, transformam-se em sofrimentos perturbadores. O homem perde-se na busca de si mesmo, embora nenhum de nós pense ou acredite perder-se diante da exigência da relação com o Infinito. Nem percebemos essa perdição. Felizes aqueles que conseguem vencê-la! Nada parece bastar à alma do homem nessa relação. Diante dessa perturbação, não raro cai-se no ateísmo, niilismo ou panteísmo, acreditando-se, respectivamente, que Deus não existe; tudo é nada e tudo é um só deus. Mas, há de se perguntar: Que deus? O deus macro do Panteísmo? Ora, onde estava Deus antes de o Universo ser criado?

O tema dos Exercícios dos Universitários de Comunhão e Libertação, em dezembro de 2006, tem uma pertinência a isso: “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde o mesmo?”. É da natureza humana a necessidade da busca do Infinito. Não podemos destruir ou simplesmente mitigar, ignorar, pois essa necessidade nos foi dada também. Não há como recusá-la. Porém, quando renegamos o papel de Cristo, na nossa vida, estabelecem-se distorções como essa descrita pelo biógrafo de Clarice. Como Deus pode ser “absolutamente inumano”? Como Ele não “toma conta das questões e das dores humanas?”. Se “Ele é uma essência vital”, o homem é um personagem crucial do sistema criado por ele. Santo Agostinho foi direto ao ponto: “Onde Estavas antes de criar o mundo?”. 

Deus criou o homem para dar certo. Mesmo autodeformando-nos, Ele não nos abandona. Se o homem (e, por consequência, o mundo) deforma-se, conforme o pensamento de Clarice Lispector, é porque a liberdade (que não é de Deus, como disse a escritora, mas do homem, dada por Ele) está sendo usada equivocadamente. Confunde-se a busca do Infinito com a “a felicidade (materialista) a todo custo” – o hedonismo. Mas é para alcançar a felicidade que buscamos Deus – felicidade não se compra no shopping, diga-se de passagem.

Talvez a escritora não tenha compreendido que viera ao mundo com uma natureza predestinada, aberta ao Infinito, depositada no seu coração. E essa faculdade do coração humano, de abrigar a carência desse Infinito, do Real, está fora de qualquer possibilidade de ser seccionada do Eu (inquieto). Clarice não conseguiu dar uma resposta sobre o que era Deus. Não, ela não poderia dar! Nem ela e nenhum outro escritor, pensador, cientista como Einstein, porque, em nenhuma ciência, encontra-se a resposta. Principalmente se se reduzir o coração ao nada; o Eu ao nada; a humanidade ao nada; a natureza ao nada. Nada pode ser reduzido ao nada. Mesmo negada a existência de Deus, Ele continuará presente no mundo, onde sua obra foi lançada com uma liberdade infinita. E até nas bocas que verbalizam “Deus não existe”, Ele está presente. Tão presente que, mesmo os que isso dizem, são traídos pelas expressões: “...se Deus quiser!”, “...Deus me livre...”. Frases que são súplicas involuntárias, inexoráveis no cotidiano de qualquer mortal. “Para qualquer parte que se volte a alma humana, é à dor que se agarra, se não se fixa em Vós, ainda mesmo que se agarre às belezas existentes fora de Vós e de si mesmas. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de Vós”, ensina Santo Agostinho.

E uma das coisas mais belas provisionadas por Deus é o Mistério da Salvação, que contemplou um processo completo, desde a anunciação do anjo a Maria, futura mãe de Jesus Cristo. O Natal festeja nascimento. É a festa cristã mais autêntica e representativa de realidade sempre renovada desse Mistério. Podemos nós deformar o mundo, mas não deformaremos a necessidade de encontrar com Deus, pois ele estará sempre presente, queira ou não o homem. Crer nisso já é um bom caminho para romper a confusão a que Julian Carrón se referiu. Parafraseando o Papa, essa é “a alegria da fé” (essa alegria é um dom de Deus, e isso é transparente para mim). A expressão foi usada numa homilia de Bento XVI, no dia dois de setembro deste ano, em Castel Gandolfo, a residência de descanso dos Pontífices. O Santo Padre disse: “A Igreja, uma Israel que se tornou universal, só pode alegrar-se pelo dom de Cristo, que é o núcleo essencial da Lei, Lei feita carne, Amor de Deus por nós”.

É nessa Igreja rica de amor que não pode haver triunfalismo do conhecimento humano. O homem não tem o dom de transformar ou deformar o mundo. Seria muita pretensão, pois ninguém pode dizer: “Tenho a verdade. É a verdade que nos possui”, acrescentou o Papa. O homem não é o detentor da verdade, mas “somos arrebatados por Ela. Deus se tornou tão próximo de nós, que Ele mesmo é um homem”, disse também. E isso nos desconcerta, deixa-nos balançados, desafia-nos, afinal é a verdade mais cristalina, o verdadeiro milagre de todos os dias sermos acompanhados por um “olhar observador, impossível de ser subtraído da nossa vida”, diria Luigi Giussani.

O Natal é sempre uma partida para a jornada em busca do Infinito, do olhar do Real, que relê o coração humano. Nesse contexto, reler as histórias de Marcos e Lucas é sempre inspirador. Elas nos trazem de volta não do mundo de fábulas, de histórias pueris, mas do mundo confuso que criamos.



Escrito por Fernando Jares às 23h27
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AINDA NA CONTA DO NATAL (1)

O PESSOA, AS PESSOAS, OS DIAS E O NATAL

Na semana passada a publicitária Andrea Lima dos Santos (com quem trabalhei quase 20 anos na Albras, onde ela começou como estagiária, diga-se...) enviou-me um e-mail em que dizia que “As chuvas estão voltando... são dias lindos. Olhe o que achei sobre um dia de chuva:”

 

Referia-se à volta das chuvas para o inverno paraense, que ganhou corpo nestes dias de dezembro, um pouco atrasadinhas, mas gostosas, amenizando os calores e restaurando os verdes pelas ruas de Belém, e da Vila dos Cabanos, onde mora a Andrea boa parte do ano. Eu também gosto dos dias de chuva.

