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PELAS RUAS DE BELÉM


NOVOS HORIZONTES GASTRONÔMICOS

UM FESTIVAL (DE E PARA) PAULO MARTINS

O mercado do peixe (Mercado de Ferro) do Ver-o-Peso lavado, com água de cheiro, é um espetáculo possível apenas uma vez por ano, no aniversário do próprio. Pois este ano ele foi lavado pela segunda vez! Coisa que as ideias de Paulo Martins e a tenacidade com que sempre as defendeu, explica muito bem: o grande mercado foi lavado pelas “cheirosas” para abrigar, com muito orgulho, a “Jantar Popular” que encerrou o IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense. Foi, mais uma vez, um evento de valorização da cultura gastronômica paraense; do paraensismo; de reconhecimento ao trabalho das boieiras que, com talento, produzem comidas deliciosas para quem trabalha ou visita aqueles mercados e feiras. Aliás, foi um momento de resgate e elevação de autoestima das boieiras, as profissionais que cozinham em feiras (fazendo a boia, comida) e, normalmente, têm mãos de fada no manuseio dos temperos em pratos regionais. Para muitos, foi a revelação de um ramo profissional na gastronomia. Para outros, a descoberta que “boia” não leva mais acento! Aliás, uns tantos que escreveram a palavra, não perceberam a novidade – o que teve de “bóia”...

O “Jantar Popular” reuniu estrelados chefs nacionais e locais, em dupla com as boieiras. Elas faziam o prato principal e eles os complementos. Pelos depoimentos de alguns cozinheiros e cozinheiras, foi uma experiência excelente. Por depoimentos dos comensais, também. As duplas foram sorteadas pela organização do encontro. Estive por lá, provei seis dos 16 pratos servidos, numa seleção dificílima e muito arriscada... que apresento a seguir.


Comecei por este Pirarucu com Legumes, de Maria de Fátima Silva, servido com Mil Folhas ao Aroma de Capim Limão, de Sandro Mota, do restaurante Mania de Pizza, de Santarém. Tinha mesmo cara de entrada. Disse-me o chef que fez a massa com batata doce e usou o óleo de patauá. Este óleo regional é saudado por especialistas como tão bom, ou melhor, do que o azeite de oliva, inclusive nas propriedades medicinais (anticolesterol, etc.). Seja lá como for, é uma delícia. Santarém tem maravilhas culinárias e Sandro Mota foi uma das estrelas do festival, especialmente entre os chefs convidados, pelo que trouxe de novidade dos lindos e piscosos rios oesteparaenses.

 

Açaí e pirarucu formam uma dupla das mais benquistas das mesas paraenses. Ambos têm sabores fortes e marcantes, que se antepõem e se completam em harmonia que agrada o paladar parauara. Pois bem, o prato da foto acima é o Pirarucu Frito, de Maria da Conceição Barbosa da Silva, servido com um Teriyaki de Açaí e Jambu, de Andre Saburó, que comanda a Taberna Japonesa Quina do Futuro, em Recife. Taberna sofisticada, diga-se. Especializado em cozinha japonesa, Saburó utilizou a técnica de um molho conhecido da culinária oriental para criar o acompanhamento tradicionalíssimo do pirarucu. E compôs com o jambu uma espécie de “salame” (semelhança apenas no formato, tipo “salame de cupuaçu”) com a rainha das nossas ervas gastronômicas, que servia em rodelinhas – à esquerda, na foto. No meu prato havia um problema: o pirarucu estava com o sal acima do ponto. Bem acima. E eu sou salista...

 

Feita uma “higienização” bucal aquática – nestes festivais deviam existir sorbets apropriados, aqueles sem leite, para a mudança de pratos... – parti para a banca mais animada do pedaço, onde o alemão Heiko Grabolle fazia dupla com Lucilene Torres e serviam o Filhote ao Molho Camarão, com Arroz amarelo com feijão de corda. Grabolle é um consultor gastronômico que mora em Florianópolis há sete anos. Animadíssimo, apaixonou-se pelo que viu por cá e haja a dançar ao servir os pratos, de forma que todos que vi sair tinham esse pinguinho do acompanhamento na borda... Confesso que gosto de mais açafrão, para o prato ficar mais amarelo, alegrinho. Mas em termos o paladar estava bom, utilizando bem os temperos, e com uns camarões não anunciados no título.

 

O feijão manteiguinha de Santarém foi uma das grandes “descobertas” da dupla Anna Maria e Paulo Martins, nos idos de muitos anos, desde o início do Lá em Casa. Ao que lembro, começou aparecendo em umas saladinhas fantastiquinhas. Uma delícia! Com a descoberta dos novos horizontes da gastronomia paraense, Paulo Martins levou seu feijão queridinho para novas aventuras. Portanto, imagino eu que não poderia ser melhor a homenagem da filha, Daniela Martins, filha de Paulo, e hoje chef do restaurante criado pelo pai e pela avó, do que criar um acompanhamento com o dito delicioso feijãozinho. Assim fiz minha quarta parada gastronômica junto ao Pirarucu Seco com Castanha-do-pará Fresca, de Roseane Silva, com o Purê de Feijão Manteiguinha de Santarém da Daniela. Registre-se: o prato da Rose era no capricho, um delicioso pirarucu mexidinho, com as castanhas bem pequenas. Harmonizou muito bem com o purê.

 

Gostou do camarão? Eu também. Pois preste atenção: ele está deitado sobre uma caminha de jambu e quiabos chips, no Caruru, da Elaine Ferreira, que está ao lado do Arroz de Aviú com Castanha-do-pará Fresca, criado pelo Thiago Castanho do Remanso do Peixe. A menina faz um caruru no jeito, que estava como eu gosto... e eu gosto! O acompanhamento era rico de novidades. O aviú era fresco, um dos sucessos do festival, grande descoberta de chefs como Danio Braga que, pesquisando sabores amazônicos há 30 anos, nunca o tinha provado! E é difícil mesmo. As castanhas eram cortadas em lâminas finíssimas e o tal quiabo chips, fritinho e sequinho, até meio crocante, um diferencial. De olho no futuro, perguntei à jovem se a partir de agora o caruru dela viria com aquele acompanhamento, mas ela desconversou, naturalmente de olho em garantir o cliente...

 

Ufa, chegando à sexta parada. Para garantir a saudabilidade de minhas papilas gustativas, fui sempre tratando a boca com uma aguinha... Veja que inverti as bolas e deixei a salada para o final. Não é novidade, pois já tive um colega que fazia assim, já que não comia sobremesa. Fiz parecido, afinal esta era a Salada de Camarão, da Iracema Andrade, com um acompanhamento composto de manga com ovas surpresa ao molho cítrico de siciliano, criação do Dalton Rangel, do restaurante Yuka Gourmet, de Visconde de Mauá/RJ. O chef estava sumido, disse-me sua parceira, de forma que não soube maiores detalhes das tais ovas que, aparentemente, estavam na mesma situação do chef... Para o meu paladar o acompanhamento ficou muito forte, com muita acidez, brigando com a suavidade do camarãozinho, que estava supimpa. O camarão bem vermelho era decoração da salada dos irmãzinhos menores dele. Nem sei por qual motivo ficou tão vermelho...

Muitos outros pratos haviam (veja o cardápio em post abaixo), mas fiquei nestes. E muito bem ficado.

A maior estrela do evento foi mesmo o Alex Atala, dono paulista D.O.M., o sétimo melhor restaurante do mundo. Popularíssimo. Era difícil chegar em sua banca, sempre cheia de pessoas querendo... tirar fotografia com ele, pegar um autógrafo! (Era parceiro de Raquel Novaes e serviam Tacacá com Pirão de camarão) E não apenas o público em geral. Também os chefs, estudantes de gastronomia, etc. É um ídolo da categoria. Fez um rápido, belo e emocionante discurso sobre o Paulo Martins e a importância desse paraense para a divulgação, nacional e internacional, da culinária amazônica. E ganhou homenagem dos coleguinhas, de surpresa: uma camisa da seleção nacional com o número 7 com o nome dele e do premiadíssimo restaurante. Muito justo. É craque mesmo, em um segmento de altíssima competição. Veja aqui a camisa do grande mestre, quando abraçava duas das meninas do Paulo, tal como foi publicado pelo @pimentaagosto no Twitter:

 

E para fechar, a fachada promocional feita no velho e belo Mercado de Ferro, que, pelo leiaute, virou despedida. Convite para ir embora... O que fiz, muito bem abastecido e feliz.




Escrito por Fernando Jares às 21h28
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JOÃO PAULO II E TV LIBERAL

O PAPA EM BELÉM E NA TV

Dois acontecimentos em um: aproveitando que hoje tem festa comemorando os 35 anos da TV Liberal e que no domingo o Papa João Paulo II será beatificado, em mega evento no Vaticano, juntemos os dois fatos.

A TV Liberal, inaugurada em 1976, registrou a chegada de Sua Santidade a Belém, em oito de julho de 1980, em avião da Força Aérea Brasileira, e acompanhou suas andanças pelas ruas de Belém.

Vale atenção ao registro filmado, onde vemos as principais autoridades locais da época recebendo João Paulo II, tendo a frente o Arcebispo de Belém, d. Alberto Gaudêncio Ramos; o governador Alacid Nunes e a primeira dama, Marilda Nunes que, ritualmente, faz uma genuflexão e beija o “anel de Pedro” que indica a sucessão do apóstolo de Cristo pelo Papa católico; o ainda hoje ativo politicamente Gerson Peres, que era o vice-governador do Estado; o prefeito de Belém, Loriwal Rei Magalhães; o radialista Lauro Sabba, que era deputado estadual; os comandantes militares; d. Tadeu Prost, que era o Bispo Auxiliar de d. Alberto, um grande numero de jornalistas, principalmente fotógrafos, além de outras autoridades.

A história da televisão no Pará, e da TV Liberal em particular, está muito bem contada no livro-álbum "Memória da televisão paraense", lançado há 10 anos, em edição Secult/ORM.

 



Escrito por Fernando Jares às 14h08
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O CARDÁPIO DO JANTAR POPULAR

ALTA GASTRONOMIA X COZINHA POPULAR
PARTICIPE DESTE SABOROSO CONFRONTO

São 16 as opções de degustação oferecidas a quem for hoje, a partir das 19h30, ao Jantar Popular do IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, no Mercado de Ferro (de Peixe), preparado pelas boieiras (fazedora de boia, comida popular, do Ver-o-Peso) e chefs, convidados e locais, que circulam pelas ruas de Belém, neste encontro gastronômico. Atenção que mudou o local: a prefeitura não liberou o Mercado Francisco Bolonha a tempo – isso tem história...

Cada tíquete de R$ 20,00 dá direito a degustar dois pratos diferentes. Há que decidir muito bem e cuidar do planejamento, financeiro e estomacal – por causa do espaço interno, naturalmente, já que nada disso que está aí “faz mal”... com fé em Deus e em S. Benedito, padroeiro do Ver-o-Peso!

Mas vamos ao cardápio que é o importante. Na lista consta o nome do prato, da boieira, de um modo geral, a comida que ela habitualmente faz para vender em sua barraca na feira ou no mercado, o nome do acompanhamento e do chef que o preparou e harmonizou.

