Meu Perfil
BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog



Outros sites
 Cais do Silêncio - Literatura de Jason Carneiro
 Quarto Escuro - escritos, lidos, gostos e desgostos de Bruna Guerreiro
 Oníricos - O e-book de Bruna Guerreiro
 Cerveja que eu bebo - Cervejas bem bebidas, experiências compartilhadas.




UOL
 
PELAS RUAS DE BELÉM


PIRACUÍ COM BACALHAU

SABORES LUSO-AMAZÓNICOS EM COIMBRA

Um trabalho acadêmico possibilitou a abertura de uma janela positiva ao turismo gastronômico paraense. Desenvolvendo a pesquisa para sua tese de doutoramento na Universidade de Coimbra, em Portugal, "Viagens e Sabores na Amazónia brasileira: os territórios do turismo gastronómico em Belém do Pará”, o professor Álvaro do Espírito Santo, da Universidade Federal do Pará, propôs e organizou um festival gastronômico luso-amazônico, integrado ao Congresso Internacional Turismo, Lazer e Cultura. Esse congresso, que aconteceu esta semana, comemorou o Dia Mundial do Turismo, os 100 anos do primeiro congresso de turismo realizado em Portugal (IV Congresso Internacional de Turismo, Lisboa 1911) e o Centenário da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1911-2011). Este evento já andou cá por este sítio eletrônico: para ler “Sabores paraenses na festa Coimbrã” basta clicar aqui. A comitiva do Pará foi liderada pelo presidente da Paratur, Adenauer Góes, naturalmente pretendendo trazer turistas europeus a passear pelas ruas de Belém.
Em uma Feira Internacional de Turismo, com mais de 40 expositores, uma das principais atrações foi o “Showcooking Luso-Amazónico” onde os visitantes conheceram especialidades que fazem a atração de nossa cozinha regional. Participaram os chefs do Pará, Ofir Oliveira e Carmelo Procópio, que levaram aos estudantes e ao público local um cruzamento de especialidades dos dois lados do Atlântico, já que desenvolvido em parceria com professores e alunos do curso de gastronomia da Universidade de Coimbra. O chef Ofir explicou, na webTV da universidade o trabalho conjunto, em que os da Amazônia fizeram um “beiju de bacalhau”, juntando um prato indígena, o beiju, com uma das grandes tradições da cozinha portuguesa, o bacalhau, e os de Portugal um “bolinho de piracuí”, que é uma farinha de peixe de tradição indígena, aos moldes da técnica lusa - imagino-os fritos às colheradas, como se faz o "pastel" de bacalhau... Acompanhe a matéria sobre o evento e a entrevista com o chef Ofir, clicando aqui.




Escrito por Fernando Jares às 19h13
[] [envie esta mensagem] [ ]



O CORAL DOS 40 MIL APAIXONADOS

O VIRUNDU PARAENSE

O Brasil ouviu a voz paraense mais autêntica, milhares de vozes em um inesperado coro a cantar o Hino Nacional Brasileiro, para espanto de muita gente. O povo do Pará sabe cantar o Hino Nacional. E canta com orgulho! Um coral de 40 mil Fafás de Belém, Olivares Barreto, Andreas Pinheiro, Lucinnhas Bastos, Brunas, Emersons, Isabelas, Henriques, Nazarés, Nazas e Nazicas – sincronizado, sintonizado, apaixonado.
Foi isso que eu vi e ouvi. Foi isso que o Brasil viu e ouviu. Veja, ou reveja, aqui:

A emoção do Neymar foi a emoção de todos que viram esse espetáculo de civismo. O Galvão Bueno, espantado com o que via e ouvia, destacou a reação de Neymar e quase gritando exclamou: “parabéns, Belém do Pará!”. Mas havia muitas outras emoções! Você viu a pessoa que aparece no frame 1min12seg? Ele apalpa os próprios braços, provavelmente para sentir o arrepiado da emoção, a ver se estava mesmo acordado, se estava mesmo no Mangueirão. Quantas crianças, quantos jovens, um Pará vibrante.
O jornalista Tito Barata bradou no Twitter, hoje logo cedinho: “Se Francisco Manuel da Silva e Osório Duque Estrada estivessem vivos, iriam se emocionar ontem no Mangueirão”, ao que imediatamente respondeu o também jornalista Palmério Dória: “É o virudu no tucupi, mermão!”  E assim inspirou o título deste post.
O “virundu do Mangueirão” ainda vai ser muito visto, muito ouvido e, espero, replicado em estádios, em escolas, em solenidades.
Nestes dias em que estiveram a andar pelas ruas de Belém, atletas de ambas as equipes (os argentinos também se surpreenderam com a amabilidade com que foram tratados!) e imprensa especializada viveram momentos que confirmaram a tradição de hospitalidade do povo paraense. Sim! eu cresci ouvindo falar nisso: o paraense é um dos povos mais hospitaleiros do Brasil! Confesso que andava meio triste, nunca mais tinha ouvido destaque para essa nossa especialidade de caráter. Em certas fases da história das sociedades os sem-caráter conseguem mais espaço. Mas nestes dias e, especialmente, ontem, o povo com-caráter do Pará deu a resposta. Marcou presença e firmou conteúdo. Mais uma vez senti orgulho de ser paraense.
Vale transcrever um trecho do jornalista Walter Falceta, de São Paulo, em “Por que o Pará cantou o Hino Nacional Brasileiro?” onde descreve a cena que viu:
Cessou a amostra instrumental do Hino Nacional, mas o povo resolveu seguir até o fim da primeira parte da composição, à capela. As imagens de TV mostram o povo feliz com a saudável molecagem, orgulhoso, muitos com as mãos sobre o peito. São crianças, jovens, idosos, gente negra, branca, índios, representantes da comunidade nipônica e, certamente, a linda mistura de tudo isso. O craque Neymar, ele próprio tão espetacularmente miscigenado, comove-se com a cantoria, marcada na percussão das palmas sincronizadas. Comoção bem comovida.” Para ler o texto completo, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 18h04
[] [envie esta mensagem] [ ]



ONETTI, UM PIONEIRO DE VERDADE

TESTEMUNHA DE IMAGENS PARAENSES


No começo dos anos 1960 a televisão tinha uma incrível importância social nas cidades em que ia sendo implantada. Mudava costumes, opiniões, rompia paradigmas, unia mais que desunia as pessoas. Hoje tem até muito mais importância, mas muito diferente daqueles idos. Talvez o fato de ter produção predominantemente local, criava uma interação entre a sociedade e seus membros transformados, subitamente, em astros, estrelas, quase heróis... Era um veículo que proporcionava exposição muito maior do que o jornal e o rádio, a que todos estavam acostumados.
Foi nesse cenário que um jovem cinegrafista, já com alguma experiência em cinema, começou a registrar a vida pelas ruas de Belém. Era o Rubens Onetti. A partir de 1961, quando foi inaugurada a TV Marajoara, lá estava ele, pioneiro da primeira hora. Ser focado pela câmera de Rubens Onetti era certeza de aparecer na televisão – e, além dos noticiários, existiam diversos outros programas onde suas imagens eram destaque.
Foi assim que comecei a acompanhar Rubens Onetti. Eu um jovem telespectador (no começo, aliás, televizinho, teleamigo...), ele um jovem e talentoso cinegrafista. Seu nome era sempre citado nas matérias: tinha e dava status.
Para mostrar essa importância do cinegrafista, recordo-me de uma cena quase patética. Não lembro quando e nem por que cargas d’água estava eu no aeroporto, provavelmente a despachar ou buscar alguma encomenda. Na mesma hora estava a embarcar uma daquelas excursões para “Portugal e Europa” ou “Primavera em Portugal”, da Lusotur, sob a liderança pessoal do Comendador Joaquim Marques dos Reis (naqueles tempos vinha um avião da TAP, fretado, para buscar o grupo, direto para Lisboa!). E o Onetti lá a filmar, em um plano mais elevado. Determinada senhora de fino trato, deixando um pouquinho a finesse de lado, gritava a plenos pulmões “Oneeetti!!!”, “Oneeetti!!!” e fazia sinal para alguém que queria fosse filmado/a... sei lá quem. O Onetti acompanhou como “cinegrafista oficial” algumas dessas viagens e tudo era mostrado na TV Marajoara.
As filmagens eram filmagens mesmo, em filme 16mm, preto e branco, sem som, com todo o processo de revelação, montagem, etc. Um dia, acho que já no começo dos 70s surgiu uma máquina que gravava som. Menino, que upgrade! Dava um trabalho dos diabos armar para gravar e nem sempre o resultado era o que se esperava. Mas era uma conquista danada.
Onetti deixou-nos um belíssimo depoimento no livro “Memória da Televisão Paraense”, com o título “No começo era o cinema” que merece ser lido: basta clicar aqui.
Chegando eu a profissional de comunicação, nossas vidas se cruzaram muito, na TV Marajoara, no Rubens Foto, em A Província do Pará – onde, já entrando em novos caminhos, foi diretor comercial por muitos anos. Mais recentemente, após a venda da Província, foi para O Liberal, onde cuidou de diversas áreas.
Agora deixou os muitos que gostavam dele, chamado pelo Pai para outras tarefas. Deve estar filmando no céu e contando histórias que até Deus desconhece... Mas vai perdurar por muitos anos na lembrança de quem com ele conviveu. E nos que, estudando a comunicação no Pará, lerem sobre sua notável participação em momento de importante evolução nesse processo nestas terras. Como um escultor, gravou muitas imagens da história e da sociedade do Pará.
Aí em cima está uma ilustração feita pelo seu colega JBosco, a despedir-se do amigo e publicada hoje em O Liberal, também disponível no endereço eletrônico do Bosco.
Mês passado, em post que registrei os 25 anos do congresso dos agentes de viagens em Belém, publiquei uma foto em que está o Rubens Onetti, como diretor da Província – para ver, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 20h29
[] [envie esta mensagem] [ ]