Aproveitei para, na resposta, externar os meus gostares, inclusive do Pessoa, e mandar meus desejos de um Feliz Natal. Ficou assim:


Os dias são,
então,
como as pessoas
(que o Pessoa tão bem traduz
e seduz).
Umas tão belas como as outras
(que às vezes nem
achamos tão belas).
Elas existem,
cada uma como é.
Depende de como as vemos,
depende de como as
amamos.
Bem-vinda a pessoa como é.
Bem-vindo o dia como é.
Bem-vindos os dias de chuva
(quando, para proteger-me,
basta-me um guarda-chuva,
ao passo que nos dias de sol,
para proteger-me,
não me basta o guarda-sol,
preciso de um ar condicionado...).
Bem-vindos os dias de chuva.
Eles chegam avisando:
o Natal vem aí!
E, na tal alegria do Natal,
que nossos corações sejam manjedouras
onde (com o Menino Jesus)
nasçam amor, amizade e felicidade,
duradouras.
FELIZ NATAL!

 Aí que ela gostou, pediu autorização para publicar no BIF (Boletim Informativo da Fábrica), o jornal interno da Albras, destinado aos empregados e familiares, na Edição Especial de Natal Imediatamente concordei. Veja como ficou (à esquerda está a identificação da publicação):

 



Escrito por Fernando Jares às 18h18
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NOSSA SENHORA DO LEITE

A SENHORA A AMAMENTAR SEU DEUS

 

Aqui acima está uma das preciosidades que o visitante encontra no Museu de Arte Sacra, em Belém: a imagem de Nossa Senhora do Leite ou da Lactação. Conheço-a desde molecote, pois ficava na capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, anexa à igreja do Carmo. A capela vivia fechada, mas em determinadas datas especiais, como nas celebrações da Paixão de Cristo, na Semana Santa, era aberta para a visitação dos fiéis. Como aluno do colégio do Carmo tive a oportunidade de ver a bela imagem algumas vezes e imaginava a cena, humaníssima, de uma mulher a amamentar um Deus que sendo o seu Senhor, era seu Filho. Ao que lembre, era conhecida como Nossa Senhora da Lactação que, depois, vim a saber, era reconhecida como uma das mais belas Senhoras amamentando existentes no Brasil.

Muitos anos depois li nos jornais que a imagem fora roubada da capela. E sumida ficou por muitos anos.

Em 2002, como por “milagre”, a imagem reapareceu pelas ruas de Belém... entronizada no Museu de Arte Sacra. Foi um resgate importantíssimo para a cidade, sem dúvida. Estive na cerimônia, para relembrar a imagem admirara que nos meus tempos de colegial.

A foto aí em cima, de Octávio Cardoso, é de um postal editado pela Secretaria de Cultura na época da apresentação da imagem. Identifica-a como Nossa Senhora do Leite, século XVIII, autor desconhecido, madeira policromada, 88 x 28 x 27cm. Informa ainda o postal que “A representação de Nossa Senhora amamentando o menino Jesus encontra-se na arte cristã a partir do século VI.”

 

A apresentação foi feita às vésperas do Dia das Mães de 2002, dez anos atrás, com o tema “A mãe retorna”. Diz o flyer distribuído no dia da cerimônia: “Ao devolver a imagem de Nossa Senhora do Leite, restaurada, ao nosso patrimônio cultural, o Governo do Estado presta a sua homenagem a todas as mães do Pará” Mais adiante o texto informa: “Imagem barroca do século XVIII, em madeira policromada, há 30 anos desaparecida.”

Um marcador de livro era lembrança e, no verso, explicava: “Maria amamentando o Menino. Imaginária barroca em madeira policromada do Século XVIII. Origem: Capela dos Jesuítas. Ordem Terceira.”




Escrito por Fernando Jares às 16h22
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HISTÓRIAS DE PAPAI NOEL

UM NATAL EM BELÉM, 1964

Era Dia de Natal em Belém. 25/12/1964. A edição de A Província do Pará (1876-2001) apresentava uma reportagem especial, na capa do segundo caderno sobre o Papai Noel pelo mundo, que resgatamos neste 25 de dezembro, 48 anos depois:

 

Quem editou a página foi nome dos mais conhecidos naqueles tempos no jornalismo local, Luís Faria, que assinava a apresentação do trabalho:

PAPAI NOEL PELO MUNDO

“ELE chegou em Belém. Como costuma chegar todos os anos. As mesmas roupas vermelhas, as mesmas barbas brancas. Talvez mais velho, maior barriga, o saco menos recheado. Mas, o Papai Noel de sempre: O Papai Noel das Crianças, dos brinquedos, das recordações. Aqui, o leitor o conhecerá como o conhecem outros povos do mundo — São Nicolau, Santa Claus, Pére Noel, Kris Kringle, Jultontem. Conhecerá os seus inimigos — Vovô índio, Pai João, até mesmo o Ded Maroz que os comunistas inventaram.

Lá, aqui, acolá, para todos, Papai Noel é um símbolo, o de boa vontade e compreensão entre os homens. Como ele nasceu? Quais as lendas e tradições neste ou naquele país? É o que pretendemos mostrar neste trabalho, através de algum estudo, compilações de outros trabalhos e estudos.”

Luís FARIA

A ilustração da página fazia homenagem a um Papai Noel de Belém que, a bem da verdade, nem papai noel seria, mas tinha grande semelhança com a imagem tradicional do “bom velhinho”. Lembro-me vagamente da figura, esmolando na escadaria do palácio Antonio Lemos:


“Aqui está um Papai Noel de verdade, sem disfarce, sem barba postiça, que J. Góes (do Fotoclube do Pará) descobriu e fotografou nas escadarias do prédio da Prefeitura. Um Papai Noel bom o Joel, que distribuiu tudo o que tinha com as crianças, desprendeu-se de tudo e agora, cansado, sem nada, apenas com a serenidade de filósofo grego, que aspira talvez como Sócrates apenas pela plenitude de um raio de sol, às vezes estende a mão a que lhe dêem alguma coisa para a conservação do corpo, até o outro Natal.” (Legenda que acompanhava a foto).

 A BATALHA BRASILEIRA

Um dos artigos interessantes é o registro da tentativa de criar, na primeira metade do século passado, uma figura brasileira para ocupar o lugar do Papai Noel na festa natalina. Um símbolo nacionalista para substituir o personagem importado pelos interesses comerciais que, à época, já impunham diretrizes à sociedade (ensaiando para ser consumista...).

Vamos acompanhar um trecho do artigo

NO BRASIL PAPAI NOEL VENCE VOVÔ ÍNDIO

“No Brasil, Papal Noel é o dono do Natal. Sempre foi, sempre será. Mas, dois outros personagens já tentaram derrubá-lo pela mão de dois escritores, Cristovam Camargo e Jorací Camargo. O primeiro apresentou "Vovô índio", o segundo "Pai João". Ambos fracassaram.