Pirarucu e Dourada Frita, de Maria da Conceição Barbosa da Silva, acompanhado de Teriaki de Açaí com Jambu, de Andre Saburó - Quina do Futuro       (Recife)

Arroz Paraense, de Hildely Maria da Silva Moreira, com um Picadinho de Tambaqui, de Danio Braga - Locanda della Mimosa (Petrópolis)

Salada de Camarão, de Iracema Andrade, com uma Cama de manga com ovas surpresa ao molho cítrico de siciliano, por Dalton Rangel - Yuka Gourmet (Visconde de Mauá/RJ)

Tacacá de Raquel Novaes, com acompanhamento criado por Alex Atala – D.O.M. Restaurante (São Paulo)

Silveirinha de camarão, de Oswaldina Ferreira, acompanhada de um Agridoce de Taperebá e Castanha-do-Pará Crocante, feito por   Monica Rangel - Gosto com Gosto (Visconde de Mauá/RJ)

Camarão Brasileirinho, de Eliana Ferreira, com um Pirão preparado por Juarez Campos – Oriundi (Oriundi – Vitória/ES)

Maniçoba, de Maria de Nazaré Ferreira, com Farofa de Farinha d'água com Castanha-do-pará, por Ana Luiza Trajano - Brasil a Gosto (São Paulo)

Filhote ao Molho Camarão           , de Lucilene Torres, com Arroz amarelo com feijão de corda e alfavaca de Heiko Grabolle – Consultor Gastronômico

Moqueca de Aviu, de Jórgia Progênio, com Luo-Póh Kao, de William Chen – Babel (Brasília)

Pirarucu Seco com Castanha-do-pará Fresca, de Roseane Silva, com um Purê de Feijão Manteiguinha de Santarém, por Daniela Martins - Lá em Casa (Belém)

Vatapá, de Jacklucia dos Santos, com um Arroz de Jambu e Farofa de Cream-Cracker com Tucupi e Jambu, de Cristine Klautau - Maga Bistrô (Belém)

Pirarucu com Legumes, de Maria de Fátima Silva, servido com Mil Folhas ao Aroma de Capim Limão, de Sandro Mota - Mania de Pizza (Santarém)

Torta Salgada, de Elizabeth Melo, com um Molho de Acerola criado por Fabio Sicilia - Famiglia Sicília (Belém)

Caruru, de Elaine Ferreira, com Arroz de Aviú com Castanha-do-pará Fresca, por Thiago Castanho - Remanso do Peixe (Belém)

Arroz de Mariscos, de Domingas Barbosa, junto com Escabeche de Camarão Salgado, de Carmelo Procópio - Marujo's (Belém)

Bacalhoada, de Dulcelina Negrão Ferreira, com um Risoto Marinado, de Ricardo Riccio – Tutto (Belém)



Escrito por Fernando Jares às 15h15
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INGREDIENTES PARAENSES EM DEBATE

GASTRONOMIA LOCAL PRECISA DE
TECNOLOGIA E POLÍTICAS PRÓPRIAS

O fascínio exercido pelo Ver-o-Peso sobre visitantes de um modo geral é bastante conhecido. Não por acaso é um de nossos principais ícones. Mas o que ele encanta os grandes chefs de cozinha, em Belém para participar do IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, chega a ser impressionante.

“Amo Belém! A caminho do parque de diversão, o Mercado do Ver o Peso!” anunciou no Twitter a chef Mônica Rangel, quando ia para lá. Para quem veio pela primeira vez, impressiona: “Para um cozinheiro o Ver-o-Peso é mais interessante que shopping em liquidação para uma cocota”, disse William Chen Yen, de Brasília, durante a Mesa-Redonda “O uso dos ingredientes regionais na cozinha contemporânea, a possível perda da identidade regional tradicional e o incentivo à melhoria da qualidade dos produtos”, ontem realizada no Hilton e moderada pelo jornalista Mauro Bonna. Veja abaixo uma foto postada pelo Thiago Castanho, do “Remanso do Peixe” – aqui chef também é fotógrafo...

 

O incentivo à melhoria da qualidade dos produtos gastronômicos paraenses foi consenso, com excelentes depoimentos, mostrando a importância da tecnologia para a alta gastronomia, hoje um grande negócio em todo o mundo. Dos que já conhecem “a praça”, como Danio Braga, elogios por uma notória melhoria, embora ainda falte muito para atender o necessário. Dalton Rangel e Mônica Rangel elogiaram o “amor das pessoas ao falarem dos ingredientes, no Ver-o-Peso” e a consciência de preservação pelos profissionais dessa área.

A questão-título foi pouco debatida, mas ficou claro que culturalmente não há problema – se existe, é econômico, e aí entrou na roda a questão do açaí, cujo preço disparou em função da grande exportação, o mesmo que já estaria acontecendo com a carne bovina. O que vai desembocar na necessidade de melhoramentos tecnológicos e de investimentos, na área oficial e privada – para aprimorar e aumentar a produção. Alex Atala, que não estava na MR porque ainda não havia chegado a Belém, escreveu, na Prazeres da Mesa, um artigo interessante, “A multiplicação do pirarucu”, que pode contribuir para a discussão – leia, clicando aqui.

A proibição da venda de caranguejo nos restaurantes pelas ruas de Belém, enquanto a mesma carne aqui vetada continua sendo exportada em grande quantidade para o Nordeste e para o Sul/Sudeste, sem que as autoridades tomem algum tipo de ação para educar os pequenos produtores, foi tema de debate e de surpresa para os chefs. Pareceu senso comum que, em sua grande maioria, esses ingredientes têm muito mais sabor quando naturais. O exemplo do açaí, que “perde até suas características cromáticas lá no sul, sendo marrom” foi colocado por Danio Braga. Afirmou que o açaí oxida em poucas horas e começa a perder propriedades. Por isso que o bom é o batido na hora...

Os peixes entraram na roda: “Adorei o tamuatá”, disparou Mônica Rangel, elogiando o “cascudo” preparado por Daniela Martins, do “Lá em Casa” – antes não havia provado, por puro preconceito com o bichinho, mas agora adorou. Os peixes levaram a um grande debate sobre o pitiú e o uso do limão para eliminar esse odor (e gosto) do peixe. Na Europa o limão é utilizado exclusivamente após o prato estar pronto, na finalização, disse Heiko Grabolle. O pitiú existiria somente pelo armazenamento do peixe. Quando recém-pescado, não existe, pareceu ser o consenso. Os chefs locais informaram que usam, inclusive Thiago Castanho, que explicou que vê limpar o peixe com limão, desde criança, que os caboclos usam assim e que os clientes gostam do peixe assim. Até ensinou como fazer a mistura de sal e limão para “limpar” o peixe antes do preparo. Mais uma vez a necessidade de desenvolvimento de uma tecnologia para os alimentos amazônicos foi enfatizada.

Na categoria de ervas e temperos o jambu foi o rei e a chicória a rainha. Com a constatação de que eles somente são bons quando nascidos aqui. Essa riqueza incrível foi classificada por William Chen Yen como “ouro comestível”.

Um chef local, Ofir Oliveira, apresentou uma ideia polêmica: fazer do arubé o molho nacional para a Copa do Mundo. O arubé vem a ser um concentrado de tucupi que tem características físicas semelhantes à mostarda, embora com sabor um pouco diferente. Esse molho já andou por cá quando escrevi sobre o prato “Lombo de pirarucu defumado com molho à base de arubé, acompanhado com quinua de jambu”, do restaurante Biomercato – para ler, clique aqui.

Uma vez, lá pelos idos de 2005, o chef Paulo Martins me afirmou, com convicção: “o tucupi vai ser o shoyo do século XXI” (para ler sobre, clique aqui). Sua ideia , pela qual chegou a pesquisar e investir, vai se tornando realidade.

JANTAR POPULAR - HOJE

Por R$ 20,00 é possível provar dois pratos, produzidos pelas mais famosas boieiras do Ver-o-Peso, com acompanhamentos desenvolvidos pelos chefs convidados para o IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, hoje à noite, a partir das 19h30, no mercado Francisco Bolonha (mercado de carne), no Ver-o-Peso. Veja alguns dos pratos a serem servidos:

- Silveirinha de camarão, acompanhada por um agridoce de taperebá e farofa de castanha-do-pará, de Mônica Rangel;

- Moqueca de aviú, com uma polenta grelhada, por William Chen Yen;

- Maniçoba com farofa de castanha-do-pará desenvolvida por Ana Luiza Trajano;

- Filhote com camarão acompanhado por arroz amarelo (açafrão) temperado com ervas regionais, especialmente a chicória, feito por Heiko Grabolle;

- Salada de camarão que vai receber um acompanhamento feito com limão siciliano e mostarda em grão, em criação de Dalton Rangel;

- Um arroz paraense que terá como companhia bolinhos de tambaqui feitos por Danio Braga.



Escrito por Fernando Jares às 11h22
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O PRAZER DA DIVERSIDADE

VER-O-PESO É ATRAÇÃO ÚNICA

Direto de Belém: chefs enlouquecem com a fartura do mercado Ver-o-Peso. Cacau selvagem, cupuí e catinga de mulata são iguarias da vez.

A informação é de hoje (25/04) de manhã, apanhada no Twitter da conceituada revista Prazeres da Mesa, e mostra a reação de quem sabe e gosta de trabalhar com o melhor e mais criativo para a produção gastronômica. Os convidados para o IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, que chegaram ontem a Belém, soltaram-se – aliás, desde ontem – pelas ruas de Belém a cultuar o melhor da nossa gastronomia. Hoje pela manhã foram ao Veropa e fizeram passeio de barco. Amanhã eles comandam o “Jantar Popular”, no mercado Francisco Bolonha (Mercado de Carne).

Esse espanto dos chefs está em muitas fotos que eles fazem e em imagens como esta abaixo, feita pelo @pimentaagosto, que vem a ser o perfil de Twitter do “Malagueta”, sítio eletrônico especializado em gastronomia. Como em anos anteriores, veículos nacionais especializados deslocam-se a Belém, para cobrir o encontro dos chefs. Veja a Banca da Carmelita:

 

O evento deste ano homenageia o seu criador, o chef paraense Paulo Martins, prematuramente falecido em setembro do ano passado. Aliás, deveria homenagear para sempre esse mestre da criação culinária. Fica aqui a sugestão da criação de um adendo ao nome: “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense – Festival Gastronômico Paulo Martins”. Pelo muito que ele fez por esse segmento da cultura e da economia do Pará, o tudo que registre sua importância, ainda deixa espaço para muito mais. Ele era assim. Que seja reconhecido assim. O Governo do Estado/Paratur poderia criar uma medalha para distinguir as pessoas que se destacam nesse campo, dentro e fora do Pará, que levaria o nome de nosso mais destacado chef. São apenas duas ideias, de muitas que podem surgir, rapidinho.

Por sinal, deixa o próprio Paulo Martins falar sobre o evento. Ele falou assim ao jornalista Elias Ribeiro Pinto, em longa e muito agradável entrevista publicada no Diário do Pará, em 10/12/2001 – na semana seguinte ao II Ver-O-Peso da Cozinha Paraense:

Eu sempre fui a feiras, a encontros, às boas mesas da vida dando aula, aprendendo técnicas e difundindo, fazendo um discursozinho de que hoje me orgulho, de que a comida paraense é a mais autêntica, é a mais brasileira porque é indígena, agora todo mundo repete a mesma coisa. Acho isso genial. E queria mostrar mais a nossa cozinha, daí bolei o Ver-o-Peso da Cozinha Paraense. A intenção era trazer os chefs de fora para que tomassem contato com a nossa culinária. Não era para ninguém fazer Pato no Tucupi ou Maniçoba, que isso eu quero vender congelado para todo mundo, não quero que façam lá fora (risos). Mas quero que eles citem em seus cardápios que estão trabalhando com elementos do Pará. O chef sempre faz questão de citar. Se eu trabalho com produto italiano genuíno, eu coloco: exclusivo tomate importado italiano. Isso dá status. Lá fora dá status ter produto paraense. Trouxe alguns chefs ano passado e fiquei muito feliz que o Celso Freire, de Curitiba, que ganhou a terceira estrela do Guia Quatro Rodas, que ele mantenha até hoje no cardápio o prato que fez aqui em Belém. Ele não usa o filhote porque sai muito caro o transporte aéreo do peixe para Curitiba, faz dobrar o preço do seu quilo no Ver-o-Peso, mas ele usa o robalo, que seria o nosso camorim. O prato vem com uma crostinha de farinha de mandioca, jambu, leva feijãozinho manteiga de Santarém, o tucupi entra com uma forma que eles chamam velouté (aveludado), trabalhado com uma técnica francesa. Segundo o Celso, esse prato é líder de venda. Semana passada, aliás, mandei para ele um isopor com quase 30 quilos de produtos regionais. Até brinquei com ele, "você ganhou três estrelas por minha causa" (risos).

