Meu Perfil
BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog



Outros sites
 Cais do Silêncio - Literatura de Jason Carneiro
 Quarto Escuro - escritos, lidos, gostos e desgostos de Bruna Guerreiro
 Oníricos - O e-book de Bruna Guerreiro
 Cerveja que eu bebo - Cervejas bem bebidas, experiências compartilhadas.




UOL
 
PELAS RUAS DE BELÉM


FELIZ ANNO NOVO

Que diferença haveria entre a mensagem de ano novo de um almanaque (impresso) de farmácia, lá nos idos de 1938, e os desejos de um feliz 2012 de um blog, veículo típico e nascido da/com a internet, e seu respectivo blogueiro?
Ao ler a mensagem que ocupava a primeira página do “Almanach Cesar Santos” de 1938, veio-me a vontade de fazer a adaptação. E fi-la, trocando alguns termos, obviamente, para adequá-la ao novo objetivo, transformando-a no desejo e compromisso deste escriba para o ano que logo se inicia. Ou que já se iniciou, para quem lê após este 31 de dezembro. Ei-la:

Feliz Ano Novo
2012
Correspondendo à gentileza de nossos amáveis web leitores, pela desvanecedora aceitação, pela procura cada vez maior de nosso blog, e, diligenciando para continuar a recebê-la, impõem-se-nos o dever que prazerosamente cumprimos ampliando e melhorando o texto, multiplicando os posts do Pelas Ruas de Belém. Este blog constitui um repositório de informes úteis a cada instante, muitas indicações preciosas sobre a história, os hábitos e costumes, a comunicação, a gastronomia e a cultura daqueles que vivem pelas ruas de Belém.
Desejando ainda unir o útil ao agradável, enfloramos os posts de nosso blog com um pouco de escolhida literatura e o prazer de textos leves.
Leitor amigo, recebe com os nossos melhores votos para um Novo Ano feliz, as afetuosas saudações do
pelasruasdebelem.zip.net
Belém 31 de dezembro de 2011

Há quem diga que os almanaques tiveram na comunicação o papel que têm hoje os sites de empresas na internet, ou os blogs, naturalmente que com uma cobertura, hoje, extraordinariamente maior. Os almanaques tinham um conteúdo rico nos mais diversos segmentos da informação e até formação, com dicas e sugestões para saúde (a maioria deles era vinculada a laboratórios), segurança, atividades do lar, etc. Tinham bastante propaganda do patrocinador ou editor, e chegavam ao público leitor gratuitamente, no que sempre foram diferentes de jornais e revistas, que eram, e são, vendidos.
Este almanach da Cesar Santos tinha 56 páginas mais a capa, no formato 12x19cm, fechado. Suas páginas apresentavam informações sobre o dia a dia daquele ano (santo, fase da lua), textos agradáveis, humor, charges, e os muitos produtos que esta farmácia e drogaria fabricava. Era uma das mais importantes do Estado. Veja este anúncio:

A Cesar Santos, que funcionou até os anos 1980 ou 90, pois chegou a festejar o centenário, em 1984, naqueles anos da primeira metade do século passado, era exportadora “em alta escala de Especialidades Pharmaceutica fabricadas em seus laboratórios”. Veja o quanto isso representava em empregos, recursos e impostos para a cidade. Esses fabricantes de medicamentos com produção em grande escala desapareceram, destruídos pelas multinacionais dos medicamentos. E as farmácias tradicionais foram engolidas pelas redes com alto poder de compra que, cada vez mais se grupam, crescem em poder, cartelizam o mercado.
O prédio da antiga Cesar Santos ainda existe, centenário, na rua Santo Antônio. Passei por lá um dia destes e fiz a foto abaixo. Está bastante detonado, mas ainda conserva, na parte superior, alguns traços do original, talvez por ter ficado com os antigos donos e ramo até não muitos anos. Merece a atenção das autoridades, porque é um prédio ainda recuperável para o patrimônio da cidade. Mas, de quem deixa mangueiras e até estátuas caírem... o que esperar. A antiga farmácia virou loja de confecções com seus mil manequins e “araras” de mau gosto a exibir roupas idem, tudo entulhado. Mas é assim que funciona hoje aquela maltratada área de nossa cidade. Há de melhorar: 2012 vamos eleger novo prefeito!



Escrito por Fernando Jares às 17h50
[] [envie esta mensagem] [ ]