"Vovô índio" nasceu em 1932, em consequência do movimento nacionalista de 1924. Cristovam Camargo, achando que Papal Noel era um mito de importação francesa, decidiu inventar um tipo mais aproximado de nossas tradições tupis-guaranis. O lançamento teve repercussão: fizeram-se poemas e ensaios sobre o Vovô; houve mesmo concurso entre pintores e escultores para descobrir melhor personificação do mito. Até Portinari concorreu. Dizia Camargo em defesa do filho espiritual: “Toda a criança brasileira sente o índio como ser  fascinador, misterioso, altivo e bravo, que habita o âmago das selvas e conversa com os animais. O índio pode ser apresentado como a concretização das virtudes raciais”.

A campanha estava no auge quando surgiu um concorrente: Pai João, criação de outro Camargo, o Joracy. O autor de Vovô Índio pulou em sua defesa: "Pai João é uma figura inteiramente estranha para as crianças que só servirá para evocar a quadra sinistra da escravidão. O Pai João é africano, não pode ser um tipo representativo da nossa raça. Vovô Índio, pelo contrário, é a, figura representativa, é a simbolização racial".

Joracy Camargo e Heckel Tavares replicaram: "Não estamos criando uma tradição ou improvisando um símbolo, porque o bom "preto velho", que é mais brasileiro que africano, que fazia de seus sofrimentos, motivos de acalantos para embalar crianças, já é tradicionalmente "pai", pai adotivo com o reconhecimento de sua bondade pelas próprias crianças".

A guerra já não era contra Papai Noel. Era entre Vovô Índio e Pai João. E ainda brigam, de vez em quando. Mas, as disputas literárias não chegaram até as crianças. E elas, que não entendem de nacionalismo, continuam vendo, no Brasil, o querido Papai Noel como símbolo do Natal.”

Depois de discutir a questão, de ouvir médico pediatra, psiquiatra, conclui o texto com uma profissão de fé no velhinho amado das crianças:

Há coisas que se conhecem pelo amor, não pela razão. Papal Noel é um símbolo de amor e bondade. Ele exprime, concretamente, a graça que foi para a Humanidade o nascimento de Cristo. No Natal, Cristo nasceu para a redenção do homem e do mundo. Ele, mestre do amor e da bondade, deu-se à Humanidade, de graça. E a criança, no presente de Natal, sente a graça que foi, para toda a Humanidade, o nascimento de Jesus.

Isto é belo, é poético, é eficaz. Sustentemos, pois, com inocência de alma, a tradição natalina de Papai Noel. O mundo anda precisando dos grandes símbolos que lhe falem a linguagem da Fraternidade, da Bondade, da Paz.

Papai Noel é um deles. Viva Papai Noel!

Para fechar, pincei um anúncio desta edição da Província. A loja “O Mundo Elegante” ao que lembro, vendia tecidos e era muito conhecida. Na Rádio Clube do Pará, lá pelos anos 50, 60, patrocinava o programa “Boa Tarde Senhorita” sob o comando de Jacy Duarte, que atendia telefonemas de moças que pediam músicas, e ele sempre começava a conversa com um “Boa tarde senhorita”. Dizem que um dia um rapaz ligou... e pediu para ser tratado por senhorita... mas isso é parte das lendas do rádio paraense. O anúncio tinha uma mensagem bem característica dos textos publicitários institucionais daqueles tempos:

 

O texto do anúncio:

Neste dia de alegria para todos os povos, temos a grata satisfação e a grande honra de saudar as autoridades federais, estaduais e eclesiásticas, o comércio, os bancos, a indústria e particularmente os nossos distintos fregueses e amigos, almejando-lhes muitas felicidades no Natal e que o Ano Novo lhes propicie as maiores venturas, paz e prosperidade.

Um FELIZ NATAL para todos os que estas linhas virtuais leem, seus familiares e amigos.



Escrito por Fernando Jares às 11h09
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PROCURANDO IMAGENS NA ALEMANHA

DO BERLIN DE BELÉM A HAMBURG

Quem frequentou o restaurante alemão “Berlin”, que há anos era nossa boa opção de salsichas, joelhos de porco, chucrutes, etc., deve lembrar de um jovem que apoiava no serviço no salão, o Sebastian. Era filho dos proprietários, o casal muito gente boa Gina e Bernd Kielmann, ele alemão e ela paraense, excelente cozinheira que, nos anos que viveu na Alemanha, aprendeu tudo sobre a culinária por lá. Juntou as especialidades e no “Berlin” sempre comemos do melhor – junto com o papo do Kielmann. A família voltou para a Alemanha (o Bernd esteve este ano em Belém e até tomamos uma cerveja juntos) e qualquer dia vou escrever aqui das saudades dessa casa, principalmente agora que não temos nenhum restaurante alemão pelas ruas de Belém.

Mas neste post o assunto é o Sebastian.

 

O Sebastian cresceu, tornou-se profissional e acaba de desenvolver uma plataforma que pesquisa a “a roupa de seu sonho” a partir do uploud de uma foto e a aplicou em uma empresa (em sociedade com Daniel Raschke). A inovação da dupla é sucesso e ganhou destaque na edição do jornal Hamburger Abendblatt do último dia 10/12, como se vê na versão web, acima.

Essencialmente voltado para mulheres, é algo mais ou menos assim: a pessoa identifica uma roupa de alguém famoso, ou mesmo a fotografa em algum lugar, e quer achar onde há alguma igual. Sobe a foto no portal Picalook e vai encontrar a indicação de endereços que oferecem o produto igual ou muito semelhante. E uma plataforma de compras na base da identificação visual.

O sistema procura as fotos em centenas de lojas online de roupas e apresenta modelos iguais ou similares, juntamente com o preço e a fonte de compra em segundos.

"A busca de similaridade por meio de imagens produz melhores resultados do que em palavras descritivas", afirmam ao jornal os sócios do inovador empreendimento, que está no ar há pouco tempo e oferece outras buscas, como sapatos, etc.

 

Os dois sócios de Picalook: Daniel Raschke (à esquerda) e Sebastian Kielmann, com dois modelos de moda em sua sede de negócios em Wendenstrasse. Foto Pressebild.de/Bertold Fabricius, publicada na matéria.

Veja a matéria no Hamburger Abendblatt, clicando aqui. Visite o sítio eletrônico do Picalook clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h00
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O PUDIM DO NATAL

PAPAI NOEL COMO ENTRADA EM FESTIM NATALINO

Na caprichada apresentação natalina da equipe do restaurante “Famiglia Sicilia” que, já lá se vão 20 anos, faz ponto na casa todo mês de dezembro, pelo menos neste 2012 a estrela maior foi... um pudim.