Paulo Martins tudo transformava em oportunidade para divulgar a cozinha paraense, inicialmente ligada ao seu restaurante “Lá em Casa”, mas depois ampliando a cobertura até ganhar o título, informal, de “Embaixador da Cozinha Paraense” – quem sabe, a Assembleia Legislativa poderia criar e outorgar este título, post-mortem ao Paulo Martins.

Nos idos de 1995 foi lançado o livro “Os Restaurantes da Boa Lembrança”, com texto de Danusia Barbara e fotos de Sérgio Pagano, onde Danio Braga apresentava a Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança e cada associado os seus pratos e outras receitas. Lá estão o “Macarrão paraense”, “Pupunhas ao roquefort”, “Filé Cidade Morena” e o “Suflê de Cupuaçu”, todos eles criação de Paulo Martins.

Para o lançamento do livro pelas ruas de Belém Paulo trouxe diversos convidados e fez uma bela festa no “Lá em Casa”. Entre os convidados, o jornalista Josimar Melo, que produziu belíssima matéria de nove páginas para a revista Gula (de fevereiro de 1996), da qual pincei o trecho abaixo. Divulga também as receitas de “Caldeirada de filhote”, “Pato no tucupi” e “Açaí com tapioca”, todas fotos do Sérgio Pagano.

À mesa em Belém do Pará

Se existe um lugar onde é possível assistir ao encontro das raízes da culinária brasileira com as do Brasil, esse lugar é o Pará. Ali, a matriz indígena – uma das vertentes que compõem a cultura da nossa nação – ainda sobrevive forte, revelando-se no dia a dia. Uma temporada gastronômica em Belém do Pará, enriquecida por passeios pela cidade, é uma experiência inesquecível. Para a memória, em princípio; para o paladar, certamente. Foi uma viagem desse tipo que, representando a redação de Gula, tivemos o privilégio de fazer no final do ano passado, acompanhando uma delegação da Associação do Prato da Boa Lembrança, que estava em Belém para lançar o livro publicado recentemente pela entidade. O evento – um jantar típico para dezenas de convidados – ocorreu por iniciativa de Anna Maria Martins e Paulo Martins, mãe e filho, chefs e proprietários do restaurante “Lá em Casa”, membro da Associação. A celebração aconteceu na terça-feira, dia 5 de dezembro, sob as frondosas árvores do terraço que constitui o restaurante, enquanto os autores do livro “Os Restaurantes da Boa Lembrança”, a jornalista Danusia Barbara e o fotógrafo Sérgio Pagano, autografavam a obra. Entre os convidados de fora estavam também os restaurateurs Danio Braga (do Locanda della Mimosa, de Petrópolis, e presidente da Associação) e Sérgio Arno (do La Vecchia Cucina de São Paulo e Brasília), além do cronista gastronômico Apicius, do Rio de Janeiro.

Daí para frente faz a descrição do Ver-o-Peso, um canto à diversidade que continua deslumbrando os visitantes, e o que foi um passeio de barco em torno da cidade, onde aconteceu o almoço (“um inesquecível banquete paraense”). A foto abaixo mostra o grupo: Danusia, Josimar, Lilian e o marido Danio, Sérgio Arno, Janete Souza, Joanna Martins, Ângela Teixeira, Daniela Martins e o querido chef Paulo Martins.

 



Escrito por Fernando Jares às 15h49
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99 ANOS DE COMUNICAÇÃO

MOÇAS DONAIROSAS E HOMENS FORMIDÁVEIS

Um dos valiosos patrimônios culturais de Belém comemora hoje, domingo, 99 anos. (e merece post extra, em dia de folga...) Falta apenas um ano para o Cinema Olympia ser centenário!

É um “recorde pelo menos nacional de sobrevivência histórica de um patrimônio cinematográfico, considerando-se que ele jamais mudou o nome, não saiu do lugar, não cessou as suas atividades por mais de um ano e mantém o mesmo recinto construído (ou “caixa construída”). Em se tratando de cinema, obviamente, sofreu várias reformas para se adaptar às conquistas tecnológicas dessa arte & indústria & comércio. A fachada mudou bastante, mas a sua característica primordial, a posição da tela na entrada da sala de projeção, deixando que o espectador passe por baixo dela para chegar às poltronas, permanece como foi idealizada, com o objetivo, no dizer da época, “de ser apenas cinema e não mais um theatro” – escreveu Luzia Miranda Álvares em sua coluna “Panorama” em O Liberal de quinta (21) passada.

Sob o título “Olympia 99 – uma história de Belém”, Luzia faz um paralelo entre a história vivida pelas ruas de Belém, aquelas próximas ao cinema, e a vida do Olympia. É muito bom ler o texto completo, no “Blog da Luzia”, clicando aqui. Lá encontrará belíssima foto do Olympia dos antigamente.

Este foi um cinema que cuidou sempre bem de sua divulgação. Aliás, o cinema, sendo arte (“a arte chamada sétima”, dizia o sempre lembrado jornalista Edwaldo Martins) e comunicação, sempre utilizou bem os meios de comunicação para divulgar-se. Ainda mês passado comentei aqui sobre o Cinema Palácio – clique aqui para ver.

Pedro Veriano conta, no livro “Cinema no Tucupi” (Secult/PA – 1999), que “os donos da casa (Olympia) eram muito hábeis no jeito de vender ingresso. Um poeta, Rocha Moreira, ligado à direção, editava um tablóide chamada ‘Olympia Jornal’. Era um modo curioso de fazer publicidade. Ele anunciava os filmes em cartaz e dedicava versos às frequentadoras com alusões aos artistas. Atiçando a vaidade feminina, era mais quem se enfeitava para ser musa. Uma prévia do que aconteceria 50 anos depois com as colunas sociais na grande imprensa. Muito interessante por traduzir aquele jeito galante de “belle époque”, usando o cinema como elemento de contraste”.

Pois bem, o Olympia anunciava desde os primeiros tempos. Era praticamente o “dono” da última capa da revista A Semana. Veja este anúncio, publicado nessa revista, edição de 3 de junho de 1920. Tinha o cinema oito anos e a revista, dois. Ao anunciar o filme (mudo) “O cântico dos cânticos”, destaca a “Auspiciosa reapparição da linda e donairosa ‘estrella’ do Theatro do Silencio”. A atriz, Elsie Ferguson, seria uma “seductora e decantada Venus ‘yankee’”.

 

Este outro anúncio é de alguns anos após, 03/11/1928, publicado também na quarta capa de A Semana, e mostra o filme “Quo Vadis?”, com Emil Jannings, “o formidável”. O filme era apresentado não apenas no Olympia, mas também no Palace Theatre, que vinha a ser a bela casa de espetáculos que havia por trás do Grande Hotel, na mesma rua lateral do Olympia, que mais tarde foi o Bancrévea – espaço hoje ocupado pelo Hilton. Todo esse conjunto (hotel, cine-teatro e cinema) pertencia a uma mesma dupla de empresários locais.

 

Veja a programação dos festejos de hoje, clicando aqui para ler no Diário do Pará.



Escrito por Fernando Jares às 10h21
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MEDITAÇÃO DE ÁPIO CAMPOS

A SEXTA-FEIRA SANTA DE ÁPIO

Meditemos, os cristãos, a Morte de Cristo, que se celebra nesta Sexta-Feira, com o texto de um mestre, o cônego Ápio Campos, recentemente falecido e já homenageado aqui, pelas ruas de Belém (para ler, clique aqui).

Já tínha esta pauta quando encontrei, em O Liberal de hoje, a colaboração do leitor diácono Ronaldo Lira, que enviou a reflexão “Oração da Sexta-feira Santa ao lado de um fusca despedaçado", transcrita do livro "Sangue nas pedras", Ed. EFPA, 1983), também de Ápio Campos. Esta é uma Sexta-Feira Santa de Ápio Campos. Só que, diferentemente das anteriores, ele a celebra no céu, junto a Nosso Senhor.

Mas vamos ao mestre Ápio, neste texto sobre a Sexta-Feira Santa, a meditação XLIII, publicada no livro “Hora do Ângelus”, Falangola Editora, de 1962:

Deus morreu pelos pecadores !

Se os homens de nosso mundo não fossem tão atrozmente indiferentes e não fizessem tão pouco caso das coisas que merecem realmente importância, bastaria esta frase para mover almas e corações à penitência e ao arrependimento.

Mas que os ouvidos do homem moderno, cheios de ruidos estranhos e de vozes inquietas, as palavras de Deus não possuem força, não produzem espanto. Deus morreu pelos pecadores! É toda a tristeza da terra que se esconde dentro desta incalculável afirmação do cristianismo. E é toda a alegria da Vida que brota dessa fonte de todas as alegrias.

Tristeza, porque devíamos corar de dor e de amargura por termos causado, com a nossa inconsciência e nossos crimes, a morte de nosso Deus. É terrível a constatação desse fato miraculoso e inacreditável na história dos homens: Deus morreu! Que tenha Ele descido do céu, que tenha tomado a carne humana, que tenha enfrentado a dor e o sofrimento, ainda se poderia compreender. Mas não bastou isso para nos resgatar do pecado. Foi preciso Deus morrer. Sofrer a humilhação de perder a Vida, de derramar o seu sangue, conhecer o mistério da morte. Deus morreu, e morreu pelos nossos pecados.

Mas além disso, é preciso compreender também que a nossa alegria está contida nessa morte, a nossa Vida provém dessa morte, o nosso perdão foi dado em atenção a esse sangue derramado na Cruz. E cabem, portanto, ao lado de toda a dor da Semana Santa, os nossos gritos de júbilo e de Redenção. Foi por causa desse Morto que fomos nós salvos. Foi pela destruição desse Deus que os homens foram divinizados. A Sexta-feira Santa é menos um dia de luto que de antecipação da alegria da Páscoa. Deus morreu, então, poderemos nós ressuscitar.

Que a morte de nosso Deus seja, realmente, a vida de todos nós.”



Escrito por Fernando Jares às 12h00
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ALTA GASTRONOMIA POPULAR

“Para mim a inspiração nasce quando vou ao Ver-o-Peso”.

O sofisticado blog “É assiiim... uma Brastemp”, perguntou a quatro chefs o que os inspira na gastronomia. Foram ouvidos o paraense Thiago Castanho, do Remanso do Peixe, e três de São Paulo: Raphael Despirite, do Marcel (onde comi a melhor versão do “Suflê de Cupuaçu”, criação do chef paraense Paulo Martins, que jamais provei); Benny Novak, do Ici Bistrô; e Henrique Fogaça, do Sal.

Olha o que disse o Thiago: “Para mim a inspiração nasce quando vou ao Ver-o-Peso. O nosso mercado sempre me deixa em estado de espírito aberto, criativo. Aprendo sempre algo “novo” (às vezes algo muito antigo, quase perdido, pode ser uma novidade) com os feirantes, peixeiros e açougueiros. Estar em contato com os ingredientes frescos e com a tradição de Belém é muito inspirador!” O foco de inspiração dos outros, você pode ler clicando aqui.

Está aí uma medida da importância desse complexo de feira e mercados, uma das atrações mais conhecidas da cidade. Foi esse o motivo que determinou a adoção dessa marca para o festival gastronômico “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, que cruza o nome do local com a função de “mostrar o peso” da gastronomia praticada pelas ruas de Belém.

Nas próximas segunda e terça-feira, 25 e 26/04, acontece a nona versão desse encontro nacional de grandes chefs, que homenageará o criador do evento, o paraense Paulo Martins, prematuramente falecido no ano passado. A programação inclui visita à feira do Veropa, passeio no rio, mesa-redonda e o Jantar Popular.

Mesa-Redonda – Os chefs convidados participarão de um debate com o tema “O uso dos ingredientes regionais na cozinha contemporânea, a possível perda da identidade regional tradicional e o incentivo à melhoria da qualidade dos produtos”. O encontro será na segunda-feira, 25, às 18h30, no Hilton e terá como mediador o jornalista Mauro Bonna. A entrada é franca, mas é preciso prévia inscrição enviando nome, endereço, telefone e e-mail para contato@veropesodacozinhaparaense.com.br

Jantar Popular – Os grandes chefs participantes – locais e convidados – em conjunto com boieiras do Ver-o-Peso, vão preparar um jantar em pleno Mercado Francisco Bolonha (Mercado de Carne), uma preciosa joia da arquitetura da cidade. É o Jantar Popular, na terça-feira, 26.