FERIADOS PARA 2012

FERIADOS NACIONAIS, ESTADUAL E MUNICIPAIS

O governo federal (poder executivo) publicou ontem uma portaria, do Ministério do Planejamento, listando os feriados nacionais e os chamados dias de “ponto facultativo”, um benefício típico dos funcionários públicos: dias que não são feriados, mas em que os empregados do governo podem não ir trabalhar, já que o “ponto” não será exigido... Nas empresas privadas, quando há algum tipo de concessão desse tipo, os trabalhadores normalmente “pagam” essas horas liberadas, por meio de compensação, com as correspondentes horas extraordinárias não remuneradas em suas jornadas de trabalho.
Serviço ao público leitor deste blog: aqui está a lista oficial dos feriados 2012, no âmbito federal. O documento você pode ler, clicando aqui.
I ‐ 1º de janeiro, Confraternização Universal (feriado nacional);
II ‐ 20 de fevereiro, Carnaval (ponto facultativo);
III ‐ 21 de fevereiro, Carnaval (ponto facultativo);
IV ‐ 22 de fevereiro, quarta‐feira de Cinzas (ponto facultativo até às 14 horas);
V ‐ 6 de abril, Paixão de Cristo (ponto facultativo);
VI ‐ 21 de abril, Tiradentes (feriado nacional);
VII ‐ 1º de maio, Dia Mundial do Trabalho (feriado nacional);
VIII ‐ 7 de junho, Corpus Christi (ponto facultativo);
IX ‐ 7 de setembro, Independência do Brasil (feriado nacional);
X ‐ 12 de outubro, Nossa Senhora Aparecida (feriado nacional);
XI ‐ 28 de outubro, Dia do Servidor Público ‐ art. 236 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990;
XII‐ 2 de novembro, Finados (feriado nacional);
XIII ‐ 15 de novembro, Proclamação da República (feriado nacional);
XIV ‐ 24 de dezembro, véspera do Natal (ponto facultativo);
XV ‐ 25 de dezembro, Natal (feriado nacional); e
XVI ‐ 31 de dezembro, véspera de Ano Novo (ponto facultativo).
Ano passado, na época do carnaval, publiquei um post sobre feriados, mostrando toda a legislação a respeito, especialmente em relação aos feriados locais, pelas ruas de Belém. Para ler "A regra dos feriados no Brasil", basta clicar aqui.
Vemos que o calendário federal inclui, como “ponto facultativo”, a Paixão de Cristo. Não precisava: é feriado municipal compulsório, em todos os municípios brasileiros, por lei federal. Na prática, é feriado nacional...
Os dias de carnaval são declarados ponto facultativo. Quer dizer, não é feriado, mas não precisa trabalhar...
Naturalmente, para facilitar, declara Corpus Christi ponto facultativo. Trata-se de uma data que é feriado municipal na maioria dos municípios do país. Mas não em todos. Mas, como é sempre numa quinta-feira, proporciona as geralmente bem-vindas “pontes” de não trabalhar, “enforcando” um dia útil.
Foi publicado hoje, em um jornal local, em informação acoplada à tabela do governo federal, que no Pará existem dois feriados estaduais. Não está certo. Os Estados possuem apenas um feriado próprio que, na verdade, tem o nome pomposo de “Data Magna do Estado”, autorizados por lei federal, e que entre nós é 15 de agosto, Dia da Adesão do Pará à Independência do Brasil, como está explicado no post acima lincado. No Brasil, somente a União pode criar feriados ou delegar a sua criação, como no caso dos estaduais, mas é só um por Estado. Também não foi a lei proposta pelo ex-deputado Zeno Veloso que extinguiu feriados existentes no Pará, pois a Assembleia Legislativa não tem poder para isso, aliás, nem havia nenhum feriado estadual a extinguir... e o brilhante jurista e professor de Direito Zeno Veloso, meu contemporâneo de faculdade, sabe disso muito bem.
O outro feriado citado como estadual, embora apresentado como mas só em Belém, 8 de dezembro, dedicado à Nossa Senhora da Conceição, é feriado municipal aqui na capital. Não o é em todo o Estado, apenas nos municípios que assim o decidiram, já que pela legislação federal cada município tem direito a quatro feriados locais, sendo um, obrigatoriamente, a chamada Sexta-feira da Paixão. Por exemplo, em Barcarena, 8 de dezembro não é feriado, portanto a data não tem amplitude estadual. Em Barcarena, 3 de dezembro, dia de S. Francisco Xavier, padroeiro do município, é feriado municipal.
Ainda falta divulgar os pontos facultativos no Estado e em cada município...

Vale não esquecer que feriados estão ficando, cada vez mais, benefício para certas elites, já que a ganhancia de algumas categorias do capital, como supermercados, lojas de shopping, etc. está suprimindo essa conquista dos trabalhadores. Até aos domingos...



Escrito por Fernando Jares às 15h22
[] [envie esta mensagem] [ ]



NATAL EM BELÉM

REFLEXÕES BELENENSES SOBRE O NATAL


Belém, do Pará, nasceu sob a inspiração do Natal, que havia sido celebrado apenas alguns dias antes de sua fundação, pelo conquistador português Francisco Caldeira Castelo Branco, em 12 de janeiro de 1616. Por isso seu nome homenageou a cidade palestina onde nasceu o principal personagem do Natal, Jesus Cristo: Belém de Judá.
Feliz Lusitânia, Forte do Presépio, muito da história daqueles tempos está espalhada na cidade, notadamente em seu centro histórico.
No entanto, os elementos decorativos que marcam a cidade nestes dias são mais ligados à visão moderna, consumista, digamos assim, do Natal, onde o Papai Noel, com seus elementos, acaba sendo o centro das atenções. É certo que existe o Irmão Afonso Haus – um emérito plantador de centenas e centenas de mangueiras pelas ruas de Belém – que, com seus mais de 90 anos, brinda a cidade, todos os anos, com seus artísticos presépios feitos com elementos da natureza, a nos lembrar da importância da fé para a vida do homem.
Para nos recordar da cidade presépio em que vivemos, aí em cima está um guache do cartunista Biratan Porto, de 1993, com uma das torres do Mercado de Ferro, do Ver-o-Peso, com um gorrinho papainoelino.
Na linha do aproveitemos o Natal para meditar, pelo menos um pouquinho, sobre o mundo em que vivemos, na cidade que compartilhamos com centenas de milhares de irmãos, separei um precioso cartum do JBosco, publicado em O Liberal no dia 7 passado:

E hoje li esta reflexão do publicitário Glauco Lima no Twitter que identifica e aprofunda, de forma muito inteligente, a situação de muitos belenenses neste Natal, pequenos cristos, pobrezinhos, como aqueles das esquinas:

Pobrezinhoooo nasceu em Belém... (Algumas das maiores favelas do Brasil estão na capital do Pará)” => Glauco nos mostra que, com apenas os 140 caracteres do microblog Twitter, é possível ir fundo em uma questão tão séria, lembrando pesquisa divulgada esta semana sobre as favelas brasileiras.
Feliz Natal pra todos. Feliz Natal!
Cantamos, desde crianças, espantados, “como é que Papai Noel não esquece de ninguém, seja rico ou seja pobre, o velhinho sempre vem.” Só depois é que aprendemos que, se foi assim um dia, o foi há muitos e muitos anos... Mas neste ano, em trabalho da agência de publicidade Ogilvy Brasil, a Coca-Cola, que soube aproveitar e valorizar essa figura de Papai Noel, gorducho e bochechudo que todo mundo conhece, dando-lhe dimensão mundial, produziu um vídeo muito interessante (em inglês). Um Papai Noel que nunca esquece, que vai aqui como bônus natalino, ho, ho, ho:

FELIZ NATAL!
Que o Natal seja, de fato, o renascer, em nossos corações, da esperança em Cristo, e no amor aos irmãos.