O espetáculo é bem cuidado, mas na noite em que fomos, um domingo, o som era muito acima do esperado e a explosão desses sons, a entrada animada da trupe e a fumaça acabaram por assustar algumas crianças. Inclusive meu neto. Senti falta de elementos natalinos no conjunto, como você pode ver na foto abaixo, que captei do Facebook do restaurante. Talvez porque eu ainda seja do tempo do Papai Noel vestido de vermelho...


Terminada a apresentação, que nem demora tanto, o foco da festa voltou-se para a mesa. E, confesso, foi uma empolgante apresentação gustativa... A cozinha, hoje comandada pela chef Angela Sicilia, já que seu irmão, o premiado chef Fabio Sicilia, dedica-se agora integralmente à enologia, continua com o mesmo pique de requinte, no sabor e na apresentação. No festival “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, que teve a participação de diversos restaurantes pelas ruas de Belém, andei por lá e apresentei o prato com que participavam – para ler “Ravióli de bacuri em massa de jambu com molho de camarão e chicória”, clique aqui.

 

Vamos conhecer alguns dos pratos que circularam por nossa mesa nesta noite, começando pelo “Risoto à Moda Rogério Felipe” (R$ 49,00), que vem a ser um arroz Carnaroli italiano cozido com camarões, colorido com tomates secos e aromatizado com manjericão. Foi a escolha da Rita, que vai se especializando em risotos, e aprovou a pedida.

 

Ora que a pedida da Larissa, considerando suas tendências de bom gosto pelo visual, foi plenamente atendida no prato que escolheu: “Raviole de Phisalys” (R$ 39,00), massa caseira recheada com uma leve ricota e ligeiramente adocicada com geleia de phisalys, com molho de funghi porccini e tiras de carne à moda da mamma. Visual atraente a combinar com o sabor refinado do recheio da massa. E o physalis, em gente? Pois deixa eu dizer uma coisa: o tal de nome enlatinado vem a ser o nosso camarada camapu, frutinha saborosa, comum em muitos quintais e terrenos por todo este Estado e que comi muito, principalmente na infância. Depois, foi ficando vasqueiro. Já contei a história de um reencontro que tive com esse velho conhecido, já engranfinado, em “Um reencontro saboroso, nas terras de Arariboia” – para ler, clique aqui.

 

O nome do prato, “Canelone di coda” (R$ 39,00), já deixava entrever que tinha um rabo, ou melhor, uma cauda, pelo meio... ou por dentro. A descrição confirmava que era uma massa caseira recheada de uma delicada rabada, em um elegante molho ao sugo. A rabada está, meio assim, na moda, e os chefs mais descolados descobriram que ela pode render contemporâneas produções bastante refinadas. Descoberta comprovada, adjetivo confirmado: a rabada a rechear o canelone era de fato delicada e saborosa. O visual do prato lembra os pedaços da rabada tradicional... com muito mais elegância, digamos assim.


Lá no início referi ao primado do pudim neste opíparo encontro pré-natalino. Já disse que a sobremesa é, para mim, um momento mágico da refeição? Pois é. E este “Pudim de Cumaru” atendeu plenamente as mais profundas exigências de uma boa sobremesa, fazendo a mágica sem precisar de truque. Te digo, mano. A textura era aquela em que você sente as papilas gustativas pularem de alegria, apenas em movimentar suavemente o doce na boca. Ao tempo em que ela (a boca) é inteiramente tomada pelo sabor produzido pelo adequado conjunto dos ingredientes. Estou a escrever isto uns tantos dias depois deste festim. Mas a água tomou conta da boca. E antes que caia sobre o teclado, causando um prejuízo, encerro estas linhas.



Escrito por Fernando Jares às 19h09
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1995 – UMA NOVA GASTRONOMIA PARAENSE


Nos idos de 1995, em matéria de página inteira, capa de caderno, o jornal A Província do Pará convidava o leitor a saborear produtos considerados absolutamente novos na culinária paraense.

O leitor era alertado pelo jornalista – que por sinal era eu mesmo, hoje blogueiro neste mundo weberiano – que a “revolução”...”pode causar o espanto para muita gente”. Até porque, coisas como uma tal “pupunha ao roquefort” surgiam em um templo da tradicional cozinha paraense, o restaurante “Lá em Casa”.

É um desfile histórico e preciso de criações do chef Paulo Martins, há mais de 17 anos. Importante registro porque hoje em dia tem gente por aqui e por aí a se intitular dono de criações “tramadas” na cozinha comandada por Paulo Martins.

Muitas outras criações vieram depois. Veja que este texto ainda não registra o “Arroz de jambu”, prato que hoje todo mundo faz, sem ao menos citar a fonte... Aliás, sobre esse prato contei sua verdadeira história aqui pelas ruas de Belém, em 2009: você pode ler “O dia em que jambu separou-se do tucupi”, clicando aqui.

Faço no texto um convite e uma afirmação que hoje, tantos anos depois, virou realidade: “Vamos conhecer em detalhes estas inovações que, não vai demorar muito, devem estar nos livros que apresentam a culinária regional.”

Durante alguns anos esta página de A Província do Pará era exibida em um quadro em lugar de destaque no restaurante “Lá em Casa”, em seu segundo endereço da governador José Malcher, logo na entrada, ao lado de prêmios importantes, como do Guia 4 Rodas e de pratos de restaurantes da Boa Lembrança de todo o Brasil. Veja que a página está no lado esquerdo da foto, onde aparecem o Paulo Martins e sua mãe Anna Maria Martins:

VAI UMA PUPUNHA COM ROQUEFORT?

 Quem está acostumado a ver sempre duplas como o jambu com o tucupi, pupunha com cafezinho ou mel de cana, pirarucu assado com açaí, que se prepare. Esses ilustres paraenses andam em novas e insuspeitas parcerias, revolucionando a tradicional cozinha paraense.

A revolução vem sendo tramada há alguns anos, por diversos “pesquisadores”, inclusive alguns nomes de fora, como o primeiro “chef” do Belém Hilton, Adauto Rodrigues, que em suas experiências deu destaque para a pupunha como guarnição, preparava filhote com gengibre e outras novidades. Nos diversos estágios da revolução, um restaurante de rápida existência marcou época, o "Resto's", que funcionou em uma exposição temporária de móveis e decoração e era comandado pelo double de arquiteto e restauranteiro Paulo Martins, que lá exercitava suas duas facetas criativas profissionais. O desafio ao visitante era decidir pelo mais fascinante: a decoração da casa ou o cardápio.

