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BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



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PELAS RUAS DE BELÉM


CHEF ADRIÀ ESTEVE NO PARÁ

O DIA EM QUE UM MAGO DOS SABORES VEIO VISITAR OUTRO

O mais premiado e badalado restaurante do mundo, o “El Bulli” (Espanha) comandado pelo megapremiado e respeitado chef Ferran Adrià, fechou as portas na noite de ontem. Fechou no topo, como se costuma a dizer. Tipo o Pelé. Adrià tem pela frente um audacioso projeto de uma fundação, em parceria com o governo espanhol. Mas isso é assunto deles, por lá.

O mestre catalão das panelas – ou dos laboratórios, como dizem alguns, ao referir sua tendência a uma gastroalqui(no)mia molecular – entra na nossa história porque andou pelas ruas de Belém, agora recente, em 2008.

Veio com outro monstro sagrado das cozinhas espanholas, Juan Mari Arzak, e com o mais famoso do Brasil, Alex Atala, que os anfitrionava no país. Vieram conhecer ao vivo as especialidades únicas da cozinha paraense. Adrià retribuía a visita que recebeu de Paulo Martins, em 2005, em seu ultrafamoso “El Bulli”, quando conheceu amostras desses produtos gastronômicos. Ficou clássico o seu espanto diante do jambu: “Isto consegue dar choque na gente de forma natural!” – ele conseguia coisas semelhantes, mas por intrincados caminhos laboratoriais...

Mas a visita a Paulo Martins foi muito diferente daquilo que eles desejavam. É que o mestre dos sabores paraenses contemporâneos estava enfermo, já gravemente abatido pela doença que o haveria de levar dois anos depois. Mas eles o visitaram. Três dos maiores chefs do mundo, homenagearam o chef paraense. E se emocionaram.

Alex Atala publicou um vasto depoimento, no jornal Folha de S. Paulo, de 20/11/2008, sobre as andanças dele com os dois grandes nomes internacionais, onde cita o encontro com Paulo Martins. Na época, sinceramente, não tive coragem de reproduzir o texto. Cada vez que o lia, me emocionava. Nem a foto com que Joanna Martins, filha de Paulo, registrou o histórico encontro, publicada por Mauro Bonna no jornal Diário de Para, de 11/11/2008.

Agora, que o “El Bulli” se vai, que se dobra uma página da alta gastronomia mundial, acho que vale o registro, para relembrar esse momento, importante para a cultura gastronômica paraense. A visita teve ampla divulgação nacional.

Vou reproduzir o trecho de “Chefs na floresta” mais diretamente ligado à visita ao Paulo:

Na chegada a Belém, o Ferran olhava pela janela do avião: "Achei que estava indo para o meio da Amazônia". E eu: "E você está".
Depois de uma recepção cheia de ingredientes nativos no hotel, fomos visitar o Paulo Martins, do restaurante Lá em Casa, que está muito doente, quase não fala. Expliquei que ele era um mestre para mim. Talvez tenha sido o momento mais emocionante da viagem. Saímos chorando. "Quanta energia tem neste lugar, eu preciso disso", disse o Ferran.
Por alguns momentos, ele foi o Fernando Adrià da Costa.

Fomos jantar no Lá em Casa e comemos extremamente bem. A cabeça desses caras começou a dar um nó: por que uma farinha é grossa e outra fina? Por que uma é amarela e outra não? Por que frutas, peixes, folhas de mandioca...?
O artigo conta um pouco de São Paulo e muito da Amazônia e você pode ler na íntegra, indo ao sítio eletrônico da Folha, clicando aqui. O “El Bulli” já está de site novo, aqui.

Eis a foto da visita de Adrià, Arzak e Atala (nessa ordem) ao grande arquiteto da nova cozinha paraense, o arquiteto e chef Paulo Martins:



Escrito por Fernando Jares às 19h04
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UM FRANCÊS BRASILIENSE

BACALHAU COM BARU EM RESTAURANTE FRANCÊS

A redução de pratos internacionais à realidades locais constitui um dos caminhos trilhados pela gastronomia brasileira na atualidade – e com sucesso. Mesmo em restaurantes em linha com cozinhas estrangeiras. Encontrei isso no “Alice”, de Brasília, especializado na cozinha francesa, considerado pela Veja Comer e Beber como o Melhor Francês da capital do país.

Além das boas referências, fui lá porque é um restaurante da Associação da Boa Lembrança – e essa indicação sempre me foi proveitosa, de excelentes casas. Aqui pelas ruas de Belém, temos três restaurantes associados: o “Lá em Casa”, o “Famiglia Sicilia” e o “Remanso do Peixe”. Em Brasília são apenas dois.

O ambiente é simpático, bem decorado ao meu gosto, inclusive com pratos da Boa Lembrança, deles e de outros restaurantes, e uns pôsteres como este apaixonante cartaz com Brigitte Bardot, do filme Le Mépris/O Desprezo, de Jean-Luc Godard, que está no corredor para área de serviços.

Iniciamos os trabalhos com um couvert de pães artesanais, elaborados no próprio restaurante, manteiga e azeite extravirgem com ervas e pimenta rosa (R$ 10,00 por pessoa). Comecei bem, porque adoro pães e estes artesanais, com cara europeia, então...