A coisa funciona assim: cada chef trabalhará em parceria com uma boieira (que fazem aquelas comidinhas insuperáveis da feira...). Parceria mesmo, troca de conhecimentos e experiência.

Para participar, basta adquirir um tíquete na entrada do mercado, que custará R$ 20,00 e dará direito a duas degustações. Para provar mais opções, comprem-se mais tíquetes...

A organização ainda não divulgou as duplas e o cardápio.

Mas os nomes das boieiras está aqui: Domingas Barbosa, Elaine Ferreira, Eliana Ferreira, Elizabeth Melo, Hildely Maria da Silva Moreira, Iracema Andrade, Jacklucia dos Santos, Jorgia Progênio, Lucilene Torres, Maria da Conceição Barbosa da Silva, Maria de Fátima Silva, Maria de Nazaré Ferreira, Oswaldina Ferreira, Raquel Novaes, Roseane Silva.

O time dos chefs convidados é este: Alex Atala (D.O.M, SP), Ana Luiza Trajano (Brasil a Gosto – SP), André Saburó (Quina do Futuro – Recife, PE), César Santos (Oficina do Sabor - Olinda, PE), Dalton Rangel (Yuca Gourmet – Visconde de Mauá - RJ), Danio Braga (Locanda della Mimosa – Petrópolis, RJ), Heiko Grabolle (Consultor Gastronômico), Juarez Campos (Oriundi – Vitória, ES), Mônica Rangel (Gosto com Gosto - Visconde de Mauá, RJ), e William Chen (Restaurante Babel - Brasília/DF).

O time do Pará tem Carmelo Procópio (Marujo´s), Cristine Klautau (Maga Bistrô), Daniela Martins (Lá em Casa), Fabio Sicília (Famiglia Sicilia), Sandro Mota (Mania de Pizza, Santarém) e Thiago Castanho (Remanso do Peixe).

 

Uma cena histórica: happening gastronômico no encerramento do “V Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, em 2005. Com a participação dos grandes chefs convidados, e sob a liderança de Paulo Martins, uma monumental criação coletiva: a “Farofada dos Chefs” – todos meteram a mão na massa, ou melhor, na farinha e nos ingredientes e temperos. E ficou gostosa! Foi no estacionamento da Unama Alcindo Cacela, onde aconteceu uma feira de produtos culinários regionais. E teve até guitarrada, comandada pelo Mestre Vieira.



Escrito por Fernando Jares às 21h16
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A NATUREZA PERDOA?

AMIGA DOS VENTOS, PERPÉTUA PRIMAVERA (?)

Em todas as igrejas católicas do Brasil, desde a quarta-feira de Cinzas, está exposto um cartaz que chama as pessoas a refletirem sobre a Fraternidade e Vida do Planeta. Orações e homilias são voltadas para este tema. Grupos se reúnem, dentro e fora dos templos, a discutir o assunto e sua implicação no dia a dia das pessoas e das comunidades. Manuais orientam o que e como cada um pode contribuir e participar de ações para reverter o caminho comprometedor para a natureza, como alerta a oração principal da Campanha da Fraternidade 2011:

“O que era para ser garantia da vida está se tornando ameaça.
A beleza está sendo mudada em devastação.”

A vida pelas ruas de Belém sempre foi envolvida e favorecida pela riqueza que a natureza nos oferece. Embora nem sempre retribuamos como deveria ser.

Situemo-nos no passado: 250 anos atrás, em 1760, o Bispo do Grão Pará, D. Fr. João de São José Queiroz, escreveu e depois publicou em seu livro de “Memórias”, editado em Portugal (e citado por Haroldo Maranhão em “Pará, Capital: Belém”) sobre o nosso clima, quase o comparando ao desejado paraíso:

Perpétua primavera

“Os defluxos me são inseparáveis, sem embargo do clima ser benigno, pois desde as quatro da tarde até nove horas do dia é uma perpétua primavera; em o mais tempo e horas há algum calor, porém não tem que ver com o que experimentamos nos caniculares em Portugal; e, conquanto esteja dentro do trópico, e distasse do equinocial um grau e tantos minutos ao sul, como isto é um labirinto de rios com que se acha recortado o continente, o saudável vapor das mesmas águas, e a frescura dos arvoredos sempre cobertos, com a viração que há de manhã, tarde e à noite, faz o país temperado e saudável. Se não fossem as trovoadas em quase todas as luas, dariam estes alguma ideia do que a terra do Pará era um retrato do paraíso.”

Mesmo na metade do século passado, a cidade tinha ainda um clima bem mais favorável, agradável. O jornalista, professor e escritor Eidorfe Moreira, que estudou com profundidade as questões geográficas e ambientais do Estado, em seu clássico “Belém e sua expressão geográfica”, de 1966, (também citado por Haroldo Maranhão em “Pará, Capital: Belém”) assim descreveu a ação dos ventos na capital do Pará:

Amiga dos ventos

“Quanto aos ventos, dominam na cidade os do quadrante Leste, de origem atlântica. Como os estuários favorecem a canalização da circulação aérea, Belém é uma cidade favorecida sob este aspecto, uma vez que se acha situada no maior estuário continental. Pela sua posição e pelo seu relevo, é o que se pode dizer uma "cidade aberta", eolicamente falando. Contudo, são raras as grandes turbulências atmosféricas, e além de raras jamais atingem as proporções catastróficas dos ciclones e tornados da região do Caribe.”

Lembro-me, destes ventos agradáveis, comuns na cidade até não muito tempo, especialmente na noite, logo que esta começava. Foram diminuindo à proporção que a parede de prédios crescia e que as árvores desapareciam. Dizem os especialistas da construção civil que os prédios não têm nada a ver com a coisa...

Mas as árvores que vão caindo e não são substituídas ou as que são cortadas porque alguém quer mostrar a sua casa, comercial ou residencial, seu edifício, essas com certeza fazem falta.

O sempre festejado poeta Bruno de Menezes poetou sobre as árvores. Não sei a data em que escreveu “Árvore, amiga do homem”, que a Voz de Nazaré publicou semana passada. Mas sei que Bruno morreu em 1963, portanto a preocupação ecológica do poeta é muito anterior à onda ecológica, que começou em 1972, com a Conferência da Estocolmo sobre o Homem e o Meio Ambiente, realizada pela ONU e onde foi criado o Dia Mundial do meio Ambiente. Leiamos o poeta do “Batuque”, mas, antes, contemplemos as mangueiras belenenses, retratadas por um artista dos tempos de Bruno, o italiano Armando Balloni, que por estas bandas andou e assim retratou um trecho de túnel de mangueiras na avenida Nazaré, obra do acervo do Museu da UFPA:


Árvore, amiga do homem

Arvore boa! faze que te saiba amar
o homem americano,
o pigmeu rural do Brasil,
que te destrói num ritmo
de inconsciência
pela riqueza que representas
fomentando a aridez e as
secas flagelantes
das populações migradoras!

Arvore boa! Deste o
nome ao meu país
com a indústria do pau de tinta!
e como és pródiga e farta,
para os humanos e as aves erradias,
alimentando-os com teus frutos
sumarosos e sápidos!

Árvore boa! Teu destino está
ligado à Humanidade,
que tem mártires, heróis,
réprobos e gente simples!
Lenho redencional do Cristo,
Companheira de Ulysses
cavalo-igarité, vigilenga audaciosa
do brônzeo caboclo amazônida!

Tudo és para o homem mau,
Árvore sempre boa!

Árvore boa!
Seja, pois, abençoada,
a mão que sempre levantar
o teu caule lenhoso da
terra para o céu!
E que te ame, proteja, e aprenda
na alma da Natureza,
que és tu, além da morte,
a grande Amiga do Homem!

O poeta de hoje chora a perda da árvore boa, amiga do homem, como neste trecho de José Maria de Vilar Ferreira, gente boa, meu contemporâneo de universidade e de “Menestréis”:

Túnel de Mangueiras (trecho)

Andarilho de pós-túnel,
andante de contramão.
Quase tudo está perdido,
Tudo, tudo, por achar.

Passado, presente, futuro,
ouro e prata Dona Sancha,
Senhora, deixai passar.

(do livro “Roteiro Pessoal e Poético da Querida Santa Maria da Graça de Belém do Grão Pará”, 2003) 

Reflitamos, nestes dias propícios a isso, sobre o que acontece em nossa cidade: calor, enchentes, desabamentos. Dia destes ouvi do padre Silvio Jaques, falando durante uma procissão que passava próximo de minha casa: “Deus perdoa, o homem perdoa, a natureza não perdoa”. Será que ele tem razão?

Este trecho do hino da CF/2011 ajuda a pensar:

Olha as florestas: pulmão verde e forte!
Sente esse ar que te entreguei tão puro...
Agora, gases disseminam morte;
O aquecimento queima o teu futuro.

Contempla os rios que agonizam tristes.
Não te incomoda poluir assim?!
Vê: tanta espécie já não mais existe!
Por mais cuidado implora esse jardim!

A humanidade anseia nova terra. (2Pd 3,13)
De dores geme toda a criação. (Rm 8,22)
Transforma em Páscoa as dores dessa espera,
Quero essa terra em plena gestação!



Escrito por Fernando Jares às 19h01
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GASTRONOMIA RECONHECIDA

AMAZÔNIA NA FESTA DOS BEST RESTAURANTS

A Amazônia e seus ingredientes para cozinhar foram citados nesta noite em Londres, na entrega dos troféus aos melhores restaurantes do mundo. Tudo porque o 7º melhor é o paulista “D.O.M.”, do chef Alex Atala, no prestigiadíssimo, e disputadíssimo, ranking do “The S.Pellegrino Best Restaurants in the World”. E ele levou ainda o título de “The Best Restaurant in South America”. Por sinal Atala, fora o grande vencedor do primeiro lugar, foi talvez o mais festejado, com muitos aplausos, e por seu emocionado agradecimento. Veja o que disse o blog do prêmio, que cobria minuto a minuto o que acontecia:At seven it's the Acqua Panna Continental Restaurant Award for Best Restaurant in South America. A lot of excitement here - big applause as D.O.M is given the prize. DOM in Sao Paolo has become the priority desitination for all globe-hopping gastronomes, scouring the Amazon for ingredients to cook with.”

Esse exercício do Alex, de “vasculhar” a Amazônia, em busca de ingredientes inovadores, faz dele referência da gastronomia verdadeiramente brasileira. Quer ver: clique aqui e dê uma lida na revista Morgen Calm, leitura de bordo da longínqua Korean Air, em matéria assinada pela jornalista Luciana Bianchi, brasileira, que vive em Londres: “The face of new Brazilian Cuisine”.

Este conhecimento, fundamental atualmente para que seja reconhecido como um dos nomes mais importantes da gastronomia no mundo, Alex Atala o obteve aqui mesmo, pelas ruas de Belém, com seu amigo Paulo Martins. Ele tem intimidade com o Ver-o-Peso e estará aqui para a nona versão do “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, agora nos dias 25 e 26/04.

Aqui tem outro exemplo da relação do Atala com os ingredientes amazônicos: leia “O homem da priprioca”, clicando aqui. E aqui embaixo ele agradece a premiação, na noite desta segunda-feira (18/04) em Londres:

 

Foi uma importante vitória brasileira, afirmando o país em um segmento que não para de crescer em todo o mundo, e que deu um bom impulso na imagem de nossa gastronomia regional, como geradora de ingredientes absolutamente exclusivos e originais – que o Pará precisa valorizar cada vez mais e consolidar como recurso natural e cultural do Estado. Sem necessidade de imitar botecos.