Escrito por Fernando Jares às 15h17
[] [envie esta mensagem] [ ]



UM AMOR NA PASSARELA

A BOA SORTE DO JORNALISMO SOCIAL DE 40 ANOS


Para ter conhecido ao vivo esse cabeçalho de coluna é preciso ter algumas dezenas de anos... umas cinco, provavelmente. Notou a data desse recorte de O Liberal? 26 de dezembro de 1971, um domingo, justo 40 anos atrás. “Passarela” era a coluna assinada pela jornalista Vera Lúcia Cardoso Santos, ativa e muito bem informada colunista social de O Liberal. O “Vera Lúcia” escrevo em homenagem a um grande amigo que tivemos em comum, ao longo de muitos anos, o sempre lembrado e querido jornalista Edwaldo Martins, que assim gostava de escrever o nome da Vera Castro – que atualmente assina coluna dominical, sempre ativa e muito bem informada, no Diário do Pará.
A coluna da Vera, de tantos anos atrás, guardadinha em minha pasta de “recortes pessoais”, pulou de lá hoje pela manhã para lembrar-me o quanto ela estava por dentro do que acontecia pelas ruas de Belém:

Não é que ela soube de um acontecido três dias antes, em 23/12/1971. Foi quando Rita e eu começamos a namorar! em noite memorável em que alguns de minha turma festejávamos, no Pará Clube, a colação de grau alguns dias antes (11/12). Amor bem começado, embalado pelo som seresteiro do sempre lembrado desembargador Delival Nobre, anunciado pela querida Vera e abençoado por Deus, que nos permite estar juntos há tantos anos, com o mesmo querer bem dos primeiros dias – obviamente com alguns ímpetos reduzidos... mas com ardor renovado a cada dia de felicidade recíprocamente cuidada.
Nas notícias em torno aparecem alguns amigos, como o hoje desembargador João Maroja e sua Lúcia, sendo que a ela Deus já chamou há alguns anos; o Antonio Carlos Saboya Júnior, que Deus também já nos pediu de volta; e além do que recortei para a ilustração acima, ainda anotei Rose e Edson Salame (com certeza foi ela que passou a notícia desse namoro para a Vera... embora eu nunca tenha “investigado” a fonte); a Marizita e o Manoel (Nelito) Pinto da Silva Jr, ambos já falecidos; o Paulo Cal e até o fotógrafo Pedro Pinto, da equipe de O Liberal, que foi um dos grandes fotorrepórteres da imprensa paraense, que festejava a colação de grau, como professoras, de duas sobrinhas, Lúcia e Graça Pinto, pelo Colégio Modelo.
ELEGANTES - Na mesma página Vera comenta o sucesso da apresentação de uma seleção criteriosa de damas elegantes da sociedade paraense que havia apresentado no dia anterior, no mesmo jornal. Destaca a inovação de alguns critérios de avaliação e o trabalho fotográfico moderno, com a assinatura de Carlos Weick. O Weick chegara a Belém trabalhando para a sucursal local da revista Manchete e fazia alguns frilas, sempre com muita qualidade. A Manchete era uma revista fortemente visual, na qual a fotografia era fundamental, de onde se conclui que seus fotógrafos eram sempre uns caras competentes. Acompanhei-o em alguns trabalhos publicitários muito bons, para a Mendes. Qualquer dia volto às elegantes da Vera naqueles idos de 1971 e ao Weick.



Escrito por Fernando Jares às 16h59
[] [envie esta mensagem] [ ]



O ANIVERSÁRIO DAS NOVELAS

LINDOLFO PASTANA, ATOR DE NOVELAS

Todo mundo vê novela no Brasil. Todo mundo, todo mundo, pode ser que não, mas a grande maioria, e põe maioria nisso, pode contar que vê. A Globo registrou, no passado, audiências, em determinados capítulos de novelas de grande sucesso, de até 100% dos aparelhos ligados! Hoje os números podem não ser da mesma ordem mas, se somar a as audiências das novelas ou assemelhados disponíveis no mercado televisivo, os números serão monumentais.
Pois não é que ontem, 21 de dezembro, a novela brasileira comemorou 60 anos! Foi no dia 21/12/1951 que entrou no ar, pela TV Tupi, de São Paulo, a novela “Sua vida me pertence”, de Walter Forster, tendo no elenco gente que a gente vê na tevê até hoje, como Lima Duarte. Vida Alves e Walter Forster (o autor) formavam o casal principal (para ler sobre, clique aqui e aqui).
Esta história entra no blog porque, um dia destes, estive lendo sobre um dos pioneiros do teleteatro pelas ruas de Belém, o ator, radialista, apresentador (em rádio e tevê) Lindolfo Pastana e encontrei estas fotos de sua atuação pioneira em telenovelas, na época ao vivo, na TV Marajoara, a primeira televisão paraense:

.