Este aí em cima é prato da Boa Lembrança deste ano do “Alice”, o “Arroz de bacalhau com castanhas de baru”, elaborado com arroz e bacalhau desfiado, castanhas de baru descascadas e torradas, tomate seco, ervilha, cenoura ralada, brócolis, ovo e azeitonas (R$ 75,00). Essa castanha de baru é característica do serrado, mas tem semelhantes na Amazônia e, torradinha, é bem gostosa. Dá um crocante agradável ao prato, que segue a melhor linha bacalhoeira, nem tão especialidade francesa, mas muito bem preparado. A chef Alice Mesquita está sempre por lá, entre cozinha e balcão. Ao escolher esta opção, você recebe a tradicional lembrança dos restaurantes da ABL, um prato decorado, em cerâmica – que vai para a coleção, de quem tem mania por guardar estes belos pratos, de todo o Brasil... Para conhecer a receita do “Arroz de bacalhau com castanhas de baru”, clique aqui.

 

Minhas companhias neste jantar, Rita e Bruna, optaram por um menu inspirado na região francesa Bourgogne (Borgonha), cuja capital é Dijon. Região histórica e administrativa da França, de belas paisagens, com vinhedos de muita reputação e rica gastronomia. O menu consta de entrada, prato e sobremesa (R$ 60,00).

O festival gastronômico começou com a entrada que está na foto acima, “Potage cremeux à La courge” (sopa cremosa de abóbora), plenamente aprovada.


Ao prato principal a Rita optou pelo “Risotto aux champignons sauvages”, que é um risoto de champignons frescos e secos, parmesão e ervas da horta, que você vê acima, e que foi plenamente aprovado por ela – e por mim que, conforme condição conjugal, tive direito a participar nesta comunhão de bens, muito bons...

 

A opção da Bruna, de acordo com sua tendência cultural francófona, inclusive por ser professora desse nobre idioma, foi pelo “Coq au vin”, tradicionalíssimo prato da cozinha francesa, composto aqui por sobrecoxas de frango cozidas em vinho tinto, pequenas cebolas caramelizadas, croûtons, e acompanhado de fetuccine ao alho e óleo, em prato ao lado, que não aparece na foto acima. Havia ainda a opção de “Poisson grillé sauce à la moutarde de Dijon”, um peixe grelhado com molho de mostrada de Dijon. Embora a tentação permanente que os peixes sobre nós exercem, aqui reforçada por uma provavelmente muito bem selecionada mostarda de Dijon, passamos ao largo, talvez pela nossa explícita origem de ribeirinhos amazônicos...

 

Au dessert o menu ofereceu “Tartellete au chocolat amer, chantilly aux fruits”, tartelete de chocolate amargo e chantili com frutas, de pleno agrado aos participantes do encontro. Não era apenas bonito, atraente, mas gostoso. Veja que não resistiu a aguardar a foto, que foi feita no último minuto antes da consumação...

Não costumo ir aos vinhos em restaurantes, porque os preços são, de um modo geral, desproporcionalmente altos. Mas a Rita conseguiu fazer uma boa harmonização entre as duas colunas e fomos a um Bordeaux, aproveitando para recordar certa muito boa noite que tivemos nessa cidade francesa, a beber vinhos locais... Este foi o “Chateau La Croix Du Duc”, de 2009 (R$ 79,00), recomendado pela Vejinha de Brasília, neste restaurante. O pedido o fizemos com muito cuidado, já que o Bordeaux da linha imediatamente abaixo ao por nós escolhido, tinha preço bem diferente, na casa dos R$ 1.200,00... Qualquer erro poderia ser, literalmente, fatal... para este escriba aposentado!

Para visitar o sítio eletrônico do “Alice”, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h48
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CERTA PONTE NO MARAJÓ...

... E UM DESEJO DE DRUMMOND

Ontem, folheando, mais uma vez, o livro-álbum “Grão Pará”, do escritor paraense Leandro Tocantins, com o casal paulista Tom Maia (ilustrações) e Tereza Regina Camargo Maia (legendas) “descobri” um bilhete, na quarta capa desse livro que, acho, nunca havia lido. É do poeta Carlos Drummond de Andrade, dirigido ao mestre Leandro – que, entre outros postos, foi diretor da Embratur, e que tive oportunidade de conhecer aqui pelas ruas de Belém, pelas mãos de Olavo Lyra Maia, nosso grande pioneiro da promoção turística. Esse texto está na segunda edição (Expressão e Cultura), de 1987, que teve apoio da Vale e da UFPA.

Motivaram-me a este post duas coincidências: (1) referia-se a uma das ilustrações que mais gosto no livro – aqui pra nós, gosto de um monte delas... – e (2) ontem era o dia de Santana (Sant’Ana), que vem a ser a mãe de Maria, isto é, avó de Jesus.

Pela gostosura do texto e pela beleza e leveza do desenho, divido tudo isso com vocês. Repare como Drummond se deixa levar pela emoção do traço de Tom Maia, criando sua própria emoção diante do pensamento que nos transporta a um lugar e um tempo que ele define como “velhos dias que não conheci”. Maravilha. Veja aqui a ilustração de Tom Maia para a casa e a capela da Fazenda Santana, no Marajó, que pertenceu aos jesuítas e deve ser dos 1700, tendo sido a capela reformada em 1888. A ilustração, de 1978, já aparece na primeira edição (Cia Editora Nacional) de 1979, que teve apoio do Governo do Estado do Pará.


Agora leia o sonho de Drummond em andar pelas terras marajoaras e veja o texto escaneado do livro:

Folheando o belo Grão Pará, de Leandro Tocantins, Tom Maia e Tereza Regina Maia me deu vontade de pisar naquela ponte que conduz à casa da fazenda e à capela de Santana, em Marajó. Queria percorrer os cômodos da casa e ajoelhar-me depois na capelinha, mesmo sem rezar, que desaprendi com o tempo.