O novo estágio da revolução, ainda mais radical, está acontecendo no restaurante “O Outro”, comandado pelo próprio Paulo Martins, num dos espaços mais tradicionais da cozinha paraense. E isso pode causar o espanto para muita gente. Exatamente na arena em que são servidos os mais expressivos de nossos pratos, do pato no tucupi à maniçoba, passando por preciosidades como um picadinho de tambaqui, surgem definitivos os novos pratos da cozinha paraense. Com a total aprovação da dona da casa, Anna Maria Martins (mãe de Paulo), o que já é o principal atestado de qualidade que qualquer iguaria pode desejar.


Este prato de “Pupunhas ao Roquefort” tem uma origem histórica: está, juntamente com a receita autêntica do prato, no livreto “Cozinha Paraense”, de dezembro de 1998, que acompanha um vídeo teipe (VHS) em que Paulo Martins apresenta diversos pratos da cozinha paraense, entre clássicos e inovadores. Obviamente não constou da matéria original: coloquei-a agora neste post.

A proposta dos novos pratos é "combinar os sabores regionais com o melhor da culinária internacional", como afirma Paulo que, naturalmente para não chocar em demasia, chama este elenco de novidades de "Cardápio Surpresa" e os apresenta exclusivamente nas noites de sexta-feira e sábado.

Vamos conhecer em detalhes estas inovações que, não vai demorar muito, devem estar nos livros que apresentam a culinária regional.

Comecemos pelas entradas, como em todo bom cardápio. Primeiro vamos encontrar as Pupunhas ao Roquefort, onde as nossas velhas conhecidas pupunhas ganham vida nova, recheadas com uma pasta de queijo roquefort, manteiga e creme de leite. Há também uma Sopa de Camarão à vovó Laura, onde o camarãozinho regional é a estrela com tomates, cheiros e temperos, batidos no liquidificador com castanha-do-pará, creme de leite e creme branco, tendo como guarnição farinha de tapioca e castanha-do-pará torradas. Para completar o elenco das entradas, um conhecido do "JB" (bar-restaurante da João Balbi), o Muçuã de Botequim, que não agride ecologistas, porque só tem animal em extinção no nome: é feito de músculo bovino (como anuncia honestamente o cardápio) desfiado, preparado com condimentos especiais e refogado com temperos da Amazónia, sendo servido com farofa de farinha d'água na manteiga.

Os pratos principais iniciam com o rei dos rios paraenses, o pirarucu, numa versão inesperada. É o Pirarucu Fresco com Massa Negra. Trata-se do pirarucu fresco, cozido ao vapor com temperos do Pará, servido sobre espaguetinho negro feito com tinta de lula. Essa massa negra é uma novidade em todo o mundo, lançada recentemente na Europa e que faz o maior sucesso nos restaurantes finos do Sul do País. A massa é fresca, feita no próprio restaurante e tingida com a tinta de lula, importada da França. Aí por fora o prato é feito com bacalhau, mas quem precisa de bacalhau tendo pirarucu? E a composição visual, do peixe absolutamente branco sobre a massa absolutamente negra é das mais belas.

Ainda na linha dos frutos da água, vem o Camarão a Resto’s, uma homenagem ao antigo restaurante. São camarões rosa na manteiga com cebola e alho, flambados ao conhaque e servidos com um creme de leite e de bacuri, tendo como acompanhamento um arroz puxado no creme de bacuri. Em seguida há uma pedida tipicamente internacional com cara paraense até no nome: Haddock Pai d'égua, um haddock na manteiga que recebe a companhia de um creme de castanha-do-pará, formando uma dupla muito gostosa. A Lagosta Indecisa vem em pedaços ensopados em molho curto com temperos e especiariais amazônicas, gratinada com queijo ralado e tem o acompanhamento de um arroz de chicória no jeito. Para completar o elenco dos derivados das águas surge um mais-que-tradicional risoto, o Risoto Dois do Mar, reunindo uma dupla de parentes muito conhecidos, o polvo e a lula, puxados ao alho e óleo, sendo misturados com jambu e castanha-do-pará.

Numa terra de rios, a predominância natural é de espécies originárias das águas. Mas da terra estão dois bons representantes. O Picadinho Paraense, que nada mais é do que um lombinho picado na máquina, com temperos e especiarias paraenses, resultando num sabor muito tipicamente regional, servido com farofa e arroz branco. Para quem prefere uma carne bovina há o Filé à Cidade Morena (uma homenagem a Belém e que muito lembra Edgard Proença, que criou a expressão e tanto amava esta cidade) que é um filé alto coberto de molho especial feito com maracujá, manga e molho roti e é servido acompanhado por arroz molhado no próprio molho.

Para quem pensa que a revolução anda acontecendo apenas nos pratos de sal, ainda há surpresas grandes na sobremesa. A lista começa pelo Suflê de Cupuaçu. É uma sobremesa quente, feita com ricota, ovos e cupuaçu, que é servida com cobertura de uma calda de cupuaçu, e que dá um resultado muito bom, especialmente para os amantes do cupuaçu, uma das frutas de sabor mais característico e especial do mundo. Também tem sorvete no menu: é a Taça Paraense onde o sorvete de tapioca é servido em uma taça grande, coberto por açaí do bem grosso, castanha-do-pará e farinha de tapioca. Mais uma vez o contraste de cor, branco e roxo, funciona de forma atraente. Para completar, estão os Profiteroles de Bacuri, bombas recheadas com sorvete de bacuri e recobertas com calda de chocolate quente.

A mistura bem dosada dos mais fortes e agressivos sabores regionais com representantes dos mais conhecidos da cozinha internacional rende neste cardápio um resultado que vem sendo elogiado, mesmo pelos mais tradicionalistas. O uso adequado do rico elenco dos temperos e especiarias da flora amazônica, que compramos com facilidade nas feiras da cidade é outro caminho que valoriza o sabor e dá uma inconfudível cara paraense aos pratos apresentados.

A revolução dos sabores paraenses está saindo vencedora. E, tendo como aliados os pratos tradicionais, que formam a mais brasileira de todas as cozinhas regionais, dota o Pará de mais um instrumento de caça aos turistas. Pegá-los pela boca é uma estratégia que geralmente dá muito certo.


Esta foto também não tem a ver diretamente com o texto publicado naquele 9 de março de 1995. É uma simples e deliciosa pupunha com doce de cupuaçu. Foi feita semana passada, no lançamento do “Instituto Paulo Martins”, em que a chef Daniela Martins, filha de Paulo, serviu algumas preciosidades criadas pelo pai e outras por ela.



Escrito por Fernando Jares às 15h44
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PAULO MARTINS BRASIL!