Pastana – de quem fui colega quando trabalhei na Rádio Cultura – esteve no elenco da primeira telenovela exibida em terras paraoaras, “O morro dos ventos uivantes”, adaptação da obra de Emile Bronte, provavelmente em 1961 (falta-me confirmar a data, que ainda vou pesquisar).
O que li foi um depoimento, na primeira pessoa mesmo, como se faz hoje em um blog, do Pastana para o número 4 da revista TV Roteiro, da primeira quinzena de outubro de 1967.
Após narrar sua trajetória profissional, que começou na Rádio Clube do Pará, no início dos 1950, fazendo rádio-teatro, e passou pela Rádio Difusora de Macapá, onde fez de tudo, sendo locutor comercial, animador de auditório, galã de novelas, e apresentador de programas montados, vindo depois para a televisão Marajoara.
Para a TV Roteiro Lindolfo Pastana afirmou:
Na TV, também já fiz de tudo um pouco: já chefiei um setor chamado "Texto e Musical", parte importantíssima dentro do esquema de uma emissora de tevê. Por outro lado, na parte artística, também tive uma atividade das mais intensas. Participei das novelas: "O Morro dos Ventos Uivantes", (a primeira apresentada no vídeo paraense), "A Dama das Camélias", "O Poço dos Anseios Perdidos", "Rosa e o Mar", "O Chão da Gente", "O Mar por Testemunha", "O Cabeleira" e tantas outras. Protagonizei ainda diversas peças nas séries ':O Contador de Histórias" e "Grande Teatro". Eis o nome de algumas dessas pe­ças : "Avatar", 'Os Desgraçados Também Sonham", "A Fúria dos Justos", "Rita".



Escrito por Fernando Jares às 18h19
[] [envie esta mensagem] [ ]



UM DIA, UMA DATA

UM CERTO DIA, UMA CERTA DATA, 40 ANOS DEPOIS

Alguns colegas que comigo completaram, no domingo que passou, 11 de dezembro, 40 anos de formados pelo curso de Direito da Universidade Federal do Pará, decidiram publicar, na edição de hoje do jornal Diário do Pará, a íntegra de um post que fiz aqui neste blog, em 11/12/2009, recordando um certo e sempre festejado 11/12/1971.
Sem problema. Pediram-me até a foto e enviei, embora a resolução estivesse baixa, uma vez que já fora tratada para este meio – resolução que não serve para impressão. A cópia original é muito grande e eu não teria como escanear. Até recomendei que buscassem no arquivo do próprio jornal foto igual ou semelhante, feita na mesma oportunidade, uma vez que ela já havia sido publicada lá.
Hoje fui surpreendido com a publicação, na íntegra, do texto que publiquei aqui pelas ruas de Belém em 11/12/2009, em página inteira do Diário. Tudo bem, eu havia mesmo autorizado. Mas a surpresa estava em não haver nenhuma citação da origem do texto. Isso é legal, de legislação, entenda-se. O personagem que fez a página (que não é da redação, faço questão de deixar claro), publicada em posição nobre no jornal, substituiu a necessária (e legal) citação da fonte por uma identificação que, tradicionalmente, assinala o profissional ou a agência responsável pela peça (texto, foto, leiaute, etc.): “ADCDiário”. Foi responsável, sim, pelo leiaute, artefinalização, etc. Mas o texto foi captado de outra fonte, ignorada na informação: este blog que você lê. Logo cedo a colega que intermediou a publicação deixou-me um recado esclarecendo o imbróglio: a fonte fora simplesmente omitida por quem montou a página – parece que esqueceu de colar a informação... Para ir ao original, de dois anos atrás, basta clicar aqui. Note que a foto é um pouco diferente da que está no post original. Nela aparecem, à esquerda, mestres que não estão citados na legenda copiada deste blog, como Ophir Cavalcante (o pai), William Cavalcante, Octávio Guilhon e Luís Euclides Araújo.
Ficou até esquisito: o texto em parte na primeira pessoa (como devem ser os textos de blogs, atividade individual e não comercial) e sem assinatura...
Fica aqui o registro, por uma questão de prevalência do direito autoral.
Amanhã, os remanescentes da turma vamos nos encontrar para, mais uma vez, lembrar os bons momentos que vivemos nesse ontem, durante estes muitos anos e no nosso agora.
Mas antes da festancinha (imagine que não dá mais para fazer festanças como aquelas de 40 anos atrás!) vamos nos reunir para lembrar aqueles que já se foram de nosso convívio, na celebração de uma Santa Missa. O tempo é um duro senhor e já nos levou muitos dos bons amigos que fizemos naqueles tempos dos chamados bancos escolares. Faltam-nos colegas e amigos queridos e por eles rezaremos e deles lembraremos, esperando que eles também rezem por nós, das boas posições em que devem se encontrar atualmente, afinal eram muito gente boa quando andavam por cá... Acho até que a mera publicação da foto já anda fazendo milagrezinhos...
Após as orações, vamos festejar, na certeza de que alguns daqueles que já se foram estarão “lá em cima”, como sempre fizeram enquanto estavam cá, conosco, a acompanhar o encontro, quem sabe com umas batidas do “Primavera” daqueles tempos – imagino que o fazedor das batidas, talvez, já tenha batido as botas e hoje produza lá por cima a boa em versões inimagináveis para nós, mas que devem ser... celestiais.

A foto publicada no Diário de hoje, com os citados mestres à esquerda. O Ruy Barbosa, em busto lá em cima, tinha, na época, os vastos bigodes (mal)pintados de vermelho... Todos de nossa turma jurávamos que não havíamos feito tal maldade com o grande e espertíssimo mestre dos saberes jurídicos...



Escrito por Fernando Jares às 18h39
[] [envie esta mensagem] [ ]



ACONCHEGO CARIOCA

FEIJOADA DENTRO DE UM BOLINHO!