CONGRESSO DE JORNALISTAS

PAINEL CULTURAL PARAENSE PARA O TURISMO

Jornalistas especializados em turismo de todo o Brasil e do exterior participam nestes dias no Pará do XXVIII Congresso da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet). O evento foi aberto na quinta-feira (22/09) e se encerra na quarta-feira (28/09). Após a abertura, na quinta à noite, os participantes discutiram os temas "O legado turístico dos megaeventos esportivos" e "A importância das mídias sociais para o turismo". A partir do sábado e até amanhã, além de passeios pelas ruas de Belém com Mosqueiro, Icoaraci e Cotijuba, visitam as principais atrações do Estado como Marajó, Tracuateua, Salinas, Barcarena, Paragominas, Santarém e Alter do Chão.
A abertura (22/09) foi um painel cultural paraense, após os discursos e homenagens de praxe em um congresso – com uma vantagem: os discursos foram curtos! Falaram o presidente da Abrajet local, fotógrafo João Ramid, o presidente nacional Élcio Estrela, o presidente da Paratur, Adenauer Góes, a assessora de comunicação da Paratur, Benigna Soares, Wady Kayath, da Belemtur e até o coordenador da Festa de Nazaré, Cezar Neves. Ainda assim, com tantos falantes, a coisa foi rapidinha. Senti a ausência de algum tipo de referência ou homenagem ao jornalista Fernando de Castro Jr., recentemente falecido, especializado em turismo, atuante por tantos anos na imprensa paraense (A Província do Pará, em O Liberal e, até poucos dias antes de seu prematuro falecimento, no Diário do Pará).
Um desfile da coleção “Joias de Nazaré 2011”, do Polo Joalheiro, abriu as atrações dessa noite. A foto é de Jefferson Severino, de Santa Catarina, presente ao encontro e captei via o sítio eletrônico da Abrajet/Pará. Como as demais.

A beleza das joias ganhou muito criativa apresentação, concebida pela fotógrafa Walda Marques, que buscou inspiração no milagre do achamento da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, pelo caboclo Plácido, naqueles idos de 1700. “Bailarinas/Anjos” fizeram a introdução de “modelos/Plácidos” de corpos robustos a exibirem as joias ao pescoço. Ao final encenaram o achado da imagem, apresentada ao público com gritos de júbilo: “Viva Nossa Senhora de Nazaré!” Nota especial para a percussão que acompanhou/ditou o ritmo do desfile: Nazaco Gomes – o cara deve ter ficado com as mãos quentes, mas tocou bonito.

A música e dança do carimbó tomaram o salão do Hangar, como na foto acima, pela interpretação das gentes de Marapanim, que sabem como ninguém mostrar esse nosso lado cultural. O conjunto que tocava reunia “cobrões” do Japiim, Uirapuru, Borboletas do Mar e de outros ótimos grupos de lá. Ranilson Trindade, do turismo municipal de Marapanim, aproveitava para divulgar o seu próximo festival de Carimbó. Quer ver/ouvir um pouco de carimbo marapaniense? Espia aqui o Conjunto de Carimbó Uirapuru em “Se a saudade matasse”:

O jantar foi servido ao som do excelente carimbó e os visitantes encontraram alguns dos mais tradicionais pratos paraenses. O menu recriava o “Almoço do Círio”, exageradamente apresentado como “A maior tradição dessa festa”, no belo cardápio distribuído, onde a capa foi feita com material reciclado, folhas desidratadas e impresso com tintura de açaí.
As entradas agradaram, especialmente certo bolinho (quadrado) de tapioca com queijo de búfala, que estava sensacional, mais bolinhos de piracuí e de aviú e isca de filhote, que agradaram muito os visitantes.
Assinado pelos chefs Fábio Sicilia, Sebastião Santos e Ilca de Almeida, uma cozinha operada por alunos de gastronomia do Senac mostrou competência no que foi servido. O Pato no Tucupi e o Pirarucu de Casaca, para o meu paladar, ficaram no pódio do sabor; a Maniçoba saiu-se muito bem, sendo o Arroz Paraense o menos qualificado, dentre os que provei. Ficaram de fora do teste gustativo o Filé Marajoara, ao qual ouvi elogios, e o Vatapá Paraense. As sobremesas apresentaram a Taça da Felicidade de Cupuaçu, Mousse de Açaí com Tapioca, Maria Izabel de Bacuri e bombons regionais.

.

O Auto do Círio foi a criação popular que em seguida tomou o espaço em uma representação especial para os jornalistas e convidados, mostrando o pluralíssimo sincretismo dessa manifestação, do catolicismo do Círio, com forte devoção à Nossa Senhora de Nazaré, aos ícones da umbanda, do carnaval, da alegria paraensista. Uma grande festa. Um evento deste tipo planta valiosas sementes junto a um público muito especial, porque formador e orientador de milhares e milhares de pessoas que programam viagens, passeios, férias.



Escrito por Fernando Jares às 20h16
[] [envie esta mensagem] [ ]



TURISMO: FOCO NO PARÁ

JORNALISTAS DE TURISMO REUNIDOS EM BELÉM

Jornalistas especializados em turismo, de todo o Brasil e do exterior (Argentina, França, Portugal, Suriname, Uruguai), circulam pelas ruas de Belém desde alguns dias, para participar do XXVIII Congresso da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet), que começa esta noite, com jantar típico no Hangar e vai até a próxima terça-feira (27/09). Segundo a Paratur, são cerca de 250 profissionais que discutirão dois temas principais: "O legado turístico dos megaeventos esportivos" e "A importância das mídias sociais para o turismo". Portanto, como se dizia antigamente, temas “inseridos no contexto” dos interesses nacionais do turismo e da comunicação.
É uma boa oportunidade para o Estado mostrar as suas principais riquezas naturais, culturais e econômicas, a um público que produz material que, via de regra, orienta os turistas que procuram destinos para férias, passeios ou até eventos profissionais, dos mais diversos tipos. E o que não falta aqui é opção única para atrair e satisfazer turistas, com a mais rica diversidade de atrações de toda a Amazônia, do rio mais limpo e suave ao mais caudaloso, às lindas e extensas praias de mar, da emoção da pororoca à tranquilidade da pesca nos rios mais piscosos do mundo. De um artesanato que remonta à pré-história da região aos ritmos nativos e aos que assimilaram as influências externas com muita criatividade. Tudo desembocando em uma culinária absolutamente exclusiva, porque originária da floresta e conservada em costumes centenários – o que não impede que ceda aos apelos da gastronomia contemporânea, a ponto de influenciar a criação de grandes chefs brasileiros e estrangeiros, como Alex Atala, Claude Troisgros, Ferran Adrià, entre muitos outros.

Por sinal o jantar desta noite tem um cardápio em cima dessas riquezas, ligando-as com o tradicional almoço do Dia do Círio: pato no tucupi (foto acima, de Luiz Braga para a Paratur), maniçoba, arroz paraense e vatapá serão alguns dos pratos principais. “Esse evento é importante para divulgar não só os pontos turísticos, mas também nossa gastronomia. Por isso escolhemos fazer a mesa do Círio”, explica o chef Fábio Sicilia, que participou da escolha dos pratos, ao site da Paratur. Os chefs que conduzirão a cozinha são: Sebastião Santos, professor do Senac e Ilca de Almeida. Cerca de quarenta alunos concluintes dos cursos de Cozinheiro e Garçom do Senac irão auxiliar no preparo e no serviço.
Fazem parte do encontro, além das palestras e debates, visitas a diversos roteiros turísticos, além de Belém, como Marajó (Soure e Salvaterra), Tapajós (Santarém e Alter-do-Chão), Amazônia Atlântica (Tracuateua e Salinas), Araguaia-Tocantins (Paragominas e Barcarena).



