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PELAS RUAS DE BELÉM


MARKETING DE CALCINHAS

DO BARATÃO AO REI, A HISTÓRIA DA PUBLICIDADE(?!) CAMINHA

Impressiona-me a capilaridade da mídia breguíssima do “Baratão das Calcinhas”: tem muros pintados por toda a cidade, do centro aos bairros. Até dentro de canal já vi esses... outdoors (com todo respeito aos outdoors...). Digo breguíssima inspirado na clássica definição de “mídia brega” do falecido – e sempre bem lembrado – jornalista Edwaldo Martins, para as faixas de pano que, há alguns anos, dominavam as esquinas de Belém – e que ainda aparecem aqui e ali.

Dia desses encontrei o publicitário, diretor de arte, Walter Rocha, que me falou sobre o possível trocadilho, de duvidoso gosto, no nome dessa loja. Walter lembrava que em acepção popular, “barata” é uma designação chula do órgão genital feminino. Baratão, seu aumentativo. Logo, a ligação com as calcinhas não seria tão ingênua, a ponto de apenas sugerir um lugar onde esses adereços íntimos femininos seriam vendidos por preço baixo. Ops, mas que explicação barata...

Para quem não conhece os anúncios de rua do indigitado Baratão, eis um exemplar, em foto que fiz há tempos:


O Walter tem razão. Logo lembrei-me de uns anúncios de estabelecimento similar, publicados anos atrás (redundância, segundo um amigo, cuidadoso observador linguístico..., mas compatível com este tema).

Mas, antes de entrar (ops) neste meu rememoramento publicitário, deixem-me divulgar aqui uma singela e muitíssimo valiosa sugestão ao dito cujo “Baratão das Calcinhas”. Vejam!!!!

 

Fiquei perplexo, como diria meu lusitano avô. Eu nunca imaginaria um tão fino e requintado talento fashionista escondido no autor dessas mui bem traçadas linhas. E isso tem história. A rara preciosidade está no absolutamente insuspeito Blog do Flávio Nassar, arquiteto e professor universitário. Nassar explica que, diante de tantos muros com esses anúncios, sempre ficava “imaginando uma campanha um pouco mais artística” para o, digamos assim, anunciante. Eis que, ao apresentar sua justíssima preocupação ao brilhante arquiteto e artista plástico Jaime Bibas, recebeu pronta solidariedade: ele logo se “sensibilizou pela causa e, usando seus dotes, preparou estas ilustrações”. Aí em cima esta uma delas. Existem mais! É, sim, coisa fina e variada. Quer ver? É simples, basta clicar aqui. (uma sugestão: clique com o lado direito do mouse e, na caixa aberta, clique em “abrir em nova aba”, para preservar esta).

OUTRAS CALCINHAS

Casas especializadas no dito adereço feminino não são coisa de hoje, pelas ruas de Belém. E a prova está no anúncio abaixo, que fui buscar em uma edição do antológico PQP, o jornal Pra Quem Pode, do comendador Raymundo Mário Sobral, em um número dos idos de junho de 1984.

 

Sentiu? (ops) Mercadologicamente avançada, a loja “Rei das Calcinhas” anuncia promoção sensacional em que paga 300 cruzeiros (no falar popular, na gíria da época, “300 paus”) pelas “suas calcinhas velhas ou furadas”. Em avantajado título de duplo sentido. Elas valem “o desconto de trezentos cruzeiros na compra de uma calcinha nova”. E incentiva: “Nada de jogar fora aquela calcinha velha”. Ao ver o acabamento e finesse da ilustração do Bibas, comparando com estas calcinhas do anúncio...

 

Este outro anúncio que, como se vê, faz parte da mesma “campanha” tem um detalhe que reflete a questão econômica da época. Não tenho a data da publicação, mas foi, com certeza, anterior ao primeiro. É que a oferta é diferente: cada calcinha, digamos, no estado, “valerá um desconto de duzentos cruzeiros”! Isso mesmo, a inflação galopante daqueles tempos fez ampliar o valor da oferta, destes CR$ 200,00 para os “300 paus”. Cultura econômica na história da publicidade. Tecnicamente isso deve ter justificado o grande destaque para o valor da oferta no anúncio dos 300. Coisas de marketing...

Mas a mesma empresa tinha anúncios mais comportados, dirigidos a outro público, pretensamente mais comportado:

 

Isso mesmo: o “Paraíso das Noivas” tinha tudo o que uma noiva poderia desejar, em lançamentos do “Rio, São Paulo e do exterior”. Pensa que é mole? É coisa requintada: “Variedade, requinte, distinção e bom gosto”, anunciam como qualidades da casa. Deviam ser lojas gêmeas, pois o endereço é o mesmo do "Rei das Calcinhas" e, em condições normais, dizem os físicos que não é possível a dois objetos ocuparem o mesmo espaço ao mesmo tempo, mas...



Escrito por Fernando Jares às 19h59
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O TEMPO SUBMERSO NOS ESPELHOS

A TRANSGRESSÃO DO POETA ENCANTADOR DAS PALAVRAS

O poeta transgrediu. Dele disse, nos idos de 1968, o cronista, escritor, inspirador de muitos de nossa geração, Cléo Bernardo (de Macambira Braga): “A sua realização dialética, afinal, tem domicílio certo na poesia, onde residem os objetivos das suas aspirações, como beleza íntima e como verdade pública”(*). Como sói acontecer, somos todos beneficiados pela boa transgressão do poeta.

O poeta agora, além dos poemas que nos deleitam há tantos anos, escreve romances (onde, na verdade, deita a poesia em frases corridas).

Hoje o escritor, professor, doutor, abaetetubense, João de Jesus Paes Loureiro lança seu primeiro romance, “Café Central – o tempo submerso nos espelhos”, inaugurando sua fase de prosa ficcional, pois ele já escreveu muitos outros livros de não-poesia (não confundir com contestação à poesia, mas apenas textos em prosa...) como ensaios, teses, etc.

Tenho com Paes Loureiro uma relação íntima de intelectualidade: foi ele, muito jovem ainda, meu professor de literatura brasileira e fez com que, mais jovem ainda eu, compreendesse e amasse o que é a poesia, a ponto de até arriscar, naqueles tempos de juventude, algumas, e muito mal traçadas, linhas poéticas. Já escrevi muitas vezes dessa admiração, nestas (melhor traçadas) eletrônicas linhas virtuais. Este é um daqueles do Pará, que nos dá orgulho de ser paraense!

O lançamento é hoje, (26/05) às 19h no Polo Joalheiro São José Liberto.

Sobre o livro, vamos ao que nos apresenta o blog do encantador das palavras:

Paes Loureiro inaugura sua fase de prosa ficcional com uma narrativa sobre a alegoria dos espelhos que recobrem as paredes do Café Central.