Ali ficaria tranquilo, silencioso, sem olhar relógio, curtindo em espírito velhos dias que não conheci.

Tudo isso ao lado do meu guia e amigo Leandro Tocantins, que também gosta de esquecer para lembrar.

Carlos Drummond de Andrade

14/maio/1980

 



Escrito por Fernando Jares às 15h00
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UM MONUMENTO AMEAÇADO

EM RISCO A VITÓRIA DE UM POLÍTICO PENSADOR


A “Vitória”, destaque na parte superior do monumento a Lauro Sodré, na praça Floriano Peixoto/largo de São Braz, corre o risco de sofrer grave derrota. Ela está aí em cima, em belíssima foto que captei no endereço eletrônico de Alexandre Lima (que você pode acessar clicando aqui).

Acontece que, por falta de mínima manutenção, algumas placas de mármore do monumento desprenderam-se e caíram, com evidente risco para as pessoas que por lá passam. Abandonada pela autoridade municipal, como infelizmente a maioria dos monumentos existentes pelas ruas de Belém, corre o risco de algum maluco decidir que é preciso derrubar o monumento ou parte dele... Diante das denúncias do abandono – pela imprensa (leia aqui e aqui) e pelos trabalhadores do mercado de S. Braz – a prefeitura fez alguma coisa: um tapume em torno. Aí é que mora o perigo: o que poderá acontecer a esse valioso patrimônio cultural paraense, agora escondido? A comunidade belenense deve ficar atenta para que não se perca completamente esta obra de arte que temos nessa praça. Tomara que eu esteja enganado e logo tudo esteja restaurado!

HOMENAGEM A LAURO SODRÉ – O monumento foi inaugurado em 1959, mandado fazer pelo governador Magalhães Barata pelo centenário de nascimento do ex-governador Lauro Sodré (17/10/1858). Barata morreu dias antes da data de inauguração.

A criação do conjunto monumental é do arquiteto paraense Francisco Bolonha, autor de importantes obras na cidade. Os grupos de estátuas são obra do consagrado escultor paulista (e não italiano, como vem sendo imaginado mais recentemente) Bruno Giorgi, conhecido principalmente por sua obra quase símbolo de Brasília, “Os Guerreiros”, que todos conhecemos mais como “Os Candangos”. A execução do monumento é obra do engenheiro paraense Nicholas Chase.

São três os grupos de estátuas. No principal o homenageado, Lauro Sodré, está em “pose contemplativa”, como identifica Carlos Rocque ("História Geral de Belém e do Grão-Pará”, pág. 244). Lembro-me que meu pai dizia que era uma forma de sentar/pensar habitual de Sodré – a mim lembra bastante “O Pensador”, de Rodin. Há um grupo de três figuras também em bronze, que representam As Armas, A República, O Trabalho – por serem magras, ganharam logo o apelido maldoso de peste, miséria e fome... Em um obelisco de 20m, ao fundo, está a figura, em alumínio, representando A Vitória, que para Elizabeth Nelo Soares (“Largos, Coretos e Praça de Belém”, pág. 79), seria a Liberdade. Segundo Rocque, as pedras brancas e pretas em torno do monumento, vieram de Tucuruí e Ourém.

Belém é bem aquinhoada de monumentos bonitos e importantes. Mas estão abandonados, de um modo geral. O Memorial da Cabanagem, de Niemeyer, é um dos exemplos mais emblemáticos deste desrespeito a um bem público. Incrível como as autoridades não valorizam uma obra rara como essa: poucas cidades no mundo têm um monumento criado por Niemeyer! A distorcida visão política do “não fui eu que fiz, não vou valorizar a obra de outro” devia ser punida, pois, no final, é dilapidação de bens públicos.



Escrito por Fernando Jares às 17h50
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AVIU, PIRARUCU, BACURI, CASTANHA, ETC.

OS PRAZERES DA COZINHA PARAENSE

Os prazeres da cozinha paraense ganham sempre bom espaço na mídia nacional. A revista Prazeres da Mesa é um bom exemplo. Aliás, com esse nome, nada mais natural do que destacar os prazeres que proporcionam as iguarias paraenses nas melhores mesas, aqui ou em qualquer lugar.

As duas mais recentes edições dessa publicação mostram que isso é real – e que basta realizar algum tipo de promoção, de boa qualidade e com profissionalismo, para obter bom retorno.

Cobrindo o que foi o festival “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, a edição de julho mostrou a cozinha regional com trato sofisticado, nas receitas da “Moqueca de Aviu”, da boieira Jórgia Progênio em parceria com o chef William Chen, de Brasília, uma das atrações do festival; e um “Tabule Paraense” em receita pra lá de finesse do mais importante chef brasileiro, Alex Atala, do restaurante “D.O.M.”, de São Paulo. A matéria focou especialmente a continuidade do projeto gastronômico do chef paraense Paulo Martins, prematuramente falecido no ano passado. Com o título “Saga feminina” apresentou a sucessão no “Lá em Casa”, agora comandado por Tânia Martins, a viúva de Paulo e suas duas filhas, Joanna e Daniela – que assumiu a cozinha. O texto de Letícia Rocha mostra como o desafio está sendo enfrentado com sucesso pelo trio. Sobre o que foi a versão 2011 do “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense” pelas ruas de Belém, você pode ler clicando aqui.