O primeirão do mundo foi o “Noma”, da Dinamarca, que repete a posição. Veja a relação dos 50 clicando aqui. Não estranhe em não estar aí o mega-famoso "El Bulli", de Ferrán Adria: é que ele vai fechar este ano e, por isso, não foi avaliado. Os dinamarqueses compareceram com chapéus de viking, com chifre e tudo. E bebiam algo em uns copos que eram chifrinhos. Devia ser uma daquelas terríveis aguardentes deles... Olha a festa deles, em foto que divulguei no Twitter:

 



Escrito por Fernando Jares às 23h51
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ÁPIO, LETRAS E RELIGIÃO

"Amazônia, desdobra o teu braço, para a pátria em teu seio apertar,
e o Brasil e o Pará neste abraço, oferece a Jesus, sobre o altar!
Oferece a Jesus sobre o altar!"

Quem tem aí pelos 50 anos, mais ou menos, e é católico, com certeza lembra esses versos. Muitos outros, mais novos, devem conhecê-los, pois ainda, vez por outra, é cantado nas igrejas de nosso Estado e pelo Brasil. Eles formam o refrão do hino do VI Congresso Eucarístico Nacional, realizado em Belém, em 1953. Eu, de minha parte, moleque ainda naqueles idos, tinha o maior orgulho de ouvir o nome do meu Estado cantado em um hino tão bonito e importante. Seu autor, o paraense de Belém, cônego Ápio Paes Campos Costa, faleceu ontem.

Padre de forte militância, foi pároco na cidade e no interior e ganhou o título dignitário de Cônego; intelectual de grande produção literária, ocupava a cadeira 30 da Academia Paraense de Letras; poeta, versejou até em latim; jornalista, foi presença constante nos jornais paraense, durante décadas; radialista, escreveu diversas peças de rádio-teatro, como se dizia na época, para a Rádio Clube; professor competente e amigo, sempre reconhecido assim pelos alunos, dividiu seu conhecimento em livros cheios de saber acadêmico e exerceu cargos de destaque na hierarquia da UFPA e Unama. Sobre a vida de Ápio Campos, leia o que ontem publicou o endereço eletrônico “Ministrare et dare anima suam”, clicando aqui.

Homem de letras e de fé, a quem sempre, desde muito jovem admirei, mas, infelizmente, não tive oportunidade de conviver, registro cá seu retorno a Deus com dois de seus textos, de inspiração religiosa. O primeiro busco no livro “Hora do Ângelus”, edição de 1962 da Gráfica Falangola Editora, que reuniu “meditações que foram irradiadas dia a dia, pela PRC-5, emissora da Rádio Clube do Pará, no programa “Hora do Ângelus”, que vai ao ar às 18 horas”, como informa o autor na apresentação. São 97 meditações nas 198 páginas, que ele disse serem “Inspiradas na sugestão da hora, essas meditações procuraram ser leves mas objetivas, e sobretudo genuinamente cristãs.” Tenho um exemplar que me acompanha desde aqueles tempos e não posso deixar de dizer: o programa “A Hora do Ângelus” era patrocinado pela “firma” Victor C. Portela, meu primeiro local de trabalho...

Leiamos a meditação XXIII:

Os homens deveriam aprender, com o exemplo do dia que morre, a lição dos olhos fechados. Os poetas chamam à noite de "pálpebra do dia", que se fecha para o descanso e a meditação. Por que também nós outros não fechamos os olhos ?

Temos a iludida impressão de que é de olhos abertos que enxergamos o mundo, as coisas do mundo, a vaidade do mundo. Os olhos abertos vêem tão poucas coisas, e é tão estreito o horizonte de nossa vista ! A lição do Pequeno Príncipe encerra uma verdade transcendental: "O essencial é invisível aos olhos !" Os olhos abertos vêem apenas uma parcela da realidade, um fragmento do universo, um pedacinho do céu. Estamos cercados de sombras e aparências, e só quando fechamos os olhos é que podemos, à força de concentração e silêncio, descobrir as verdadeiras dimensões do mundo e os genuínos contornos do homem e das coisas.

Os olhos abertos dissipam, os olhos fechados convidam à concentração, E é na concentração que palpita a vida, densa, substantiva, enérgica e firme, fervilhando na contemplação da Verdade, fermentando as difusões do Amor.

Pelos olhos abertos, sai o homem de sua casa interior, que fica deserta ao abandono, e dá-se ao divertimento de percorrer a superfície das coisas e dos seres, a borboletear de emoção em emoção, de fantasia em fantasia, sem jamais aprofundar-se no verdadeiro pensamento, que é a única atividade digna do ser racional. E nesse passeio exterior, leviano e irrefletido, o homem gasta-se, cansa-se e cobre-se de pó. Ao voltar, não é o mesmo homem, perdeu alguma coisa nessa esquisita viagem, fragmentou-se insensivelmente nessas divagações. Até quando poderá conservar incólume ao menos o essencial ?

Aprendamos a arte de fechar os olhos – ao mundo, à pompa e às seduções da carne. E de olhos fechados, contemplemos Deus!

E a seguir a letra do Hino do VI Congresso Eucarístico Nacional, evento que trouxe a Belém milhares de pessoas em 1953 para celebrações centralizadas na Praça do Congresso (que depois foi Kennedy e agora é Waldemar Henrique), mas que se espalhavam pelas ruas de Belém. O tema do encontro foi “A Sagrada Eucaristia, sacramento da unidade e da comunidade” e sobre ele Ápio Campos escreveu versos que são um canto de louvor a Deus e de amor à cidade, ao Estado e à Amazônia, valorizando nossas realidades e a união dos povos. Leiamos e, quem souber, cante (a letra pode ter alguma mudança, pois não consegui uma original e é comum acontecerem mudanças nas cópias das cópias, das cópias...):

Ó Brasil peregrino da história, adorar Jesus Hóstia hoje vem!
Como os magos feliz trajetória, segue a estrela que aponta Belém.
Amazônia, desdobra o teu braço, para a pátria em teu seio apertar,
e o Brasil e o Pará neste abraço oferece a Jesus, sobre o altar!
Oferece a Jesus sobre o altar!

Uma árvore nova floresce, nestas matas banhadas de luz;
o Brasil louva, adora agradece e suplica, ante o lenho da cruz.
Amazônia, desdobra o teu braço,...
Ó Jesus, Filho Eterno Humanado, Tu nasceste em Belém, nosso irmão;
mostra ao Pai o Brasil irmanado deste altar, na comum união.
Amazônia, desdobra o teu braço,...
Nazaré foi teu lar, ó Senhora, e Belém foi o estábulo vil;
Nazaré e Belém são agora o Teu templo e o lar do Brasil.
Amazônia, desdobra o teu braço,...
Ó Jesus, deste altar brasileiro os pecados do mundo destróis,
com Tua carne, Divino Cordeiro, alimenta uma raça de heróis.
Amazônia, desdobra o teu braço,...
Cristo-Rei deste verde cenário, o Amazonas se prosta a teus pés.
Abençoa o Brasil-Missionário, na epopéia dos igarapés.
Amazônia, desdobra o teu braço,...
Amazonas barrento, florestas, índios, feras, ardente calor,
bendizei nosso Deus, cantai festas! Valoriza a Amazônia, Senhor!
Amazônia, desdobra o teu braço,...



Escrito por Fernando Jares às 11h54
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CAMINHOS DE HÉLIO

“Belém, como qualquer mulher, quando se ama, se ama pra valer.”

Um homem de permanente bom humor, brincalhão, inteligente, rápido nas frases, nos chistes, como se dizia antigamente. Ao mesmo tempo, autor, confesso, de um dos textos de mais baixo calão que eu já li, uma famosa carta dirigida ao jornalista Lúcio Flávio Pinto. Assim era Hélio Mota Gueiros, hoje falecido, que conheci como jornalista, no início de minha vida profissional, com quem trabalhei por oito meses, quando estive na Paratur. A última vez que conversamos foi no lançamento do livro “Mulher com seu amante”, da prof. Stella Pessôa.

Controverso. O Papudinho que o povo gostava, embora nem sempre votasse nele. Jornalista e advogado, foi político por vocação, mas tinha vocação para as três vertentes. Negociador às vezes, muitas vezes radical.

Intelectual, ocupava a cadeira nº 14 da Academia Paraense de Letras, que tem como patrono Enéas Martins.

Escrevedor por excelência, transcrevo a seguir um texto de sua autoria, em homenagem a Belém. Com o que o homenageio.

O texto abriu o livro-álbum “Os caminhos de Belém” (AGIR/1996), com belíssimas fotos de José de Paula Machado e Nelson Monteiro e textos de Geraldo Mártires Coelho e Ruth Burlamaqui de Moraes – sem favor nenhum a mais bela publicação produzida nestes últimos anos para mostrar as belezas com que convivemos pelas ruas de Belém e que foi patrocinado pela PMB. No dia do lançamento, Hélio mandou dar o livro, gratuitamente, mesmo, a todos os presentes. E era muita gente. Aliás Hélio Gueiros também apoiou outros dois livros-album resultado das andanças do José de Paula Machado por estas bandas: um sobre o Tapajós e outro sobre o Marajó.

Todos os brasileiros alimentamos um "caso de amor" com Belém, tenhamos ou não nascido nela - e isso teria, lógico, que incluir os poetas, do pernambucano Manuel Bandeira ao paulista Mário de Andrade.

A "morena nortista", que Bandeira tanto queria bem, é tão uma cidade-mulher (na linha que aponta São Paulo, por exemplo, como uma cidade masculina) quanto o são o Rio e Salvador na Bahia de Todos os Santos e Todos os Pecados. Um "pedaço de mau caminho", do samba famoso, Santa Maria de Belém do Grão-Pará se estende por entre mangueiras e um casario que vem do classicismo, melhor temperado para uma modernidade que não lhe afeta o perfil dengoso, malemolente, macio.

Em meio a essa composição de prédios a buscar o sol, lá onde o céu é mais azul, espraiam-se lindas igrejas e algumas das praças mais belas do Brasil, como a da República, no antigo Largo da Pólvora, e a de Batista Campos, com sua feição peculiaríssima que o célebre Cónego, a quem homenageia no nome, com certeza abençoaria, ele que primava por distinguir bem o certo do errado.

Aqui temos um livro que visualiza a nossa cidade a olho vivo; reportando as transformações por que vem passando, desde a saga aventureira do 12 de Janeiro de 1616, quando Francisco Caldeira, filho da aldeia lusitana de Castelo Branco, aqui aportou, até hoje, em que procuramos, todos unidos, fazer de Belém uma realidade urbana e suburbana a cada dia mais representativa, resgatando-lhe a História e a fisionomia.

Livro que retrata a metrópole que me cabe dirigir, com o carinho e com a ternura que o seu povo ordeiro, bom, criativo, merece. Um povo que se quer solidário ao país nesta hora importantíssima em que toda a gente clama por políticas definidas de desenvolvimento, insistindo em que não basta estabilizar a moeda, repetindo que há que retomar o crescimento da economia em benefício de camadas mais amplas da população.

Belém se insere nesse quadro, dentro das plenitudes que a tornam pessoalíssima à vista de todos, da arquitetura à culinária. As fotos deste documento maior (uma declaração de amor a Belém do Pará) são provas dessa especificidade regional.

Assino esta apresentação dentro do Palacete Azul, o Paço Municipal cuja restauração presidi, voltado para os parques e áreas verdes que um dia um glorioso antecessor meu plantou, ele que dá nome ao edifício o Intendente (maranhense de nascimento) Antonio Lemos, que manteve, com Belém, denso, forte relacionamento de amor, eternizado nas obras que se espalham na memória das gentes de ponta a ponta da capital da Amazônia.

O que irão olhar é uma civilização fluvial e de mato que vem vencendo, heroicamente, uma batalha sem fim em face do desordenado progresso nacional.

Passeiem graficamente pelo ontem e o aqui/agora dessa aldeia global de 1 milhão e 200 mil brasileiros a pedir à Nação maior compreensão e melhor entendimento Descobrirão que ela se situa historicamente no consenso geral plena de lirismo, de beleza, de tradição, de história e de charme inteirinhos seus.

