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BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



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PELAS RUAS DE BELÉM


UM BONDE CHAMADO PERIGO?

ARMADILHAS DE UMA CIDADE MARAVILHOSA

Quem sofre um acidente grave, em uma cidade distante, tem um monte de problemas, que se juntam a todo o padecimento pelo acidente em si. Cinco jovens psicólogas paraenses viveram essa desagradável experiência no último sábado (20/08), quando faziam um passeio no conhecido bondinho de Santa Tereza, que circula no bairro da Lapa, Rio de Janeiro. Elas estavam na – quase ironicamente – chamada Cidade Maravilhosa para participar de um congresso de psicologia, a começar na segunda-feira (29/08), onde até apresentariam trabalhos científicos.

Como se sabe, cinco pessoas morreram e todos os demais 54 passageiros sofreram lesões, das mais simples às muito graves. Três dessas jovens do Pará já puderam vir para Belém e duas ainda permanecem internadas no Rio, sofrendo inclusive cirurgias de porte.

“Uma cidade como o Rio de Janeiro, que recebe o maior número de turistas do Brasil, não tem quem avise a família, ou para dar um apoio, perguntar onde essa pessoa vai ficar. Não tem nada disso! É um absurdo!” disse, em entrevista à TV Liberal, o arquiteto Raul Ventura, marido de uma das vítimas, Ingrid Ventura, que sofreu diversas fraturas. É justa a surpresa/reclamação: o Rio pretende receber ainda muito mais turistas, com a Copa do Mundo e a Olimpíada, mas confirma assim sua decantada falta de preparo e infraestrutura para essa empreitada. Veja a reportagem sobre as paraenses vítimas desse acidente no “Jornal Liberal 2ª Edição”, da TV Liberal, edição de ontem, 30/08, clicando aqui.

Ingrid foi assunto aqui pelas ruas de Belém, recentemente, no postClarice Lispector revisitada, rediviva” em que mostrei primoroso estudo do fotógrafo Bob Menezes, sobre a escritora famosa: Ingrid é a modelo no ensaio. Veja, clicando aqui.

Raul pretende responsabilizar a autoridade carioca pelo acidente que, ao que vai ficando cada vez mais claro, tem muita culpa (ou dolo...) na história. Leia entrevista do Raul ao jornal Diário do Pará, clicando aqui. A preocupação de Raul foi também assunto da Veja Online: leia aqui. Apoiemos sua causa, entremos nesta luta. Eu apoio. É preciso mais responsabilidade por quem cuida das coisas públicas e para o público. Gente que é paga para isso. Gente que é eleita para isso. Trabalhar a coisa pública não pode ser uma "farra irresponsável" como parecem alguns pensar - e agir assim...

O secretário de Transportes do Rio tem sido enfático sobre a “manutenção rigorosa” dos bondinhos. Há quem discorde, inclusive no governo do Rio (leia aqui). Mas, a considerar que acreditemos nas palavras de sua excelência, ditas com veemência na matéria exibida pela Liberal, estará o pessoal habilitado e consciente da responsabilidade em dirigir um veículo, ademais, coletivo? Afirma-se que a viatura foi batida, horas antes, por um ônibus, mas teria sido liberada pelo próprio motorneiro... Um vídeo postado ontem (30/08) no Blog do Noblat, do jornalista Ricardo Noblat, de O Globo, mostra uma surpreendente corrida do bondinho de Santa Tereza na contramão (!), digna de certo tipo de filmes de aventura. Só que não era ficção, era realidade, em pleno Rio de Janeiro. Para ir ao Blog do Noblat, clique aqui. O vídeo é este:

 



Escrito por Fernando Jares às 22h18
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OS COBRÕES DOS LIVROS EM BELÉM

O BOM VENENO DA COBRA GRANDE NA GRANDE FEIRA DE LIVROS


O Pará contemporâneo vai finalmente conhecer uma de suas personalidades literárias mais longevas e ativas: Dulcinéa Paraense. A escritora, quase mitológica, nascida em um distante janeiro de 1918, estará pessoalmente na XV Feira Pan-Amazônica do Livro!

Dulcinéa será a escritora homenageada da Feira, tem um espaço com o nome dela, participa do debate sobre sua obra no dia 05, no Coliseu das Letras. Mas o principal acontece no dia 11/09: o lançamento de um livro com a sua obra poética, até hoje esparsa em inúmeras publicações ao longo de já quase um século. Ela começou a produzir muito jovem. Formada em Direito, foi professora, jornalista, cantora lírica, declamadora e, muito especialmente, poeta (ou poetisa) e até autora de letras para músicas.

Dulcinéa já foi assunto aqui pelas ruas de Belém, inclusive com a publicação algumas de suas belas poesias. Sou fã explícito do pouco trabalho dela que conheço. Para ler “A Dulcinéia Paraense”, clique aqui e conheça dois poemas de Dulcinéa. Para saber sobre “O lado musical de Dulcinéa”, clique aqui. Em ambos, links para crônicas de Amarílis Tupiassu. Quando repercuti aqui a notícia da escolha de seu nome para ser a Escritora Homenageada na Feira do Livro, publiquei mais um poema de Dulcinéa: clique aqui para ler “Resgate de uma grande autora paraense”.

O seminário “Dulcinéa Paraense e Escritoras do Pará” será realizado no dia 5/9, começando (às 10h30) com o documentário “Dulcinéa Paraense – a flor da pele”, seguido pela conferência “Dulcinéa – Flor revelada”, proferida pela crítica literária, pesquisadora – e também excelente poeta – Lilia Silvestre Chaves, com mediação de Melissa Alencar. Ao longo do dia ouviremos ainda Iris Lima Barbosa (sobre Adalcinda Camarão), Eunice Ferreira dos Santos (Eneida de Moraes), Maria de Fátima Correa Amador e Lídia Carla Holanda Alcântara (Maria Lúcia Medeiros) e Amarílis Tupiassu, sobre as mulheres escritoras do Pará. Leia sobre este evento clicando aqui, no sítio eletrônico da Feira.

No dizer do Secretário de Cultura, Paulo Chaves, agora “o livro volta a ser o ator principal” da Feira. Com isso a expectativa de que tenhamos, novamente, o grande espetáculo da cultura impressa no Hangar.

As inscrições para os eventos devem ser feitas no site da Angel Eventos (clique aqui e faça cadastro), que volta a ser responsável pelo gerenciamento das atividades científicas da Feira como palestras, seminários, cursos, etc. Empresa paraense que tem experiência no ramo.

Para saber tudo sobre a XV Feira Pan-Amazônica do Livro, clique aqui.

Veja abaixo o comercial criado pela Galvão Comunicação para a Feira, com a cobra grande em ação:

 



Escrito por Fernando Jares às 20h39
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OS MELHORES RESTAURANTES DE BELÉM

UM BALANÇO DE 25 ANOS: 1986/2011

No XIV Congresso Brasileiro de Agências de Viagens, em Belém, em agosto de 1986, assuntos dos posts imediatamente anteriores (para ler, clique aqui e aqui) a cidade de São Paulo aproveitou, promocionalmente, a fama de ser uma das cidades onde melhor se come no mundo. Fez uma promoção onde selecionou e diplomou os melhores restaurantes em funcionamento pelas ruas de Belém. Para essa seleção ouviu alguns habitués dos restaurantes locais, como o jornalista Edwaldo Martins. O diploma recomendava o restaurante aos participantes do encontro da Abav “afinal, de gastronomia nós entendemos...” afirmava a Secretaria de Turismo de SP.

Os que receberam o diploma foram:

1900 e Terrace Grill (do Equatorial Palace Hotel), Assembeia Paraense, Augustus, Avenida, Carvalho’s, Churrascaria na Brasa, Círculo Militar, Iate Clube, Lá em Casa, Le Gaulois, Lun Chan, Miako, O Outro, O Theatro e Açaí (do Hilton Belém), Pizzaria Bella Sicilia, Roxy.