“Aqui, me emociono ao pensar q meu pai, participou do inicio do movimento de reconhecimento de uma gastronomia brasileira. #historia #mesasp”

Joanna Martins, filha do chef Paulo Martins, em mensagem no micro blog Twitter, durante a realização do evento “MesaSP”, em São Paulo.

 Emocionou-se novamente Joanna e mais quem estava reunido na última sexta-feira, 07/12, no encontro que efetivou a fundação do Instituto Paulo Martins. A entidade que vai trabalhar para promover o estudo e a divulgação da gastronomia paraense e amazônica brasileira, realizando ações práticas de pesquisa e capacitação tecnológica, social e cultural voltadas para o desenvolvimento econômico da região. Para saber mais sobre o Instituto PM clique aqui.

Feitas as ações protocolares regimentais, Tânia Martins, viúva de Paulo, assumiu a presidência da assembleia de fundação e comandou a eleição da primeira diretoria do instituto, assim formada:

Presidente: Tânia Martins

Vice-presidente: Daniela Martins

Diretora Executiva: Joanna Martins

Diretora Financeira: Odete Malcher

Conselho Fiscal, membros efetivos: Carlos Freire, Fábio Sicilia e Ângela Teixeira

Conselho Fiscal, membros suplentes: Sérgio Leão, Fernando Jares Martins e Ângela Sicilia.

Um dos fundadores do Instituto Paulo Martins, o megachef Alex Atala, que em São Paulo comanda o “D.O.M.”, o 4º Melhor Restaurante do Mundo, que fez questão de participar da assembleia constitutiva do Instituto Paulo Martins, destacou que era “importante não deixar o Ver-O-Peso da Cozinha Paraense parar, isto não pode parar nunca”. Destacou também alguns pontos fundamentais para a questão gastronômica na atualidade, como a proteção ao meio ambiente, a qualidade, o padrão e a regularidade na produção. São temas que Alex Atala vem trabalhando intensamente em São Paulo, inclusive junto a fornecedores dos restaurantes, cuja experiência, com certeza, está disponível para ser aplicada no Pará.

 

Em uma das escadas da Estação das Docas, alguns dos fundadores do Instituto Paulo Martins, logo após assinarem a ata de constituição da entidade.

Respondendo ao tuíte de Joanna Martins a respeitadíssima chef Roberta Sudbrack, do restaurante que leva seu nome, no Rio de Janeiro, (ela já cozinhou pelas ruas de Belém: para ler “Surpresas em cadeia... nas mesas, bem entendido!” clique aqui) – tuitou: “mais do que isso, foi e sempre será um herói nacional! #PauloMartinsBrasil” e criou assim mais um merecido título, que já está lá em cima, para o mais importante inovador da culinária do Pará, o chef Paulo Martins, considerado o “Embaixador da Cozinha Paraense”, pois foi quem levou nossos sabores e saberes gastronômicos pelo mundo e está na base de todo esse movimento de valorização da cozinha do Pará.



Escrito por Fernando Jares às 18h34
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MYRIAM MATTOS / MIRIAM LIMA COUCEIRO

A TRISTEZA NA FLORESTA

Quando eu era rapaz sempre via uma cantora de voz muito bonita e belo porte, que cantava e apresentava programas na TV Marajoara. Tinha uma voz realmente bonita, embora o estilo de música não fosse o que mais me motivava, na época.

Hoje, tantos anos depois, a mesma Myriam, que, com sua voz cristalina, afagava os ouvidos dos telespectadores (e os famosos televizinhos) pelas ruas de Belém, provocou um forte e sentido abraço meu com um amigo querido, Abílio Couceiro, marido da Myriam. Choramos.

A cantora e apresentadora de televisão, lá pelos anos 60s, Myriam Mattos, ou melhor, a Miriam Lima Couceiro, esposa do Abílio, mãe da Renata, da Roberta, do Pedro Armando, do Abilinho, faleceu ontem e hoje foi sepultada.

Era artista reconhecida no elenco da TV Marajoara apresentando-se nos diversos programas da emissora, ao lado de cantoras como Cleide Lima, Selma Lopes, Carmen Sílvia, Terezinha Vieira, Virgínia de Moraes, muita gente. Um dia ela casou com um colega de trabalho, repórter dos mais afamados, entrevistador por excelência, o magrelo e irrequieto Abílio Couceiro, que eu também gostava de acompanhar nos programas que apresentava na Marajoara.

 

Myriam cantora gravou apenas um disco, em 1964, acho que foi porque logo deixou a carreira. Tenho cá um exemplar, guardado com muito carinho. Trata-se de um compacto simples, como se chamava, com uma música de cada lado, gravado no Rio de Janeiro. Ela foi acompanhada pela orquestra do muito conhecido maestro Pocho Perez, um mexicano com quem grandes artistas brasileiros gravavam. Era anunciado como “Uma promoção Radiolux”, que naqueles tempos era uma loja que vendia uma enormidade de discos. Vixe, quantos comprei lá!

As duas faixas eram o samba-choro “Silêncio Coração” que dava título ao disco (vinil, 33 rotações), de Pires Cavalcanti e Miguel Cohen e o samba-canção “Canção de Sol e Mar”, do De Campos Ribeiro, gente do time dos melhores compositores de música popular paraense naquele momento.


No verso da capa do disco, uma preciosidade. A apresentação da nova cantora, assinada por um dos mais emblemáticos pioneiros da televisão brasileira, Péricles Leal, que esteve uma boa temporada em Belém, para implantar a TV Marajoara.

Mantive o texto original. Repare nas imagens relativas à floresta, típicas daqueles inícios dos anos 1960:

TRISTE COMO A FLORESTA

A floresta plantou duas grandes árvores dentro do coração das criaturas que nasceram à sua volta: a tristeza e o mêdo.
Tristeza gerada pela solidão ante a enorme massa verde.
Mêdo dos seus espíritos e do seu imenso mistério.
Ouço Myriam Mattos e reconheço esses dois sentimentos familiares em suas canções.
Não que Myriam Mattos nos fale de curupiras, bôtos, iaras e igapós mal-assombrados.
Myriam nunca cantou música folclórica. Não obstante, quando interpreta seus sambas urbanos, suas canções de amor, reconheço os sentimentos atávicos no som de sua voz, quando a tristeza e o mêdo dos seus antepassados, se transfiguram, emprestando uma nota indissolúvel em suas interpretações.
Vejo-a, na quietude de um instante, entre uma e outra reunião informal, e de repente surpreendo, em seu olhar, essa tristeza e êsse mêdo que é próprio dos que nasceram à beira da grande floresta.
Nascida no Amazonas, ela traz, dentro de si mesmo, esses dois sentimentos que os pais dos seus pais adquiriram ao primeiro contato com o Inferno Verde.
Porisso, seu samba é diferente.
Sua voz é triste como a floresta,
PÉRICLES LEAL
TV — Marajoara -- Canal 2
Belém — Pará