Fazia tempo que eu andava interessado em conhecer este original petisco. Eu fui apresentado ao “Bolinho de Feijoada” há bastante tempo, aqui mesmo pelas ruas de Belém, no restaurante “Brasileirinho” – e contei a experiência em “Do comer brasileirinho moderno” (para ler, clique aqui).
Em setembro último a casa dele, no Rio de Janeiro, foi indicada como um dos cinco melhores endereços gastronômicos do Rio, pela jornalista de gastronomia Constance Escobar.
Aí, na primeira ida ao Rio, decidi ir lá, conhecer o ninho desse bolinho genuinamente brasileiro, o “Aconchego Carioca”. Os outros quatro indicados de Constance são: “Le Pre Catalan” (onde tem o Menu Amazônia com tucunaré, tambaqui, pirarucu, tucupi, bijus recheados, cupuaçu, açaí, etc.); Roberta Sudbrack; o novo “Oro”; e o “Venga!”.
O “Aconchego” é um bar tipicamente carioca com cara e comida tipicamente nordestinas. “O simples abordado com arte”, diz Constance. O teto do salão é coberto por redes “armadas”, como na foto que fiz, assim, por cima:

Era um sábado, tipo 5 da tarde. Casa lotada, porta fechada e gente na frente, batendo papo, tipo aguardando oportunidade. Só consegui entrar com o compromisso de pegar os Bolinhos de Feijoada pra levar. Dentro, tinha gente na espera. Gente bonita, gente feliz, gente nem tão bonita, mas com cara de feliz. Ambiente agradável, sem dúvida.
Feita camaradagem com os atendentes, feita a encomenda, teve uma certa demora, onde fiquei vistoriando. Espia a bolacha para o chope, frente e verso:

Prontos os bolinhos (R$ 19,00 a porção com quatro bolinhos e torresmo), retirada em desabalada, a fim de os comer com a qualidade original – e bem acompanhados. Os torresmos não estavam crocantes como eu gosto, até moles, mesmo. Mas os bolinhos, mano, égua da gostosura. Muito bem fritos, sequinhos por fora, crocantes. Não é que dentro tinha feijoada mesmo! E mais: couve mineira verdinha, aquela que acompanha a gente nas melhores feijoadas... Tenho que confessar que não fiz a foto que deveria. Como que eu ia fotografar e comer aquela maravilha ao mesmo tempo, sumano. Mas, graças ao blog dos “Destemperados”, consegui a foto lindíssima que está aqui abaixo. Obra de dupla arte: gastronômica, de Kátia Barbosa, a chef da casa, e fotográfica, do destemperado Diogo Carvalho. Isto é pra galeria, galera:

Lógico que existem outros pratos, alguns até inesperados, como o “Jiló do Claude” (R$ 18,00), servido com bolinhas de queijo de cabra. Isso mesmo, é em homenagem ao chef Claude Troisgros, que é freguês da casa – onde leva, regularmente, seus amigos visitantes. De minha parte, não gosto de jiló, mas adoro o queijo de cabra... Outro forte é o tradicional (no Nordeste) “Camarão na moranga” (R$ 196,00, grande e R$ 149,00, médio) e muito mais.
Para você conhecer mais sobre o “Aconchego Carioca”, já que nesta visita não pude ir mais fundo nas especialidades da casa, sugiro uma visita ao “Por dentro do Rio”, de Constance Escobar, clicando aqui e ao “Destemperados”, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 23h15
[] [envie esta mensagem] [ ]



SACERDOTE PARA TODA A VIDA!

UM SACERDÓCIO JÁ DE 66 ANOS. E QUE SEGUE FIRME!

Há 66 anos mais dois dias, em 10 de dezembro de 1945, um jovem seminarista escreveu um soneto com o qual homenageava a senhora Francisca Menezes, a professora Francisquinha, que vinha a ser a mãe de um certo jovem que fora ordenado dois dias antes, em 8 de dezembro de 1945 – há exatos 66 anos.
O jovem seminarista-poeta era Ápio Campos, que depois se tornou figura notável na igreja local e intelectual de destaque nas letras paraenses. O filho da prof. Francisquinha era o jovem padre Geraldo Menezes, que com longa e brilhante carreira sacerdotal, festeja hoje seus 66 anos de ordenação (com Missa na igreja da Santíssima Trindade, às 18h), sendo o sacerdote mais antigo da Arquidiocese de Belém.
Aqui está o soneto do mestre Ápio:

MÃE FELIZ
Ó Mãe, como és feliz! Teu filho estremecido
Aos píncaros do Altar Deus elevá-lo quis.
E ei-lo do Sacerdócio Eterno revestido.
O teu Geraldo é padre! Ó Mãe, como és feliz!

Vendo o tal esplendor e glória enaltecido;
Tu o apertas ao seio e em lágrimas sorris!
E osculas, reverente, as mãos do teu ungido;
Na mais santa alegria! Ó Mãe, como és feliz!

Nas preces do teu filho o teu nome bendito
Há de se entremear e subir o Infinito;
E Deus a ti verá em mista parusia.

Ó Mãe, como és feliz! Como te inveja a minha!
Tu geraste um Senhor, ó Mãe, tu és Rainha,
Geraste um outro Cristo - ó Mãe, tu és Maria!