Na edição deste mês de julho a revista voltou ao tema da cozinha paraense, também provocada por um evento promocional:


Agora a matéria teve direito à chamada de luxo, na capa. Aliás, também chamada eletrônica – basta clicar aqui para ver. Com o título “Encontros de Ouro”, lá compareceu o chef Thiago Castanho, do restaurante “Remanso do Peixe”, com a chef Mara Salles, do “Tordesilhas”, de São Paulo. Tudo aconteceu em função do evento “Terruá Pará”, realizado em São Paulo, que teve uma parte gastronômica, iniciada com almoço para a imprensa paulistana, de apresentação do evento, e completada com um festival gastronômico paraense no “Tordesilhas”. Eles preferem, na revista, chamar de “terroir”, na versão original do termo, aparaensado para terruá... Você pode ler sobre o que foi esse festival, clicando aqui. E na revista, nas bancas, estão as receitas de “Canhapira”, do ”Pirarucu defumado ao leite da castanha com cuscuz de farinha d’água e banana da terra” e da sobremesa de “Bacuri com farinha de tapioca caramelizada”. Veja abaixo as fotos do pirarucu e da sobremesa com bacuri, do fotógrafo Ricardo D’Ângelo, que reproduzimos da Prazeres da Mesa edição de julho. Diante das maravilhas levadas por Thiago Castanho de Belém para montar o cardápio, declara-se a chef Mara Sales: “Impossível não sair inspirado”. E a jornalista Marta Barbosa, autora do texto, não deixa por menos: “E quem é que pode não gostar da carne de caranguejo fresquinha, de castanhas recém-torradas, de tacacá, de jambu fresco?”. E complementa: “Agora imagine os olhos de Mara ante os inusitados ingredientes”.

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Escrito por Fernando Jares às 17h14
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DE VALINOTO PARA VALLINOTO

O TAMANHO DA PALAVRA AMIGO

“No Dia do Amigo, relembro o jornalista Sérgio Valinoto: "Amizade é um negócio tão sério que a palavra Amigo não deveria ter somente cinco letras". Na quarta-feira, 20, divulguei essa mensagem no Twitter. Recebi-a, nos idos de 1986, em um cartão que me enviou o Sérgio, na época em que ele trabalhava na Comunicação da Telebrás, em Brasília, e referia-se a algum comentário que eu fizera sobre esse trabalho, em A Província do Pará. Sérgio faleceu, prematuramente, em 2003.

Hoje pela manhã pensei muito nessa frase, menos de 24 horas após publicá-la, quando rezava na despedida a outro amigo, outro Vallinoto, Antônio Cláudio – acho que eram primos. A frase servia perfeitamente a este Vallinoto que ontem Deus chamou: amigo pra caramba, de um montão de gente. Veja bem: hoje é sexta-feira de julho, férias, solzão, grande parte de Belém já nos balneários. E um enorme número de pessoas enchia o salão paroquial da Igreja dos Capuchinhos, logo de manhã cedo, para homenagear um amigo. Não um amigo qualquer, mas o amigo Vallinoto. Amigo em um conceito que exigiria, com certeza, mais do que apenas cinco letras. E todas maiúsculas.

Conhecia-o de longa data, mas só convivi com ele nos últimos seis, sete anos, quando entramos, Rita e eu, para o movimento católico de espiritualidade conjugal, Equipes de Nossa Senhora. Foi um bônus pela adesão... a descoberta da alegria permanente do Vallinoto, capaz de finas piadas sobre tudo, observador e analista implacável. Torcedor apaixonado do Paysandu.

“Ele tinha o espírito da alegria que Cristo quer para as pessoas”, disse hoje o padre Alberto Brescianni, na Santa Missa de corpo presente, concelebrada por quatro sacerdotes, que reuniu essas centenas de amigos do Vallinoto. “Ele é um exemplo de fidelidade no amor e na amizade, para todos nós”, citou padre Alberto, incluindo-se explicitamente entre os que o procuram ter como inspirador. Mais de 50 anos de casado com a sua Flor, que sucederam cinco anos de namoro, em sólida formação cristã.

Em grupo de casais paraenses, viajamos juntos, em 2006, em peregrinação por santuários europeus, culminando com o Encontro Mundial das Equipes de Nossa Senhora, em Lourdes, França.

Ano particularmente difícil para o Paysandu, procurávamos acompanhar cada jogo, buscando acesso à internet por lá e, quando não se conseguia, ligava para cá, ao chegarmos aos hotéis – noite por lá, às vezes já de madrugada aqui pelas ruas de Belém.

Um dia contou-me a história de um “problema” com um cachorro, na França. O bicho fazia muito barulho, ladrando alto. Ele falou para o cachorro calar, e nada. Aí chegou a Flor – excelente professora, dominando o francês com maestria – e deu a ordem ao cachorro, no idioma em que estava habituado a ouvir, o francês. O cachorro calou-se e saiu... Disse-me o Vallinoto: “por isso que eu gosto de Belém, a gente se entende, aqui eu perco até pro cachorro...!”

A cada encontro com seus amigos, o amigo Vallinoto tinha a piada apropriada, de forma a deixar as pessoas alegres, felizes, à vontade. Assim eu me sentia sempre com ele. Era um dom, um talento. Tinha muitos outros, como ser um bom esposo, pai admirado e amado pelas filhas e filho, profissional sério e respeitado, companheiro solidário. “Um homem bom por fora e por dentro”, disse o padre Alberto. Agora Deus, seus anjos e seus santos, estão desfrutando desse cara amigão. Saudades, Valli.



Escrito por Fernando Jares às 16h29
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TEM TERRUÁ EM BELÉM!