No livro “Tempo de lembrar” Abílio Couceiro conta algumas passagens da vida de Miriam. Começou no programa de calouros “Sementeira de Astros”, da Rádio Marajoara, que buscava novos talentos para a emissora. Abílio era o produtor do programa e na primeira tentativa ela foi reprovada... exatamente por ele! Alguns trechos sobre o começo da carreira de Myriam, pelo Abílio:

“O nome dela de solteira era Miriam Mendes Lima e, pra família dela não saber que ela estava cantando, ela deu o nome de Miriam Matos. Aí, na segunda vez que ela cantou, além de ter tirado o primeiro lugar, ela foi convidada a fazer parte do ‘cast’, no ‘Sementeira de Astros’, que já mencionei. Em seguida, logo ela se transformou em artista da televisão, apresentando um programa chamado ‘MM em Destaque’, só dela, uma hora na televisão, creio que na quarta feira, não me lembro. Era só ela, cantando, com orquestra. [...]

“Comigo, ela apresentava o programa ‘Radiolux da Sorte’”. [...] “A Miriam era, na época, a cantora mais famosa da televisão.”

 

Myriam Mattos ao lado do marido, Abílio Couceiro, na apresentação do programa “Não durma no ponto”, na TV Marajoara (do livro “Memória da televisão paraense”).

Entre esses tempos e hoje, rolaram décadas. Eu trabalhei quase uma com o Abílio, na Mercúrio Publicidade e, de vez em quando a Miriam lá estava. Em tempos, teve até uma loja (“Bilboquê”, se não me falha a memória) bem em frente da agência, na Braz de Aguiar. Lembro-me que, certa feita, estávamos eu e Iram Lima (que vem a ser irmão da Miriam e era o cara da Mídia) a tentar fazer uns embrulhos, apanhando dos papéis e dos fios, quando ela chegou, cuidando da loja que ia abrir. Disse eu: “Estamos aqui treinando para fazer embrulhos... como a coisa anda braba aí por fora, qualquer problema poderemos ser contratados como vendedores na tua butique...” (rolava alguma crise econômica, inflação disparada, etc.).

Descanse no Senhor, amiga. Que Deus conforte a ti, Abílio, as crianças e toda a família.



Escrito por Fernando Jares às 17h53
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O NIEMEYER DE BELÉM

UM PRESENTE DO ARTISTA AOS PARAENSES


Além de ser a única cidade do Norte com uma obra de Niemeyer, aliás, uma das poucas cidades, no mundo, a ter nas suas ruas, um monumento projetado pelo magno arquiteto falecido esta noite, Belém ganhou de presente o projeto de Oscar Niemayer para o Memorial da Cabanagem e Museu-Cripta dos Cabanos, na entrada da cidade.

Respeitado internacionalmente como um dos mais talentosos arquitetos dos tempos modernos, com profunda sensibilidade pelas coisas populares, Niemeyer nada cobrou pela criação do monumento, certo de estar homenageando o povo paraense: afinal, a Cabanagem é o único movimento revolucionário popular brasileiro em que o povo efetivamente assumiu o poder.

A foto acima mostra o monumento, na época de sua inauguração, em cartão postal editado pela Paratur. A foto é de Paulo Romeu Bissoli.

Foi o jornalista Carlos Rocque que concebeu festejar os 150 anos da Cabanagem – o sesquicentenário, como era hábito chamar – que iniciara em 1835. Propôs ao governador da época, Jader Barbalho, um programa que logo foi aprovado e Rocque nomeado secretário da Comissão Executiva dos festejos.

É interessante que uma das novidades foi a mudança da data comemorativa. No centenário foi em 13 de maio (de 1936), justo o dia em que as tropas do império desembarcaram na cidade e derrotaram os cabanos. Naquela oportunidade foi até inaugurado o busto do general Soares de Andrea, comandante dessa tropa e o retrato de Eduardo Angelim, o derradeiro presidente cabano, o que foi derrotado. Quer dizer: festejaram a vitória das tropas do governo sobre o povo paraense...

Rocque propôs a data de 7 de janeiro (1985), o inverso: foi quando os cabanos invadiram Belém, vindo a conquistar o poder.

Um dos itens mais ambiciosos do programa era construir um memorial alusivo à revolução. O convite a Niemeyer parecia coisa impossível, mas o mestre aceitou e, muito mais que isso, nada cobrou pelo trabalho, considerando-o, segundo Rocque, “uma doação sua ao povo paraense”.


Oscar Niemeyer apresenta o projeto ao governador Jader Barbalho, a Carlos Rocque, Henry Kayath e, provavelmente, Adalberto Neno, que fez o meio campo dos contatos com o arquiteto, no Rio.

O memorial contava com dois elementos principais: o monumento e o museu-cripta, onde foram colocados os restos mortais do cônego Baptista Campos, inspirador do movimento, e de Eduardo Angelim e as cinzas simbólicas (terra e pedras do lugar onde a história apontava terem sido enterrados) de Felix Malcher, primeiro presidente, Francisco Vinagre, segundo presidente e seu irmão Antônio Vinagre.

As criptas ficavam embaixo de um vitral da artista francesa Marianne Perretti, que vive no Brasil, e que habitualmente contribuía com seus trabalhos às obras de Niemeyer, como a catedral de Brasília, palácio Jaburu e muitos outros que contam com vitrais. Este da Cabanagem, que você vê abaixo, representava um caudaloso rio, com águas agitadas, lembrando a “agitação” do movimento. A lágrima de sangue estava exatamente sobre a tumba de Batista Campos e representava a dor do povo paraense pela morte dos líderes revolucionários.

As duas fotos abaixo eu as reproduzi de um cartaz turístico feito pela Paratur, quando Rocque era o presidente.

 

 

O descuido com que, nestes últimos anos, as autoridades públicas têm tratado os monumentos que homenageiam grandes figuras e momentos da vida paraense pelas ruas de Belém tem causado prejuízo de grande porte em alguns dos mais representativos como o dedicado a Lauro Sodré, a monumental estátua da República, o “chapéu” de Magalhães Barata e por aí vai, até a simpática sereia da praça da República! As lembranças da história vão sendo eliminadas e a cidade ficando sem registros do passado. Até as mangueiras estão morrendo e sendo cortadas, por falta de um mínimo trato ou pela incompetência de quem se arvora a mexer nessas árvores (ops, trocadilhei sem querer...).