E é como eu falei na abertura. Belém, como qualquer mulher, quando se ama, se ama pra valer. Ela, a cidade feminina por excelência erguida à beira-rio, dona de cheiros e de sabores só avaliados devidamente em versos – ou em imagens que a visualizem por inteiro, como estas que passo à vista de vocês.

Foto do Gabinete do Prefeito, no Palácio Antonio Lemos, que Hélio refere na mensagem acima, e que faz parte do livro "Os caminhos de Belém".



Escrito por Fernando Jares às 17h42
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UMA NOVA ARTE GRÁFICA

AS CARICALETRAS DO BIRATAN


Com essa capa caprichada, com o grande Fernando Pessoa representado de forma magnífica, acontece hoje o lançamento de “Caricaturas de Letras”, o novo livro do cartunista Biratan Porto, gente muito boa, que também é ótimo bandolinista, nascido aqui mesmo pelas ruas de Belém, com um dia e quatro anos de diferença para mim. Mas não é apenas o lançamento de mais um livro de arte ou do oitavo livro do Bira. É a apresentação de um novo conceito da caricatura, um novo estilo de retratar pessoas.

Em post anterior (clique aqui para ler) escrevi sobre experiências anteriores na brincadeira do humor com as letras. Mas o desenvolvimento da caricatura pessoal sobre as iniciais do caricaturado, isso é novidade. E o Biratan me confirmou. Portanto ele é o criador deste novo estilo.

Aproveitando a novidade, arvorei-me a inventar um nome para o novo estilo birataneano de fazer caricaturas: são as caricaletras. Ele já confirmou que gostou: “Ta batizado”, disse-me via e-mail e até já exemplificou o uso em uma frase: “_____, vou te enviar uma caricaletra”!

Quem for hoje à livraria Fox Vídeo, na dr. Moraes, às 18h., encontrará muita gente famosa nas páginas do livro, como o quarteto musical mais famoso do mundo, devidamente caricaletrado pelo Biratan Porto:


Os fãs das maravilhosas histórias do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, onde me incluo, pois li a série toda quando ainda criança, vão encontrar um presentão: o autor desses e de outros livros muito bons, o escritor brasileiro Monteiro Lobato, assim caricaletrado no livro, sobrancelhudo como só ele, marca registrada que, aqui pra nós, bem ajuda os caricaturistas...:

 

Como acontecimento importante que é, o lançamento de um novo livro de um cartunista paraense reconhecido nacional e internacionalmente, com uma série de prêmios que não acaba mais (quer conhecer? Dê uma passadinha no sítio eletrônico do Biratan, clicando aqui), teve a melhor cobertura nos jornais locais. Veja só o assunto como tema de capa de caderno no Diário do Pará e em O Liberal:

 



Escrito por Fernando Jares às 13h16
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CAMILLE CLAUDEL

ESCULPINDO AMOR E LOUCURA


A turma que gosta de cinema e psicanálise reúne-se nesta sexta-feira (15/04), no Centro de Estudos Gradiva, para ver e discutir o filme “Camille Claudel”, sobre a vida da famosa escultora, aluna, assistente, modelo e amante do grande Auguste Rodin. Um programa a não perder, para quem gosta do tema, pelas ruas de Belém. O filme é longo (166 minutos), por isso começa cedo, às 18h. Ao final, há sempre uma conversa agradável com especialistas sobre o comportamento dos personagens e sua relação com a psicanálise. Informações com a coordenadora do programa, Thais Noronha (8133-5995).

Veja a seguir a sinopse da história/roteiro do filme, divulgada pelo Gradiva. Para conhecimento da história de Camille Claudel você pode consultar a revista Aventuras na Historia, clicando aqui.

Em 1885, em Paris, a jovem escultora Camille Claudel (Isabelle Adjani), irmã do escritor Paul Claudel (Laurent Grévill) impressiona o renomado escultor Auguste Rodin (Gérard Depardieu), e mesmo encontrando resistência da família em aprofundar seus estudos na arte, continua sua formação. Torna-se aprendiz, e depois assistente de Rodin, o que faz aprofundar seu conflito com sua família. Para piorar ainda mais sua situação, ela se torna amante de seu mestre e, embora tenha amigos como o compositor Claude Debussy, cai em desgraça junto á sociedade parisiense. Tendo deixado sua família pelo amor de Rodin, ela trabalha vários anos a serviço de seu mestre e mantendo-se à custa de sua própria criação, mas tão próximos que não se sabe mais qual obra do mestre ou da aluna inspirou um ou outro. Além disso, Camille Claudel enfrenta duas grandes dificuldades: Rodin não consegue decidir-se em deixar Rose Beuret, sua companheira devotada desde os primeiros anos difíceis, e de outro lado, alguns afirmam que suas obras seriam executadas por seu próprio mestre. Camille tentará se distanciar na tentativa de dar autonomia à obra. Esse distanciamento segue até o rompimento definitivo em 1898. A ruptura é marcada e contada pela famosa obra: A Idade Madura, que retrata a sua relação com Rodin, e com a esposa deste - Rodin tentará impedir que esta obra venha a público para resguardar sua imagem. Ferida e desorientada, Camille Claudel nutre então por Rodin um amor-ódio que a levará à paranóia. Ela mergulha na solidão e continua sua busca artística, contando com o apoio de vários críticos. Suas exposições têm grande sucesso de crítica, mas Camille já está doente demais para se reconfortar com os elogios. Os períodos paranóicos de Camille multiplicam-se e acentuam-se. Ela crê em seus delírios que Rodin está se apoderando de suas obras para moldá-las e expô-las como suas, que também o inspetor do Ministério das Belas-Artes está em conluio com Rodin, e que desconhecidos querem entrar em sua casa para lhe furtar as obras. Ela vive então em um grande abatimento físico e psicológico, não se alimentando mais e desconfiando de todos. Ela mesma destroi grande parte de sua extensa obra. Seu pai morre em 3 de março de 1913, em 10 de março, por iniciativa de seu irmão, ela é internada num manicômio, onde passará 30 anos internada até morrer em 19 de outubro de 1943, aos 79 anos incompletos.

 



Escrito por Fernando Jares às 18h04
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A SOLIDÃO DO SOLEDADE

VAMOS TRANSFORMAR ESTA SOLIDÃO EM VIDA!

Você já ouviu falar do capitão de mar e guerra José Joaquim da Silva? Olhe que ele era da Armada Nacional e Imperial Brasileira. Pois bem, ele é o habitante de um dos bonitos monumentos mortuários da Cemitério da Soledade:

 

“AQUI JAZ - O capitão de mar e guerra da Armada Nacional e Imperial Brasileira José Joaquim da Silva Commendador da Ordem de S. Bento de Aviz e prático das costas do Maranhão, Pará e Cayenna. Nasceo a 26 de agosto de 1779. Falleceo a 13 de julho de 1850. Foi bom e carinhoso pai, excellente esposo e dotado de todas as virtudes domésticas e sociaes.

À sua memória e saudade este monumento.

Seus filhos e genros.”

Os que fazem a homenagem assinam apenas com as iniciais dos respectivos nomes, uma bela prova de humildade e de que o homenageado é apenas o patriarca da família.

Andei por lá um dia destes. Fazia muitos anos que não visitava o mais antigo cemitério paraense ainda conservado. Conservado? Infelizmente, muito menos do que poderia estar, tivessem as autoridades sensibilidade para o patrimônio histórico que se espalha pelas ruas de Belém. Passamos decênios sem cuidar disso, acho que desde o Antonio Lemos até o Paulo Chaves.

O Soledade pode ser transformado em um parque. O projeto de restauração já está pronto e aprovado pelo Iphan! Falta apenas o interesse da autoridade municipal (ou estadual) em apoiar o projeto e entrar com a contrapartida local aos recursos federais. A cidade ganharia um novo e importante espaço público, aprenderia mais sobre seu passado e... poderia ganhar dinheiro. Isso mesmo: cemitérios com uma boa história, com beleza para mostrar, é assunto que interessa ao turismo. Ainda no ano passado, em city-tour pelas ruas de Buenos Aires, visitei o famoso cemitério da Recoleta. Para os mais radicais, existe até o necroturismo. Pensa que não? Pois clique aqui para ler “Necroturismo, arte e cultura no passeio São Paulo Além dos Túmulos”, no sítio eletrônico do Guia 4 Rodas. É matéria de hoje (12/04), assunto fresquinho. Mas para que isso aconteça, é preciso ter um “produto” bem acabado.

Uma expedição com um arquiteto, um físico, uma psicanalista e um jornalista podia ser vista tarde destas, entre uma chuva e outra, a caminhar pelo Soledade. O ver/rever tal patrimônio gera alegria e decepção. Mas, ao ouvir a narrativa do arquiteto Raul Ventura Neto, nasce a esperança de ver aquilo tudo recuperado e devolvido ao povo da cidade (e visitantes) como uma praça de esculturas, espaço para lazer e até uma praça de leitura. Preservando todos os túmulos, restaurando o que for possível, com todo rigor científico. Cuidando das tradições de nossa gente, como o culto aos “santos” populares cujas sepulturas, simples, mas cheias de história, estão lá, como a Escrava Anastácia, sempre com alguém a olhar por ela, a acender uma vela, a colocar um agradecimento:

 

O cemitério da Soledade (termo que decorre de solidão, solitário), utilizado no curto período de 1850 a 1912 (embora tenha recebido sepultamentos até 1940, nos jazigos já existentes) é, ou melhor, o que nos resta dele, uma riqueza. Tem história, parte dela consolidada em um trabalho da historiadora Rosa Maria Lourenço Arraes, justo para este projeto. Ela nos mostra que “Por ter sido construído na época do Período Romântico nas artes plásticas e arquitetura, o Cemitério da Soledade reúne expressivas construções dessa linguagem simbólica, assim como elementos formais da simbologia funerária”. Como vimos lá, inclusive nos textos das mensagens ainda legíveis.

Voltarei lá e a este assunto. Tem muito o que ver e o que dizer.

Aproveite e conheça uma preciosidade, o mais antigo registro que se tem conhecimento do Soledade, foto feita por Felipe Augusto Fidanza, no final dos 1800, que se encontra na Biblioteca Nacional:

 



Escrito por Fernando Jares às 18h47
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FLAGRANTES DA CIDADE MORENA

FLAGRANTE FELINOSBEL

Segundo Monteiro Lobato, o sábio Visconde de Sabugosa, ilustre personagem do Sítio do Pica-pau Amarelo, na verdade um boneco feito com um sabugo de milho, obteve seus imensos conhecimentos por ter ficado, durante muito tempo, na estante de livros de Dona Benta.

Tivesse o extraordinário escritor paulista visto a cena que vi – assim como muita gente já deve ter visto – na porta da Fox Vídeo, na Dr. Moraes, e teríamos uma dupla de gatos intelectuais. Estão cá na foto abaixo.

Saia eu de uma incursão aos livros que só por lá se encontram, final da manhã, quando vejo a cena: os gatinhos faziam sua refeição. E era coisa fina, não um rato de esgoto ou um passarinho descuidado, ainda assim apanhado com muito esforço. Não senhor. Era uma ração refinada, provavelmente daquelas que vemos na televisão e que até nos humanos desperta uma fominha (dependendo da hora da veiculação...).

Mostrando educação, os dois comiam ordeiramente, com modos, os rabinhos esticados simetricamente para trás, mastigando bem e engolindo direitinho a guloseima que lhes fora servida. Já estavam para acabar, mas mantinham a linha.

Imagino que, bem alimentados e com aquela imensidão de livros, CDs e DVDs à disposição, poderiam ser uma versão pelas ruas de Belém do visconde de Sabugosa. Quem, dos nossos escritores, se habilita a transformar a dupla no casal Visconde e Viscondessa de Felinosbel...?


FLAGRANTE HOMEM-POMBO

Quem visita Veneza, na Itália, aprecia as muitas centenas de pombos que enchem a praça de São Marcos e, geralmente, compra um saquinho de milho, por um euro, para jogar para os voadores, aproveitando para tirar uma foto cercado por eles, tendo a basílica ou palácio dos Doges ao fundo... (Estavam querendo proibir esses vendedores, na tentativa de controlar os milhares de pombos que chegam a ameaçar o patrimônio milenar da cidade).