 

Quem ficou com vontade (como eu) de ver ao vivo o “Terruá Pará”, espetáculo da música paraense que São Paulo teve a primazia de ver no mês passado, pode transformar a vontade e realidade: na próxima semana tem o Terruá inteirinho pelas ruas de Belém, bem ali no teatro Margarida Schivasappa, no Centur. Nos dias 26, 27 e 28, isto é, terça, quarta e quinta-feira, às 20h.

A Secretaria de Comunicação/Funtelpa anuncia, no cartaz acima, que veremos o show na íntegra. Ótimo, muito bom – e outras qualificações positivas. O que vimos pelos veículos da Rede Cultura de Comunicação, que transmitiu o programa, direto de São Paulo, foi entusiasmante e motivador para vermos ao vivo essa mostra da arte musical parauara. Contei nestas linhas virtuais alguma coisa do que foi a festa, como em “O mistério da jamburana dançante” (para ler, clique aqui) ou “Égua da cultura pai d’égua” (para ler, clique aqui), onde mostrei também o festival gastronômico que correu paralelo ao show.

Pra quem tem dúvida sobre o termo terruá, digamos que vem a ser uma corruptela franco-paraense... Origina-se do francês “terroir”, que significa o que há de especial e exclusivo em uma região. Aí buscaram aquele tipo de sotaque afrancesado que muitos de nós temos pelo Pará e deu o tal “terruá”, sumano... Eu gosto.

Agora veja a turma que vai ao palco. Todos estão com links para o sítio eletrônico do “Terruá Pará”, com a apresentação de cada artista. Uma turma que enche a gente de orgulho em ser paraense, só fera:

Felipe e Manoel Cordeiro, Pio Lobato, Dona Onete, Charme do Choro, Sebastião Tapajós, Paulo André Barata, Carimbó Uirapuru de Marapanim, Orquestra de Jovens Violoncelistas da Amazônia, Gaby Amarantos, Gang do Eletro, Edilson Moreno, Lia Sophia, Luê Soares e Mestre Solano.

Você pode adquirir os ingressos nas lojas Ná Figueiredo (Gentil e Estação). Custam R$ 30, com meia entrada para estudantes. Os da maior idade, como eu, com sua carteirinha da Secult, devem ir às 17h, no dia do espetáculo, para retirar o ingresso.

COMPLEMENTO: em 25/07 o Governo do Estado informou que a entrada será franca, com obrigação de retirar os ingressos a partir das 17h, no Centur. Todo mundo na fila. Espero q tenha fila para a terceira idade...!!! Leia no site do Terruá, clicando aqui.

Olha a foto emoldurada da apresentação em São Paulo que está no endereço eletrônico do “Terruá Pará”:




Escrito por Fernando Jares às 16h51
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GOSTOSURAS DO PARÁ... PARA O BRASIL

PARAENSISMO NA COZINHA


Uma das riquezas naturais do Pará, a cozinha que herdamos de nossos antepassados, ganhou hoje um grande espaço em vitrine vista em todo o Brasil: o programa “Mais Você”, de Ana Maria Braga, na Rede Globo (aqui, TV Liberal).

A jovem chef Daniela Martins, que comanda a cozinha do restaurante “Lá em Casa”, desde o afastamento de seu pai chef Paulo Martins – primeiro por grave doença e, posteriormente, por seu prematuro seu falecimento –, apresentou o workshop “Cozinha de Vovó” no reality show “Super Chef”. Não poderia a produção do programa ter feito melhor escolha. Como disse Daniela, ao final do programa, muito emocionada, “com minha avó eu tive o orgulho de aprender 90% do que eu sei hoje. Estou aqui porque de meu lado direito eu tinha Anna Maria Martins e do lado esquerdo eu tinha o meu pai, Paulo Martins”. A foto acima é do sítio eletrônico do programa “Mais Você”, assim como as abaixo.

A culinária regional é uma das formas mais objetivas e diretas de fazer a divulgação turística do Estado. O caso paraense ganha a força da brasilidade de nossos pratos, originários diretamente da grande floresta e dos rios amazônicos. Paulo Martins sabia disso e, há muitos anos, começou o grande trabalho de criar visualização para essa riqueza. Praticamente tudo que hoje acontece originou-se de suas ações, por vezes audaciosas, porque pioneiras. As entidades oficiais precisam aproveitar mais essa força natural para transformá-la em benefício para a região.

 

Este aí é o cardápio das receitas já disponíveis para todo o Brasil, no site do programa de Ana Maria Braga. Como disse Daniela aos jornalistas do “Mais Você”, “papai tinha uma qualidade muito grande: ele nunca escondeu receita e ensinava tudo o que sabia”. Você pode ir a essas preciosidades clicando aqui.

 

Esta aí em cima é a “Sopa de camarão da vovó Laura”, em apresentação sofisticada, que Daniela ensinou a fazer e montar. Antigamente fazia parte do cardápio do “Lá em Casa”, desde os primeiros tempos. Acho uma delícia. A d. Anna Maria tinha a receita de família: essa “vovó Laura” vinha a ser a avó dela! Mais paraensismo, impossível. Aliás, a receita está, detalhada, no volume 1 do livro “Culinária Paraense”, de Paulo Martins.

Daniela esteve muito segura no programa e ainda fez brincadeira com os participantes do “Super Chef”, dando a provar o jambu e mostrando como nós usamos o açaí.