O Café Central é um espaço simbólico deflagrador de alegorias na realidade narrativa. Sendo lugar de poetas, escritores, pintores, teatrólogos, professores, estudantes, jornalistas, boêmios e visitantes, tornou-se um espaço de livre circulação das ideias antes e depois da deflagração da ditadura militar, a partir do que sua resistência foi sendo enfraquecida.

A obra consiste em uma narrativa da impossibilidade do homem, do ser, ficar fora do tempo e suas circunstâncias. Mesmo que tente se refugiar em alguma forma de exílio, ou no mito, ou no passado, o presente produz suas armadilhas e as circunstâncias suas situações de realidade. Nem sempre se pode fugir aos efeitos do real com que o destino tenta contrapor-se ao imaginário.

Não é, portanto, a história do Café Central, mas a alegoria dos espelhos que recobriam as paredes com seu imaginário cristalizado que justifica o subtítulo: “O tempo submerso nos espelhos”. É um ponto de partida e chegada, pois o romance apresenta vários outros espaços dramáticos ficcionalizados além do Café Central: a Pensão da Naty na zona da prostituição, a região das Ilhas em Abaetetuba, a prisão do Cenimar da Marinha no Rio de Janeiro, e, finalmente, o retorno ao Café Central. “É a concretização de um sonho antigo. E este não será único. É minha fase de prosa ficcional que a poesia espia debruçada em minha alma” afirma Paes Loureiro ao traduzir o significado deste romance para sua carreira. Para ler o texto completo, e poemas recentes, clique aqui.

Como brinde para você e homenagem ao poeta prosador, aqui vai a sua primeira “Canção de Amar”, do livro “Cantigas de amar, de amor e de paz – do poeta João de Jesus Paes Loureiro”, seu segundo livro, de 1966 – o primeiro foi “Tarefa”, de 1964, tarefa atropelada pela força militar. Mantive a ortografia da época (duas reformas antes da atual...) até porque fica muito mais bonitinho quêdo rimando com cêdo, com seus abolidos circunflexos diferenciais.

 Estou mui triste, Senhora,
mui triste de ser tão triste,
que certo sempre não existe
alguém tão como eu agora.

Me quedo no que ser quêdo
quedou-se meu ser agora,
estou mui triste, Senhora,
é muito tarde e tão cêdo.

Não sei se canta ou se chora
o que é agora meu peito,
em ser meu sonho desfeito,
estou mui triste, Senhora.

O tudo que em mim existe,
existe se vos adora.
Estou mui triste, Senhora,
estou mui triste, mui triste..

(*) No prefácio de “Epistolas e Baladas”, livro de 1968

Esta foto ilustrava a página inicial do blog do poeta. Não está mais lá. Mas é tão europeia que
achei que compunha com estes versos de "poesia provençal", no dizer de Cléo Bernardo (obra citada).



Escrito por Fernando Jares às 12h17
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VICENTE SALLES & LUIZ PINTO

CARICALETRAS, CARICASÍMBOLOS

Em dias de homenagens ao escritor Vicente Salles, assunto de ontem nestas linhas virtuais (veja no post imediatamente abaixo), aproveito e faço uma associação de homenagens, tipo corrente de reconhecimentos.

Vejam esta pequena obra-prima:


Haveria melhor forma de identificar o mestre Vicente Salles, um homem de talento e saber em música, em literatura, em folclore? O autor é o LuizPê, ou melhor, o Luiz (Antonio) Pinto. Cartunista, caricaturista, jornalista, desenhista gráfico, é mais um gente boa de Santarém, de uma estirpe que nos deu jornalistas de primeira: Raimundo José Pinto, Lúcio Flávio Pinto, o Luiz e Elias Ribeiro Pinto, todos irmãos. O Luiz uniu neste trabalho símbolos que representam algumas atividades do quase oitentão autor de “Música e Músicos no Pará”, “O negro no Pará” e tantos outros livros fundamentais para quem estuda e pesquisa o Pará. Vemos aí as claves de sol (de cabeça para baixo) à guisa de orelhas, um muiraquitã a ser o nariz e um livro aberto no lugar dos olhos/óculos. É simbologia muito forte.

Ele tem um traço forte, expressivo, que ilustra muito bem as matérias principais do “Jornal Pessoal”, por exemplo. Basta ver esta aqui abaixo, na recente edição 488, da 1ª quinzena de maio, que mostra com muita força como viraremos banquete para meia dúzia de casacudos que se aproveitarão do esquartejamento do Pará:

 

Em passado mais atrás, Walter Rocha, o grande diretor de arte da Mercúrio Publicidade, com quem trabalhei 7,5 anos, gostava de buscar o Luiz para uns certos frilas muito especiais, pois só ele tinha o traço que o WR queria em certos trabalhos. Na Albras fiz com Luiz um magnífico mapa pictográfico da região de Barcarena onde está implantada essa fábrica de alumínio. Virou referência, pois mostra com incrível riqueza e simplicidade o local, as fábricas, etc. Até hoje ilustra o sítio eletrônico da empresa. Quando me aposentei, considerando meu gostar acentuado por caricaturas, os colegas encomendaram uma delas ao LuizPê, simbolizando o momento – e lá apareci eu de pijama e sandálias na mão!!!!, como visto aqui ao lado. Abaixo está uma parte do mapa da região em torno da Albras e Alunorte, e um corte ampliado dele.


Agora vou mostrar uma coisa que (também) gostei muito: a homenagem do Luiz Pinto ao Biratan Porto, o maior dos cartunistas paraenses da atualidade, que recentemente lançou pelas ruas de Belém o livro “Caricaturas de Letra” (clique aqui e leia a respeito). Luiz captou muito bem o “espírito da coisa”, como se dizia antigamente, e fez, no melhor sentido, o “feitiço virar contra o feiticeiro” (mas que bom feitiço, meu Deus!), caricaletrando o Biratan. O criador alimentando a criatura. Olhe aqui no que deu a brincadeira:


Escrevi aí caricaletrando a partir do verbo caricaletrar, que vem a ser: desenhar caricaletras. Não, não procure no dicionário, pois a palavra não existe, pelo menos ainda, dicionarizada. É palavra novinha: usei-a para denominar o novo tipo de arte caricatural criado pelo Biratan Porto, qual seja, desenhar a caricatura pessoal sobre as iniciais do caricaturado. Leia, clicando aqui.