Mais sobre Ápio Campos, falecido em abril deste ano, você pode ler clicando aqui.
O Monsenhor Geraldo Menezes é uma das mais brilhantes mentes da igreja católica paraense, pastor de muitas almas pelas ruas de Belém ao longo de tantas décadas de pastoreio. Gosto dele demais e o acompanho desde minha juventude. É “freguês” aqui do blog: de vez em quando cá está ele, como há um ano, quando descobri, com muita emoção, que sua ordenação foi exatamente no mesmo dia do casamento de meus pais (para ler “Ordenação e Casamento – Um duplo jubileu de platina” clique aqui).
Depois desse soneto de Ápio Campos, que tal um “sarau” em homenagem ao querido Monsenhor Geraldo? Acho que ele gostará. Vou começar com uma crônica.
Como é para a mãe ver seu filho abraçar a vocação sacerdotal? Como terá sido essa questão para a prof. Francisquinha, naquele distante 1945? Fui buscar a resposta na crônica “Mãe de padre”, escrita pelas irmãs Maria Ruth e Maria de Belém Menezes, em 1997, na passagem dos 52 anos de ordenação de Geraldo Menezes:
MÃE DE PADRE
Mamãe sempre nos contava que, certo dia, ouvira, em um sermão sobre vocação sacerdotal, que toda mãe cristã deveria pedir a Deus a graça de um de seus filhos ser padre. Daí em diante, rogava que Deus escolhesse um dos seus três: Geraldo, Stéleo ou José, porém - certa feita nos disse - como mãe, pensava no José, caçula dos filhos homens. Ficava, porém, tudo, no seu coração, em prece silenciosa e cheia de fervor. Os três eram, como nós, da Cruzada Eucarística Infantil "Santo Agostinho", da Igreja de São João Batista, ajudavam na Missa, com o grupo de acólitos, subindo, céleres, a escadinha que leva à torre, para bater o sino, na alegria de sua infância e adolescência...
Eis que, já tendo o Geraldo 15 anos, concluído o curso ginasial no Colégio Estadual Paes de Carvalho, vem dizer à mamãe que quer ser padre. Mamãe nos falava do susto que foi para o seu coração. Não era o mais novo que o Senhor lhe pedia, como na escolha do rei David, para a unção sagrada (I Samuel 16, 11). Era o mais velho, como na oferenda das primícias recomendada no livro do Êxodo, 22, 29. Mamãe o entregou a Nossa Senhora, de quem era muito devota. Papai não aceitou a resolução do Geraldo e achou que era mamãe que punha "essas coisas na cabeça do menino". Mamãe vai falar com o santo Arcebispo D. Antônio Lustosa, e este lhe diz que aguardasse, rezando, as disposições divinas. Geraldo faz o pré-jurídico no CEPC, para dar tempo a que papai se dissuadisse e assinasse a autorização para o filho entrar no Seminário, o que, graças a Deus, aconteceu a 23 de janeiro de 1939.
A essa época havia a tomada da batina, e Geraldo a recebe a 1° de outubro daquele ano, das mãos de D. Lustosa, na Catedral, no dia em que o jovem diácono Alberto Ramos se ordenava sacerdote, iniciando os dois uma trajetória que iriam viver, daí por diante, servindo a Deus. Foram seus colegas nessa cerimônia, os já falecidos Pe. Januário Balieiro e Mons. Edmundo Igreja.
Sob as paredes do velho Seminário "N. Sra. da Conceição" se desenvolveria a vocação de Geraldo e, a 8.12.1945, sendo Arcebispo de Belém D. Mário de Miranda Vilas Boas, é feito "sacerdote para sempre", o primeiro, aliás, que o saudoso Pastor ordenaria em terras paraenses.
Mamãe extravasou sua felicidade em dois poemas que foram apresentados na festa lítero-musical com que a Cruzada Eucarística homenageou o seu antigo membro que saíra, como dizia Dra. Bettina, "da Cruzada para o Altar". Não os transcrevemos pois constaram, para alegria nossa, do livrinho que as várias equipes dos "cinco" do ECC da Paróquia da Trindade ofereceram ao Geraldo nas Bodas de Ouro sacerdotais.
Como elas não os transcreveram, fui buscar o texto dos dois hinos que d. Francisquinha fez para o filho – uma família intelectual, não fosse o chefe do clã o magnífico poeta Bruno de Menezes!
Vamos a eles:
SAUDAÇÃO À ORDENAÇÃO SACERDOTAL
Entoemos os louvores
Que hoje se evolam aos céus
Do incenso entre os olores
Às nuvens de brancos véus.
É que da excelsa morada,
Jesus fita com amor
A vitoriosa escalada
De almas cheias de viçor:
Dão-se a Deus, em oblação,
Na sagrada ordenação.
Ao amplo trigal e às vinhas,
Operários vão partir.
Do campo às ervas daninhas
Hão de logo se extinguir.
Na messe, farta colheita,
Ao Senhor vão preparar.
A seara ao sol se enfeita
De frutos para o Altar.
E à Terra da Promissão
As almas todas irão.

HINO DE SAUDAÇÃO AO SACERDOTE
1. Sacertote! Tu és a palma
De noss’alma.
És a flor da criação!
Da promessa feita no Éden
Foste o germen
Da suprema redenção!

2. Jesus Cristo é sacerdote
E seu dote
São os nossos corações!
Dele brota a luz divina
Que ilumina
As sagradas vocações!

3. Cantam lá nos céus os anjos
E arcanjos,
Quando um padre sobe ao Altar!
Cruzadinhos, exultemos
Pois queremos
O Alto Mistério louvar!

ESTRIBILHO
Neste dia de vitória,
Bendigamos o Senhor
Que a messe de sua glória
Refloresce com vigor!

Acima, belíssima foto do Monsenhor Geraldo Menezes feita no ano passado, pela fotógrafa Paula Sampaio, e publicada em O Liberal, em 01/10/2010.



Escrito por Fernando Jares às 17h12
[] [envie esta mensagem] [ ]



MATA-BORRÃO, UMA HISTÓRIA.