Na foto abaixo, publicada no suplemento sobre o congresso Abav que editei em A Província do Pará, a premiação dos restaurantes do Hilton Belém: o gerente geral do hotel, Johannes Trenkle, ao centro, recebe os diplomas do secretário de Turismo de São Paulo, Caio Luís de Carvalho (depois chegou a ser presidente da Embratur) e de Edna Nóbrega, também da Secretaria paulista (que, anteriormente, fora presidente da Paratur).


A premiação por São Paulo deu frutos. Logo no ano seguinte a ADVB/Pará (Ass. dos Dirigentes de Vendas do Brasil, hoje Ass. dos Dirigentes de Marketing do Brasil), com apoio do Sindicato dos Restaurantes, criou a seleção dos “Restaurantes Recomendados” em Belém, considerando o fato dos homens de vendas frequentarem bastante os restaurantes, não apenas de suas cidades, mas a quando de suas muitas vezes constantes viagens. A primeira lista saiu em outubro de 1987:

Açaí, Avenida, Augustus, Cantina Italiana, Carvalho's, Círculo Militar, Fundo de Kintal, Germânia, Izumo, JB-254, Lá em Casa, Lun-Chan, Miako, 1900, O Caranguejão, O Casarão, Okada, O Outro, O Pato de Ouro, O Theatro, Rodeio, Roxy Bar.

Leia sobre como nasceu a promoção, clicando aqui.

Os recomendados recebiam diploma e adesivo. Na foto abaixo o presidente da ADVB/Pará, Mauro Bonna, hoje jornalista titular de espaço no Diário do Pará e TV RBA, entrega a Janjo Proença o certificado do Roxy Bar, aparecendo ainda na foto outros dirigentes da ADVB: Janete Souza, Joacyr Rocha e Roberto Russel.

 

Para a entrega dos prêmios a ADVB/Pará criou um festival gastronômico, em que cada um dos destacados apresentava um prato, servido em porções para os convidados. Tornou-se um evento de sucesso na cidade, convite disputado...

O primeiro deles, em 1988, foi extraordinário. Aconteceu no Gemini Special, ambiente muito especial do Gemini, que ficava na BR. Na coluna “Pró-Turismo”, em A Província do Pará, em 10 de janeiro, descrevi assim os pratos apresentados:

Do sabor completo do pato-no-tucupi do Lá em Casa à sofisticação de uma "paella" do Açaí, passando pelo requintado Frango à Perdiz do 1900, do Equatorial, até chegar à variedade dos caranguejos do Caranguejão. E mais os jovens pratos do Roxy Bar e as massas perfeitas do JB-254. Icoaracy brilhou especialmente nesta noite, mostrando que é hoje um dos pólos da "religião de comer bem" exercida pelo paraense, de que fala Leandro Tocantins: lá estavam o Carvalho's com seu Cuxixo de Mariscos, o Fundo de Kintal, com Camarão à Delicia e o Casarão, com o Camarão de Casaca. O Outro inaugurou um prato, que mereceu mui­tos elogios, Peixe à O Outro, e O Theatro mostrou o seu Filé Café de Paris, enquanto o Augustus compareceu com um camarão especial, à Marinheiro. O Pato Cozido ao Molho Chinês do Lun Chun foi atração exótica, ao lado do Buffet Variado da Culinária Alemã do Germânia (que levou até um autêntico vinho alemão). Quem, nesse festival todo, estava de dieta, apelou para as carnes mais magras do Churrasco Variado da Rodeio.

Além dos citados, seis não compareceram à festa, “demonstrando não prestigiar quem os havia prestigiado”...

Outro festival que entrou para a história desta promoção foi o de 1993, no hoje extinto Iate Clube do Pará. Uma das atrações foi o estande do Lá em Casa, onde o chef Paulo Martins armou a maior brincadeira: uma autêntica “sopa de pedra”. Em grande caldeirão estava uma sopa que, garantia Paulo, tinha como base uma pedra, amarrada e pendurada, dentro do tal panelão... O que a pedra tinha a ver com a receita, até hoje não sei. Só lembro que a sopa era ótima e, acho, a pedra, uma lenda... Olha aqui a família Martins mais a Nazaré e o Fernando Torres e o Altair Vieira, em foto que publiquei na época:

 

Infelizmente, pelo meio dos anos 1990 a promoção foi descontinuada pela ADVB/Pará.

Hoje quem indica os melhores restaurantes da cidade é a publicação anual da revista Veja “Belém, comer e beber”. Das 127 casas listadas, um júri, sempre polêmico, como tendem a ser os júris e, em especial, os deste tipo, onde faltam critérios objetivos para decisão, apontou os seguintes como os melhores restaurantes de Belém, em 2011:

Brasileirinho – Melhor brasileiro; Picanha & Cia. – Melhor carne; La Traviata – Melhor italiano; Sushi Ruy Barbosa – Melhor oriental; Lá em Casa – Melhor pato no tucupi; Pizzaria Vitória – Melhor pizzaria; Manjar das Garças – Melhor variado; Pomme D’Or – Melhor bom e barato.

A definição das categorias ficou meio estranha: não tem peixarias, numa terra de tantos rios e peixes incríveis; não tem uma categoria regional paraense, numa terra que tem a mais autenticamente nacional das cozinhas brasileiras. Além de algumas inconsistências editoriais do tipo: nas indicações “onde encontrar”, ao apresentar o pato no tucupi, não cita o Lá em Casa, justo o vencedor nessa categoria... Mas isso é outra história.



Escrito por Fernando Jares às 20h19
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A PERFEIÇÃO DE UM GRANDE JANTAR

A CULINÁRIA COMO FERRAMENTA DE PROMOÇÃO TURÍSTICA

O jantar de abertura do XIV Congresso da Abav reabilitou o conceito dos jantares oficiais de abertura desses encontros”. A frase foi dita por Rômulo Nunes, presidente da Emamtur (Amazonas) ao governador Jader Barbalho diante da perfeita organização do gigantesco jantar. Assim está registrado no suplemento “Abav Belém 86”, de A Província do Pará, de 23/08/1986.

Realmente foi um acontecimento. “Durante muitos anos esse jantar era referência entre os agentes de viagens do Brasil, como um acontecimento perfeito”, disse-me ontem David Abud, responsável pela organização do XIV Congresso Brasileiro de Agências de Viagens, realizado em Belém há 25 anos. Registre-se que os últimos “jantares de abertura” tinham apresentado sérios problemas, especialmente no congresso do ano anterior (1985), em Belo Horizonte. Sobre o Abav/86, leia o post "1986: um evento surpreendente", clicando aqui.

O jantar foi planejado para ser um cartão de apresentação aos visitantes, uma ferramenta para promover a melhor cozinha paraense, em um contexto de serviço correto e agradável. Para ser, efetivamente um momento de promoção da imagem do Pará, chamando a atenção daquela multidão de profissionais do turismo sobre o variado produto turístico paraense e sua qualidade. A tarefa de montar e executar o evento foi confiada a Anna Maria e Paulo Martins, do restaurante “Lá em Casa”.

O jantar teve lugar na novíssima sede campestre da AABB, um espaço amplo, bonito e bem cuidado. Cada um dos presentes, a grande maioria de outros Estados e do exterior, recebeu um cardápio que não apenas relacionava os pratos disponíveis, mas explicava um a um: pato no tucupi, maniçoba, mojica paraense de mariscos, caruru paraense, pirarucu com salada de feijão, pirarucu no leite de coco, farofa de pirarucu, pescada de forno, tacacá, rosbife à jardineira (para respeitar os que não querem nem provar pratos regionais – parece incrível, mas eles existem! E resistem!). A sobremesa teve sorvetes de frutas regionais e os fantásticos “docinhos de Anna Maria”, que eram uma das mais queridas atrações do restaurante de Anna Maria Martins (estou sentindo o gosto daqueles papos de anjo!).