Pois bem, fiquei feliz da vida ao chegar ao Biratan Cartoon e encontrar o lançamento do trabalho acima, com o título “Caricaletras por Luiz Pinto”. Ele mesmo me dissera que já usara o termo em entrevista na Cultura. Fiquei que nem pinto no lixo com a utilização do termo pelo Bira. Oficializou, né. Muito legal. Veja o registro:

 



Escrito por Fernando Jares às 18h47
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VICENTE SALLES, ETNOMUSICÓLOGO

O SAPIENTE DE UM SABER LIVRE

Um dos mais dedicados e competentes pesquisadores da cultura paraense ganha um pré-presente de aniversário que o deve estar deixando pra lá de feliz: Vicente Salles, que faz 80 anos em novembro deste ano, é homenageado pelo V Encontro Nacional da Associação Brasileira de Etnomusicologia, que acontece esta semana em Belém. Estudiosos de todo o país estão aqui, pelas ruas de Belém, a partilhar o seu conhecimento, a aprender mais, a reconhecer o trabalho do grande Vicente Salles – abaixo, no traço de Luciano Meskyta. Isso é muito bom! Ele merece! Ele merece! É uma vida dedicada a estudar a nossa cultura. “Uma afirmação do saber livre”, disse sobre ele o jornalista Lúcio Flávio Pinto no “Jornal Pessoal” (487, 2ª quinzena de abril/2011), ao referir o ser autodidata, cuja “formação acadêmica se limitou à graduação, um anticlímax ao fervor dos currículos Lattes”, como em Benedito Nunes.

Sou fã incondicional, de muitos anos, deste brilhante historiador, folclorista, musicista, jornalista, humanista – tenho muitos livros dele, fonte permanente para minhas permanentes dúvidas ou para atender ao desejo de saber algo mais sobre nossa terra. De vez em quando está ele citado nestas linhas virtuais. Esse é um dos parauaras que nos enche de “orgulho de ser paraense”!

A etnomusicologia vem a ser uma ciência que estuda a música no seu cenário cultural, a música como manifestação de uma cultura e suas ligações nesses campos. E nós, paraenses, temos um material extraordinário para oferecer aos pesquisadores desta especialidade, ops, desta ciência. Já mostrei neste sítio eletrônico, por exemplo, uma tese de doutoramento a estudar o nosso tecnobrega, justo produzida por um dos membros da comissão organizadora deste evento, Dr. Paulo Murilo Guerreiro do Amaral – para ler, ou reler, clique aqui.

A homenagem a Vicente Salles é o reconhecimento a quem muito fez por este ramo, desde antes deste estudo ser uma ciência...

O evento dos etnomusicólogos acontece até sábado e, sob o tema “Modos de pensar, modos de fazer etnomusicologia”, abriga um grande elenco de atividades.

Embora a abertura seja amanhã, hoje já tivemos os minicursos “Tópicos de gravação/edição de áudio” pelo Dr. Denny Moore e “Técnicas e arte de vídeo documentário”, Dr. Glenn Shepard Jr, Sandro Markely e Fábio Guiomar (MPEG). Amanhã durante o dia teremos “Pesquisa em música em institutos e universidades brasileiras: o contexto indígena” pelos Prof. Dr. Manuel Veiga (UFBA), Prof. Dr. Rafael Menezes Bastos (UFSC), Dr. Gleen Sheepard Jr (MPEG). Debatedor: Prof. Dr. Anthony Seeger (UCLA) Mediadora: Profa. MS. Jorgete Lago (UEPA). No final da tarde acontece a solenidade de abertura, onde será homenageado o mestre Vicente Salles, no auditório Benedito Nunes, da UFPA, seguida de, obviamente, apresentações musicais.

Na quinta-feira teremos a conferência “Quem controla e quais direitos devem ser controlados no caso da música?”, Prof. Dr. Anthony Seeger (UCLA). Na sexta “Modos de pensar: interfaces na construção de saberes na etnomusicologia” com os Prof. Dr. Carlos Sandroni (UFPE), Prof. Dr. José Alberto Salgado (UFRJ), Prof. Dr. José Roberto Zan (UNICAMP) Mediadora: Profa. Dra. Elizabeth Travassos (UNIRIO). Para o sábado, “Modos de fazer etnomusicologia: o que estamos construindo para o futuro? com Profa. Dra. Eurides Santos (UFPB), Profa. Dra. Liliam Barros (UFPA), Profa. Dra. Glaura Lucas (UFMG) Mediadora: Profa. Dra. Deise Montardo e a conferência “Etnomusicologia e debate público sobre a música no Brasil hoje: polifonia ou cacofonia?” pelo Prof. Dr. Samuel Araújo (UFRJ). Ao longo desses dias, muitas sessões de comunicações e ainda a Assembleia Geral da Abet. Veja a programação completa, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 18h13
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BACALHAU, BATATAS E MURROS

QUEM QUER BACALHAU?(*)

Ontem estivemos cá com sotaque legitimamente português, a tratar das especialidades da gastronomia amazónica a circular pelas ruas de Coimbra. Hoje a conversa continua em assunto muito semelhante, trocando os cenários: os elementos da culinária lusitana a serem tratados e produzidos cá, pelas ruas de Belém.

O “bacalhau português” tem nome e sobrenome. Não é apenas bacalhau, é português. É respeitado. Portugal dita as receitas de como melhor preparar saborosas iguarias com o seco e salgado peixe. A Noruega tem também renome, mas para os brasileiros, é o português que vale. De tal forma que, quando se pensa em comer um bom bacalhau, pensa-se ou na receita da vovó ou em um restaurante português. Já os tivemos muito poucos, ou melhor, praticamente não os tínhamos. De uns anos para cá estão a aparecer alguns. Há também certas casas de pasto (argh!) que se especializaram em alguma versão do dito cujo. Por exemplo, já apresentei o bacalhau assado do restaurante “Palmeira”, que você pode conhecer ou rever, clicando aqui.

É preciso que se diga que, como em outros campos da história, o bacalhau “português” é mais tradição do que um gentílico... Os portugueses modernos não mais se aventuram pelas águas geladas da Terra Nova, como no passado, a pescar a preciosidade. É certo que são donos de perfeita técnica para o secar e salgar, de tal ordem que importam grandes quantidades de bacalhau “verde”, que é processado no país. E se transforma em um produto alimentício de qualidade incomparável.

Feita esta introdução bacalhoeira, aportemos no “Portugália”, que vem a ser um restaurante especializado em culinária d’além mar aqui em Belém. Em certos dias tem até uns fados ao vivo. Mas fomos lá em dia de apenas comer. Veja bem que não é aquela famosa rede de cervejarias de Lisboa, onde há uma justo em Belém, em frente ao monumento dos Descobrimentos... Copiou-lhe o nome.

