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PELAS RUAS DE BELÉM


PARÁ-TURIM, EM 1911 (6)

MOSTRANDO BELÉM AOS EUROPEUS


Nos últimos anos a presença paraense na promoção turística, na captação de visitantes de outras plagas, tem sido muitíssimo modesta, para não dizer inexistente. Espera-se que isso mude. Porque não foi sempre assim. Há um século o Pará participou, com sucesso, da Esposizione Internazionale delle Industrie e del Lavoro in Torino, 1911, em Turim, na Itália, como estamos mostrando ao longo de uma série neste blog (*). Na mostra a produção dos paraenses sendo apresentado – e vendida – aos europeus. Como, já naquela época, eram os europeus tradicionais viajantes (aliás, parece que desde sempre, vejam as descobertas, desde os vikings...), o governo do Pará apresentou também algumas das atrações do Estado, como forma de cativar esses turistas potenciais. Tanto no requintado pavilhão brasileiro como em publicação especializada, que serve de base para esta série.

Já vimos anteriormente imagens do Bosque Rodrigues Alves, inclusive com o recurso Diorama, de Bragança, etc.

Aí em cima está uma cena que vende o aspecto bucólico de uma capital amazônica: a “Fazenda Val-de-Caens”, apresentada como localizada nos "subúrbios de Belém". O nome está escrito exatamente assim, Caens, bom para as discussões que existem sobre a grafia acertada do nosso vale, ou “Val”...

Certos de que os europeus valorizavam os recursos naturais, mais natureza:


Mostrando que, mesmo com o desenvolvimento a cidade continua atenta ao seu verde, a “Cidade das Mangueiras” era destaque na publicação que apresentou aos italianos e demais visitantes as belezas paraenses. Podiam vir passear pelas ruas de Belém que, com todo sol equatorial, tinha muitas árvores a fornecer a boa sombra, especialmente nesta “parte da avenida S. Jeronymo”. Uma curiosidade: na publicação a foto é creditada assim: “Clichê Oliveira”. Provavelmente obra dos primitivos fotógrafos do tradicionalíssimo Studio Oliveira – muito trabalhei com esses bons profissionais, mas já lá pelos anos 1970... sob a liderança do Barbosa.

A foto abaixo já era histórica naqueles tempos...


É o seguinte: esta foto era apresentada em página inteira da revista, como sendo integrante de uma série “Belém de hontem e de hoje”. Trata-se da “praça S. José, à entrada da avenida 16 de novembro, há 5 anos”. Portanto deve ser uma foto de 1906, considerando que a publicação é de 1911. Veja bem, o vermelho na parte superior da foto não é original, mas resultado de problemas com a conservação da revista. Como a anterior, é produção de um renomado estúdio fotográfico local, cujo nome permanece na cultura da cidade, hoje como galeria de arte, no conjunto "Feliz Lusitânia". A foto foi creditada como “Clichê Fidanza”. Coisa fina.

(*) A série sobre a Esposizione Internazionale delle Industrie e del Lavoro in Torino, 1911 pretende resgatar o que foi a participação de nosso Estado nesse grande evento que, neste ano de 2011, completa um século. Como fonte, uma publicação da Exposição, editada naquele ano. Para quem não leu ou quer relembrar, os posts já publicados podem ser acessados bastando clicar no “aqui” ao lado de cada título, conforme a sequência de publicação:

1. Indústria e trabalho paraenses em exposição, aqui

2. Uma das mais completas e brilhantes seções, aqui

3. Os produtos paraenses da (e para a) floresta, aqui

4. Casacas e bengalas do “Statto del Pará, aqui

5. A fibra paraense na Europa, aqui



Escrito por Fernando Jares às 21h24
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FLAGRANTES DA CIDADE MORENA

 