Atender aos mais de 2.500 convidados exigiu uma “operação de guerra”, para tudo sair perfeito. O serviço tinha 12 buffets estrategicamente distribuídos pelo terreno do clube, de forma a não criar aglomerações nem filas. O atendimento e distribuição de bebidas foi garantido por um “batalhão” de 125 garçons, vestidos com camisas com desenhos marajoaras, criadas para o evento.

Nos buffets todos os pratos eram identificados com etiquetas para orientação na escolha. A despeito das quantidades, tudo estava delicioso, justificando plenamente o consumo de 275 patos, 150 quilos de pirarucu, 320 quilos de pescada amarela, 750 litros de tucupi, 750 maços de jambu e muitos outros itens, digamos, menos votados...

O encerramento da matéria da Província, que teve o título “A perfeição de um grande jantar”, afirmava que “na preparação, na decoração dos buffets e, principalmente, na qualidade da comida apresentada, o jantar de abertura do Congresso Abav foi uma verdadeira obra de arte culinária e do bem servir”. Com certeza alcançou plenamente o objetivo de atuar como recurso para promover o turismo do Pará – se faltaram ou não ações mercadológicas após o congresso, para materializar produtos, pacotes, para estimular vendas e captar turistas, é uma outra história.

Na foto, tal e qual foi publicada naquela oportunidade, com legenda e tudo, o antigo restaurante “Lá em Casa”, em sua primeira versão, que funcionava no porão do Solar dos Malcher, na av. Governador José Malcher, com o tradicional luminoso do uísque “Royal Label”, que por tantos anos anunciou a casa. Obs.: a legenda cita uma "escolha da Secretaria de Turismo de São Paulo". É que essa secretaria, na época dirigida por Caio Luís de Carvalho, elegeu os melhores restaurantes da cidade, para recomendá-los aos paulistanos. E o "Lá em Casa" foi um deles.

 



Escrito por Fernando Jares às 15h25
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TURISMO PROFISSIONAL EM BELÉM

1986: UM EVENTO SURPREENDENTE!


A manchete principal da capa do Panrotas diário, no dia seguinte à abertura do XIV Congresso Brasileiro de Agências de Viagens, realizado em Belém de 19 a 23 de agosto de 1986, há exatos 25 anos, reflete o pensamento da grande maioria dos cerca de 6 mil profissionais de turismo, de todo o Brasil e do exterior, que “tomavam” a cidade. Trazer o evento para Belém tinha sido uma audácia, uma aventura de alto risco dos agentes de viagens. O Centur era apenas uma expectativa: havia um velho e duradouro esqueleto. Mas o governo do Estado garantira que o concluiria. E concluiu: foi inaugurado dois meses antes, em 27 de junho. Motéis, barcos, casas alugadas, residências, completaram o déficit de hospedagem não coberto pela rede hoteleira. Quem veio, achou surpreendente, mas quem trabalhou nele, quem o divulgou intensamente, quem muito suou pela sua realização, tinha certeza de que ia ser um sucesso. E tudo correu muito bem. A cidade foi preparada para receber as pessoas. Os meios de comunicação transmitiam mensagens de boas-vindas e estímulo ao bom acolhimento pelas ruas de Belém, mostrando a importância do turismo para o Estado. Não foi registrado nenhum caso de violência, tipo assalto, com os visitantes.

Lutamos muito para conseguir a chance de mostrar Belém, linda como é, ao Brasil inteiro, aqui representado pelos especialistas em turismo. Mas a luta valeu e a recompensa está aqui espelhada pelos milhares de participantes do congresso, na maior feira da história da ABAV, nas soluções que surgirão à sombra dos debates que acontecerão nestes dias, nos negócios que serão iniciados ou fechados entre os companheiros do turismo nacional e internacional. O País vive um momento de busca de novos caminhos que nos levarão ao pleno desenvolvimento econômico e social, com o bem-estar de todos os brasileiros sendo a meta e o principal ideal procurado”, disse David Abud, o presidente da Abav-Pará, a Associação Brasileira de Agentes de Viagens, que comandou a organização do evento, (discurso de abertura).

David mobilizou muita gente. Fiz 15 sugestões de tema para o congresso sendo escolhido este: "Turismo: Paz, Força Econômica e Conquista Social". Walter Rocha, diretor de arte da Mercúrio Publicidade, criou a logomarca do congresso e Exposição de Turismo. As aprovações foram pela Abav local e Abav nacional.

 

Porque soube dizer aos agentes de viagens exatamente aquilo que eles queriam ouvir, o governador Jader Barbalho acabou por se transformar na grande estrela da noite de abertura do congresso, escrevi eu no suplemento “Belém Abav 86” que circulou junto à edição de A Província do Pará de 22 de agosto – com 24 páginas em dois cadernos.

Jader manifestou solidariedade aos pleitos e reclamos dos agentes, manifestados durante os discursos dos líderes da categoria empresarial, chegando mesmo a criticar algumas medidas do governo Sarney (do mesmo partido) no desenvolvimento do Plano Cruzado, que na época comandava a economia nacional. “O Pará é o Estado mais viável da Federação brasileira” afirmou ele, ao apresentar um perfil econômico, social e político do Estado.

 O suplemento circulou não apenas junto ao jornal, mas 2 mil exemplares extras foram impressos e distribuídos aos congressistas e expositores por umas belas “jornaleiras”, divulgando o produto turístico local. Na pauta, acontecimentos que marcaram o congresso, a culinária paraense, a rede hoteleira, as atrações paraenses, os muitos círios, e um magnífico texto de Edwaldo Martins, “Roteiro para se amar Belém, acordando-se no Ver-o-Peso” e uma grande cobertura fotográfica dos profissionais do turismo nos eventos e, especialmente, na grande Exposição de Turismo. A foto abaixo, do dia da abertura da feira, reúne David Abud, presidente da Abav-Pará, Roberto Jares Martins, diretor superintendente de A Província do Pará, Modesto Mastrorosa, presidente da Abav-Nacional, Rubens Onetti, diretor comercial da Província e Luiz Âmbar, RP da Abav-Nacional.

 

 A alta cúpula do turismo nacional esteve em Belém, a partir do presidente da Embratur, João Dória Jr., que está na foto abaixo, ladeado por este escriba, editor de turismo de A Província do Pará, e pelo diretor de marketing da Embratur, José Humberto Affonseca Sobrinho. A equipe da Embratur veio em peso a Belém. Entre as autoridades presentes, esteve aqui o jovem prefeito de Natal, Garibaldi Alves Filho – hoje ministro da previdência de Dilma Rousseff. No ano seguinte o congresso/exposição de turismo foi em Natal e ele veio divulgar a cidade.


Houve grande envolvimento do chamado trade turístico. Todos souberam aproveitar a oportunidade para promover seus produtos – não apenas locais, mas nacionais e internacionais, pois mais de uma centena de expositores ocupavam a grande feira que chegou até ao espaço da garagem do Centur. O Equatorial Palace Hotel, por exemplo, reuniu os principais operadores nacionais em um requintado jantar no restaurante “1900” e ofereceu um brinde precioso: álbuns com gravuras de Belém, trabalho do primoroso e sempre lembrado artista plástico Benedicto Mello. Numerados e assinados pelo autor, os álbuns foram editados em reduzida série de apenas 100 exemplares. Tive a felicidade de fazer a descrição de cada aspecto retratado pelo artista. Na foto abaixo, o comendador Joaquim Marques dos Reis, fundador e titular do Equatorial/Lusotur entrega um exemplar a Modesto Mastrorosa, presidente nacional da Abav, sob os olhares do jornalista e relações públicas Edwaldo Martins, que foi o mestre de cerimônias do refinado encontro.


O governo do Pará deu efetivo apoio ao evento e o presidente da Paratur, o jornalista e historiador Carlos Rocque era figura marcante em todos os momentos. No estande da empresa, tinha uma banquinha de tacacá que foi o maior sucesso. Para a imprensa especializada, nacional e do exterior, bem mais de uma centena de jornalistas, a Paratur ofereceu um jantar no Belém Hilton e é de lá a foto abaixo, quando Rocque falava aos seus convidados, tendo na mão um legítimo charuto cubano, que foi um dos hits do Abav/86, trazido pela delegação da ilha de Fidel, novidade em eventos deste tipo no Brasil, que saia de um regime militar.