Logo à entrada fomos avisados que, naquela noite, não estava a funcionar nenhum sistema de cartão para pagamento. Teria que ser em dinheiro ou cheque. Cheque é um papelzinho que não uso há anos. Sério, fui ver: o último que assinei foi no início do ano passado. Éramos três no mesmo caso. Fizemos um levantamento dos cobres e decidimos que os trocados dariam para enfrentar a nota...

O começo ficou por conta de azeitonas temperadas (R$ 6,00), Purê de sardinha (R$ 6,00) e uma cesta de torradas (R$ 3,00). Um couvert em que se pedem as iguarias ao gosto.

 

Pedimos dois pratos principais, cada um indicado para atender duas pessoas. Portanto, deu muuuuito bem para satisfazer os três. Aí na foto está um “Bacalhau ao Forno” (R$ 65,00, para duas pessoas), que vem acompanhado de bastante alho bem fritinho, rodelas de cebola crua (argh!) e as famosas batatas ao murro – ou a murro, como se diz por lá. Eram postas de belo tamanho, como se vê, formando um belo e apetitoso visual, o que considero sempre importante para o êxito da refeição. O paladar correspondeu. Assado no ponto – talvez até pudesse estar mais ao forno, sem prejudicar – as lascas soltavam-se com facilidade e espalhavam o gosto gostoso do bacalhau pela boca.


O prato seguinte nos trouxe novamente esse saboroso habitante dos mares gelados: “Bacalhau na Brasa” (R$ 65,00, para duas pessoas). Deixe-me dizer que, em ambos os pratos, há uma versão para quatro pessoas, que custa R$ 115,00. Este é preparado sobre brasa, como indica o nome e vem com menos alho frito, sendo que as cebolas não estão cruas, forma que me agrada muito mais. Acompanhado também de batatas assadas, mas não esmurradas... e sem as cascas. Também com bom paladar, o “ao forno” tinha mais sabor. E o pedaço que nos coube, não foi bem escolhido: estava espinhento por demais. Mas tinha muita espinha, o que nos deu a entender que não era uma parte tão nobre do animal marinho, como estávamos a esperar...

Não sei se seria problema daquela chuvosa noite ou porque havia pouca gente na casa, mas o sistema de exaustão não estava a funcionar – na hipótese de existir. Levamos para casa, entranhados nas roupas, cabelo e barba, o odor dos azeites, dos alhos, das cebolas, dos apetitosos bacalhaus...

Mas voltarei lá: vi no cardápio um “Bife à Fernando Pessoa” que não pretendo deixar escapar. Será igual ao servido no restaurante da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa? Quando lá estive, faltava a “carne de vaca” e fiquei sem degustar o prato preferido do poeta preferido.

(*) Frase do velho apresentador Chacrinha, quando distribuía, literalmente, bacalhaus ao público em seus programas de auditório.



Escrito por Fernando Jares às 18h41
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COZINHA AMAZÓNICA EM COIMBRA

NOSSA COZINHA PRA PORTUGUÊS VER, OU MELHOR, COMER...

No espaço multicentenário da Universidade de Coimbra, justo na praça central de uma das mais antigas instituições de ensino do mundo, a cozinha paraense vai estar exposta aos paladares lusitanos da mais elevada estirpe acadêmica. Nossas melhores atrações gastronômicas, nas versões tradicionais e na releitura de chefs contemporâneos, serão o centro de um “Festival Gastronómico Amazónico” que por lá acontecerá, em setembro. Provavelmente irão daqui os chefs Ofir Oliveira e Carmelo Procópio. Antes disso circulará pelas ruas de Belém o chef luso Luís Lavrador, que vem a ser o cozinheiro titular da seleção nacional de futebol de Portugal e professor da Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra.

O leitmotiv destas ações: a tese do professor Álvaro Espírito Santo, da Universidade Federal do Pará, que cursa doutorado na UC, em Coimbra. Essa tese estuda as origens e os sabores característicos da Amazônia e sua relação com a questão turística, no que ele é especialista, pesquisando a alternativa de um turismo gastronômico para esta região, além de fazer um link com a culinária portuguesa. Formado em turismo, a par de sua atividade acadêmica no Curso de Turismo da UFPA, Álvaro já exerceu importantes atividades no setor público e privado paraense, inclusive como presidente da Paratur, ao tempo do governo de Hélio Gueiros.

Esta semana Álvaro apresentou o trabalho que está desenvolvendo à mídia lusitana, em entrevista à importante agência Lusa, publicada em diversos jornais, como o Diário de Coimbra, com o título “Coimbra abre portas à divulgação da cozinha amazónica” cujo texto a seguir reproduzo.

Na foto abaixo, Álvaro está todo "prosa", como diria a vovó, tendo ao fundo 720 anos de cultura. É nessa praça que acontecerá a apresentação da cozinha paraense. Ficam aí também a fantástica biblioteca da UC e a capela de S. Miguel, onde ouvi um maravilhoso órgão, cuja história já contei nestas linhas virtuais, quando falei sobre o órgão da Sé Catedral de Nossa Senhora da Graça, aqui de Belém. Para ler, clique aqui.


 Diário de Coimbra – 17/05/2005

COIMBRA ABRE PORTAS À DIVULGAÇÃO DA COZINHA AMAZÓNICA

O que é a Maniçoba? Apenas uma descendente miscigenada da “Sopa de Pedra” na Amazónia, que faz parte de uma gastronomia original que agora procura Portugal para chegar aos restaurantes do mundo.

Álvaro Espírito Santo, brasileiro, está a doutorar-se na Universidade de Coimbra com um trabalho onde procura evidenciar as singularidades da gastronomia amazónica, e ajudar a integrá-la no cardápio dos maiores chefes internacionais.

Influenciada pela gastronomia lusa no tempo da colonização, o investigador entende que agora é tempo de procurar nos portugueses ajuda para se modernizar, incorporar tecnologias e novos conceitos, e contributos para a disseminar pela Europa e o mundo.

“O contributo que Portugal pode dar para a cozinha contemporânea da Amazónia é principalmente no aspecto tecnológico. Essa gastronomia tem a originalidade mas não conseguiu atingir patamares da alta gastronomia”, afirma em declarações à agência Lusa.

Na perspectiva de Álvaro Espírito Santo, falta-lhe o “suporte que os chefes internacionais têm na alta gastronomia, de conhecimento de técnicas e de composição de pratos”.

“Através de Portugal poderia ter-se acesso a esse conhecimento sem perder a originalidade”, sustenta, frisando que as afinidades culturais do Brasil com Portugal poderiam contribuir para que este país também “fosse uma porta de entrada da cozinha amazónica na Europa, principalmente”.

Afinidades culturais que, apesar de a cozinha amazónica ser aquela que melhor preservou a sua originalidade, se encontram por exemplo na “Maniçoba”, a “Sopa de Pedra” dos amazónicos.