Pois bem, parece que caminhamos para instaurar nesta terra paraense a tradição veneziana dos pombos, tal o número deles espalhados pelas ruas de Belém. Tanto é assim, que o cidadão abaixo está aí fotografado, cercado de pombos, a alimentá-los pacientemente, como fazem os turistas lá na praça de São Marcos – naturalmente aqueles mais enturmados com os bichinhos...

Atente para o fato de que, neste nosso caso, não se trata de um turista acidental ou acidentado, mas de um humilde cidadão, que Fernando Pessoa diria ser “homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara” mas que, muito ao contrário do personagem de Álvaro de Campos, é este mesmo cidadão que tem um “gesto largo, transbordante” e divide com os pombos o alimento, provavelmente “tudo quanto tinha”. (para ler “Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa”, clique aqui).

Ele está lá, na Alcindo Cacela, próximo à governador José Malcher, quase todos os dias. Hoje lá estava, a alimentar, na maior intimidade e amizade, os pombinhos da região. Um antiespantalho vivo.




Escrito por Fernando Jares às 22h27
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BOIEIRAS & CHEFS

ALTA GASTRONOMIA DESMISTIFICADA EM PLENO
 VER-O-PESO (DA COZINHA PARAENSE)

 

“Domingo fiz uma rabada lá em casa e eu coloquei jambu. Mas ficou muito gostosa, todo mundo gostou!”, disse-me esta semana a Nazaré, que vem a ser a cozinheira cá de casa. Aí está, na prática, o resultado da revolução que fez o jambu pular para fora da cuia do tacacá e da panela do pato no tucupi. Foi o chef paraense Paulo Martins, prematuramente falecido no ano passado, que criou e comandou essa revolução. Ele é o arquiteto da nova cozinha paraense. Aliás, literalmente, porque era arquiteto por formação universitária. Outra de suas grandes criações foi o “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, um encontro entre consagrados chefs de todo o país com os chefs locais. Sobre a importância de Paulo Martins para esse segmento da cultura e da economia paraenses, você pode ler clicando aqui.

Mas este post é para apresentar o “IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, que acontece agora este mês, dias 25 e 26/04, na versão que seu criador mais gostava e que só experimentou no final. E que aprovou, com emoção. A alta gastronomia desmistificada, ao alcance de todos, em pleno Ver-o-Peso, junto ao povo do veropa. Serão 10 chefs de diversos Estados e seis do Pará. Ganhou este ano marca nova, que está aí em cima, em criação do arquiteto Jaime Bibas. Embaixo, foto do chamado Mercado de Ferro (de venda de peixe), uma marca da cidade, que serviu de inspiração para a marca do evento. Gosto dessa mistura das torres com os prédios que se espalham com voracidade pelas ruas de Belém.

No primeiro dia os visitantes fazem o mercado do Ver-o-Peso e um passeio de barco: reconhecimento dos valiosos componentes da culinária paraoara e de nossa natureza-maravilha. Fechando o dia, mesa-redonda no Hilton para debater o uso desses mágicos ingredientes regionais na cozinha contemporânea, a implicação dessa mudança na tradição gastronômica paraense, e a valorização da qualidade no produto gastronômico, hoje um ponto importante nesse segmento da indústria da alimentação. A entrada é franca.

No dia 26 a grande atração é o Jantar Popular, que será no lindíssimo Mercado Municipal Francisco Bolonha, mais conhecido como mercado da Carne, que leva o nome de quem o criou. Os pratos tradicionais preparados pelas boieiras terão suas receitas harmonizadas com os chefs, com quem trabalharão em duplas. “Para quem não sabe, boieiras são as cozinheiras que fazem a boia no dia a dia de quem trabalha e visita o mercado”, explica Joanna Martins que, junto com a mãe, Tânia Martins, esposa de Paulo, organiza o evento. As boieiras sabem como fazer comida gostosa (a concorrência é grande) por um custo baixo. Milagreiras! A entrada para o Jantar Popular custa R$ 20, com direito à degustação de dois pratos. Precisaremos comprar alguns ingressos: não há como provar apenas dois!

Veja só o time de estrelas escalado para o “IX Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”. Primeiro os “de fora”: Alex Atala (D.O.M, SP), Ana Luiza Trajano (Restaurante Brasil a Gosto – SP), André Saburó (Quina do Futuro – Recife, PE), César Santos (Oficina do Sabor - Olinda, PE), Dalton Rangel (Yuca Gourmet – Visconde de Mauá - RJ), Danio Braga (Locanda della Mimosa – Petrópolis, RJ), Heiko Grabolle (Consultor Gastronômico), Juarez Campos (Oriundi Ristorante – Vitória, ES), Mônica Rangel (Gosto com Gosto - Visconde de Mauá, RJ), e William Chen (Restaurante Babel - Brasília/DF). Neste time, seis são da confraria dos restaurantes da Boa Lembrança (Quina, Of. do Sabor, Locanda, Oriundi, Gosto e Babel) e o Alex Atala tem o 18º melhor restaurante do mundo!

Agora, a “prata da casa” que estará em ação do Jantar Popular: Carmelo Procópio (Marujo´s), Cristine Klautau (Maga Bistrô), Daniela Martins (Lá em Casa), Fabio Sicília (Famiglia Sicilia), Sandro Mota (Mania de Pizza, Santarém) e Thiago Castanho (Remanso do Peixe). Dos seis, três são os da Boa Lembrança em Belém - Lá em Casa, Remanso, Sicilia. Certo, ainda faltam os nomes das boieiras, porque elas estão sendo selecionadas pela organização. Depois eu divulgo.

 



Escrito por Fernando Jares às 20h33
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LOGOGRAMAS COM HUMOR

BRINCANDO COM LETRAS, ROSTOS E CORPOS


O querido e sempre lembrado jornalista Edwaldo Martins, fosse ainda vivo, teria, em um lugar de destaque em seu apartamento, um quadro com essa caricatura de letra aí em cima, envolvendo duas boas querenças dele: a atriz Marilyn Monroe, por quem era literalmente apaixonado e de quem colecionava lembranças, e o artista criador do desenho, o seu colega Biratan Porto, de quem fui também companheiro de trabalho, em A Província do Pará.

Tenho a séria impressão que o Biratan é o inventor desse ramo da caricatura, que trabalha com pouquíssimos traços, as letras iniciais do nome do caricaturado com alguns pequenos adereços, mas o define com muita clareza.

Perguntei hoje isso ao Bira e descobri que ele pensa o mesmo: “Eu era bem novo quando vi, pela primeira vez, o ótimo humor com letras ou logogramas feito pelos mestres Millôr Fernandes e Ziraldo. Esse lúdico humor era visto na revista O Cruzeiro, no Pasquim e em outras publicações. Muitas vertentes existem nessa área do humor. Desenvolvi um novo caminho onde elaboro caricaturas com as próprias iniciais dos nomes dos retratados. Meu trabalho com caricaturas de letras começou em 2000. A primeira que fiz foi a do poeta Carlos Drummond de Andrade. Gostei do resultado, então a partir daí comecei criar novas caricaturas com letras. Produzi quase duzentas caricaturas de celebridades do mundo inteiro.

Ele está certo. Lembro bem desse humor com letras em O Cruzeiro, só não consigo lembrar do desenhista, que imaginava o Carlos Estevão ou o Appe, mas pode ser o Millôr. Infelizmente, não encontrei um exemplo antigo, mas lembro bem da palavra “gravidez”, em que o “a” tinha a parte de baixo crescida, como a barriga de uma grávida. Ou a palavra “ABISMO”, em que a perna final do “M” crescia para baixo e o “o” como que caia no abismo...

Pois bem, essa riqueza do Biratan, disponível aqui e ali na internet, agora forma um livro, “Caricaturas de Letra”, que junta 84 dessas obras de arte, e será lançado na próxima quinta-feira, na Fox Vídeo da Dr. Moraes, às 18h.

Para quem não conhece essa vertente do grande artista paraense, é uma surpresa. Como o foi para o Ziraldo, que há tantos anos acompanha e admira o trabalho do Biratan. No prefácio, que assina no livro, Ziraldo diz:

“Eu não sabia de duas coisas do Biratan: que ele fosse um caricaturista pessoal da competência de um Nássara ou de um Cássio Loredano e que tivesse a capacidade de, com um traço, botar a cara e a alma do seu caricaturado no papel.

O que há aqui, neste livro, são fantásticas caricaturas de personalidades que todos conhecem. Quem não tem olho muito bom para artifícios gráficos pode custar um pouco a descobrir onde está a cara e a expressão do personagem escolhido. Outros, vão sacar logo que o Biratan pegou a cara e a ânima da turma toda do livro.”

Gente, o mestre Ziraldo compara o nosso Biratan ao Nássara, um dos monstros sagrados da caricatura no Brasil! Isso é muito forte. Isso é valor paraense que circula entre nós, pelas ruas de Belém!

 

Acho que a primeira dessas caricaturas que eu conheci foi... do Fernando Pessoa, essa que está aqui em cima. É um trabalho primoroso – uma das mais inteligentes representações gráficas do Pessoa que conheço – e olha que, modéstia à parte, conheço um bocado delas, afinal, sou pessoamaníaco... Encontrei-a em uma pesquisa na internet para ilustrar um trabalho sobre o fantástico artigo do FP com valiosos comentários de marketing (“A essência do comércio”), que o mestre das palavras chamava de vendas, pois ainda não se usava o termo em inglês. Foi na pós em “Comunicação institucional” que fiz na Unama, há uns quatro anos. É facilmente encontrável em sites sobre Fernando Pessoa, em todo o mundo, inclusive nos oficiais sobre o poeta, em Portugal. Virou a capa do livro e o Biratan explica: “na capa estampo a caricatura do monstro da poesia, Fernando Pessoa, que considero emblemática”. E é!

 



Escrito por Fernando Jares às 23h08
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A BONITA BELÉM DE GIULIA

“UMA DESCOBERTA INESQUECÍVEL”

“A cidade é impressionante”, disse a atriz Giulia Gam, nos idos de 1988, quando esteve em Belém pela primeira vez. Disse, assinou embaixo e publicou, no caderno de Turismo do Jornal do Brasil, àquela altura poderoso veículo de circulação nacional. O depoimento da atriz, ainda garota de 21 anos, mas um grande sucesso na televisão – havia sido a Jocasta jovem em “Mandala” e gravava a Luísa, de “O Primo Basílio” – foi bastante repercutido aqui. Tinha lá alguns errinhos pontuais, como você poderá ver a seguir, mas era um testemunho de felicidade em conhecer e andar pelas ruas de Belém e vizinhanças. Lembro-me que o Edwaldo Martins transcreveu quase todo o texto em sua página diária em A Província do Pará.

Mas vamos ao que escreveu a atriz (viveu a personagem Bruna, na recente “Ti-ti-ti”), na edição de 27 de janeiro de 1988 do JB:



Eu conheço um lugar

Belém

Em nossa – Fernanda Montenegro, Edson Cellulari, Jacqueline Lawrence e eu – turnê pelo Brasil com a peça Fedra estivemos em Belém por uma semana. Chegamos numa segunda-feira e, como a peça seria apresentada no Teatro da Paz apenas de quinta a domingo, houve tempo de sobra para passeios. Foi um dos lugares mais incríveis que conheci. O próprio teatro é fantástico, recentemente restaurado e muito bonito por dentro. A cortina de boca de cena tem um desenho maravilhoso e tudo foi importado na época em que foi construído. Acho que nem em Viena há um teatro tão bonito.

A cidade, no meio da floresta, é impressionante, com aquele clima úmido, amazônico: chove muito, tanto que as paredes das casas estão constantemente úmidas. Na cidade, muito bonita, sombreada por mangueiras, você sente uma força muito grande. Fiquei impressionada especialmente com o mercado de Ver-o-Peso, que é lindíssimo, com um clima mágico, um pedaço do Brasil que o progresso ainda não matou. Lá eles vendem peixes que não conhecemos no sul, como o tucunaré, ervas e raízes afrodisíacas. É gostoso ver a chegada dos peixes nas embarcações e ouvir o falar do povo.