Escrito por Fernando Jares às 18h45
[] [envie esta mensagem] [ ]



O SONHO DO CELTA NO PARÁ

PERSONAGEM DE VARGAS LLOSA PELAS RUAS DE BELÉM

 

O grande mercado de Ferro (inaugurado em 01/12/1901) e o sempre muito
colorido porto na doca do Ver-o-Peso. (“Belém da Saudade”, Secult, 1996)

“Depois procurou e encontrou um barco para levá-lo à Europa. Era o SS Ambrose, da Booth Line. Como só ia zarpar em 17 de dezembro, aproveitou esse intervalo para rever os lugares que frequentava quando era cônsul britânico no Pará: bares, restaurantes, o Jardim Botânico, o imenso mercado fervilhante e o variegado do porto. Ele não tinha nenhuma saudade do Pará, pois sua temporada ali não havia sido feliz, mas reconheceu a alegria que as pessoas exalavam, o garbo das mulheres e dos rapazes desocupados que se exibiam nos calçadões à beira-rio. Pensou mais uma vez que os brasileiros tinham uma relação saudável e feliz com o corpo, muito diferente dos peruanos, por exemplo, que, como os ingleses, pareciam sempre desconfortáveis com o seu físico. Aqui, em contraste, se exibiam descaradamente, sobretudo aqueles que se sentiam jovens e atraentes.”

Roger Casement, o personagem desse passeio pelas ruas de Belém, nos idos de 1910, é uma das mais controvertidas biografias da diplomacia mundial no início do século passado. Diplomata inglês, pioneiríssimo na defesa dos direitos humanos, ficou famoso por seus históricos relatórios que denunciaram a violenta exploração dos nativos no Congo Belga e no Peru por grandes empresas. Virou herói inglês, foi até “Sir”. Tendo nascido na Irlanda, um dia aderiu à causa da liberdade irlandesa e foi considerado inimigo/traidor da Grã-Bretanha, preso, condenado à morte e executado.

É uma história e tanto que virou “O sonho do celta”, o mais novo romance de Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura 2010, lançado recentemente no Brasil pela editora Alfaguara/Objetiva.

Na época do julgamento foi divulgado na Inglaterra um “diário íntimo” que apresentava Casement como homossexual, onde ele descrevia suas aventuras. Há controvérsias sobre a autenticidade do diário, que conta as “conquistas” fora do expediente diplomático, inclusive aqui na “cidade do Pará”, como Vargas Llosa conta:

“O Boniface chegou ao Pará em 10 de setembro, ao meio-dia. Durante todo o tempo em que ele fora cônsul lá, sentia-se frustrado e sufocado. No entanto, vários dias antes de chegar a esse porto sentiu ondas de desejo ao recordar a Praça do Palácio. Costumava ir lá à noite pegar algum dos rapazes que ficavam procurando clientes ou aventuras entre as árvores, de calças muito apertadas, exibindo a bunda e os testículos.
Hospedou-se no Hotel do Comércio, sentindo que renascia no seu corpo a antiga febre que se apoderava dele quando fazia os mesmos trajetos por aquela praça. Lembrava – ou inventava? – alguns dos nomes desses encontros que em geral terminavam num hotelzinho de quinta categoria nas imediações ou, às vezes, na grama do parque em algum canto escuro. Recordava essas escaramuças velozes e sobressaltadas sentindo o coração desembestar. Mas nessa noite não estava com sorte, porque nem Marco, nem Olympio, nem Bebê (será que se chamavam mesmo assim?) apareceram, e, para piorar, quase foi roubado por dois vagabundos molambentos, quase crianças. Um deles tentou meter a mão no seu bolso em busca de uma carteira que Roger não usava, enquanto o outro lhe perguntava um endereço. Conseguiu se livrar dos dois dando um empurrão num deles que o fez rolar pelo chão. Ao ver sua atitude decidida, ambos começaram a correr. Voltou furioso para o hotel. Acalmou-se escrevendo no diário: "Praça do Palácio: um gordo e muito duro. Sem respiração. Gotas de sangue na cueca. Dor prazenteira."

A Praça do Palácio por certo é a D. Pedro II, ainda hoje chamada de largo do Palácio, embora já tenha sido da Constituição, praça da Independência (naquele início dos 1900), parque Affonso Penna e, finalmente, D. Pedro II, até que um administrador decida mudar-lhe o nome, para agradar algum amigo ou benfeitor. O “Hotel do Comércio” deve ser o Hotel América, que ficava na esquina da rua Conselheiro João Alfredo com a avenida 16 de Novembro (hoje é a avenida Portugal). Provavelmente seria um bom local para um cônsul dado a aventuras. No postal abaixo, o Hotel América naqueles tempos. (álbum “Belém da Saudade”, Secult, 1996)

 

Prossegue a aventura em Belém:

“Sua segunda e terceira noites no Pará foram mais frutíferas que a primeira. Ao anoitecer do segundo dia, um rapaz descalço que estava vendendo flores praticamente se ofereceu a ele quando Roger o sondou perguntando o preço do buquê de rosas que tinha na mão. Foram para um pequeno descampado onde, nas sombras, Roger ouviu casais gemendo. Esses encontros nas ruas, em condições precárias e sempre cheios de riscos, lhe provocavam sentimentos contraditórios: excitação e nojo. O vendedor de flores tinha cheiro de sovaco, mas o seu hálito denso, o calor do seu corpo e a força do seu abraço o inflamaram e o levaram logo ao clímax. Quando entrou no Hotel do Comércio, notou que estava com a calça cheia de terra e de manchas e que o recepcionista o olhava desconcertado. "Fui assaltado", explicou.
Na noite seguinte, teve um novo encontro na Praça do Palácio, dessa vez com um jovem que veio lhe pedir esmola. Convidou-o para passear e beberam um copo de rum num quiosque. João o levou para um barraco de lata e esteiras num subúrbio miserável. Enquanto tiravam a roupa e faziam amor às escuras em uma esteira de fibra estendida no piso de terra, ouvindo uns cachorros latir, Roger não tinha a menor dúvida de que a qualquer momento ia sentir a lâmina de uma faca ou o golpe de um porrete na cabeça. Mas estava preparado: nessas situações nunca levava muito dinheiro, nem o relógio, nem sua caneta de prata. Só um punhado de notas e moedas para serem roubados e aplacar os ladrões. Mas não aconteceu nada. João o acompanhou na volta até às proximidades do hotel e se despediu mordendo-lhe a boca com uma grande gargalhada. No dia seguinte, Roger descobriu que tinha pegado chato de João ou do vendedor de flores. Teve que ir a uma farmácia e comprar calomelano, tarefa sempre desagradável: o farmacêutico – e era pior quando se tratava de uma boticária – sempre o encarava de um jeito que lhe dava vergonha e, às vezes, soltava um sorrisinho cúmplice que o deixava, além de confuso, furioso.”

 

O largo do Palácio, na época, tinha jardins, lagos e muita vegetação o que, por certo, favorecia
 encontros furtivos, como descritos acima. (“Belém da Saudade”, Secult, 1996)

Terá isso, e o muito mais que há na excelente história desenvolvida pelo premiado peruano, sido verdade? As passagens, digamos, picantes, são poucas, no conjunto, mas há uma trama forte e audaciosa, na defesa de direitos fundamentais do ser humano, que merece, e muito, ser lida. O que é romance, o que é a história de Roger Casement? Vargas Llosa respondeu isso ao jornalista Ricardo Setti, da Editora Abril, que você lê a seguir. Para ler a entrevista completa, clique aqui. No endereço eletrônico da VejaOnline.

“É um romance propriamente dito, não um livro de história, nem uma biografia dissimulada, mas um romance. É um livro com mais imaginação do que memória histórica, mas o personagem principal é ele, Casement, e eu respeitei os fatos básicos de sua história. Sobre isso, contudo, construí muita fantasia, muita imaginação, como fiz em outros romances inspirados em fatos históricos. Para mim, essa é uma experiência muito fascinante porque me levou a conhecer e estudar mundos que me eram completamente desconhecidos como o Congo, por exemplo, onde nunca havia estado antes, e a Irlanda, onde havia estado, mas de passagem, sem entretanto jamais haver entrado nas intimidades históricas fascinantes do país.