“A Sopa de Pedra portuguesa adquiriu na Amazónia uma característica que tem tanto influência indígena, como africana”, realça Álvaro Espírito Santo, professor da Universidade Federal do Pará.

A influência africana está na utilização dos “miúdos” dos animais, pois eram os restos da “Casa Grande” do senhor colonial. A indígena revela-se na substituição do feijão por folhas trituradas de “maniva”, uma mandioca brava. Os outros ingredientes, e a técnica de os juntar, são similares à portuguesa.

Segundo o investigador, que desenvolve a sua tese na área do turismo na Faculdade de Letras de Coimbra, a Amazónia tem produtos alimentares ancestrais únicos no mundo que, num futuro muito próximo, com a ajuda dos portugueses, podem ser uma boa novidade na gastronomia gourmet internacional.

Para que isso aconteça, acrescenta, é preciso aproveitar aquilo que um reputado chefe internacional ainda recentemente afirmou que a cozinha amazónica, a par da chinesa, chilena e peruana, marcará as tendências gastronómicas no século XXI.

Ciência Hoje

Leia também, clicando aqui, uma entrevista de Álvaro Espírito Santo ao Ciência Hoje, jornal de ciência, tecnologia e empreendedorismo de terras portuguesas, com o titulo “Este é o século da gastronomia amazônica”, onde retoma a tese do falecido chef Paulo Martins, já apresentada neste sítio eletrônico, (leia aqui), de que o tucupi poderá ser o shoyo do século XXI. Só que para isso acontecer, são necessários investimentos e decisão política e empresarial. Mas isso é outra história...



Escrito por Fernando Jares às 19h12
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EXCELÊNCIA NA GASTRONOMIA

A BELEZA ESTÁ NA DIVERSIDADE


“O D.O.M. é um restaurante que busca a excelência. Busca a perfeição. Alcançá-la, impossível. Buscá-la, é obrigação.”

Quem disse isso foi o chef Alex Atala, o dono do “D.O.M.”, sétimo melhor restaurante do mundo, ontem à noite, no programa “Roda Viva”, da TV Cultura paulista, agora comandado pela jornalista Marília Gabriela. Atala esteve recentemente em Belém, participando do festival gastronômico “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense” e foi a grande atração do encontro, tietado pelo público, tietado por grandes chefs convidados. Para ler a premiação de Atala, clique aqui e para ler sobre o “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, clique aqui.

A entrevista no Roda teve a participação dos jornalistas Augusto Nunes e Paulo Moreira Leite e os convidados especializados em jornalismo gastronômico, Josimar Melo (Folha de S. Paulo) e Robert Halfoun (revista Gula), e ainda o excelente cartunista Paulo Caruso. Atala foi rico em definições e conceitos. Foi da gestão da qualidade (frase aí em cima) à importância da gastronomia para a cultura, a ecologia e a economia, regional e nacional, sua vida (foi DJ, pintor de paredes e lavador de pratos, disse Marília), das andanças pelo interior do Brasil e a experiência de ganhar um prêmio como esse, em Londres.

Reconheceu que a “cozinha paraense remonta às origens pré-Portugal”, mas afirmou que “não arriscaria dizer que é mais brasileira de todas, mais do que a mineira, por exemplo”. Obviamente estava de olho na dimensão nacional do “Roda Viva”... Aí eu discordo do mestre. Mas é discussão para outro fórum. Só pra alimentar as reflexões: grandes inspirações e atrações da cozinha de Alex Atala são buscadas na Amazônia, muitas aqui mesmo, pelas ruas de Belém. Tapioca, priprioca, filhote, tucupi, etc., etc. Já tratamos disso antes – basta ler “O homem da priprioca”, clicando aqui.

“A beleza da gastronomia está na diversidade”, disparou. “A mola criativa do ‘D.O.M.’ está em ingredientes e técnicas”. Mostrou que não tem uma casa para vender comida. Para ele o público não vai ao seu restaurante apenas para jantar: “eu entrego experiências, há informações por todos os lados, as pessoas recebem mensagens”, afirmou.

Você pode ver o primeiro bloco do programa, no sítio eletrônico da TV Cultura, clicando aqui.

Paulo Caruso acompanha o programa e registra momentos. Embaixo, um lance da vida do Atala e questionamento do Josimar Melo:

 .



Escrito por Fernando Jares às 17h54
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LEITURAS ESSENCIAIS

UMA MANHÃ DE DOMINGO NA NOITE DE TERÇA

A possibilidade de transformar as terças-feiras à noite, na Unama, em manhãs de domingo, mesmo que chova intensamente e o céu torne-se o mais cinzento ao final da tarde, como hoje (segunda, 09/05) é a mais pura realidade. Baseia-se tal certeza no artigo II d’Os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello:

“Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,

têm direito a converter-se em manhãs de domingo.”

O aparente “milagre”, diante de uma possível “revolta” da natureza, como tem acontecido quase cotidianamente pelas ruas de Belém, deve-se ao motivo que reunirá os que acreditam n’Os Estatutos do Homem: a boa literatura.

Por exemplo, o tema para esta terça (10/05) estimula: “Possíveis diálogos poéticos”. Trata-se, como divulga a organização do encontro, de uma palestra que vai fazer uma abordagem sobre a produção contemporânea em poesia no Brasil e Portugal, a partir de um recorte delimitado pelas obras dos autores portugueses Herberto Helder, Adília Lopes e dos brasileiros Vicente Franz Cecim, e Carlito Azevedo, procurando apontar as relações entre as mesmas. Como se aproximam e dialogam. Como certas características em comum marcam a produção desses autores. O sagrado, o arcaico e a memória nas obras de Herberto Helder e do premiado paraense Vicente Franz Cecim, um dos nossos mais brilhantes autores, de quem fui colega nos tempos em que ele era (excelente) redator publicitário na Mendes. O recurso da prosa, a efemeridade do cotidiano e o jogo intertextual entre literatura e artes plásticas na produção de Adília Lopes e do carioca Carlito Azevedo.

O palestrante da noite será Marcílio Costa, poeta e artista plástico, autor dos livros “celina...”, prêmio da Academia Paraense de Letras-2008 (categoria poesia) e “depois da sede”, prêmio Dalcídio Jurandir-2010. Escreveu o roteiro final e co-dirigiu o curta metragem de animação “Muragens: crônicas de um muro”. Na mediação, Elaine Oliveira (NDE Letras/Unama)

Informações e inscrições: CCHE - Bloco B, 2ºand. Campus A. Cacela. Data: 10/maio/2011 – Auditório D 200 – 18 às 19h15.