Mas o melhor mesmo é ver esse quadro do programa, que está disponível no site da Globo: basta clicar aqui. Para ver as fotos dos pratos, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 12h25
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DIA INTERNACIONAL DO HOMEM

A DIMENSÃO SOCIAL DE UMA AÇÃO DE COMUNICAÇÃO EMPRESARIAL

Ano passado comentei nestas linhas virtuais sobre o Dia Internacional do Homem (15 de julho) e escrevi que “não se trata de evento registrado aqui pelas ruas de Belém” (para ler “Melhor qualidade de vida no mundo”, clique aqui). Volto ao assunto para registrar, com muita satisfação: essa informação está superada. Neste 2011 a data teve diversas comemorações em Belém. Digo que, com muita satisfação, porque participei do início dessa história por estas bandas. Tudo começou nos idos de 2001, na Albras, onde trabalhei muitos anos na Comunicação Interna. Um colega do Escritório da Qualidade, o Alfredo Miranda, descobriu o registro do tal dia do homem em sua agenda Pombo e mostrou-me. Na época não conseguimos outra referência, o pouco que havia na internet era mais para dizer que não existia uma data para os homens, como das mulheres... mas acreditamos na agenda. “Vendemos” ao Serviço Social a ideia de implantar o festejo na fábrica, a alta direção acreditou e aprovou e, no ano seguinte, a data já tinha comemoração agendada. Com programação, campanha, logomarca, cartaz, etc.

Ainda era uma data muito pouco conhecida. Lembro que apresentei a novidade no painel “Experiências bem sucedidas em Comunicação Interna”, no seminário Megabrasil “A comunicação social e corporativa nas grandes organizações do Brasil”, em novembro de 2002, em São Paulo, onde mostrei o trabalho que nossa equipe desenvolvia na comunicação com as equipes, na fábrica de alumínio de Barcarena. Uma das participantes do seminário, a prof. Terezinha Leal, relações públicas no Paraná, em dúvida sobre a data, disse-me que consultaria o livro “Você sabe que dia é hoje?”, do professor Waldyr Gutierrez Fortes, da Universidade Estadual de Londrina. Segundo ela, se a data existisse mesmo, estaria lá. Pouco tempo depois recebi um cartão acompanhando um exemplar do livro e a exclamação: “E não é que tem o dia internacional do homem!!!”. Estava lá, no dito dia 15 de julho, na página 123. Evento sacramentado.

Pois não é que este ano o Dia Internacional do Homem ganhou comemoração também pelas ruas de Belém? Além dos festejos continuarem em Barcarena, onde os empregados da Albras – o contingente masculino corresponde a mais de 90% do efetivo da companhia, por suas características operacionais – tiveram uma série de palestras sobre “Saúde e Sexualidade Masculina” durante a semana e, na data, massagem relaxante durante todo o dia, música ao vivo no restaurante, com a excelente Lia Sophia e, na Área de Descanso, às 6h30 e às 12h, a banda Saia Justa.

Em Belém as Organizações Romulo Maiorana (O Liberal, etc.) festejaram a data com sessão de cinema, sorteio de brindes, massagem terapêutica e acupuntura auricular.

A Secretaria de Estado de Saúde Pública realizou programação junto a trabalhadores da construção civil com palestras, exames e distribuição de folders, camisetas e preservativos.

Também a Defensoria Pública do Estado assinalou a data, com o lançamento da “Cartilha do Homem”, voltada para a prevenção da prática da violência doméstica.

Ao ler as notícias sobre esses eventos senti, como escrevi lá em cima, muita satisfação. A data ganha dimensão na sociedade e em uma excelente direção: contribuir para a qualidade de vida das pessoas, das famílias. É a satisfação de ver uma ação pioneira de uma empresa, com embasamento na comunicação empresarial, tratada profissionalmente e com seriedade, transformando-se em uma realidade social positiva para a comunidade.



Escrito por Fernando Jares às 19h22
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SEGREDOS GASTRONÔMICOS PARAENSES (2)

NA GRANDE MESA DO MELHOR PALADAR NACIONAL

No final deste mês, de 28 a 31/07, chefs, cozinheiros, quituteiros, degustadores, experts de conhecimentos variados, brasileiros das mais variadas regiões, e até estrangeiros, estarão em São Paulo, em um dos mais importantes eventos da alta gastronomia brasileira: o congresso “Paladar – Cozinha Brasil”, no hotel Grand Hyatt, promoção do suplemento “Paladar” do jornal O Estado de S. Paulo. Vão apresentar e discutir técnicas e novidades entre as fantásticas vocações brasileiras para uma gastronomia diferenciada e única no mundo. E cozinhar, provar, oferecer degustações. Serão 35 workshops, 10 palestras e 11 degustações.

A programação tem alguns dos maiores nomes da cozinha dos melhores restaurantes nacionais, tem críticos, escritores e jornalistas. E alguns convidados surpreendentes, como Luis Fernando Veríssimo, Fernando Gabeira, Humberto Werneck e o fotógrafo Pedro Martinelli.

A festa dos workshops é para agradar a todos, pois tem cobrões como Alex Atala, Ana Luiza Trajano, Neide Rigo, Carlos Alberto Dória, Rodrigo Oliveira, Mara Salles, Carla Pernambuco, Roberta Sudbrack, Helena Rizzo, entre outros – muitos destes já andaram cá, pelas ruas de Belém, especialmente no “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”.

E tem gente do Pará nesse time: o jovem chef Thiago Castanho, do restaurante “Remanso do Peixe” faz o workshop de encerramento (logo após Alex Atala) falando sobre “O pirarucu na cozinha amazônica”, onde, segundo o Estadão, “pretende esmiuçar a importância do pirarucu, um dos maiores peixes de água doce do país, na cozinha amazônica”. Deverá ser um final onde nossa região vai brilhar, pois Atala apresentará “A gastronomia brasileira no contexto internacional” – e sabemos o quanto ele usa os ingredientes amazônicos na sua cozinha. Na foto (de Filipe Araújo/AE), Thiago Castanho no “Paladar” do ano passado.