Foi um momento de afirmação do profissionalismo do turismo em Belém, por agentes, hoteleiros, transportadores, restaurantes, fornecedores de todo tipo, imprensa especializada – os três jornais diários fizeram suplementos especiais sobre o congresso Abav/86 e grande cobertura. A Província tinha uma página diária dedicada às palestras, debates e à incrível movimentação na Exposição de Turismo.

Este ano acontece o 39º Congresso Brasileiro de Agências de Viagens e Feira das Américas - ABAV 2011, considerado o maior evento de turismo do continente, que será realizado de 19 a 21 de outubro, no Riocentro, Rio de Janeiro. O tema escolhido, “O Brasil Bem Sucedido: Oportunidades e Novas Atitudes para o Turismo”, mostra que o país evoluiu, mas o turismo continua a procurar afirmar-se como força econômica e social, mensageira de paz entre os homens, como já pregava naquele distante 1986.



Escrito por Fernando Jares às 19h13
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LETRAMENTO E EDUCAÇÃO

OS MÁGICOS SINAIS DOS FONEMAS NA AMAZÔNIA


Já tem data o XVII Fórum Paraense de Letras, um dos mais importantes acontecimentos da cultura paraense, realizado anualmente pela Unama Universidade da Amazônia. Será de 20 a 22 de setembro.

O tema para este ano é

LETRAMENTO E EDUCAÇÃO

todos os fonemas são mágicos sinais...

Baseia-se no poema “Canção Para Os Fonemas Da Alegria do mestre dos mágicos sinais dos fonemas, Thiago de Mello, Poeta da Amazônia, dedicado a Paulo Freire, criador de um fantástico método de alfabetização e conscientização política. O poema foi escrito em 1964, no exílio do poeta, em Santiago do Chile. Leia este trecho:

(...)
e descobrir que todos os fonemas são
mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis girando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão ...
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal, descobre, num clarão,
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas um modo de amar - e de ajudar
o mundo a ser melhor
(...)
Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

Os girassóis pulam do poema, constelação de fonemas, pela criação de Vincent van Gogh, que isola belo exemplar no quadro acima: “Girassóis”, 1888, para ser símbolo do encontro literário.

A abertura será no dia 20/09, às 19h, no Auditório David Mufarrej, campus Alcindo Cacela. No programa apresentação do Coro Cênico da Unama “Licença poética para soletrar no alfabeto do sol da Amazônia” e conferência de abertura com a prof. Dr. Stella Maris Bortoni-Ricardo (UnB), além de outros eventos ainda a serem anunciados, como lançamento de livro, homenagens, etc.

INSCRIÇÃO DE TRABALHOS – Já estão sendo recebidas as inscrições para trabalhos a serem apresentados neste Fórum, indo o período até 3 de setembro. Saiba tudo sobre tipologia e formato dos trabalhos, forma de inscrição, prazos, etc., clicando aqui, no sítio eletrônico da Unama.



Escrito por Fernando Jares às 21h12
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CINEMA DO PARÁ GANHA “KIKITO” EM GRAMADO


O cinema do Pará marcou presença com três momentos no Festival de Gramado (RS), no outro extremo do país, encerrado no final de semana. Na competição de curtas o filme "Ribeirinhos do asfalto", com a direção de Jorane Castro, levantou dois prêmios: o de Melhor Atriz, para a campeoníssima abaetetubense Dira Paes (com Ana Letícia foto acima, de Marcelo Lelis, no blog do filme), que faturou o cobiçado troféu “Kikito”; e a Melhor Direção de Arte, prêmio Cidade de Gramado, para Rui Santa-Helena, experiente cenotécnico que estreou com este filme na direção de arte. E foi logo trazendo prêmio.

"Ribeirinhos do asfalto" teve suas filmagens feitas no final de 2009 e tem cenas gravadas pelas ruas de Belém e arredores, do Ver-o-peso à ilha do Combu, Marituba, Cidade Nova, etc.

Outro destaque foi a presença do crítico cinematográfico e blogueiro Marco Antonio Moreira, que participou do Júri da Crítica. Para ele “foi um excelente resultado que mostra a evolução do nosso cinema local”. Marco Antonio afirma que “Como crítico e cinemaníaco, estar em Gramado foi muito bom. Vi muitos filmes em longa e curtas-metragens, participei de oficinas e debates promovidos pela crítica local e principalmente, interagi com outros críticos e profissionais da área de cinema.” Leia mais sobre o final do Festival de Gramado, no blog de Marco Antonio Moreira, clicando aqui.

Veja o resultado oficial clicando aqui.

O lançamento do filme em Belém deve acontecer no Centur, nos próximos dias.

Leia mais sobre “Ribeirinhos do asfalto” no Holofote Virtual, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 23h03
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ACADEMIA DA GULA

NAS CARAVELAS, BACALHAUS, ALHEIRAS, PERIQUITAS...

O nome, a indicação e o endereço instigaram-me a ir até lá.

O nome “Academia da Gula” associou o estabelecimento a um local de refinamento no paladar, a atender o pecado/perdoado do comer bem, não necessariamente com requinte de instalações, porque logo soube que era casa simples. Ora, aqui em Belém, tivemos a “Academia do Peixe Frito”, uma mesa onde o grande Bruno de Menezes e outros da melhor intelectualidade parauara trocavam suas brilhantes ideias literárias, políticas e sociais e comiam um peixe frito como só existe no Ver-o-Peso... Mas atenção, nestes tempos de malhação, o nome pode causar estranheza: “Mas que insensatez, misturar academia com gula, são coisas antagônicas”, disse-me uma certa jovem...

A indicação foi de alguém, como se diz, “bom de garfo”, acostumado virar os melhores restaurantes e botecos tanto pelas ruas de Belém como por esse Brasilsão e pelo mundo, a comer de um tudo, o Guilherme Guerreiro, nosso mais afamado e competente locutor esportivo.

O endereço é um pré-flash, como dizia certo radialista em suas amareladas chamadas... Rua Caravelas. Uma sinalização quase histórica.

Com tudo isso, lá fui dar com os costados no “Academia da Gula”, em Vila Madalena, São Paulo. Um misto de restaurante, lanchonete, boteco, com um cardápio de portugueses respeitáveis e triviais brasileiros – estes, principalmente para atender, ao almoço, os muitos que trabalham por ali. Mesas pertinho umas das outras, porque o espaço não é grande e há muitos clientes. Não tem ar condicionado, tudo aberto, bem de esquina, mesas também na calçada. Por questão operacional, não foi possível ir ao jantar e fomos – Rita e eu – ao almoço, em dia de um friozinho delicioso na capital paulista. O ar condicionado não fez falta.

 

De meu posto à mesa tinha essa visão da parte superior: diplomas e troféus, a atestar a qualidade do estabelecimento, e os galinhos de Barcelos, a anunciar a origem da dona da casa, Rosa Brito, portuguesa dessa simpática cidade. Lembro-me que, de certa feita passei por Barcelos em um Sábado Santo (da Aleluia), mas foi na vizinha Ponte de Lima que vi um Judas, com cara do primeiro-ministro, e até comprei o testamento em versos... para ajudar a patranha. Pois não é que o testamento do Iscariote era assinado pela “Academia da Má-Lingua”, ora pois, pois.

 

Mas chega de conversa e vamos repartir as comidinhas. Começamos com os “Bolinhos de Bacalhau”, prato afamado de casa. Eles oferecem sempre meia porção, que serve bem uma pessoa: seis unidades (R$ 10,00), que na foto são apenas cinco, porque eu já havia comido o primeiro, antes de fotografar. Tem outras entradas, inclusive as famosas “Punhetas” (½, R$ 31,00), que vem a ser bacalhau cru desfiado com cebola e azeite, mas não fomos a elas. Até lembrei-me que havia essa entrada no restaurante do bom Almeida, que Deus já levou, e muita gente estranhava...