Destinado a alunos e professores da Unama e demais interessados, o programa pretende formar leitores em sentido amplo, transmitindo competência para: (a) construir perspectivas integradoras; (b) perceber diferentes contextos interculturais como forma de enriquecer a formação acadêmica; (c) refletir analítica e criticamente sobre a linguagem literária como fenômeno social, artístico, histórico, psicológico, educacional, cultural, político e ideológico, segundo informa a organização do encontro.

Vamos lá, confiando na fantasia nossa de cada dia, pois

“Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.”

Thiago de Mello, Os Estatutos do homem, Art. XII

Leia e ouça “Os Estatutos do homem”, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 18h36
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EURICO PINHEIRO

UM MESTRE PARAENSE EM HEVEICULTURA

Na noite que passou morreu um cientista paraense. A primeira notícia apareceu assim, logo cedo: “A equipe da LATEKS está em luto pelo falecimento do amigo Eurico Pinheiro, grande nome da heveicultura brasileira. / 06.05.2011” na página inicial do site da Lateks, uma revista especializada em borracha, editada em São Paulo. Quem viu a informação foi o cineasta Caito Martins, que recebeu da revista a informação e divulgou no Twitter. Depois repassou-me o texto completo distribuído pela revista:

Com muito pesar, informamos que Eurico Pinheiro, um dos grandes mestres da heveicultura brasileira, faleceu esta noite em decorrência de insuficiência cardíaca, em Belém, Pará.

Uma referência no Brasil e no exterior quando o assunto é borracha natural, Eurico por muito pouco não se tornou médico. Foram a vocação e o anseio de se tornar um engenheiro agrônomo que mudou o destino deste paraense que, aos 83, é leitura obrigatória para qualquer pessoa ligada à heveicultura. Nos últimos anos, vinha buscando incansavelmente reabilitar a seringueira nas extensas e contínuas áreas de escape na região oriental da Amazônia Legal.

O corpo está sendo velado na capela do Cemitério Parque Recanto da Saudade, situada à Rua Diogo Moia, entre a Av. Alcindo Cacela e a Trv. Nove de Janeiro. O sepultamento será às 15h.

Ainda na edição de dezembro da Lateks há uma entrevista com Eurico Pinheiro.

Professor na Escola de Agronomia, hoje Universidade Rural da Amazônia, autor de diversos livros, pesquisador respeitadíssimo da Embrapa, foi por ela homenageado, quando de sua aposentadoria, na publicação nacional “Folha da Embrapa” em dezembro de 2009, assim:

 

Diz o texto: “Eurico Pinheiro: paraense de Belém, 82 anos, é celebridade nacional e referência internacional quando o assunto é seringueira. Seus artigos e publicações sobre heveicultura são leitura obrigatória. Ele tem um sonho: reabilitar a seringueira nas extensas e contínuas áreas de escape (livres da epidemia do mal-das-folhas) da porção oriental da Amazônia Legal, onde, nos últimos anos, concentrou suas pesquisas.”

Dedicou-se inteiramente à agricultura e, particularmente à borracha. De 1971 a 1975 foi Secretário de Agricultura do Estado, na administração do engenheiro Fernando Guilhon, numa equipe que tinha nomes como com Carlos Alberto Lauzid, Octávio Cascaes, Jonathas Athias, Osmar Pinheiro de Souza (pai do Osmarzinho, grande artista plástico falecido há poucos anos e que teve uma obra pública destruída ano passado pela prefeitura e pelo governo estadual), entre outros. Tive nessa época contato constante com ele (fazia assessoria de imprensa da Sagri, via Mendes Publicidade) e aprendi a admirar sua competência e dedicação à agricultura e à causa pública. Foi nessa época que a Mendes criou ele aprovou a belíssima marca da Sagri:

 

Foi um verdadeiro cientista, pelas ruas de Belém. Para quem quiser conhecer mais sobre a questão da borracha e o pensamento deste grande mestre a respeito, há uma palestra e participação em um debate no Congresso Nacional, em dezembro de 1999, na “Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a investigar a crise do setor produtivo da borracha natural e os reflexos na política governamental do setor”. Clique aqui para acessar o relatório da CPI, onde a participação de Eurico Pinheiro está a partir da página 197.



Escrito por Fernando Jares às 16h12
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DIA DAS MÃES NO TERRA DO MEIO

UM CIRCO E... UM RESTAURANTE, NA TERRA DO MEIO


Proximidade do Dia das Mães todo mundo faz propaganda do seu negócio. Até mesmo quem está temporariamente fechado abre para acolher os entusiasmados e sensibilizados filhos, a querer homenagear as mamães. Muitos dão brindes para atrair esses filhos, sorteiam carros. Pois bem, eis um restaurante que oferece paisagem amazônica caprichada (o ângulo da foto aí em cima, “Flores de Abril”, você o tem da mesa...) e, como bônus/propaganda, uma crônica do escritor André Nunes. É o “Terra do Meio – Restaurante Rural”. Já foi assunto neste blog. Sim, está fechado no dia a dia, mas abre em ocasiões especiais e “por encomenda”. Neste Dia das Mães é ocasião muito especial e, com certeza, tem muitas encomendas para abrir. Até na véspera.

O restaurante não fica pelas ruas de Belém, mas é logo ali, em Marituba. Você sai da BR, roda um bocado pelo meio da terra, em um meio bem rural e não tem erro, chega no “Terra do Meio”. Para ver a localização, clique aqui.

A crônica-bonus eu publico a seguir, estendendo o benefício aos leitores cá deste espaço virtual.

O André lembra um circo na sua Altamira da infância. Eu também tive um circo na infância. Acho que todo mundo do interior teve o seu. Lá em Capanema foi o “Circo-Teatro Brasil”, lá pelos anos 1950, imagine, bem mais humilde do que o do André. Mas o primeiro que eu fui... e de graça! Sim, porque eu, lá com meus 8/9 anos, saí na rua atrás do palhaço, cantando “O raio do sol esconde a lua, olha o palhaço no meio da rua”. O “ingresso” foi uma carimbada no braço. Se um dia mamãe teve vergonha de mim, acho que foi nesse... Nem imaginem a encrenca.