A influência indígena é muito forte em Belém, cidade que ainda não foi invadida pelo turismo exagerado e predatório; lá tudo isso permanece com a mesma força dos rios.

Isso me marcou porque o Brasil que eu conhecia eram praticamente as praias, o litoral. É muito louco ver as coisas importadas, de alto custo, sobrevivendo no meio da floresta, coisas difíceis de encontrar mesmo na Europa, e que ainda estão conservadas em Belém.

A comida é outra coisa incrível. Há frutas estranhíssimas como o sapoti, o damasco e outras que eu conhecia apenas em livros e filmes – citadas, por exemplo, no texto da peça Macunaíma, que fiz em São Paulo. Entre as comidas, adorei um doce que se come misturado à farinha de mandioca (guardo dele o sabor, mas não o nome). Essa turnê me levou a outros lugares impressionantes, como a Chapada dos Guimarães e o Pantanal, ambos em Mato Grosso. Foram, com Belém, descobertas inesquecíveis.

Falar de um passeio pelos igarapés é falar da grandiosidade do rio e da floresta e do contato com as pessoas que vivem à beira do rio. É sentir a pureza da natureza e o Brasil em estado bruto. Acho que, para o estrangeiro, principalmente o europeu, altamente cultivado, deve ser impressionante chegar à Amazônia e confrontar-se com aquele mundo de florestas e rios. A verdade é que a gente se acha tão grande e está redondamente enganado. Em Belém, na Amazônia, descobrimos como somos pequenos em relação à Natureza. E como ela é linda.



Escrito por Fernando Jares às 20h01
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O PADRE ZÉ NO CÉU

A CHEGADA DO PADRE ZÉ MARIA NO CÉU

Vou contar aqui pra vocês,
Narrando em bom português
Como foi que aconteceu
O encontro do paraense com o Galileu

Não, não se assustem. Não vou enveredar pelos caminhos dos cantadores e contadores de histórias em versos de cordel, hoje tão raros pelas ruas de Belém. Bem que o gostaria. Mas falta-me o domínio da arte da versejação, no que aqueles poetas são tão ricos e experientes. Foi só esse versinho para abrir a conversação (ops, rimou!)

Há um ano exatamente, na madrugada de um Domingo da Ressurreição, falecia o cônego José Maria de Albuquerque. Que os muitos que o queriam bem chamavam mesmo – e ele gostava – de padre Zé Maria ou padre Zé. Muitíssimo gente boa.

Registrei cá por estas linhas virtuais o acontecimento aqui e aqui.

Do que foi escrito após sua morte, e tenho guardado em clipping muito querido, destaquei uma série assinada pelo padre Cláudio Barradas. Citei-a em artigo que escrevi para o jornal A Voz de Nazaré deste final de semana, que você pode ler clicando aqui.

Mas, e a chegada do Padre Zé Maria no céu?

Imagino que deve ser mais ou menos assim:

A CHEGADA DO PADRE ZÉ MARIA NO CÉU

“Zé Mariiiia! Até que enfim o Pai te liberou para que viesses para cá. Eu já havia pedido a Ele mais de uma vez”, disse Jesus, em manifesta alegria ao receber um espantado e humilde, como bom caboclo obidense, padre Zé Maria a entrar no céu.

E Zé olhava tudo espantado: “Puxa vida! como isto é tão lindo” E dirigindo-se a Cristo, logo se ajoelhando, com desenvoltura:” Ô Nosso Senhor, nem sei se é assim que devo chamá-Lo, obrigado por receber este humilde servo amazônico”. Ao que o Mestre responde, “Levante, Zé, servo fiel, você está em casa e temos muito o que conversar. Quero saber de suas experiências maravilhosas com as plantas medicinais que o Pai criou e você tão bem estudou e apresentou ao povo de Deus, para que delas tirasse o proveito a que se destinavam”.

E o padre Zé ainda sem saber direito o que fazer, foi relatando seu lado cientista. E aí Jesus lhe pergunta sobre o pastoreio das almas e o parabeniza: “Zé, tenho aqui muitas felizes almas que, logo que chegam, vão dizendo que devem este lugar ao seu trabalho, aos seus exemplos, às suas explicações e homilias”. E continuou o Senhor: “Por falar nisso, deixa eu chamar o João, que quer muito te conhecer pessoalmente”. “João?”, indagou o padre Zé. “Sim – respondeu Jesus – o Evangelista, nem sabes como ele ficava vaidoso cada vez que explicavas, divulgavas, o versículo Jo 10,10(*) do Evangelho dele”. “Ora, ele merece, é uma síntese extraordinária da missão do Senhor no mundo. Sempre gostei e divulguei muito esse versículo e até, volta e meia, eu fazia a pergunta: O que Cristo veio fazer aqui?”, respondeu o padre Zé Maria.


De repente, batendo na testa, exclama: "Imagina, eu estava esquecendo, Senhor, onde está Deus, eu mereço vê-Lo?” E Jesus responde, amigo e compassivo: “Zé, tu sabes muito bem que quem vê a mim vê o Pai!”

O padre Zé espanta-se: as lições do catecismo, da teologia, acontecem ali na sua frente. Tudo que estudou, transmitiu, creu com a alma e o coração, agora é a sua nova realidade. Está mais feliz do que nunca o fora – e sempre se considerara um homem feliz e alegre.

Assim, ou muito diferente disso, mas com certeza com o mesmo espírito e fundamento, deve ter sido a chegada do padre José Maria ao céu.

Não consigo parar de imaginar: determinada hora, vira-se para Jesus e exercita sua costumeira curiosidade, tão característica do cientista que foi: “Mestre, eu gostaria de conhecer Santa Tereza D’Ávila. Onde falo com ela?” Ao que Jesus apresenta: "Ela está logo aqui, José, e também te procura.” Ele se apresenta e dispara: “Santa Tereza, sempre tive uma grande curiosidade em saber se é de sua autoria o lindo soneto que tanto me ensinou a amar a Deus e que eu distribuí, às centenas, aos meus amigos e conhecidos”.

A resposta da Santa? Não sei, obviamente. Somente saberei no dia em que o Senhor me chamar a fazer companhia ao padre Zé e a tantos que amo e já estão na paz de Deus.

Solidário ao trabalho do cônego José Maria de Albuquerque, transcrevo abaixo o soneto atribuído a Santa Tereza d’Ávila:

Não me move, Senhor, para querer-Te
O céu que me tendes prometido.
Nem me move o inferno tão temido,
Para deixar por isso de ofender-Te. 

Tu me moves, Senhor, move-me o ver-Te
Cravado nessa cruz e escarnecido.
Move-me ver Teu corpo tão ferido.
Move-me Tua dor e Tua morte. 

Move-me, enfim, Teu amor de tal maneira,
Que não havendo céu, eu Te amara
E não havendo inferno eu Te temera.

Nada tens que me dar para que Te queira,
Porque, se o que ouso esperar, não esperara,
O mesmo que Te quero, Te quisera.  

(*) “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10)

 Foi publicado hoje, em O Liberal, este convite para a Missa do primeiro ano de partida do querido padre José Maria de Albuquerque:




Escrito por Fernando Jares às 16h24
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COMIDAS BÍBLICAS

PEIXE DE GENESARÉ E FRANGO COM MEL

As experiências gastronômicas desta sexta-feira nos levam para o outro lado do mundo, em bíblicas terras de Israel e da Palestina. Anteriormente já contei algumas comidinhas daquelas bandas (aqui), na série sobre uma excursão paraense por lá – série que ainda vai ser terminada, juro...

Mas agora vamos papar, isto é, ver o que já foi papado...

Comecemos pelo famoso “Peixe de São Pedro” que, sem querer fazer trocadilho, foi o primeiro... papa.

Este peixe é comida praticamente obrigatória para os turistas que chegam ao lado de Genesaré, ou mar da Galileia ou ainda de Tiberíades, antes ou após um belo passeio em um barco que procura imitar os dos tempos bíblicos. Essa indefinição de nome, lago ou mar, lembrou-me Mosqueiro, que é de rio, mas parece que gostaria ser de mar (já foi assunto neste blog, leia aqui). É um lago grande que, pelas características geográficas tem, de vez em quando, grandes tempestades, como as do mar. Nas cidades em torno acontecem muitos dos episódios narrados pelos evangelistas. Um deles, em Mateus 17, 24-27, fala de certa moeda que Cristo faz aparecer na boca de um peixe pescado por Pedro, destinada a pagar tributo ao governo. O padre Antonio Vieira comenta muito bem este episódio no sermão de Santo Antonio, pregado em Lisboa. Diz a tradição que é o mesmo peixe que lá existe até hoje – e que todo turista come. Olha ele aqui:


Assustado com as batatas fritas? Eu também. Deve ser efeito McDonalds... na ocidentalização dos costumes daquelas bandas. Foi identificado como tilápia. É isso mesmo, senhores pescadores? Estava gostoso, que é o importante da história, aliás, objetivo do prato. Vinha bem fritinho, até um pouco crocante – considere que o restaurante serve-o às dezenas, a todo instante. Mas fomos atendidos rapidamente, justiça seja feita. Na entrada, salada, como sempre acontece por lá, com cenoura, rúcula, repolho, grão de bico, folhas verdes, coalhada. Na sobremesa, farta distribuição de tâmaras madurinhas, fresquinhas, gostosas. Uma festa para todo mundo. Veja aqui o prato que nos coube, a mim e à Rita:

 

Inspirados pelas tâmaras, trouxemos de lá um mel feito com as próprias, que a tradição – e eles vivem muito disso – garante que é aquele referido pela Bíblia, quando define a Terra Prometida, Israel, como “a terra de leite e mel”. Compramos um potinho do “Silan”, produzido na fazenda Kinneret, que pertence ao kibutz Yardenit, que fica à margem do rio Jordão. O sabor é muito parecido com o nosso “mel-de-cana”, disponível lá pelo Ver-o-Peso, geralmente originário de Abaetetuba.

Junto ao mel ganhamos a receita de um “Frango assado com Silan (mel de tâmaras)”. Quer a receita? Anote, tal como a recebemos na lojinha do kibutz:

8 pedaços de frango – deixar de milho por uma noite no tempero, em uma vasilha fechada. Tempero: ½ copo de azeite de oliva; 2 colheres de chá de páprica vermelha; 5 dentes de alho amassado; pimenta; 1 colher de sopa de mostarda de Dijon; 2 colheres de sopa de mel de tâmaras; 1 colher de sopa de molho de soja. Mais 8 batatas cortadas em quatro. Modo de fazer: Misturar todos os temperos em uma vasilha. Por os pedaços de frango e guardar na geladeira por uma noite. Untar uma forma com azeite de oliva e espalhar os pedaços de batata, sal, pimenta e cominho. Acrescentar os pedaços de frango. Assar sem cobrir, à temperatura de 190 graus, por uma hora e meia. “Bon Apetit!”, recomenda o chef-escriba.

O resultado foi este, produto das artes culinárias da Rita e sua escudeira Nazaré, sob a minha supervisão, no sentido de visão sobre, olhando de cima...ou melhor, super...torcida:


Naturalmente cada cozinheiro(a) faz as correções no sabor de acordo com seus costumes. Mas a experiência foi ótima, e até já repetida, ficou mesmo gostoso o frango metido a israelense. Acabando o mel de tâmaras, pretendo fazer a experiência com o mel-de-cana. Aliás, não tenho visto cá pelas ruas de Belém o uso desse nosso mel, tão característico, nas vitoriosas experiências dos chefs locais...

Ao fundo da foto o vinho com que acompanhamos o prato: um israelense “Gamla Cabernet Sauvignon 2007” produzido com uvas cultivadas nas Colinas de Golã e na Galileia.

Como eu não sei dizer nem escrever o nome do restaurante do “Peixe de São Pedro”, publico abaixo uma foto do dito cujo, como indicação. Aí você imprime a foto e, chegando lá, fica mais fácil procurar... he, he, he.




Escrito por Fernando Jares às 18h26
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