Mas há de melhorar.

Sobre a Cabanagem você pode ler neste blog “A Cabanagem e a cultura paraense”, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 11h09
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VENCEDOR DO JABUTI EM BELÉM

LACAN E O DIAGNÓSTICO EM PSICANÁLISE

O psicanalista e professor da USP Christian Ingo Lenz Dunker, ganhador do Prêmio Jabuti/2012, 1º lugar na categoria Psicologia e Psicanálise (anunciado mês passado, veja os vencedores aqui), pela publicação de sua tese de livre docência “Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento” (Annablume Editora) estará em Belém neste final de semana.

Nesta sexta-feira, 07, Christian fala sobre "Modalidades Lacanianas do Diagnóstico em Psicanálise", dentro do II Ciclo de Seminários da EPFCL (Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil) em Belém: Transferência e interpretação na direção do tratamento psicanalítico.

Destinado a profissionais do segmento e alunos, o evento será realizado de 19h às 22h no Cesupa – Auditório 4º. Andar. Av. Alcindo Cacela, 1526 (e/ Gov. José Malcher e Magalhães Barata). A inscrição custa R$50,00 (profissionais) e R$30,00 (estudantes universitários), podendo ser feitas no local e horário do evento. Informações: 9178-4177

Christian Ingo Lenz Dunker é Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano; professor do Instituto de Psicologia da USP; Pós-Doutorado pela Manchester Metropolitan University. Autor de “Lacan e a Clínica da Interpretação” (Hacker, 1996); “O Cálculo Neurótico do Gozo” (Escuta, 2002); e o recém-premiado “Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica”. Coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise.

O evento tem coordenação de Ana Laura Prates Pacheco (AME, EPFCL-Brasil/Fórum SP, Diretora da EPFCL-Brasil), Raul Albino Pacheco Filho (EPFCL-Brasil/Fórum SP, Prof. Titular PUC-SP) e Alan de Paula (Psicanalista Membro da EPFCL – Brasil – Fórum Belém e Diretor do Fórum do Campo Lacaniano - Belém) 



Escrito por Fernando Jares às 00h57
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SORVETES DA CAIRU

ARTHUR VERÍSSIMO ACHA OS FRUTOS (CONGELADOS) DA FLORESTA

Quando eu era criança pequena lá em Capanema, praticamente só tinha picolé e os sorvetes eram de água, açúcar e fruta ou alguma essência. Quando vim para Belém não era muito diferente. Pouco depois apareceu a versão dos sorvetes com leite, chamados de “creme”, o que os diferençava do “sorvete”, que não tinha leite. Com o tempo praticamente sumiram os apenas com água e os picolés populares, estes atingidos pelo estigma de serem “picolé do seu Zé”, personagem de vitoriosa campanha da marca local “Gelar”. A sorveteira Gelar produzia com requinte de grande indústria, sorvetes e picolés pasteurizados, com anunciada qualidade, distribuídos em carrinhos espalhados pelas ruas de Belém. A campanha, da Mendes Publicidade, hoje Comunicação, dos anos 60/70 do século passado, evidenciava a falta de higiene dos tais do “seu Zé”.

A cidade tinha boas sorveterias, que eu me lembre, com destaque para a Santa Marta, a Cairu, ou a Tip-Top, com suas dezenas e dezenas de sabores, até o famoso “Qualquer Coisa”, para os eternos indecisos...

Passados os anos, sobrevive a Cairu, cinquentona, bem organizada, mantendo a tradição de seus saborosos produtos e crescendo sempre. E não é que ela acaba de ganhar uma página na Revista Gol, leitura de bordo da voadora (© Ancelmo Góis) Gol, na edição que está sendo distribuída este mês nas aeronaves.

E não foi uma página apenas, mas resultado das andanças por cá do intrépido repórter Arthur Veríssimo, que vara o Brasil e o mundo em busca de assuntos muito especiais para as páginas da Trip, Gol e outras mais. É a coluna “Achados do Arthur”, que você vê aqui abaixo:

 

O Arthur achou e, como é sua tradição, achou-se bem no assunto, ou melhor, na Cairu da governador José Malcher. Literalmente, deu-se bem! Espia como ele comenta o “manjar dos deuses chamado Maria Isabel. Ah, Maria Isabel... Uma mistura da fruta bacuri com coco e pão de ló. Pura tentação.” Tem bom gosto e sabe o que escreve o cidadão, sem dúvida. Vestiu-se de cairuense a servir uma bandeja com preciosos frutos da floresta para ilustrar a matéria. E soltou-se inteiramente ao provar o “Mestiço”, apontado pelas proprietárias da casa como o mais desejado pelos clientes: “A mistura de açaí e bolinhas crocantes da tapioca é inexplicável. Virei fã no ato. No dia seguinte voltei à sorveteria e aproveitei para experimentar outros três sabores (bacaba, cupuaçu e muruci). Também não resisti e repeti a dose do imbatível mestiço.

Antes ele já havia traçado mangaba, taperebá, uxi, araçá e o já citado (e divinal!) Maria Isabel.

Como para ler a revista é preciso viajar pela “Gol” vou facilitar as coisas reproduzindo o trecho inicial do Arthur Veríssimo sobre a aventura dele pelas ruas de Belém:

No segundo domingo de outubro, em pleno Círio de Nossa Senhora de Nazaré - a maior procissão do Brasil, que acontece anualmente em Belém -, eu caminhava a esmo, no contrafluxo de 2 milhões de fiéis. Nenhuma brisa amenizava o bafo da multidão. Meu corpo e meu espírito pediam por algo refrescante naquele calor de derreter cimento. Quando consegui cruzar a avenida Nazaré, chegando à Governador José Malcher, eis que visualizo, do outro lado da rua, a famosa sorveteria Cairu. Parecia uma miragem. Me afobei porta adentro e, já no conforto do ar-condicionado, deleitei-me diante de tantos sorvetes à disposição.

Agora diz se não dá para ficar com uma pura e santa inveja: o cara escreve bem, toma tudo isso de sorvete e ainda é magro!!!!

A matéria mostra uma bela coleção de picolés da Cairu e algumas preciosas informações como: são 12 opções de picolés e mais de 50 de massa cremosa à base de frutas; a produção é de uma 1,5 tonelada/dia; há também uma fábrica no Rio de Janeiro, que atende a demanda dessa cidade e de São Paulo.

Ano passado ele publicou, na Trip, uma reportagem sobre a cidade de Afuá, na ilha do Marajó. Para ler, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 16h03
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