 

A Rita não dispensa e pediu um de seus bacalhaus preferidos, o “Bacalhau ao Brás” (½ R$ 55,00), o bom e velho peixão de águas geladas desfiado, cebola picada, batata frita, ovos mexidos, azeitonas e arroz. Tinha o acompanhamento de uns pãezinhos que estavam muito gostosos. Prato aprovado pela exigente comensal e por uma provadinha minha. Agora, atenção: o cardápio é bilíngue: português e francês, simples, mas classudo, como diria o jornalista Edwaldo Martins, de sempre lembrada memória.

 

Tem o ilustre leitor diante de si uma “Alheira” (R$ 25,90), que é uma linguiça de alho, pão, carne de porco, grelhada no azeite. Contam os livros de história que este embutido, ou enchido, como preferem em terras lusas, teria sido inventado pelos judeus convertidos, os “cristãos novos” que, procurando manter a antiga fé e tradição, não comiam porco e o substituíam geralmente por ave. Hoje o porco domina, mas por lá há de outras carnes. Como a minha avó tinha, de solteira, nome que poderia identificar ancestrais entre estes convertidos, homenageei-a com a Alheira. Quer dizer, nem tanto, porque lá veio o porquinho que tanto gosto... que algum tatara-bisavô-tataravô desaprovaria. Embora a presença do defumado estivesse um pouco acima daquele que eu mais gosto, foi uma boa opção.


Um dos maiores problemas de comer em Portugal é que, enquanto você enfrenta maravilhosas entradas e pratos de todos os tipos, fica a pensar que, após o opíparo festim gastronômico, aguardam-no os paradisíacos doces lusitanos, a maioria de divina origem em mosteiros e assemelhados. Na posição em que ficamos, havia uma vitrine cheia deles bem ao lado. Evitei olhar até o momento certo. As opções que fizemos foram satisfatoriamente atendidas, causando-nos a satisfação almejada – de quem está pelas ruas de São Paulo e não, por exemplo, no balcão da fábrica de Pastéis de Belém... Os “Pastéis de natas ou belém” (R$ 4,50/unidade), massa folhada recheada de creme de natas, ao alto na foto, só estavam um pouco menos macios que os “originais” e faltava-lhes aquele açúcar e canela. À esquerda está o “Pastel de Santa Clara” (R$ 4,50/unidade), massa fina e crocante, recheada com ovos moles, que aí por fora tem formato diferente do nosso aqui de Belém. Estava delicioso. O “Travesseiro da periquita” (R$ 4,50/unidade), massa fina crocante, recheado com ovos moles e amêndoas – junta tudo que eu gosto e vou dizer o quê? Foi o chamado fechamento com chave de ouro ou de platina, diamantes, etc.

Sugestão 1: faça uma visita ao sítio eletrônico do “Academia da Gula”, clicando aqui. Sugestão 2: Dê um pulinho mais longe e conheça a “única fábrica dos pastéis de Belém”, como antes havia escrito na fachada, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 20h24
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CULTURA DO PARÁ EM COIMBRA

TURISMO E GASTRONOMIA NA CENTENÁRIA UNIVERSIDADE


A Universidade de Coimbra realiza um grande evento internacional para comemorar os 100 anos de sua mais nova instituição, a Faculdade de Letras. Coimbra tem mais de 700 anos, sendo uma das universidades mais antigas do mundo, em atividade. A Faculdade de Letras abriga a área de humanidades, onde está comunicação, línguas, turismo, etc.

Com o “Congresso Internacional Turismo, Lazer e Cultura. Destinos, Sustentabilidade e Competitividade”, de 27 (Dia Mundial do Turismo) a 29 de setembro, a Universidade de Coimbra quer contribuir para o diálogo entre a comunidade acadêmica – professores, pesquisadores e alunos –, gestores públicos e privados, profissionais do setor e afins.

O Pará tem destaque neste acontecimento, desde a sua concepção até o evento de encerramento. O bacharel em turismo Álvaro do Espírito Santo, professor da UFPA (já foi presidente da Paratur), que faz doutorado em Coimbra, integra a Comissão Executiva do Congresso, participando de seu planejamento e realização.

A par de um programa que envolve grandes estudiosos do turismo, acontecerá a Feira Internacional de Turismo de Coimbra (FITUC) que vai mostrar recursos, produtos e destinos turísticos, envolvendo entidades, organizações estatais e privadas e agentes dos segmentos como turismo, gastronomia, vinhos, culturas e tradições locais. A população coimbrã também participa, assim como os muitos turistas que sempre por lá circulam.

O Pará estará presente de três formas nessa programação: (1) com um estande na Feira, onde mostrará as atrações dos principais pólos turísticos do Estado; (2) com oficinas sobre a culinária paraense, destinadas a alunos do curso de gastronomia contemporânea de Coimbra, ministradas pelos chefs Ofir Oliveira e Carmelo Procópio, que levam as especialidades regionais para deleite dos portugueses e seus convidados; (3) participando no cardápio do grande banquete de encerramento do Congresso, em parceria com chefs e alunos da escola de cozinha contemporânea local. Entidades como SEBRAE/Pará, Sagri, Paratur e Belemtur estão se associando a esta promoção paraense em terras europeias.

Uma paulista/paraense, Bel Mesquita, participará de uma Mesa Redonda com representantes do setor de turismo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, que reunirá Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe. Conforme o programa, a MR pretende “perspectivar o turismo, designadamente, os desafios em termos de sustentabilidade e de competitividade que se colocam aos vários Estados-membros”. Ana Isabel Mesquita de Oliveira (Bel Mesquita) é secretária nacional de Políticas de Turismo do Ministério do Turismo, já tendo sido prefeita de Parauapebas e deputada federal pelo Pará. Não eleita deputada estadual em 2010, foi nomeada para esse alto posto federal, que cuida da elaboração e monitoramento da Política Nacional de Turismo.

Mais informações sobre o CTLC disponíveis no sítio eletrônico do Congresso - clique aqui.

EXTENSÃO PARAENSE: Os principais chefs portugueses que participarão deste evento em Coimbra deverão vir ao Pará, no final de outubro, para participar aqui, pelas ruas de Belém, de um grande festival luso-paraense de gastronomia contemporânea e tradicional. Reaproximação entre cozinhas primas entre si?  irmãs? Ora essa, que não haja cá uma tragédia da Rua das Flores...



Escrito por Fernando Jares às 16h27
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FERNANDO MOREIRA DE CASTRO JR.

CONHECIMENTO E PARTICIPAÇÃO, COM ELEGÂNCIA

“Acabei de me lembrar do senhor: o sr. sabe que o dr. Fernando morreu hoje de madrugada?, disse o Joca, logo cedinho, hoje, quando eu entrava no salão do Manoel, para depenar as madeixas e a barba. “Foi o Mauricinho que me ligou pra avisar”, logo afirmou o Manoel, como que para garantir com fonte segura, a notícia que, com certeza, nenhum de nós gostaria que fosse real. O Joca é nosso barbeiro em comum, do jornalista, advogado e professor Fernando de Castro Jr e meu. Por mais que os dois Fernandos vissem-se pouco ultimamente, o Joca tinha sempre um informe a dar para o outro, sobre o amigo e cliente comum. “O dr. Fernando esteve aqui ontem, etc. etc.”. Perdemos um amigo, o Joca perdeu um cliente, com certeza bem mais assíduo do que eu, que sempre deixo passar a data indicada para os cortes necessários...

Fernando estava internado, mas achei que, como de outras vezes, pularia a fogueira. Ele era bom nesses arranjos. Quando soube, hoje pela manhã, de seu falecimento, logo desisti de ir ao barbeiro. Mas a Rita incentivou: o Fernando ficaria bem mais satisfeito que eu estivesse com aparência melhor que aqueles cabelos – poucos, é verdade – mas um tanto desgrenhados... Concordei e assim o fiz. Um pouco mais de elegância faria bem e ele o merecia.