Conheça a programação completa do “Paladar – cozinha do Brasil”, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h22
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SEGREDOS GASTRONÔMICOS PARAENSES (1)

DO PARÁ PARA O “SUPER CHEF” DE ANA MARIA BRAGA

Reality show pode ser uma experiência saborosa, para participantes e para quem assiste. E não aquela experiência “indigesta” do BBB...

Quem gosta de comida boa e tem um tempinho pela manhã pode curtir o realitySuper Chef”, no programa “Mais Você”, de Ana Maria Braga (Rede Globo) e deliciar-se com dicas e experiências gastronômicas. São 10 participantes que em provas individuais e coletivas, devem mostrar conhecimento na elaboração desde um café da manhã até pratos sofisticados, sobremesas, técnicas de cozinha, etc. Um júri profissional os avalia. Mas eles contam com uma boa ajuda, por meio de cursos de aperfeiçoamento com profissionais renomados de todo o país. E o público desfruta desses ensinamentos.

É aqui que entra uma profissional com largo conhecimento dos ingredientes paraenses: a jovem chef Daniela Martins. Ela foi convidada para ministrar um dos workshops para os participantes do “Super Chef”, desenvolvendo o tema "Cozinha da Vovó Paraense". Ninguém melhor do que ela para esse tema, pois tem no DNA a melhor cozinha parauara, aprendida justo com sua maravilhosa avó, Anna Maria Martins e com o pai, o criativo e pioneiro chef Paulo Martins. São os dois os fundadores do restaurante “Lá em Casa”, cuja cozinha é hoje liderada pela Daniela.

Nesta segunda-feira Daniela Martins grava sua participação no programa, apresentando as grandes atrações gastronômicas que encontramos pelas ruas de Belém e ensinando alguns pratos como a "Sopa da vovó Laura", "Caldeirada de Filhote", “Rabada no tucupi” e a “Torta de castanha-do-pará com queijo cuia”. A turma do “Mais Você” vai passar bem...

O programa com essa gravação deverá ir ao ar ainda na próxima semana.

COMPLEMENTO: Um flash do que foi o workshop de Daniela Martins aos participantes do reality será visto nesta quarta-feira, 20/07, no "Super Chef".



Escrito por Fernando Jares às 19h17
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PQP EM VISÃO PARAENSE

O PRIMEIRO PQP A GENTE NUNCA ESQUECE*

Durante mais de 20 anos ele estava lá, todos os meses, nas bancas de revistas e nas mesas e mãos de quem gostava de textos inteligentes, instigantes, alegres, brincalhões, gozativos, “anárquico-construtivos”, como os definia o autor da façanha, o Comendador (da Ordem do Macaco Torrado) e jornalista Raymundo Mário Sobral. Era o PQP, um jornal pra quem pode. O “sobrenome” era vital para a sobrevivência (política e comercial) do empreendimento, naqueles ditos duros idos de 1979, quando a censura comia direto nas redações, alimentando-se das boas ideias de bons brasileiros. “Pqp” era o que é hoje, mas podia ser “atentado à moral e aos bons costumes”, aos olhos inquisitoriais dos censores. E até mesmo diante de muitos possíveis anunciantes, que temiam represálias ou “mal-entendidos” (ou seriam os maus entendidos?). Lembro que, publicitário ativo à época, tive que explicar para muito cliente que não era “um jornal de sacanagem”... talvez até espicaçando algum tipo, mas com inteligência, perspicácia. Vai daí o sobrenome ser tão importante.

Mas o Sobral, com o apoio de uma pá de gente boa, muitos mesmo sem aparecer nas páginas da publicação, criou, e manteve, por mais de duas décadas, esse precioso veículo, de grande valor literário e político.

Lembro-me bem do primeiro PQP e guardo meu exemplar até hoje. Prova de que “o primeiro PQP a gente nunca esquece” – qualquer que seja o sentido da expressão...

Vejamos a “cara” dele:


E começou já desejando “Feliz Natal” de uma forma um tanto pra frente, para aqueles chumbosos dias. Era dezembro de 1979. Na capa tinha chamadas para artigos dos jornalistas Euclides Bandeira e Oliveira Bastos e anuncia um “Presentão: um strip-tease de Eurico Mendes”, que era cabeleireiro do primeiro time de nossas mais finas damas e figura conhecidíssima pelas ruas de Belém. Muitos colaboradores de primeira linha estão presentes, como Mário Couto (não o político de inclinações tapioqueiras, mas um grande jornalista e cronista dos velhos tempos), Edyr Proença, Vicente Salles, Pedro Veriano, Wellington C. Malta, Cleodon Gondin, Edgard Augusto, Guiães de Barros, Joaquim Antunes, Antonio Contente e muitos textos do Comendador RMS.

Leia uma resposta da entrevista com o Eurico Mendes (já falecido) ao tema “Um sonho”: “Sonhei que me casava na Basílica de Nazaré, de véu e grinalda, com buquê de folhas de mangueira e sorrisos-de-maria. Quem me levava ao altar era o Gilberto Coutinho. Quando me espantei, meu pijama tinha prendido no travesseiro. Voltei a dormir frustradíssimo.”