Mas vamos ao André Nunes:

Atendendo a insistentes apelos do distinto público o Terra do Meio – Restaurante Rural voltou.
Essa pavulagem de distinto público e insistentes apelos tem cheiro de circo do interior. De antigamente.
E era ótimo.
Certa vez lá em Altamira apareceu um circo. Acho até que foi o primeiro.
Grã Circo Cartagena. Aos trancos e barrancos, estava vindo de Santarém, onde, dizem, nem chegou a se exibir. Veio já nas últimas. Terceira classe do navio gaiola União, dos Sinape. SNAPP – Serviço de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará. Também nunca soube porque se usava “os” Sinape, assim, mesmo, no plural.
Era muita gente. Pelo menos umas vinte pessoas. Todos falando, diz-que, espanhol. Depois viemos a saber que só o palhaço era boliviano. E analfabeto.
O Eduardo Besouro sacou na hora quando viu Gran grafado com til. A curiosidade maior da turma era saber como era ser analfabeto em língua estrangeira.
O circo, apesar dos tropeços iniciais para construir as arquibancadas, pois não havia tábua em Altamira, aliás, nem serraria, foi um sucesso.
Ficaram hospedados na pensão da D. Querida, com o aval do prefeito Zé Rego, que caiu de amores por uma espanholita gitana de Salamanca, que lia mão, botava cartas, era bilheteira, trapezista, ajudante do mágico, e, ainda, a Izabel Cristina em um arremedo de drama apocopado e meloso, O direito de nascer.
No trapézio usava um maiô de duas peças que era uma perdição. Não, ainda, um biquíni, mas perna e barriga de fora, eram demais para Altamira. Nem a Esther Williams, em Escola de Sereias, no cinema do seu Meirelles, ousara tanto.
E a sensualidade do sotaque castelhano misturado com o italiano do Bexiga onde nascera era irresistível. Chamava-se Dolores Sierra. Pobre Zé Rego.
Pois bem, às vésperas da saída do barco Rouxinol, que os levaria à Gurupá, ou Breves, já à tripa forra, resolveram ficar mais um tempo.
Era Domingo de Ramos, quando anunciaram, aí, sim, “atendendo a insistentes apelos do distinto público”, que iriam permanecer por mais uma semana. A Semana Santa. Levariam a dramatização da Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sucesso total. Até o padre Guilherme fez reclame na pregação. Tiveram que fazer três sessões por dia.
Apenas dois incidentes insidiosos empanaram o brilho total da estada do Grã Circo Cartagena em Altamira. Aliás, parece que todo incidente tem a mania de ser insidioso.
O primeiro, até era previsível, quando recrutaram, no laço, o Pedro da Natalina para o papel de Cristo.
Forte o bastante ele era para agüentar a crucifixão três vezes por dia. A única exigência era que, de quando em quando, o mantivessem abastecido de pelo menos um gole de cachaça.
Galho fraco. O palhaço boliviano, analfabeto em castelhano e dono da companhia, providenciou uma cuia de alentado tamanho, cheia de cachaça e uma esponja na ponta de uma lança. Quando, conforme a história, Cristo dissesse, “tenho sede”, o soldado carrasco embebia a esponja na cana, levava-lhe à boca e exclamava “toma fel”. O público se debulhava em lágrimas.
Assim foi feito e assim deu certo.
No terceiro dia, na terceira sessão, acabou a cachaça. Puseram água. O Pedro da Natalina morto de cansaço e muito bêbado clamou conforme o script: tenho sede. E o soldado, rindo de escárnio: toma fel!
O Pedro/Cristo sorveu um gole da esponja, cuspiu com estardalhaço e bradou: como é, porra, acabou a cachaça?
Eu estava perto e ouvi. Pouca gente ouviu.
Aquele povo estava mundiado, afinal, era a primeira vez que viam a encenação do Drama da Paixão. Saiam cabisbaixo, os olhos ainda cheios d’água, e fervendo de ódio latente dos judeus de crucificaram Nosso Senhor Jesus Cristo.
O segundo incidente aconteceu no dia seguinte, sábado de Aleluia, malhação do Judas no coreto da praça da matriz.
O Pedro da Natalina foi enganado, não pagaram o cachê prometido pela atuação na peça, onde foi o ator principal. Passou a noite na zona. Bebeu e não pagou. Brigou, apanhou, caiu de cara na piçarra e, assim, todo lanhado, compareceu à malhação, já depois de lido o indefectível testamento, no fim da programação.
Subiu cambaleante no coreto e, sem quê nem mais, convocou o povo para dar uma surra no judeu boliviano filho da puta que matou Nosso Senhor.
Sem questionar, como em um vôo orquestrado de enxame de vespas, zumbis ensandecidos, rumaram para a pensão da Dona Querida. Fazer o quê, ninguém sabe até hoje explicar.
Zé Rego, avisado que foi, pelo Bicôca, correu, ainda descalço, vestindo no caminho a camisa do pijama. Quando dobrou a esquina da Natividade, a três ou quatro casas da pensão, estancou com a boca aberta, sem emitir o som do discurso que vinha imaginando para conter a turba.
A cena era absolutamente insólita. À porta da pensão, no meio da calçada estreita e alta, estava Dolores Sierra, toda paramentada de lamê azul celeste, exatamente como na peça que representara na véspera. Mater Dolorosa. Fitava o céu, serena, sem demonstrar temor ou gesto mais brusco. Aquele povo todo de repente estancou. Trinta, talvez, cinquenta pessoas. Homens, mulheres, crianças. Até o Zé Rego, usufrutuário oficial dos seus favores mais recônditos, quedou-se pasmo.
Ouviu-se a voz da Virgem recitando a fala que seria antes do Pedro da Natalina e que ele não dissera:
-Pai perdoai-os. Eles não sabem o que fazem.
Dava para ouvir o silêncio. Alguns persignaram-se e se ajoelharam.
Dolores Sierra calmamente, com suas vestes talares azul celeste que lhe encobria os pés, calmamente, como se flutuasse ao rés do chão, entrou na pensão e sumiu na penumbra do corredor escuro que ia dar no quintal.
Ninguém a seguiu. Nem dona Querida que estava na janela e assistiu a tudo boquiaberta.
As pessoas aos poucos foram se dispersando. Sem comentários ou gracejos.
Dolores atravessou o corredor, devagar e, sem pressa também foi despindo a fantasia de Nossa Senhora, de tal maneira que quando saiu à luminosidade forte do quintal ao meio dia, já estava de novo com a roupa de cartomante.
Na rua de trás, onde ia dar o quintal da pensão, já estava toda a trupe de saltimbancos aboletada na carroceria do caminhão do Maciel, que os levaria ao Porto de Vitória.
Sem pressa e sem ajuda, Dolores subiu à boleia. Sem pressa também o caminhão seguiu rumo à estrada de terra batida, até aquela data, única estrada de Altamira.
Zé Rego, depois que o povo saiu, aproximou-se de dona Querida que permanecia em silêncio debruçada na janela, e anuiu com a cabeça à guisa de cumprimento.
Dona querida apenas disse: foram embora.
Por favor, ponha na minha conta, foi a resposta.
***
Pois é, essa mania de escrever só me dá prejuízo. Tudo isso era pra dizer que o Terra do Meio está funcionando e eu espero todo mundo de volta!
Domingo, dia 8, é Dia das Mães. Sábado também. Otimista incorrigível, acredito em casa cheia de amigos. É bom fazer reserva.