Escrito por Fernando Jares às 21h41
[] [envie esta mensagem] [ ]



O OURO NEGRO DO VIGIENSE

AMORES E AVENTURAS POR UM PÉ DE CAFÉ

Nos idos de 1728 um paraense, militar a serviço do governo português aqui na Província do Grão-Pará, andou pelo rio Oiapoque a verificar e corrigir os marcos que indicavam a nossa fronteira com a Guiana Francesa, tendo resolvido isso favoravelmente aos interesses da coroa lusitana, assegurando as terras que pertenciam ao Brasil, na verdade a Portugal... Em seguida subiu mais, até Caiena, para contatos com o governador de lá, Claude d’Orvilliers. Secretamente, tinha um objetivo: conseguir mudas ou sementes de café, o que era proibido aos estrangeiros, especialmente brasileiros ou portugueses. Ele conseguiu. E com isso trouxe para o Brasil uma de suas maiores riquezas ao longo de séculos, o café. As primeiras mudas a produzir em território nacional foram as da plantação de Palheta, na Vigia. Daí ganharam o país, encontraram terras favoráveis em São Paulo e cercanias, e o resto todo mundo sabe.
O que poucos sabem é que foi este sr. Palheta que fez tudo isso. Como o fez, está contado no filme “Sementes de ouro negro – A história de Francisco Palheta” que teve apresentação primeira pelas ruas de Belém na recente Feira Pan-Amazônica do Livro.
Um filme de enredo leve a mostrar assuntos sérios e até polêmicos. Primeiro, ficamos sabendo sobre a origem do café, presente de deuses, como ele se espalhou pela Europa e como chegou às Américas. Tudo reconstruído, desde andanças em lombo de camelo até navegação em naus. Belas imagens, inclusive do café “A Brasileira” (do Chiado), a cafeteria de Lisboa, ponto preferido de Fernando Pessoa, em cuja esplanada fica o apresentador que conduz a narrativa do filme. Também a belíssima "Confeitaria Colombo", do Rio de Janeiro aparece, fascinante.
Tive uma oportunidade extraordinária: ver esta estreia, ao lado do jornalista Nélio Palheta, que vem a ser um descendente direto, tipo pentaneto ou mais, do herói da história. Nélio é um dos depoentes no filme e coprodutor da empreitada luso-brasileira.
Veja aqui o trailer do filme:

As aventuras deste Palheta, ancestral dos tantos Palhetas vigienses – eu tive como uma de minhas primeiras professoras, acho que a primeira diretora do Colégio São Pio X, em Capanema, a irmã Ierecê Palheta Mira, da Vigia – para conseguir as mudas, são contadas pelos pesquisadores de diversas formas. Uma delas, a mais popular, diz que teria tido um envolvimento amoroso com a esposa do tal governador de Caiena, Madame D’Orvilliers, que teria dado a ele as desejadas mudas e... sua principal escrava, para que não a esquecesse. Boazinha, não? As cenas desta aventura foram gravadas cá pelo Grão-Pará de hoje, como no Mangal das Garças (há uma bela cena, com chuva), no palácio Lauro Sodré, pelos campos e igarapés da Vigia. A sra. D’Orvilliers e sua mucama são interpretadas por Paula Diocesano e Raquel Leão, vistas abaixo em foto de divulgação.


O filme mostra como ainda hoje algumas pessoas trabalham com o café na Vigia, usando técnica bastante primitiva, em contraste com grandes manufaturas europeias, com equipamentos moderníssimos.
O mais difícil foi feito, o filme está aí, em linguagem leve, de fácil entendimento, didática, mas cheia de conteúdo, inclusive histórico. Pode muito bem ser utilizado em escolas, bibliotecas públicas, etc. para difundir essa personagem paraense, para provocar uma saudável discussão sobre nossas origens. Enquanto aguardamos sua maior divulgação entre nós (quem sabe, a TV Cultura pudesse negociar uma apresentação), veja mais algumas cenas do filme:




Escrito por Fernando Jares às 19h55
[] [envie esta mensagem] [ ]



AS LEMBRANÇAS DO APRENDIZ FELIZ

O VERDADEIRO LUGAR DAS PALAVRAS

O texto poético de Milton Camargo permite à palavra
 encontrar seu verdadeiro lugar no mundo da poesia
”.

João Carlos Pereira na Apresentação do livro “O Aprendiz Feliz”
 de Milton Camargo, Editora UFPA, 1988.

O APRENDIZ FELIZ
Como poeta,

não sou maior

nem sou menor,

sou aprendiz.


Mas sou um homem

muito feliz.

Gosto, mas gosto muito, desse micropoema do Milton Camargo. Acredito que merece plenamente a definição do João Carlos, sempre bem inspirado professor, escritor, jornalista e membro da Academia Paraense de Letras.

Posso ser suspeito para falar do Milton, a quem conheço há uns... 40 anos, ou quase-quase. Mas muita gente conhece o Milton, pelo Brasil todo: é autor de inúmeros livros infantis que são uma delícia, como “As centopeias e seus sapatinhos”, “O veterinário maluco”, “O passarinho vermelho” da editora Ática, entre outros. Muitíssimos publicitários paraenses sabem quem é ele: foi professor muitos anos na UFPA. Assim, este comentário deixa de ser suspeito.

E o Milton está por estas linhas virtuais porque teremos pelas ruas de Belém, a partir de amanhã (15/09), um novo livro dele: “Lembranças”, pela editora Meg@Mestre. O lançamento é a partir das 18h, na Casa de Plácido (no Centro Social de Nazaré, sobre a loja Lírio Mimoso). É “lançamento familiar”, disse-me hoje pela manhã: além de “Lembranças”, seu sétimo livro de poesias, sua sobrinha Maria de Nazaré Maroja Bentes estreia com “Cantiga do Escrever”, também de poesias.

O Milton é paulista e chegou aqui por amor. Literalmente. Apaixonadíssimo por sua paraense Luiza, estado/Estado em que vive até hoje. Somos, fisicamente, muito parecidos e, qualquer dia, conto como nos conhecemos. Temos, inclusive, fotos juntos, que documentam a caminhada da (na) vida (epa!). Olha a história dele resumida aqui, conforme contada no livro “Poemas para Luiza”, de 2003, livro-presente pelas Bodas de Prata deles:

BELÉM DO PARÁ
Um dia, o Oceano Atlântico
jogou-me, ainda semente,

nas praias de Santos,

e cresci entre as areias,

as brancas areias

que ainda eram puras.


Tivesse o Oceano Atlântico

um pouco mais de força,

penetraria pelo rio-mar adentro

e me deixaria nas mesmas areias

onde se criou Luiza.

Mas não mereci tanto.

Sobre as “Lembranças” deste novo livro Milton (aqui em foto do tempo de “O Aprendiz Feliz”) afirma serem as lembranças da infância, da amada, das viagens, do dia a dia. Diz o João Carlos, na Apresentação já citada: “É tão lindo!, no rio, nesta cidade que se fez sua, na chuva, no Círio, na cozinha, na lua, no tempo, no nada. Milton é desses poetas que conhecem o mistério da poesia e fazem de conta que não sabem de nada.” Como é que eu vou escrever alguma coisa sobre o Milton Camargo poeta? O João Carlos já disse tudo e essa verdade se mantém inalterada. Infelizmente não vou estar em Belém para o lançamento, mas logo-logo vou deliciar-me com os novos versos desse mestre da “economia verbal”, como o qualifica João Carlos Pereira: “Quatro versos, cinco versos e basta para que ele coloque de maneira cristalina verdades tão simplesinhas, que a maioria das pessoas conhece e nem se dá conta”. Falou em chuva, foi? Olha o que diz o Milton sobre nossa melhor chuva, em “O Aprendiz Feliz”:

CHUVA DE BELÉM
O azul do céu foi ficando escuro,
cada vez mais escuro, quase negro,

e as pessoas correram

à procura de um abrigo.

A chuva desabou com uma violência tal

que parecia que o céu vinha abaixo.

Alguns minutos depois,

o céu começou a clarear, clarear,

até ficar um azul inocente,

como se não tivesse acontecido nada.

E as pessoas voltaram a passear

ao sol da tarde.

E, para terminar, vamos partilhar esta descoberta, também de “Poemas para Luiza”, feita no florescer permanente de um grande amor => é assim que ele é um homem feliz!

DESCOBERTA
Luiza, hoje eu descobri

que o Céu

é esta felicidade profunda

que nós estamos vivendo.

Mas sem o medo da morte.



Escrito por Fernando Jares às 18h56
[] [envie esta mensagem] [ ]



FONEMAS MÁGICOS

DE THIAGO DE MELLO A RUY BARATA

A cidade viverá na próxima semana, dias 20 a 22, um de seus mais tradicionais encontros de cultura e educação, o Fórum Paraense de Letras, da Unama, em sua 17ª versão.

O tema para este ano foi buscado em um dos versos do poema “Canção Para Os Fonemas Da Alegria de Thiago de Mello – poema que é dedicado ao educador Paulo Freire:

LETRAMENTO E EDUCAÇÃO:

todos os fonemas são mágicos sinais...

Em post anterior publiquei trecho do poema: para ler, clique aqui.

Uma das tradições deste evento é a homenagem a nomes de destaque da cultura paraense como Patrono(a) do Fórum de Letras, escolha que é feita pela Congregação do Curso de Letras. Para este ano a homenageada é Therezinha Gueiros, professora de Filosofia na UFPA e com larga atuação na gestão do ensino no Pará, já tendo sido presidente da Fundação Educacional do Pará, Reitora da UEPA, Secretária de Educação do Estado e de Belém.