O PQP tinha também os espaços clássicos do jornalismo, alguns em formato bem diferente do tradicional. Mas lá estava um Editorial, um Palavrão Cruzado, Expediente, seção de cartas (de baralho...). Veja A parte superior da página 2:


Os anunciantes compareceram em bom e entusiasmante número na edição de estreia do PQP. Listo aqui alguns, entre os que fizeram anúncios de tamanho maior: Importadora Oplima, Guaraná Tai, Perfam-Som (Yamada), Recordisco, Lojas Bagdá, Vivenda, Lojas Imperador, Pousada Status, Shopping São Brás, Lojas Capri, Socilar, Encol, Odalisca, Produtos Juruá. Muitos deles podem dar boas histórias, acho que vou voltar a este assunto.

Um dos pontos fortes era o humor gráfico, onde brilhavam duas estrelas especiais: Biratan Porto e Walter Pinto. Tinham destacada participação ao longo das 32 páginas do jornal e eram os donos da última página, o “Ri(s)cardão”. Abaixo, dois cartuns dessa página:

 

Os 32 anos do PQP foram comemorados com uma bebemoração no último sábado. 32 anos? Desde quando se comemora uma conta tão quebrada? Ora, porque não foi festejada nos exatos 30, nem nos 31 anos. Questões histórico-financeiras explicam e justificam. O Comendador Raymundo Mário Sobral explicou direitinho em sua coluna no jornal “Diário do Pará”, no último sábado (2/7):


A festa foi muito boa e teve até um final inesperado, embora muito de acordo com o espírito reinante e o animado e amigo perfil dos participantes. Para ler sobre o episódio, dê um pulinho ao blog do Biratan Porto e leia “Ganhei um carro!”, clicando aqui.

(*) benção, Washington Olivetto (criador do clássico slogan “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, que há muitos anos inspira desinspirados de momento ou permanentes...)



Escrito por Fernando Jares às 21h04
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UM BATUQUE PARAENSE

A SONORA POESIA QUE FAZ 80 ANOS

 

Um dos clássicos da literatura paraense e, mais que isso, uma das obras mais importantes da literatura modernista brasileira com temática negra, completou 80 anos de sua primeira edição. O “Batuque” e seu autor, o poeta Bruno de Menezes (acima, em magnífica ilustração de J.Bosco), merecem todas as homenagens, mas são poucas, não fossem suas filhas, Marília, Maria de Belém, Lenora, a manter viva a imagem do pai, de quem tanto se orgulham. Como nos deveríamos orgulhar todos, os paraenses. Que tal uma edição de suas obras completas e de estudos sobre esse trabalho grandioso? Coisa para ficar, para estudar, para que os jovens paraenses, de hoje e do futuro, conheçam esse grande homem parauara. Que a sua cultura transforme e amplie a cultura de outros. Homenagem na Feira do Livro (no ano passado, onde não se conseguia um livro sequer do poeta!) ou praça acolá, pelas ruas de Belém, é bom, muito bom. Mas o autor quer é que suas obras sejam lidas, estudadas, amadas. Para isso escreve. (Mário Faustino explicou essa relação muito bem...)

Nos registros sobre a data, a jornalista Franssinete Florenzano publicou em seu blog do jornal Uruá-Tapera, informação sobre uma “cantata negra” tendo como inspiração do “Batuque”, composta pelo desembargador do Trabalho Vicente Fonseca, que também é excelente músico, não fosse filho do inesquecível maestro Wilson (Isoca) Fonseca – tive a satisfação de ser colega do Vicente nos tempos da Faculdade de Direito. Franssinete divulgou uma simulação em computador da composição, que você pode ouvir, clicando aqui.

O texto de “Batuque”, acompanhe aqui:

— "Nêga qui tu tem?
— Maribondo Sinhá!
— Nêga qui tu tem?
— Maribondo Sinhá!"


Rufa o batuque na cadência alucinante
— do jongo do samba na onda que banza.
Desnalgamentos bamboleios sapateios cirandeios,
cabindas cantando lundus das cubatas.

Patichouli cipó-catinga priprioca
baunilha pau-rosa orisa jasmin.
Gaforinhas riscadas abertas ao meio,
crioulas mulatas gente pixaim...

— "Nêga qui tu tem?
— Maribondo Sinhá!
— Nêga qui tu tem?
— Maribondo Sinhá!"


Sudorâncias bunduns mesclam-se intoxicantes
no fartum dos suarentos corpos lisos lustrosos.
Ventres empinam-se no arrojo da umbigada,
as palmas batem o compasso da toada.

— "Eu tava na minha roça
maribondo me mordeu!..."


Ó princesa Izabel! Patrocínio! Nabuco!
Visconde do Rio Branco!
Euzébio de Queiroz!

E o batuque batendo e a cantiga cantando
lembram na noite morna a tragédia da raça!
Mãe Preta deu sangue branco a muito "Sinhô moço"...

— "Maribondo no meu corpo!
— Maribondo Sinhá!

Roupas de renda a lua lava no terreiro,
um cheiro forte de resinas mandingueiras
vem da floresta e entra nos corpos em requebros.

— "Nêga qui tu tem
— Maribondo Sinhá!
— Maribondo num dêxa
— Nêga trabalhá!..."


E rola e ronda e ginga e tomba e funga e samba,
a onda que afunda na cadência sensual.
O batuque rebate rufando banzeiros,
as carnes retremem na dança carnal!...

— "Maribondo no meu corpo!
— Maribondo Sinhá!"
— É por cima é por baxo!
— E por todo lugá!"

 

Clássica ilustração de Raimundo Viana para o livro de Bruno de Menezes.



Escrito por Fernando Jares às 20h44
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