Dia de eleição na Abav/Pará – Associação Brasileira de Agentes de Viagens, 1991, e aí na foto estamos, na sede da entidade, para a assembleia, David Abud, então agente de viagens, Fernando e eu, respectivamente editores de turismo do Diário do Pará e de A Província do Pará. Atrás do Fernando, encoberto, o Antonio Carlos Saboya Jr., que foi eleito presidente nessa reunião. Esta hora, ele e Fernando estão atualizando muito papo – o Saboya também nos deixou muito antes da hora.

Convivemos muitos anos, agora mais próximo, agora mais distante. Sucedi-o na editoria de turismo da Província, quando ele foi para O Liberal, de onde, posteriormente, mudou-se para o Diário, onde escreveu até 31/07 passado. Domingo (07/08) já não saiu a sua página – que eu sempre lia, religiosamente. Temos a mesma idade. Neste blog mais de uma vez citei seu conhecimento, especialmente no campo dos vinhos – que eu bebo, mas não conheço, e lia-o para conhecer o que beber. E ele, sempre muitíssimo elegante e fino, agradecia o registro.

Aliás, quando comecei no turismo da Província, em maio de 1984, fez um registro em sua coluna, que eu destaquei, ao agradecer os cumprimentos recebidos, em 27/05: “Um agradecimento muito especial ao confrade Fernando Moreira de Castro Jr., de ‘O Liberal’, pelas muito simpáticas palavras que nos dirigiu, em espaço nobre de sua coluna.”.

Professor universitário no Curso de Direito (Direito Constitucional) da UFPA, recebeu hoje o reconhecimento de seus alunos, por meio de nota oficial do Centro Acadêmico de Direito Édson Luis, que afirma ser ele um mestre “muito querido por seus alunos, pelo seu grande conhecimento e por sua notável elegância”.

Foi diretor da Paratur, advogado no Banpará e ativo em sua banca jurídica, trabalhou no gabinete do governo do Estado, mas nunca se afastou do jornalismo especializado em turismo. Deu grande contribuição, inclusive mantendo acirradas polêmicas, quando acreditava necessário, em defesa do turismo pelas ruas de Belém. Testemunha ativo e participante. “Soube com rara perfeição compreender e externar a importância e o entendimento do turismo como atividade produtiva e como estratégia de melhoria de qualidade de vida”, disse Adenauer Góes, presidente da Paratur, hoje, ao DiárioOnline.

Foi assim o Fernando Moreira de Castro Jr. e assim o será nas lembranças e no coração dos amigos. Há muito mais o que dizer, inclusive com a sua Vera, mas hoje, não. Já custou escrever isto. Outro dia lembrarei mais e melhor.

 

Tony Santiago, Edna Rocha, Fernando de Castro Jr. e Patrick Barbier, em frente ao estande da Paratur, na Feira de Turismo do Congresso da Abav, no Rio de Janeiro, em 1992. Fernando de Castro Jr. era diretor de marketing da estatal estadual, sendo Saboya Jr. o presidente. Este foi um dos dois mais bem cuidados estandes do Pará entre as feiras de que participei: reproduzia o mercado de ferro do Ver-o-Peso e tinha até o personagem “Urubu do Ver-o-Peso”, do ator Mário Filé, a passear na frente, interagindo com o público.



Escrito por Fernando Jares às 19h12
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PARÁ, VICE-CAMPEÃO MUNDIAL

GAROTADA DE BARCARENA RESGATA
AUTOESTIMA FUTEBOLÍSTICA PARAENSE!

Nestes tempos de vacas magérrimas no futebol paraense, a melhor notícia do ano vem de uma turma de meninos e meninas, um time de jovens cabanos, de Barcarena. Neste sábado (6/8) eles levantaram bem alto a bandeira brasileira em terra norueguesa. O time masculino do Alunorte Rain Forest, acaba de conquistar o vice-campeonato na categoria sub-16 da Norway Cup, a Copa da Noruega, disputada em Oslo, o maior torneio infanto-juvenil do mundo, reconhecido pela FIFA. E o time feminino, que pela primeira vez participou da competição, ficou nas oitavas de final, entre os 16 melhores do mundo! Os meninos trazem o melhor resultado de dez anos de participação.

Silvio dos Santos foi premiado pela coordenação da Norway Cup com a “Chuteira de Ouro” como melhor jogador das finais do grupo Sub-16.

Barcarena, cidadã tão importante na Cabanagem, envia os novos cabanos a salvar o futebol paraense, quando os times profissionais de futebol colocam nosso Estado nas menores divisões dos campeonatos nacionais. Alguns, ditos grandes e tradicionais, nem divisão tem!

O time paraense chegou invicto à final. Uma campanha extraordinária, que você pode ler no blog do ARF, clicando aqui. Perdeu apenas na final, nos pênaltis (5x4), após tempo normal empatado (2x2) o mesmo acontecendo na prorrogação. O time ARF é pai d’égua, o Pará na Noruega!

No discurso da premiação Alberto Muller, coordenador do projeto e treinador do time, disse que o ARF joga com o coração. “Por isso chegou à final, mesmo não sendo um time profissional”. Isso é importante destacar. Não há time fixo, ano a ano. Ir a esse campeonato é, na verdade, um prêmio para a garotada que participa do programa “Bola pra Frente, Educação pra Gente”, da Alunorte, que alia o esporte à educação e tem o futebol como incentivador dos estudantes da rede de ensino de Barcarena. “A habilidade com a bola é importante, mas ter bom rendimento escolar é decisivo para quem quer estar nos times”, diz Muller.

Segundo a Alunorte (maior refinaria de alumina do mundo, instalada em Barcarena), durante o ano, alunos das escolas participam de palestras, exposições e de uma gincana educacional, além dos torneios preliminares onde são eleitos os atletas. Na final, 18 garotos e 18 garotas são selecionados para compor as seleções. Participam do programa mais de 2.500 estudantes de 23 escolas da região.

Outro aspecto interessante é o “Prêmio Educacional”, que escolhe, por meio de um jogo de perguntas, três acompanhantes para assistir aos jogos dos times ARF na Noruega, conhecer a cultura daquele país e realizar um grande desafio: traçar um paralelo com as realidades encontradas na Europa nas comunidades de Barcarena. No retorno irão apresentar o estudo às escolas e comunidade.

A delegação barcarenense, na viagem, conhece as escalas, com passeios aqui pelas ruas de Belém, no Rio de Janeiro, Paris e em Oslo. Coisa fina! Cultura para a moçada.

Acho esse programa emocionante. Mostra que é possível, com educação, estudo, bom comportamento, cidadania, alcançar vitórias pouco antes inimagináveis. Você acha que quando que o Thiaguinho e seus companheiros se imaginavam destaque em um jornal da Noruega? (clique aqui)

 



Escrito por Fernando Jares às 15h03
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UMA CERIMÔNIA GASTRONÔMICA (2)

TRADIÇÃO E INOVAÇÃO EM UM AUTO DE FÉ AMAZÔNICO

“Cozinhar significa conhecer (a história, a técnica, os produtos, a tradição e a modernidade, os processos culinários), pensar, testar, refletir, escolher e também pesquisar.”

Ferran Adrià, em manifesto sobre cozinha molecular, sábado último (30/07), que você pode ler, na íntegra, clicando aqui.

 Ontem, no post imediatamente anterior, Carlos Alberto Dória construiu um belo texto relatando a palestra “O pirarucu na cozinha amazônica” que o chef paraense Thiago Castanho fez no congresso “Paladar – Cozinha Brasil”, promoção do suplemento “Paladar” do jornal O Estado de S. Paulo, que reuniu centenas de especialistas em cozinha de todo o Brasil e convidados estrangeiros.