Escrito por Fernando Jares às 11h17
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NATUREZA COMO ATRAÇÃO

SABOR PARAENSE SEM RESERVAS, PELO MUNDO

Em fevereiro andou por aqui um gringo, acompanhado de uma equipe que trazia equipamentos de filmagem que provocaram intenso desejo de consumo em profissionais da área. O dito visitante buscava referências que também provocassem intenso desejo de consumo... gastronômico. Procurava comidas populares, a chamada comida de rua, de feiras, mas diferente, exclusiva, exótica. E achou muita coisa. E viu muita coisa, diferente e bonita.

As andanças desse visitante com o desejo de conhecer esse lado da culinária paraense você pode ler –ou reler – clicando aqui.

Os norte-americanos já viram as belezas naturais de Belém, e do Marajó, pela visão gastronômica do repórter televisivo Anthony Bourdain, um dos maiores jornalistas especializados em gastronomia popular do mundo. Viram no programa “No Reservation”, exibido no Brasil com o nome “Sem reservas” (valem as diversas acepções do termo...), no canal por assinatura Discovery Travel & Living. O programa agora vai correr o mundo, mostrando o que existe de comida gostosa, comida do povo, pelas ruas de Belém, pelos rios do Marajó, pelas margens dos igarapés.

Tony Bourdain vive longe de restaurantes bonitos, sofisticados. Busca e mostra, ao redor do mundo, a famosa (e geralmente muito gostosa) comida de rua, de feiras, de mercados.

Neste programa ele mostra o Ver-o-Peso, com suas frutas, peixes, caranguejos, comidinhas. O chef Ofir Oliveira e suas receitas exóticas e históricas. O açaí, com peconha e tudo, da ilha do Combu, aqui em frente a Belém. O tacacá de banca. Pirarucu sendo pescado e comido na ilha de Mexiana, onde estiveram no Marajó Park Resort. Muitas imagens bonitas, algumas nem tanto. Muita chuva, que vira imagem bonita. Tem aquela imagem de Belém vista do outro lado das ilhas, que tanto gosto e que, geralmente agrada os turistas: uma cidade grande, com muita água na frente e com moldura de floresta – está no minuto 3:53, da primeira parte. Na hora em que ele passou, estava coberta de muitas nuvens de chuva, como já a vi tantas vezes, sempre linda. Bourdain faz os seus habituais comentários, sempre pioso, como me disse o cineasta Caito Martins, que o acompanhou nas visitas e participou da produção, como Field Coordinator, indica a ficha técnica do programa.

Mas já chega de conversa. Você pode ver o programa em três partes no YouTube:

1

2

 3



Escrito por Fernando Jares às 10h50
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UM VISITANTE DOS CÉUS

UM SANTO PELAS RUAS DE BELÉM

Ele foi um homem que, sem nenhum instrumento humano de poder, um soldado sequer, uma bomba por menor que fosse, após sua morte – e sem deixar herdeiro definido – reuniu o maior número de donos do poder humano do mundo, jamais visto. João Paulo II, apenas manuseando com rara inspiração a palavra que Deus lhe deu – e a todos os homens de boa vontade – movimentou e reuniu multidões ao redor do planeta, literalmente. E, após a morte, protagonizou o mais fantástico funeral dos tempos modernos – talvez da história da humanidade. Apenas a fé o movia e movia as multidões a ele. Seriam essas as multidões de que falam os Evangelhos?

Esse homem da parte de Deus esteve aqui, andou e abençoou as pessoas, pelas ruas de Belém. Esse homem, hoje pela manhã, bem cedinho para nós, foi beatificado pela Igreja Católica. A instituição que dirigiu, como legítimo sucessor do Apóstolo Pedro, no comando da igreja fundada por Jesus, reconheceu que ele viveu a doutrina cristã com plenitude, dono de virtudes heróicas a ponto de, uma vez solicitado, interceder junto ao Pai para que este opere um milagre em favor de um devoto que tenha a verdadeira fé no Senhor.

O Beato João Paulo II, papa, esteve entre nós nos dias 8 e 9 de julho de 1980. Muitos milhares de católicos participaram da Santa Missa que celebrou na avenida 1º de Dezembro, hoje denominada João Paulo II:

 

Que eu tenha registro este é o primeiro beato a nos visitar. Temos candidatos locais ao posto de beato, mas ainda em estudos pelos cânones e especialistas, na intrincada legislação que rege a proclamação de alguém com virtudes suficientes para ser apresentado ao povo de Deus como exemplo a ser seguido, na caminhada para a salvação eterna.

Com seu primeiro milagre comprovado cientificamente e aprovado religiosamente, João Paulo II já está no primeiro degrau. Com mais um milagre nas mesmas condições, poderá ser canonizado, isto é, ter seu nome inscrito entre os santos da igreja católica, com direito à ampla veneração pública.

 

A foto acima mostra o Beato João Paulo II em visita ao Carmelo de Belém, que abrigava freiras carmelitas portuguesas que haviam sido expulsas de Moçambique e aqui foram acolhidas pelo Arcebispo D. Alberto Ramos, em Benevides. O papa abençoou a pedra fundamental do prédio do atual Carmelo. D. Alberto está na foto, na ponta direita.


Muita gente teve contato com Sua Santidade na visita a Belém. Lembro sempre da felicidade de D. Anna Maria Martins, do restaurante Lá em Casa, ao relatar o encontro e a satisfação do Pontífice com as iguarias servidas, entre elas o pato no tucupi, aprovado pelo visitante. Uma vez ouvi o relato emocionado do marceneiro que construiu a cama para a dormida de João Paulo II – pernoitou no Palácio Episcopal, onde hoje é o Museu de Arte Sacra – em tamanho adequado a proporcionar uma noite reparadora.

No dia 27/04, este blog divulgou um vídeo da chegada do Papa a Belém. Para ver, clique aqui. Na foto acima, o Papa reunido com um grupo de católicos do Movimento Serra, que atua no incentivo às vocações sacerdotais e religiosas. Ao fundo, lado direito (abaixo de uma pessoa fotografando) está o José Ramos, “serrista” dos mais ativos em Belém, tendo à frente sua esposa Eulina Ramos. José, que vem a ser irmão de D. Alberto, é autor do livro “Dom Alberto – o Pastor da Amazônia”, de onde captei as fotos aqui publicadas. Observe, tocando a mão do Papa, o Mons. José Maria Pontes de Azevejo, muito emocionado. Emoção que tomou conta de todos que viram o amado João de Deus, naqueles dias de 1980.

Beato João Paulo II, rogai por nós que, como vós, caminhamos pelas ruas de Belém.



Escrito por Fernando Jares às 11h32
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