Nas edições anteriores do Fórum Paraense de Letras já foram homenageados grandes nomes, como, por ordem cronológica, Albeniza Chaves e Francisco Paulo Mendes, Machado Coelho, Benedito Nunes, Maria de Belém Menezes, Vicente Salles, Max Martins, Maria Lúcia Medeiros, Raimundo Jurandy Wanghan, Ápio Campos, Sérgio Antônio Sapucahy da Silva, Norma Barata, Marlene Coeli Vianna, Pedrina Silva, Juruema Bastos, Leopoldina Araújo, João de Jesus Paes Loureiro.

A palestra de abertura será da prof. Dr. Stella Maris Bortoni-Ricardo, da Universidade de Brasília. Será no dia 20/09, terça-feira próxima, às 19h, no Auditório David Mufarrej, campus Alcindo Cacela.

Um dos assuntos que faz a agenda deste ano é o debate sobre o ensino da língua espanhola nas escolas e sua regulamentação.


Na foto acima a equipe que realiza o Fórum de Letras, com a liderança da prof. Célia Jacob, ao centro. (Foto Alessandra Fonseca, no Unama Comunicado)

UM COMEÇO COM MODELOS DE SABER

Este evento tem uma bela trajetória pelas ruas de Belém, que começou muito bem. Em sua primeira versão, em 1995, o Fórum Paraense de Letras homenageou dois nomes de grande importância na cultura paraense. O Unama Comunicado de 30 de outubro desse ano reconhecia que a homenagem aos “professores Francisco Paulo Mendes e Albeniza de Carvalho e Chaves - mestres de gerações de graduados em Letras, enchia de orgulho os presentes, que reconhecem, nas duas personalidades, modelos de saber e amor à língua e à literatura”.

A professora Célia Jacob destacou que Homenagear o professor Mendes e a Professora Albeniza é, para nós, mais do que um dever, é um momento especial para agradecer pelo que eles nos ensinaram”.

Nessa sessão de abertura a professora Josse Fares leu o poema “O Rei e o Jardineiro”, de João de Jesus Paes Loureiro (por sinal, patrono do Fórum no ano passado), e o professor Paulo Nunes disse trecho do poema “Carta ao Chico”, escrito por Ruy Barata, o que emocionou o homenageado. A palestra de abertura foi da professora Amarílis Tupiassú com o tema “O texto e as possibilidades da linguagem”.

Direto daquele Comunicado de 30/10, veja esta foto, reunindo, ao centro, os homenageados, Francisco Paulo Mendes e Albeniza de Carvalho e Chaves, tendo ao lado Antônio Vaz e Núbia Maciel.

 

Você conhece o poema de Ruy Barata referido acima? Para conhecer ou relembrar, está aqui:

 CARTA

Chico,
não é o poema
que me traz aqui
neste momento.
Não é o poema Chico,
é este cansaço,
este medo de ter tantos caminhos,
tantos,
e tão pouco satisfazem.

Não é o poema Chico,
é o desejo de contigo sair por essas ruas,
saber em qual esquina envelhecemos,
por que – sabes Chico?
O tempo não dissolve o que colhemos
e as nossas almas têm para mais
de mil e tantos anos.

Vamos Chico,
não me negue a graça da presença.
Se eu te pedir a lua,
por favor vai correndo buscar.
Se eu te pedir a estrela,
manda a empregada comprar.
Se eu desejar a morte,
por que morrer de esperar?

Vamos Chico,
esta noite floresce na legenda que é tua,
ninguém estranhará se nos beijarmos,
ninguém gargalhará se em vão chorarmos
como dois bêbados que se encontram na rua.

Anda Chico,
toma o teu anjo e vem que este cansaço
é tão grande,
é tão triste,
é tão pesado,
maior que a solidão,
maior que o mundo,
muito maior que o tédio e que o pecado.

Vamos Chico,
leva-me nas asas do teu anjo,
tira-me dos livros,
aparta-me do pranto,
pois loucura maior é impossível esperar
estas horas longas,
estas longas horas,
que jamais,
jamais,
poderemos calar.

Vamos Chico,
quero ver de novo o mar,
nosso rumo é o absoluto
onde iremos descansar,
plantaremos nossas flores,
pintaremos nossa cruz,
abriremos nossa cova,
e depois,
pela madrugada,
enquanto o tempo não pára,
deitaremos calmamente
à espera do milagre.

Ó Chico,
dá-me o teu braço que estou cheio de pecados,
dá-me o teu ombro que este nojo é bem maior.
E orações,
poesia,
amor,
não satisfazem.
Se me desamparares,
tombarei.

Ó Chico,
além de nós é o tempo dissolvente,
amantes que nos beijam,
telefones que nos chamam,
cartas que escrevemos,
e esta ânsia de fugir ao tédio,
que é o mais trágico e fatal
de todos os venenos.

Vamos Chico,
a memória dos versos nos comove,
deixemos o epitáfio pois degrada,
deixemos este crime para o mundo
que a poesia não resolve nada.

Vamos Chico,
quero cobrir meu Deus de desespero,
vamos depressa antes que o sol me chame
a outro mistério que não sejas tu.

Fonte: “O amigo Chico – fazedor de poetas”, livro organizado por Benedito Nunes, Secult, 2001.



Escrito por Fernando Jares às 22h42
[] [envie esta mensagem] [ ]



CONFRADES AMIGOS

EDITORES DE TURISMO EM BELÉM NOS 80’

 

A foto aí em cima registra um bom momento na imprensa local. Publiquei-a na coluna “Pró-Turismo”, que assinava em A Província do Pará, em 15 de dezembro de 1985. O encontro foi na festa de confraternização de Natal do Belém Hilton com a imprensa paraense. Estamos aí: Fernando de Castro Jr, editor de Turismo de O Liberal, Luís Guilherme Barbalho, editor de turismo do Diário do Pará e este escriba, como editor de turismo da Província. O detalhe, que pode parecer até diferente, nos dias atuais de difícil relacionamento na grande imprensa, é que a mesma foto foi publicada nos três jornais, no mesmo dia. Lógico que o combinamos assim. Nos antigamente, jornalista quando se referia a um colega de profissão, mesmo concorrente, de outro jornal, o chamava de “confrade”, exatamente naquele sentido de colega, companheiro. Havia rusgas, sim, às vezes até pesadas, mas logo eram superadas.

Lembrei-me da foto hoje, em que os amigos do Fernando rezamos pelo 30º dia de seu falecimento, completados ontem. Foi um belo e rico encontro, onde cultuamos, na presenta de Cristo, a memória e a saudade do amigo comum, querido e admirado por todos. A Vera Castro, mais uma vez, mostrou com profunda emoção o quanto foi feliz ao lado do Fernando, tirando do coração as palavras que ela sabe manejar com tanta competência. “Amei-o por 32 anos e vou continuar a amá-lo”, disse, emocionando a todos que ali estávamos. Relembre o que escrevi sobre o Fernando, no dia de seu falecimento, lendo “Conhecimento e participação, com elegância”, clicando aqui.

A foto abaixo “não me deixa mentir” sobre o clima de bom relacionamento que mantínhamos. Foi publicada na coluna da Vera, ainda em O Liberal, em 20 de julho de 1986 (há 25 anos!), onde ela reportava um jantar realizado no apartamento dos irmãos Olguita, Julieta e David Abud. David, presidente da Abav/Pará, reuniu os editores de turismo da cidade e mais alguns amigos, para uma conversa sobre o congresso brasileiro de agências de viagens, que se realizaria no mês seguinte, pelas ruas de Belém – e que foi assunto neste blog, mês passado. Na foto estou eu, Luís Guilherme, Fernando de Castro Jr., David Abud e o também sempre lembrado e querido jornalista Edwaldo Martins.




Escrito por Fernando Jares às 16h14
[] [envie esta mensagem] [ ]



UM ANO SEM PAULO MARTINS

UM LEGADO DE CRIATIVIDADE GASTRONÔMICA


JB-254, P-254, Signo’s Club, Resto’s, Chatinha, Lá em Casa, O Outro, É Prá Levar, Lá Em Cima, P&F, são nomes e siglas que remetem a uma só pessoa, em variados momentos e com variadas parcerias: o chef paraense Paulo Martins, que hoje completa um ano de falecido. Aí em cima, ele nos é apresentado no traço primoroso do JBosco. Seu nome é comumente mais associado ao restaurante Lá em Casa, que fundou há 39 anos com sua mãe, Anna Maria Malcher Martins, mas ele foi um empreendedor nato, paraensista convicto, de corpo e alma. Pode-se também ligar seu nome ao “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, que criou e implantou, com repercussão nacional; ao restaurante do hoje inexistente Iate Clube; a grandes almoços e jantares para milhares de congressistas, sejam estudantes na UFPA ou agentes de viagens; ou um jantar simples para o Papa João Paulo II; festas exclusivas; e, principalmente, com a sua auto-assumida função de divulgar a culinária paraense, com extraordinário sucesso, no país e no exterior – a tal ponto que foi denominado, pela mídia lá de fora, de “embaixador da cozinha paraense”! Isso sem falar em seus trabalhos de arquiteto, espalhados pelas ruas de Belém. Parte desse legado gastronômico está registrado em três livros com receitas e em contribuições esparsas.