Você sabe o que é um mata-borrão? Diz o Mário Prata que a maioria das pessoas hoje não deve saber nem o que é um borrão, quanto mais por que se precisa matá-lo... O mata-borrão era um utensílio da escrita, de grande importância: é que a escrita, até meados do século passado, era feita com canetas que utilizavam tinta. Primeiro, as “penas”, que eram “molhadas” nos tinteiros à medida que se escrevia. Depois vieram as canetas-tinteiro, que tinham um pequeno compartimento interno, que guardava a tinta que ia sendo usada, automaticamente, pela caneta. Usei ainda muitas destas... Em tempos iniciais a tinta demorava a secar e, para não fazer uma tremenda sujeira no papel, nas mãos, nas roupas, era preciso ir secando a cada linha escrita. Para isso havia o mata-borrão! – que, se perdeu a utilidade, não perdeu o hífen, mesmo com a recente reforma ortográfica desifenizadora... Depois apareceram as tintas “instantâneas”, que secavam imediatamente ao contato com o papel. Destas usei muito. Tudo antes das esferográficas...

 

Aqui em cima está o mata-borrão mais representativo da categoria em foto do Studio Novello, que captei do Fotolog Saudades do Rio. O papel absorvente ficava curvado, embaixo, e o usuário aplicava-o, com firmeza, sobre o texto escrito, para absorver o excesso de tinta nas letras. Mas haviam mata-borrões que eram apenas uma pequena folha, tipo um retângulo, que se aplicava sobre o texto para secá-lo (no sentido estrito de torna-lo seco e não no sentido lato de torcer contra...).
Na família dessas pequenas folhas haviam muitos que eram brindes de propaganda. Como o que vemos aí em cima, do Guaraná Soberano, produto por muitos anos líder no mercado de refrigerantes pelas ruas de Belém e que ainda pode ser encontrado em alguns pontos de venda, com sabor muito parecido com aqueles d’antanho. Eu gosto.
O mata-borrão tem uma história interessante, que encontrei no Almanaque do jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, referente a 1946. Note a redação da época, quando o uso do mata-borrão era intenso, habitual. Todo mundo tinha o seu, por isso era, inclusive, mídia para venda de produtos:

A ORIGEM DO PAPEL MATA-BORRÃO
Achamos hoje muito natural, quando escrevemos uma carta, secar a tinta com um papel mata-borrão. Apenas os já idosos é que podem se recordar da época em que, para o mesmo fim, empregava-se um pó ou areia, o que, entre parênteses, não era nem prático, nem rápido.
Entretanto, se a vulgarização do papel mata-borrão é bastante recente, sua invenção remonta a um período distante. Numa publicação inglesa datada de 1675, fala-se, com efeito, de um papel especial, fino e escuro, que se recomendava para tal fim, porque, dizia o autor, a areia e o pó alteravam a cor da tinta e acabavam por se acumular no dorso dos registros e dos livros, cuja encadernação com isto se inutilisava.
Quanto às circunstâncias que determinaram a descoberta do papel mata-borrão, os arquivos da imprensa no-lo contam por esta forma anedótica:
O fato passou-se numa fábrica de Borksliire, na Inglaterra. Um operário, distraído, esqueceu, certo dia, de pôr na pasta destinada a ser transformada em papel ordinário, a dose da cola requerida. Quando o patrão se apercebeu disso, encolerizou-se de tal modo que despediu o seu auxiliar. Mas, alguns dias depois, e sempre por acaso, o mesmo patrão percebeu que o papel sem cola, que se dispunha a lançar fora como imprestável, possuía a curiosa propriedade de absorver a tinta sem a espalhar e sem apagar a escrita.
Era um espertalhão. Veio-lhe logo a ideia de pôr este novo produto, infinitamente mais cômodo que a tradicional areia, não no refugo, mas à venda. O sucesso foi tão grande que o nosso papeleiro consagrou-se exclusivamente à fabricação do papel mata-borrão. E fez fortuna.
A história não diz se ele reservou parte desta fortuna ao operário, cuja distração o conduziu à boa estrada. Ela também não diz a que época exata, anterior a 1675, remonta a aventura. Nem tudo se pode saber...



Escrito por Fernando Jares às 20h19
[] [envie esta mensagem] [ ]



TARTARUGAS À MESA (E ANTES DELA)