O pirarucu foi o acontecimento final desse evento de três dias, no domingo passado (31/07), logo depois da palestra da estrela do congresso, o 7º melhor chef do mundo, Alex Atala. Foi sucesso. No microblog Twitter o @paladar_estadao anunciava o início da palestra: “Sala cheia de chefs interessados em conhecer melhor o pirarucu. E ninguém melhor para ensiná-los que dois chefs paraenses.” Isso porque Thiago estava acolitado por seu irmão Felipe Castanho.

Dória relata como foi a palestra ao explicar a parábola para nós, fiéis seguidores desta religião gastronômica amazônica já profetizada por Leandro Tocantins no livro “Santa Maria de Belém do Grão Pará” (pág. 44, 3ª edição,1987), ao afirmar que “a gula, pecado capital, torna-se um auto-de-fé nos prazeres dionisíacos da comida paraense”.

A apresentação foi muito cuidada, desde a entrada “triunfal” do festejado pirarucu, motivo da falação, até a degustação absolutamente surpreendente para todos: açaí “de verdade” com torresmo de couro de pirarucu como entrada e ainda pirarucu defumado.

O respeito às tradições e o cuidado na inovação; a busca dos melhores ingredientes naturais e a utilização de recursos da moderna tecnologia, é o caminho para os novos conceitos da gastronomia. Thiago Castanho cuidou de mostrar que é isso que faz pelas ruas de Belém e leva para o mundo. Achei que se enquadra perfeitamente ao conceito que o papa (para continuar na brincadeira religioso-gastronômica de Carlos Dória) Ferran Adrià apresentou sábado em seu “manifesto”, que está lá em cima.

Um plus na palestra, que valorizou a questão cultural local e sua relação com a culinária, e “vendeu” muito bem a imagem do Pará para aquela plateia de notórios formadores de opinião, foi a apresentação de um vídeo bastante didático, conduzido pelo Thiago Castanho, produzido entre o Ver-o-Peso e o Marajó. Trabalho da Imagem Produções, com direção e roteiro de Ronaldo Salame. Um passeio literalmente delicioso entre nossos melhores ingredientes... Muito bom. Veja aqui:

Para completar, duas fotos que foram divulgadas pelo suplemento “Paladar”, do jornal O Estado de São Paulo.

Classificado de “Gigante amazônico” tinha essa cara aí embaixo, em foto de Janaina Fidalgo, o magnífico pirarucu exposto sobre a bancada de trabalho, ou altar... Você pode ler o que o “Paladar” publicou, em seu sítio eletrônico, sobre o gigante de nossos principais rios, clicando aqui.

 

É preciso dizer o que é para ver e acreditar: a foto abaixo é do rabo do monumental pirarucu, exibida pelo “Paladar” via Twitter. Quando retuitei, comentei: “Gente, isto ñ é tecido p/forração.É o rabo do pirarucu...”

 



Escrito por Fernando Jares às 16h39
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UMA CERIMÔNIA GASTRONÔMICA (1)

RITUAL AMAZÔNICO NA PAULICEIA

A crônica (melhor seria dizer, parábola) que você vai ler a seguir é de um sociólogo, aliás, doutor em sociologia. Que cozinha desde os 22 anos, já foi sócio de restaurantes no Rio e em São Paulo. Sobre tudo isso que tem ainda uma grande virtude: escreve delicioso como os melhores mestres da cozinha, daqueles que sabem fazer comida saborosa e farta. Até mesmo quando ele está zangado... Agora imagine quando está feliz, como nos indica ser este caso

Suas frases, suas citações, seus links já andaram diversas vezes por estas linhas eletrônicas e ele mesmo é um apaixonado pelas ruas de Belém e por nossas comidinhas e comidonas.

Chega de enrolação! O cara é o Carlos Dória, do blog e-Boca Livre. A quem passo a palavra, ou melhor, entrego este espaço. Deliciem-se, como eu já me deliciei repetidamente, lendo, relendo...

 

MISSA PAGÃ DE CORPO PRESENTE

Ninguém podia imaginar que três dias de festa fossem terminar com uma missa de corpo presente. A julgar pela circunspecção do público naquela catedral, apesar do atraso da cerimônia, deduzia-se a importância do morto.

O sacerdote já estava no altar quando o caixão, conduzido por dois bombeiros, foi depositado solenemente diante do público, separando-o do altar. Ficou mais longe a fala do sacerdote, que parecia ecoar de tempos ancestrais, sendo secundada pelo seu diácono que, a cada gesto, a cada palavra, meneava a cabeça em aprovação.

O sacerdote começou por discorrer sobre a técnica de embalsamamento do corpo, explicando os costumes da terra e seus modos de fazer aquele trabalho. Prosseguiu expondo sua própria técnica, mostrando-lhe as vantagens - o que pareceu incontestável. E como era coisa nova, também pareceu natural que a apresentasse de modo novo, em vídeo, incomum em rituais assim. Humilde, como convêm a um sacerdote, cuidou de não desdenhar da tradição só para engrandecer-se.

Em seguida, chamou ao altar alguém que conhecia de perto o morto e sua família. Foi um depoimento comovente sobre a história de quem quase desaparecera do mapa, mas que teve forças para lutar pela dignidade da própria família, vivendo hoje de modo próspero num lugar que quase ninguém sabe onde fica; mas está lá, no mapa, para os mais incrédulos.

No seu ritual pagão, canibal, o sacerdote passou, em seguida, a discorrer sobre as virtudes alimentares do morto. Suas carnes diversas, sua pele, se prestavam a várias preparações que, por deliciosas, nos faziam quase esquecer a sua morte, necessária para chegar até ali, àquela inércia selvagem que a todos contemplava em silêncio.

Muito trabalho exigira antes. Primeiro, procedimentos de purificação para tirar-lhe o “pitiú”. “E até no solo nu, as postas oblongas, brancas, rosadas daquele peixe, pondo no ar o cheiro nauseabundo que o indígena chama pitiú”, escreveu Veríssimo em suas Cenas da vida Amazônica. Mas o sacerdote, não satisfeito, ainda discorreu sobre as coisas reimosas, que é a forma culta de se referir à ideia de fluxo, corrimento de qualquer liquido, afluência, curso das coisas, curso da vida ou vicissitudes da fortuna, nos explicam os livros.

Limpo o corpo de evocações de pitiú ou de coisas reimosas, chegou o momento da comunhão, e pareceu absolutamente normal que, a cada pessoa do público, fosse entregue um pequeno copo com um liquido sanguíneo, como vinho espesso, acompanhado por uma pequena hóstia com aparência de mandiopã. Foi o momento alto da circunspecção.

Cada um, calado em seu lugar, sorveu o liquido e dispôs a hóstia-mandiopã sobre a língua. A julgar pela origem do morto, mais parecia um ritual yanomami, quando esses índios queimam seus mortos, choram a perda, rememoram seus feitos, comem as cinzas para que possam realizar a longa travessia para o outro mundo, quando então podem esquecer seus nomes, nunca mais se referindo a eles. Mas ali, ao contrário, seria o morto sempre lembrado por seus sabores. Pois em seguida veio a sua carne, sobre farofa, quando o defumado lembrava o bacon, incrustando o morto em nossa memória.

Mas a comunhão momentânea com essa tradição indígena fez, lentamente, desaparecer o torpor iniciado com a chegada solene do corpo; e foi possível ver o que se passava naquele ritual de devoração: aquele templo era uma sala do Hyatt, onde, após três dias de festa, assistia-se à ultima aula - das mais esperadas - sobre os usos do pirarucu na cozinha amazônica, parte do evento Paladar - cozinha do Brasil.

O sacerdote, outro não era senão Thiago Castanho. O diácono, seu irmão Felipe. O morto, o enorme peixe de metro e meio que os dois nos fizeram o favor de trazer congelado de Belém, presenteando-o, depois da cerimônia, ao bispo da diocese, Alex Atala. As técnicas de embalsamamento do corpo: técnicas tradicionais de salga do pirarucu - às quais, em excessiva modéstia, acrescentou Thiago mais uma, de salga a vácuo, pela qual se desculpava se feria a tradição.