Pra quem não conheceu: o JB-254 foi um bar/restaurante, na João Balbi, 254, formalmente de cozinha italiana, mas que tinha sanduíches fantásticos e, salvo engano, foi o berço do “Muçuã de botequim”; a P-254 uma boate lá nesse mesmo endereço; o Signo’s Clube foi uma discoteque única, lindíssima, um marco na noite de Belém, na esquina da Boaventura com a Quintino, onde agora vão fazer um prédio, em um bairro que eu nem sei se podem construir prédio...; o Resto’s um restaurante duplamente autoral, do arquiteto e do chef, que lá colocou toda a sua criatividade nos dois campos – acho que foi lá que vi o Paulo, pela primeira vez, com o uniforme de chef!; o restaurante da Chatinha da Paratur, ancorada na praça Pedro Teixeira, para o qual tive a minha primeira experiência em escrever um cardápio (não se usava descrever pratos, naquele tempo); O Lá em Casa, do qual nada se precisa falar; O Outro, versão mais requintada, com ar condicionado, do primeiro Lá em Casa, com música ao vivo da melhor qualidade (e o jornalista Edwaldo Martins criou logo o “eixo Lá em Casa/O Outro”, onde tudo de bom acontecia); É pra Levar, de comidas prontas ou encomendadas, que se pegava pra levar pra casa; Lá em Cima, ambiente reservado, no andar superior do novo Lá em Casa da Governador José Malcher próximo da praça da República, para eventos e refeições fechadas; P&F, outra experiência muito legal, uma parceria do Paulo com o Fernando Torres: lugar agradável e de pratos criativos. Ainda teve um Pub, no antigo Lá em Casa, acho que antes de O Outro, no mesmo lugar. Fiz um exercício mental para montar esta lista. Faltou alguma coisa?

Como que em homenagem ao Paulo, há em exibição na cidade (cine Líbero Luxardo, Centur) um filme culinário, “Soul Kitchen”, do cineasta alemão Fatih Akin, vencedor no Festival de Veneza 2009. Para ler sobre o filme, clique aqui.

Homenagem bonita ele vai ganhar na CasaCor Pará, no espaço “Cozinha do Chef Paulo Martins” criação dos arquitetos José Eduardo Leão, Hugo Leão e Michel Barbosa, uma cozinha com espaço para aulas de gastronomia, por chefes de destaque, para cerca de 20 pessoas – um espaço como ele gostava, para transmitir seu conhecimento, sua experiência, como ele tantas vezes fez por esse Brasil.

Para ler sobre o Paulo, existem dezenas de posts neste endereço virtual. Aqui estão três, de um ano atrás, em torno da morte desse amigo, a quem admirarei sempre. Para ler o que escrevi no dia de sua morte, clique aqui; para ler “Um mestre dos sabores – Sete dias de Paulo Martins no céu”, clique aqui; e para ler “Obras ou cópias-primas”, com a receita do “Pato do Imperador”, clique aqui.

Aqui abaixo, diretamente da coluna da Vera Castro, no Diário do Pará, de 02/06/1996, fotos da inauguração do P&F.

 



Escrito por Fernando Jares às 17h49
[] [envie esta mensagem] [ ]



CARDÁPIO DO PARÁ EM PORTUGAL

SABORES PARAENSES NA FESTA COIMBRÃ

Coimbra, a multicentenária universidade portuguesa, com mais de 700 anos, realiza este mês o “Congresso Internacional Turismo, Lazer e Cultura. Destinos, Sustentabilidade e Competitividade”, para comemorar o centenário de sua mais nova instituição: a Faculdade de Letras, que abriga a área de humanidades, onde está comunicação, línguas, turismo, etc. Será de 27 (Dia Mundial do Turismo) a 29 de setembro.

No programa terá destaque especial um “Festival Gastronômico da Amazônia Paraense”, academicamente incluído no conceito “A Cozinha do Encontro”, onde o cardápio simboliza, de acordo com seus organizadores, o percurso dos portugueses pelo eixo aquático formado pelo oceano Atlântico e rios Tejo, Pará e Amazonas e rememora o encontro inicial de culturas na costa atlântica paraense.

Duas oficinas gastronômicas ocuparão as manhãs dos dias 27 e 28/09: (1) “Oficina das Origens – O Pão da Terra”, quando o chef Ofir Oliveira fará a demonstração da cadeia produtiva da mandioca, sua importância e de seus subprodutos, na cozinha paraense; (2) “Oficina Sabor Pará: a utilização das matérias primas da Amazônia Paraense na gastronomia” sob o comando do chef Carmelo Procópio Jr. que apresentará dois pratos, uma entrada, “Mojica de gurijuba defumada” e um prato principal, o “Peixe ao molho de arubé”, um filé de filhote em crosta de aviú, sobre refogado de jambu e molho de arubé, que vem a ser um molho “tipo mostarda”, de tucupi.

Haverá degustação, nesses dois dias, em espaço aberto para os participantes do evento, constante de “Farofa de mariscos”, “Caldo de tucupi, jambu e camarão”, “Bolinhos de Piracuí” e de “Frito de Vaqueiro Marajoara”.

O “Congresso Internacional Turismo, Lazer e Cultura. Destinos, Sustentabilidade e Competitividade” será encerrado com um grande “Jantar da Cozinha do Encontro”, onde os dois chefs do Pará, apresentarão um cardápio essencialmente gastronômico, com experimentações criativas sobre os mais expressivos ingredientes locais, sem necessariamente recorrer aos tradicionais “pratos regionais” – é uma tendência na moderna gastronomia internacional – vide o mestre Ferran Adrià. Aqui está a ementa, como se diz por lá:

Petiscos
Pastel com recheio de jambu
Canapés de beiju ao fume de mapará com “ovas” de tucupi
Iscas de pirarucu e molho de ervas aromáticas do Pará
Entrada
Mojica de gurijuba defumada
Prato principal
Retumbão, que vem a ser um refogado de farinha de tapioca, camarão fresco e salgado e ervas aromáticas da Amazônia.
Sobremesa
Mix de creme de Bacuri com geleia de cupuaçu e crocante de beiju com castanha-do-pará
Sorvete de açaí com tapioca
Doce de taperebá com queijo de búfala do Marajó

Sei não, mas os europeus vão ficar doidinhos... São iguarias que só se encontram cá, pelas ruas de Belém e outras cidades paraenses. Eles terão que atravessar o Atlântico para comer novamente essas delícias, porque lá não vão conseguir aviú, gurijuba, arubé, tucupi, jambu... quanto mais tudo isso combinado com ciência e experiência! A escrever, fico a imaginar - não os comensais... mas os manjares! Isso é turismo gastronômico, que precisa ser mais promovido: o Pará tem ingredientes únicos, que ninguém tem no mundo.

O professor Álvaro do Espírito Santo, da UFPA, que faz doutorado em turismo na Universidade de Coimbra – concluiu a primeira parte do curso e foi aprovado em primeiro lugar, como já o tinha sido na qualificação! – é quem está coordenando toda essa parte dos festejos coimbrãos. Leia mais sobre este evento em post anterior, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h02
[] [envie esta mensagem] [ ]



AS INVIÁVEIS QUE SE VIABILIZARAM

ORGULHO DE SER PUBLICITÁRIO PARAENSE

 

Este anúncio aí em cima tem 35 anos (foi publicado na revista Propaganda, agosto, 1976). É a prova de que a audácia paraense pode vencer dificuldades, sendo impulsionada por desafios.

Diz o anúncio no título: “A Mendes era tão inviável em 1961 quanto a Inglaterra em 1941”. O texto: “Esta frase foi dita por Oswaldo Mendes num momento em que contava a história da sua agência. Uma agência que deu certo, assim como a Inglaterra. A alegria da J. W. Thompson na festa de 15 anos de sua correspondente: Mendes Publicidade.”

Hoje a Mendes pertence ao fechadíssimo grupo de apenas 10 agências de publicidade com 50 anos de atividade no Brasil. Completou os cinquentinha ontem, 06/09*. Deixei propositadamente este comentário para hoje, Dia da Independência, porque acho que o trabalho da Mendes, especialmente naqueles tempos pioneiros, heroicos, tem muito a ver com a independência criativa e de produção hoje existente na propaganda paraense. A Mendes sempre foi um centro irradiador de conhecimento, de competência, pelas ruas de Belém. Eu tenho orgulho de ter lá trabalhado (na década de 1970) e recebido a melhor formação que um profissional pode receber. Já disse isso muitas vezes nestas linhas virtuais.