A ARTE DE PREPARAR UMA TARTARUGA


Dizem os pesquisadores de comunicação que ganha audiência filme ou história que tem assassinato e mistério. Não necessariamente em busca do sucesso ibopeano, hoje este blog vai fundo, com uma aula de... como matar – embora com sérios motivos: a sobrevivência humana, via alimentação saudável e saborosa. É a coisa de unir o útil ao agradável!
Dia destes escrevi sobre a tartaruga, animal de carne extraordinariamente gostosa, há anos banido das mesas brasileiras, em nome da preservação da espécie. Algumas décadas depois, milhares de ações defendendo a sobrevivência do animal e uma legislação adequada, eis que a carne de tartaruga volta ao mercado legal, desde que criada conforme as instruções oficiais. Aí em cima está uma tartaruga, habitante do Mangal das Garças, em foto do Land Nick. Clique aqui para ver essa tartaruga (que não corre o risco de ser cobaia para a experiência a seguir, porque bem protegida!) e suas amigas, as garças, em cliques belíssimos do Nirlando.
Pra começar, se ainda não leu, convido-o, à guisa de introito, a ler “Uma delícia que está de volta”, clicando aqui.
Vamos hoje conhecer o ritual de matar a tartaruga e preparar suas carnes, à moda antiga. Lógico que o processo continua válido, mas fora de cogitação, porque as tartarugas agora são dos criatórios, que as abatem, sabe-se lá de que forma, “industrialmente” ou “cientificamente”...
Fui buscar uma descrição de quem a fez com base na memória de jovem pelas ruas de Oriximiná, cidade que me deu o amor maior de minha vida, além de comidas maravilhosas, entre elas, experiências gastronômicas com os quelônios, quando ainda toleradas...
Citei no post linkado acima o livro “Receitas da minha história”, de Rose Salame, onde a autora resgata dezenas de receitas da família e as experiências que acompanhou. Quantas tartarugas, subidas das barrancas do Trombetas, foram abatidas e a menina Rose por perto, a observar e aprender... Coisa normal, natural, na vida das cidades ribeirinhas até o final dos anos 1960. Até nós, cá pelas ruas de Belém nos beneficiávamos desses petiscos extraordinários (pelos anos 1970, comiam-se deliciosos muçuãs no restaurante do Círculo Militar, por exemplo).
Após escovar o casco, patas e pescoço “de modo a que não fiquem resíduos, de qualquer natureza contaminatória, no alimento” e tendo cuidado para não ser ferido pelas unhas do animal, deve-se fazer o seguinte, de acordo com a autora:
Com uma cordinha resistente, lace a cabeça, atingindo o pescoço, amarrando bem para não soltar (como os quelônios escondem a cabeça dentro do casco impedindo esta operação, é necessário instigar a exposição da cabeça, cutucando o tronco do rabo com um objeto pontiagudo). Presa a cabeça, ponha o animal de pé, encoste o peito numa superfície dura (uma parede, por exemplo), apoie o animal com seu próprio pé, fazendo pressão na base do casco côncavo, puxe a cordinha que prende a cabeça, para trás do casco, expondo o pescoço. Agora corte-o, degolando o animal.
Em seguida deite o animal numa superfície plana (pode ser o próprio balcão da cozinha) e apare o sangue que desce do pescoço, numa vasilha onde contenha o suco de meio limão, uma colher de vinagre, uma colher de sobremesa de sal e uma xícara com água, mexendo sempre para que haja homogeneidade na mistura (continue instigando o tronco do rabo para que flua uma maior quantidade de sangue). Quando parar de sangrar, guarde esse produto na geladeira para usar posteriormente.
Neste ponto, insira pelo pescoço, no orifício da coluna vertebral, uma tala de folha de palmeira ou de paneiro (com um comprimento que atinja, no mínimo, cinco centímetros a mais do que o tamanho do animal), girando quando alcançar o rabo, por dentro da coluna vertebral, puxando a tala, a seguir, sempre torcendo, a fim de sacar a medula que se agregará à mesma.
Assim você conseguirá imobilizar as patas, já que a destruição da medula impossibilitará qualquer movimento. Repita essa operação tantas vezes quantas forem necessárias para alcançar o objetivo de imobilizar totalmente o animal.
A seguir, separe a pele que prende os quartos e o pescoço do casco, com uma faca bem afiada. Após, quebre o casco do peito, nas laterais, com uma machadinha, e puxe esse casco do peito para cima, ajudando o descolamento da carne com a faca.
No casco côncavo vai ficar então todo o produto do animal, para que seja solto, quarto a quarto, com cuidado para não ferir a bexiga, os intestinos e a vesícula, a fim de não contaminar o alimento e, assim, perder a carne.
Retire as vísceras e os ovos, se houver, e separe-os para tratar depois.
Retire o filé que estará preso junto ao espinhaço. Solte toda a gordura e pedacinhos de carne que ficarem presos no casco, deixando-os aí mesmo para fazer, depois, a chamada "farofa do casco".
Mergulhe em água fervente, durante dois minutos, todas as partes que contenham a pele escura e, puxando, retire a áspera pele superficial que estará soltando facilmente.
Corte e aparte as unhas das patas, a ponta do rabo, e o ânus, que se encontra no tronco do rabo, expurgando-os.

Em seguida, corte os quartos em pedaços, respeitando as articulações, e separe as carnes mais claras e um pouco de gordura, para o picadinho; as carnes mais escuras, as peles grossas, as patas, o pescoço e o resto das gorduras, separe para o guisado e o sarapatel. Limpe os filés retirando os nervos, deixando-os inteiros se quiser usá-los assim ou, cortando-os, se quiser aumentar o picadinho.
A seguir a autora enumera como cuidar das vísceras, que renderão um dos pratos mais saborosos obtidos da tartaruga, no meu gosto, que é o paxicá. Depois ensina como cuidar dos ovos, se a fêmea estiver ovada, como se diz. Recomenda ainda cozinhar em panelas de ferro, barro ou esmalte e usar colher de pau.
Entre as receitas listadas estão o sarapatel, o picadinho, a tartaruga guisada, o filé com ervas regionais e a fantástica farofa no casco (em fogo de chão). Embora em um momento difícil, já contei a história de uma porfia em torno de uma farofa no casco, que você pode ler no post “Um Guerreiro amazônico no planalto”, clicando aqui.
Abaixo você vê um prato que mostra como a tartaruga foi adotada pela gastronomia brasileira contemporânea. Faz parte do menu do restaurante paulistano “Brasil a gosto”, da chef Ana Luiza Trajano, que homenageia o Estado do Acre e que captei do ótimo e delicioso blog do jornalista Marcelo Katsuki. Veja como ele descreve o prato: “Lombo de tartaruga laminado com emulsão de óleo de castanha do Brasil, chicória da Amazônia e alfavaca (R$ 49). A textura é de um peixe defumado, mais firme. O gosto é sutil, ainda mais envolvido pela emulsão de castanha. A chef contou que é comum misturar parte do fígado na carne para agregar mais sabor.” Note que a castanha-do-pará virou do-Brasil... Para conhecer todo o cardápio acreano na versão de Ana Luiza Trajano, visite o Katsuki, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 21h20
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]