Descreveu ainda os experimentos com a pele do peixe que, seguindo os passos similares da pajelança de Rodrigo Oliveira com o torresmo, transformou num couro que, frito, mais parecia um madiopã com sabor de peixe. E o líquido sanguíneo, espesso, nada mais era do que o açaí, como tradicionalmente consumido no Ver-o-peso, e não docinho, como consumido pela moçadinha turbinada da paulicéia.

E aquele que parecera o discurso de um parente do morto, nada mais era do que o discurso entusiasta do criador de pirarucu na ilha Mexiana, num projeto inédito de manejo que, hoje, permite considerar-se o magnífico peixe a salvo da extinção.

Tudo verdade e imaginação. Tudo coisa que turva a razão diante daquele animal magnífico, deitado em leito de gelo, enquanto dois jovens cozinheiros, imbuídos do espírito de pesquisa, mostravam que Belém do Pará não é um ponto distante no mapa.

Belém: um lugar onde pulsa a gastronomia em sua melhor linhagem; aquela que, sem dar as costas à tradição, mostra como pode ser modernizada com técnica, experimento, persistência e criatividade. Esses dois jovens sacerdotes da nova cozinha amazônica ainda vão dar (muito mais) o que falar.

 

Acima, foto do “caixão do pirarucu”.

Deixo-vos com as reflexões que acharem possíveis, após essa grande metáfora, como classificou o Thiago. Eu gostei demais, tanto que logo pedi autorização ao autor para aqui reproduzir o texto na íntegra. E logo foi concedida. Obrigado.

Ainda volto a este assunto.



Escrito por Fernando Jares às 17h57
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BENEDITO NUNES RELEMBRADO (2)

CLARICE LISPECTOR REVISITADA, REDIVIVA

Quando a recém-casada, Clarice Lispector morou em Belém, nos idos de 1944, já escritora e jornalista, já lançado e premiado o “Perto do coração selvagem” (no ano anterior), devia pensar suas criações e escrever seus textos mais ou menos assim, quem sabe olhando as belas e vicejantes mangueiras que se derramavam pelas ruas de Belém...

 

Escrevendo o post anterior (Uma noite com o mestre das letras), sobre Benedito Nunes, um dos maiores especialistas brasileiros na obra de Clarice Lispector – autor de “O drama da linguagem – uma leitura de Clarice Lispector” –, lembrei de um primoroso estudo do fotógrafo Bob Menezes, sobre a escritora, dentro da série “Essas outras mulheres”, onde ele recria com requinte imagens de grandes nomes femininos da história, com modelos atuais. A foto acima faz parte desse trabalho.

Benedito foi amigo pessoal, ele e sua Maria Sylvia, de Clarice e já contei neste blog a história de um cartão postal enviado pelo casal à escritora, em 1975, que encontrei na exposição “Clarice Lispector – A hora da estrela”, tanto no Rio como em Brasília. Para ler “O cartãozinho e o premiozão”, clique aqui.

A capa do livro “O drama da linguagem” tem uma belíssima foto de Clarice. Tenho cá a segunda edição, de 1995 (a primeira é de 1989) onde informa que a foto (Acervo Iconographia) é de 1946. Você pode ver a semelhança entre a foto original (abaixo) e a agora recriada. Por isso arvorei-me a pensar em CL aqui em Belém, vivendo uma cena como a da foto acima. Licença ficcionista – é possível, não é?

 

Benedito apresenta, na página 99, uma linha de continuidade temática nas obras de “Perto do coração selvagem” a “O livro dos prazeres”, incluídos os contos da autora:

“Autoconhecimento e expressão, existência e liberdade, linguagem e realidade, o eu e o mundo, conhecimento das coisas e relações intersubjetivas, humanidade e animalidade, tais são os pontos de referência do horizonte de pensamento que se descortina na ficção de Clarice Lispector, como dianoia intrínseca de uma obra na qual é relevante a presença de um intuito cognoscitivo, espécie de Eros filosófico que a anima.”

O que acharia do mestre ao encontrar sua querida Clarice revisitada em sua rápida temporada belenense? Tenho séria desconfiança que aprovaria. Mas não sou um beneditólogo – preciso perguntar a quem o é... A modelo para as fotos é a psicóloga Ingrid Ventura que, para mim, encarnou perfeitamente o espírito claricista de posar, considerando o que já vi, especialmente na exposição já citada. Não conheci d. Clarice, mas tenho a ventura de conhecer a modelo...

Você pode ver outras fotos de Clarice/Ingrid por Bob Menezes no sítio eletrônico do fotógrafo, clicando aqui. Enquanto isso, fique com outra bela foto de nossa Clarice Século XXI:

 



Escrito por Fernando Jares às 20h54
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BENEDITO NUNES RELEMBRADO (1)

UMA NOITE COM O MESTRE DAS LETRAS

O espírito de Benedito Nunes pairou sobre nós, felizardos que atendemos ao chamado público da Livraria Saraiva (Boulevard Shopping), na última quinta-feira (28/07). Comemoravam o primeiro ano em que a loja se instalou aqui pelas ruas de Belém e decidiram homenagear esse ícone da intelligentsia paraense, falecido em fevereiro último, que cedeu seu nome ao espaço cultural da casa. E que disse belas e relembradas palavras no dia inauguratório.

O Espaço Benedito Nunes, na Saraiva, recebe eventos como lançamentos de livros, pequenos shows, palestras, leituras, filmes, etc. No último sábado de cada mês, às 15h, tem o Clube do Livro, uma reunião de amantes da leitura para troca de idéias, novidades, etc.

O primeiro a participar deste encontro de quinta foi o próprio Bené, pelo documentário “Benedito”, um trabalho magnífico do professor Adalberto Muller, da UFF, também roteirista e diretor, estudioso do mestre paraense e de sua obra. Por sinal, parceiros no livro “João Cabral: a máquina do poema”.

Digo que ele participou porque estava ali mesmo: o documentário tem tom intimista, de conversa amiga, o mestre abre sua biblioteca (como abriu para tanta gente que precisava dela), mostra sua formação, seus amigos, como Mário Faustino, sua cidade. Vivo em quem o ama, cada um com sua forma de amor, ele nos acompanhou naquela noite.


Logo a seguir vieram duas professoras de letras ilustres e de conhecimento beneditiano. De conviver, de estudar e de querer bem o mestre. De querer bem por conviver e por estudar o mestre, Lilia Chaves e Stella Pessôa nos colocaram, com riquíssimos depoimentos e testemunhos, cara a cara com o pensamento e a obra de Benedito Nunes. À mesa com ele, como naquela travessa da Estrella.

Foram reveladas, lembradas, relembradas a sua “forma reflexiva de falar” (Stella); sua forma de vida: “Um sábio alegre, um sábio feliz” (Lilia); seus falares: “passei a vida ensinando, mais me ensinando do que aos outros” (Lilia); sua expressão corporal fortíssima: “Ele ria para os livros” (Lilia). Stella Pessôa revelou que prepara um estudo sobre o pensamento e os artigos de Benedito Nunes sobre a Amazônia. Da plateia – cheia de gente boa e amiga, incluindo sua eternamente querida Maria Sylvia Nunes – o jornalista Nélio Palheta sugeriu o resgate de documentário feito pela TV Cultura sobre Haroldo Maranhão, gravado em um almoço na casa de Benedito e Maria Sylvia, com convidados ilustres como Max Martins, Alonso Rocha, Lúcio Flávio Pinto e Elias Pinto. Onde o cardápio foi ditado pelo Haroldo e realizado com maestria pelo chef Paulo Martins.

 

O documentário visto nesta reunião ainda não está liberado. Mas alguns trechos dele estão disponíveis no sítio eletrônico do Laboratório de Imagem e Som da UFF, na homenagem que fizeram ao nosso mestre que nos dá tanto orgulho em ser paraense. Basta clicar aqui.



Escrito por Fernando Jares às 20h54
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