Não tenho a entrevista original que inspirou a JWT no anúncio acima, mas o Mendes contou esse episódio em entrevista ao jornalista Rafael Sampaio, da revista About, na edição de Outubro/Novembro do ano passado:

“Já contei essa história: em 1961, a J. Walter Thompson, a maior agência em funcionamento no Brasil, estudava abrir algumas filiais no País e encomendou um estudo sobre os mercados, um deles o Pará. O estudo concluiu desaconselhando a abertura dessa filial, por falta de mercado. Nós não sabíamos desse estudo e estávamos abrindo a Mendes no mesmo ano. A Thompson tinha um cliente que exigia a sua presença no Pará, Pepsi-Cola, o que levou o seu presidente, Renato Castelo Branco, a visitar a cidade e conhecer a Mendes. Fez um acordo operacional conosco e me revelou a história da pesquisa. A Mendes era tão inviável em 61 quanto a Inglaterra 20 anos antes, fustigada pela Alemanha prestes a invadi-la. Foi o tema de um anúncio da Thompson homenageando a Mendes. Eu costumo dizer que nós reinventamos uma desprestigiada lei econômica, segundo a qual a oferta cria a própria procura.” A entrevista completa está aqui.

Para você ter uma ideia do mercado publicitário local daqueles idos de início da década de 60 do século passado, veja as principais agências de Belém, listadas pelo Anuário de Publicidade de 1960, edição da revista PN (era como que a Exame, da época): ETP – Estúdio Técnico de Publicidade, do sempre lembrado pioneiro José Borges Correa; a Holdridge, do Aldridge Soares, provavelmente a mais antiga agência de Belém; a LM Publicidade, de J. Lassance Maya; a Mercúrio Publicidade, onde também trabalhei, já nos anos 1980, que naqueles tempos tinha como sócios Abílio Couceiro e José Severo de Souza; e a SM Santos Mendes Publicidade, de Oswaldo Mendes e Avelino Henrique dos Santos, fundada em 5 de novembro de 1956, a que apresentava a maior lista de clientes e que viria a dar origem à Mendes, no ano seguinte. A história está contada na entrevista de Oswaldo Mendes no link acima.

Entendo que muito além de ser uma simples empresa, a Mendes Comunicação é uma instituição. Uma instituição que orgulha o Pará, reconhecida no Brasil e no exterior: 671 prêmios, sendo 220 internacionais (dados de janeiro, já deve ser mais que isso).

Este ano conquistou a quinta estrela na sua marca:

 

ADENDO EM 12/09/2011

(*) A Mendes Comunicação decidiu festejar os 50 anos em 12/09, que é data de registro da empresa na Junta Comercial, como me informou Oswaldo Mendes,filho. No entanto, a empresa foi efetivamente fundada e iniciou operações em 06/09/1961, como consta em documentos de datas anteriores, inclusive a revista Propaganda, citada neste post.



Escrito por Fernando Jares às 17h30
[] [envie esta mensagem] [ ]



DULCINÉA, PORCELANA DE LETRAS

A EMOÇÃO NAS PALAVRAS BEM TECIDAS

 “Ao inverso do sonho de Cervantes, a minha Dulcinéa é real. É Paraense”.


Foi com essa frase lá em cima que a professora Lilia Silvestre Chaves encerrou palestra sobre a poeta paraense Dulcinéa Paraense, 93 anos, praticamente agora (re)apresentada à cultura paraoara, dezenas de anos após ter sido considerada nome da primeira linha da literatura paraense. A foto aí em cima eu fiz ontem. Vocês não imaginam a felicidade... Meninas, olhem o vestido dela, eu achei fofinho. É estiloso, é?

A poesia dela é suave, uma fina porcelana de letras, acariciável. Por isso a conferencista, também ela poeta de primeira linha, começou dando um beijo na homenageada, manifestando toda a sua emoção pelo momento: apresentar ao vivo e em público àquela que estuda há anos, um resumo de sua dedicação.

O emocionante no tecimento dos versos por Dulcinéa emociona a todos. Em vídeo-depoimento apresentado no início da conferência, Dulcinéa lê um de seus poemas e... emociona-se! Alguma dúvida de que foi escrito com o coração? Quantas vezes ela se terá emocionado ao longo das últimas décadas, lendo os seus belos poemas? (Talvez também se emocionasse ao pensar em quantas pessoas ela poderia emocionar com aqueles versos, mas não os alcançava mais!) Agora vai emocionar muitos, muitos mais, com o lançamento de seu primeiro livro: uma coletânea de 100 poemas cuidadosamente selecionados por Lília Chaves. Uma garimpagem poética.

Ontem eu tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Dulcinéa. Disse-lhe: “Desculpe-me, poeta, atrasei-me 61,5 anos ao compromisso de conhecer sua obra” e expliquei que somente em 2008 li, pela primeira vez, os seus versos. Ela que, quando eu nasci, já era reconhecida entre nós pelo valor de suas criações. Já contei essa história em posts anteriores. Basta rolar a tela mais para baixo...

Quem esteve na XV Feira Pan-Amazônica do Livro para o seminário “Dulcinéa Paraense e Escritoras do Pará”, ontem (05/09), aprendeu muita coisa sobre a grande homenageada da Feira e sobre Eneida de Morais, Adalcinda Camarão, Maria Lúcia Medeiros e um grande número de outros nomes de nossa literatura, apresentadas além de Lília Chaves, por Iris Lima Barbosa (Adalcinda), Eunice Ferreira dos Santos (Eneida), Maria de Fátima Correa Amador e Lídia Carla Holanda Alcântara (Maria Lúcia) e Amarílis Tupiassú (diversas escritoras de ontem e de hoje).

Ela circulou pela Feira, almoçou lá mesmo. Foi vista e tietada, posou para dezenas de fotos. Conversando aqui e ali, sobre nossas comidinhas disse que as preferidas continuam sendo o pato no tucupi e a maniçoba, mas o açaí tem um lugar especialíssimo nos seus gostares e amares: “se o açaí fosse homem, eu casava com ele”, garantiu. O amor à terra natal, às coisas com que conviveu na infância e na juventude, sobrevive – por toda uma longa vida.

Agora é aguardar o livro, como o vigia espera a aurora... O lançamento será no próximo domingo, 11, às 17h.

Mas, antes, há uma nova janela para ouvirmos mais poemas dela: nesta quinta-feira, 08, às 19h, no Coliseu das Letras, vamos ver e ouvir Dulcinéa dizer seus poemas, com a participação de seus amigos, inclusive com intervenção do nosso grande artista Marton Maués. Dulcinéa foi declamadora muito conceituada em sua juventude aqui pelas ruas de Belém, mas “perdeu a voz” em uma praia no Recife, onde ficou excessivo tempo por um acidente de transporte. Certa feita o grande Max Martins, que a conheceu na juventude, disse à professora Amarílis Tupiassú, que ela era “uma declamadora maravilhosa”.

Fizeram esta foto da nossa Dulcinéa, da prof. Lília Chaves e este escriba. Não resisto em publicá-la... obrigado poeta, por deixar-se tietar... obrigado a quem fez o clique na minha máquina!

 



Escrito por Fernando Jares às 20h17
[] [envie esta mensagem] [ ]



O DIA DE DULCINÉA

VAMOS OUVIR SOBRE A POETA

Descrição: XVFeiraDulcineaJovemHoje é o Dia de Dulcinéa. Não, esta é a Dezena da Dulcinéa Paraense! A Feira do Livro da escritora, jornalista, poeta, declamadora, compositora, cantora parauara Dulcinéa Paraense, resgatada pela cultura deste Estado aos 93 anininhos. Viva e ativa, presente.

A XV Feira Pan-Amazônica do Livro vive hoje o seminário “Dulcinéa Paraense e Escritoras do Pará”, começando pela conferência “Dulcinéa – Flor revelada”, proferida pela crítica literária, pesquisadora – e também excelente poeta – Lilia Silvestre Chaves, com mediação de Melissa Alencar.  Ao longo do dia ouviremos ainda Iris Lima Barbosa (sobre Adalcinda Camarão), Eunice Ferreira dos Santos (Eneida de Moraes), Maria de Fátima Correa Amador e Lídia Carla Holanda Alcântara (Maria Lúcia Medeiros) e Amarílis Tupiassu, sobre as mulheres escritoras do Pará.

Mas ainda tem muita coisa, especialmente o lançamento do livro com a obra dessa poeta de obra esparsa por revistas, jornais, pelo mundo da literatura. Mas não em livro: este é o primeiro. O lançamento será no dia 11/09

Nascida e formada aqui pelas ruas de Belém, ela tem frequentado este blog, desde que a “descobri”, graças à professora Amarílis Tupiassu. Para ler “A Dulcinéia Paraense”, clique aqui e conheça dois poemas de Dulcinéa. Para saber sobre “O lado musical de Dulcinéa”, clique aqui. Em ambos, links para crônicas de Amarílis Tupiassu.

Aqui embaixo, mais poesia de Dulcinéa, direto da revista A Semana, que captei do blog “Linguagens”, do escritor bragantino João Jorge dos Reis. Para ler mais, basta clicar aqui.

 



Escrito por Fernando Jares às 10h15
[] [envie esta mensagem] [ ]



DIAS DE IMERSÃO CULTURAL

HOJE É DIA DE FEIRA!

Aliás, hoje e os próximos 10 dias. Chegou a XV Feira Pan-Amazônica do Livro, um megaevento que para esta temporada coloca no Hangar cerca de 600 expositores em 200 estandes, com mais de 85 mil títulos. Não bastasse isso, que é a essência da Feira, há uma fantástica programação educacional e cultural, com mais de 400 atividades! Isso mesmo, entre palestras, encontros, mesas-redondas, filmes, shows, atividades interativas, atividades infantis, são 400 eventos que acontecem nesses dias. Hoje, por exemplo, a Amazônia Jazz Band faz uma apresentação em que mostra grandes clássicos da música italiana: a Itália é o país homenageado.

Mas o ponto alto da Feira deste ano é o resgate histórico-literário que ela faz ao homenagear a escritora Dulcinéa Paraense. Trata-se de um grande nome aqui nascido e desenvolvido intelectualmente – estudou no Paes de Carvalho, formou-se em Direito, foi jornalista, professora, poeta, cantora – apresentou-se até no Theatro da Paz! Poetou bonito e tinha espaço nas mais importantes publicações locais da época. Depois, nos anos 1940, foi embora em busca de novos espaços, sempre ativa, produtiva. E assim continua até hoje, nos seus 93 anos. E assim participa desta Feira, onde ganha seminário (na segunda) e lançamento de seu primeiro livro, que reúne sua imensa obra esparsa em um sem-número de publicações. Já contei como foi feita a escolha do nome de Dulcinéa, com participação do nosso filósofo maior, Benedito Nunes, este ano falecido. Para relembrar basta clicar aqui.

E deixa eu contar uma coisa: descobri um ninho de trabalhos dessa artista multifacetada! Esta no blog “Linguagens”, do escritor bragantino João Jorge dos Reis. Tem produção publicada em Terra Imatura, A Semana, tem até manuscritos! Para você ir até lá basta clicar aqui. Mas veja logo uma página da revista A Semana, de 27 de maio de 1939, esta revista circulou muitos anos pelas ruas de Belém, com informações sobre sociedade, política, esportes e muita literatura:

 

UFPA - Durante a Feira acontecem outros lançamentos importantíssimos, como os previstos pela Editora da UFPA, cujo estande tem inauguração neste sábado (03/09), com a apresentação dos três primeiros volumes da coleção “Diálogos”, de Platão, em edição bilíngue: “O Banquete”, “Fédon” e “Fedro”. A coleção teve a coordenação de Benedito Nunes e Victor Sales Pinheiro. A UFPA programou nove lançamentos, praticamente um por dia (exceção apenas para o 7 de setembro), sendo que oito deles são da própria UFPA e um da USP. São preciosidades que tratam desde a presença dos pioneiros italianos na região, crítica e literatura, educação à distância na UFPA, estudos do comportamento até “Os escritos de Giovanni Angelo Brunelli (1722-1804), astrônomo da comissão demarcadora de limites, sobre a Amazônia Brasileira”, que deve ser uma obra muito interessante. Imagino aquele cientista, acostumado a ver a imensidão do universo, a ver a imensidão da floresta e dos rios amazônicos, há 200 anos...

DALCÍDIO - Outro lançamento importantíssimo é a nova edição de “Chove nos campos de Cachoeira”, em comemoração aos 70 anos da obra, há muitos anos fora das livrarias. E esta edição vem com um trato de primeiríssima, dado pela professora Rosa Assis, da Universidade da Amazônia, sem dúvida a mais importante especialista na obra de Dalcídio – o nosso maior romancista. (Pena que os senhores vereadores de Belém não saibam disso, tanto que trocaram o nome da avenida que o homenageava pelo centenário de uma igreja protestante. Sintoma de indigência cultural?). Rosa Assis fez “um trabalho cuidadoso de cotejo e crítica genética do texto da primeira edição, de 1941” afirma a professora Célia Jacob, da Unama, pois comparou as edições conhecidas com anotações do próprio autor em um exemplar dessa primeira edição.

PROGRAMAÇÃO – Para que você saiba tudo que está no programa da Feira, encontrei um trabalho muito legal no blog “Festa Belém”. Está tudo arrumadinho, com link para o respectivo dia. Você pode ir até lá clicando aqui, ou clicando abaixo, conforme cada dia.

Sábado 03/09http://bit.ly/feiradolivrodia03

Domingo 04/09http://bit.ly/feiradolivrodia04

Segunda 05/09http://bit.ly/feiradolivrodia05

Terça 06/09http://bit.ly/feiradolivrodia06

Quarta 07/09: http://bit.ly/feiradolivrodia07

Quinta 08/09http://bit.ly/feiradolivrodia08

Sexta 09/09: http://bit.ly/feiradolivrodia09

Sábado 10/09http://bit.ly/feiradolivrodia10

Domingo 11/09http://bit.ly/feiradolivrodia11



Escrito por Fernando Jares às 17h30
[] [envie esta mensagem] [ ]



A GUERRA DOS NEURÔNIOS

SOBRE CERTO GRANDE ACONTECIMENTO NA PROPAGANDA

Estou brigando com a tela em branco de meu monitor faz um tempão. Já escrevi um sem número de frases, já deletei tudo, não sei quantas vezes. É um debate entre os neurônios, ou melhor, um embate entre eles. Tudo que escrevo é logo condenado por outro lado do cérebro e lá vai a ideia jogada pela janela do pensamento. Essa confusão toda é para escrever um texto sobre um grande acontecimento da propaganda paraense. Mas grande mesmo, grandão. Um momento histórico de verdade pelas ruas de Belém.

Começa hoje o mês de aniversário de fundação da Mendes Publicidade, que recentemente passou a ser Mendes Comunicação. No dia 6/9 completa 50 aninhos, com corpinho de adolescente e a cabeça desafiante dos jovens. Mas a matriz pensante continua a mesma desde aquele audacioso 1961, embora atualizada, modernizada, repaginada, revitalizada a cada dia, em link permanente com a comunicação mais atual, mais objetiva, mais resultativa. Essa matriz pensante se chama Oswaldo Mendes.

Vou fazer o seguinte: ceder este espaço ao jornalista Armando Ferrentini, o decano dos colunistas de propaganda do Brasil, que há muitos anos comanda a Editora Referência, que edita as revistas Propaganda e Marketing e o jornal Promark – Propaganda e Marketing. Ferrentini é praticamente o inventor do colunismo publicitário no Brasil e do Prêmio Colunistas, um dos mais respeitados reconhecimentos à competência na propaganda brasileira nas últimas décadas. Pois bem, ele escreveu um editorial na revista Propaganda de agosto que é juntíssima homenagem às conquistas da Mendes e do Mendes:


O texto do Ferrentini é este:

Há outra agência, bem distante de São Paulo, que merece todo reconhecimento do mercado, neste momento em que está prestes a comemorar (em setembro) 50 anos de atividades ininterruptas.
Trata-se da Mendes Publicidade, de Belém do Pará, que ensinou o mercado local a melhor conhecer o ferramental publicitário.
Para muitos empresários da região, a Mendes foi sua escola de propaganda, pela qual aprenderam a agregar o valor e a importância da (boa) comunicação aos seus negócios.
A figura humana de Oswaldo Mendes – fundador da agência e seu presidente até hoje – é cativante. Além da sua competência dirigindo por cinco décadas a Mendes (e o leitor pode compreender o que isso representa em uma região distante do Sudeste e do Sul do país), “sêo” Oswaldo é daqueles sujeitos que você conhece e quer prosseguir com a amizade, certo de que isso lhe fortalecerá o espírito.
Oswaldo Mendes é um dos meus tipos inesquecíveis.

Aí só me ocorre escrever: “assino embaixo”, com muito carinho, reconhecimento e agradecimento. E uma raiva danada do Ferrentini ter escrito isso antes. Sei que tem neurônio dando cacetada aqui na cachola por causa do clichezíssimo “assino embaixo”. Acho que foi o coração que mandou escrever – e que se danem os racionais neurônios!

Essa história de que “Oswaldo é daqueles sujeitos que você conhece e quer prosseguir com a amizade, certo de que isso lhe fortalecerá o espírito” é Bingo!, foi demais. Perfeita descrição.

Conheço a Mendes por dentro, de relacionamento, nos últimos 41 anos – antes já havia um namoro unilateral, à distância, platônico, dizia-se. Trabalhei lá 8,5 anos, nos 1970. Já contei essa história nestas linhas virtuais. Pelos 80 anos de Oswaldo Mendes escrevi “Ao mestre da comunicação, carinho”, que você pode ler clicando aqui.

Parabéns para essa equipe que trabalha firme por uma comunicação em altíssimo nível, que é um dos bons motivos para a gente ter orgulho de ser paraense.



Escrito por Fernando Jares às 20h19
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]