FLAGRANTE AVANT

Veja o ilustre leitor que belo carro encontrei a circular, todo lampeiro, na semana passada. Até perdi a conta dos anos que não via umzinho desses correndo pelas ruas de Belém. Eles eram muitos por cá, nos anos 1950, mais pra frente, mais pra trás. Fora os carros de praça (os táxis, de hoje) eventualmente utilizados, este foi um dos primeiros automóveis em que andei por estas bandas. É que havia um amigo da família que tinha um, igualzinho ao aí da foto. Eram todos praticamente iguais, sempre pretos, e eventuais diferenças passavam alheias ao meu olhar menino, deslumbrado com o brilho dos cromados, da pintura reluzente, com o requinte das curvas, etc. Era um Citroën. Era apenas assim, Citroën. Hoje, com ajuda da internet, descubro que devia ser um Citroën Traction Avant. Uma coisa ele era, avante! O modelo existiu durante as décadas 1930 a 1950. Dizia o papai que, por esse desenho baixinho, era um carro que não virava nunca. Teve momentos de glória em sua terra natal: era o preferido do presidente Charles de Gaulle e viveu aventuras emocionantes com o lendário Tintin, das histórias em quadrinhos. Aliás, esta parceria rendeu pioneiro merchandising, como você pode ver clicando aqui. Para mais informações sobre este carro, de uma passadinha pelo fabricante, clicando aqui. Pelo que vi, o rodado Citroën continua sendo agressivo, nervoso e competente, mesmo neste trânsito maluco da atualidade. Veja na foto abaixo como ele avança, avante, conquistando seu espaço no turbilhão de carros.

 



Escrito por Fernando Jares às 19h49
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A IDADE DO VER-O-PESO

O VEROPA TEM 323 OU 384 ANOS?

Houve uma festança pelos 384 anos do Ver-o-Peso, no último domingo. Aí fiquei pensando: mas eu escrevi sobre os 300 anos do veropa (forma carinhosa como é conhecido, pelas ruas de Belém). E não estou assim tão velho, a ponto de ter estado nessa festa há 84 anos!

De forma que fui ao arquivo dos meus escritos e encontrei, no exemplar de 10 de janeiro de 1988, de A Província do Pará, na coluna “Pró-Turismo”, que ali assinava: “Ver-o-Peso, 300 anos!”:

 

O texto está aqui:

O assunto foi levantado pela jornalista Telma Pinto, em reportagem publicada neste jornal em 22 de março do ano passado: o Ver-o-Peso tem data de aniversário (21 de março) e neste 1988 completa 300 anos. Essa é a data em que foi assinada a Provisão Régia que concedeu à Câmara de Belém a renda originária de um posto fiscal estabelecido na doca formada pelo igarapé do Piry. Segundo Ernesto Cruz, em citação que encontramos em "Das casas da Câmara ao Palácio Antonio Lemos", "todos os produtos que vinham para a Capitania ou seguissem em trânsito para o Reino, via Maranhão, pagariam os respectivos impostos naquele posto".

A doca efetivamente já existia, mas o Ver-o-Peso (tipo de casa destinada a coleta de impostos, existente em Portugal) começou a existir a partir dessa decisão do Rei de Portugal, em atendimento a petitório da Câmara de Belém, que era a entidade que administrava a cidade.

Se há alguma dúvida quanto a data efetiva, esta e uma ótima oportunidade para esclarecimento. E é também um excelente momento para que a cidade festeje o seu símbolo turístico mais popular, seu post-card, como bem tipifica nosso companheiro Edwaldo Martins. É também o momento adequado para que ele receba pelo menos uma "guaribada", já que anda novamente um bocado feio, embora recentemente restaurado pela Prefeitura.

A sugestão, de mais de 20 anos atrás, funcionou: a cidade agora festeja, e bastante, “o seu símbolo turístico mais popular”. Como se lê, naquela época não havia a festa de aniversário, que hoje ocupa e alegra prefeito, governador, senador, muitas outras autoridades e, principalmente, os feirantes, os carregadores, os peixeiros, os muitos trabalhadores da área. Tem até “olimpíada” com atividades ligadas ao dia a dia da grande feira.

A questão da idade foi resolvida por uma opção mais dilatada e o antigo mercado ganhou mais uns tantos aninhos. Como se vê, mesmo a história permite interpretações. Ernesto Cruz, por sinal, afirma em mais de um de seus livros que não havia encontrado uma data precisa. Como porto, na boca do famoso Piry, por certo que já existia, praticamente desde a fundação da cidade. Ainda acho que o “Ver-o-Peso” deveria contar desde a instalação da tal “Casa de Haver o Peso” como repartição para cobrança de impostos. Sem dúvida, em 1688. Mas não sou historiador.

O importante é que a maior feira existente pelas ruas de Belém merece a festa. Sua gente, também. Anotei, porque interessante, esta definição do jovem chef Thiago Castanho, do restaurante “Remanso do Peixe”, um visitante habitual dessas feiras, divulgada em seu Twitter: “O Ver-o-Peso é como uma cozinha: quente, cheio de gente maluca, e louca por comida e bebida (não necessariamente nessa ordem)”.

Notícias sobre o evento estão aqui (Diário do Pará) e aqui (O Liberal).

Como homenagem ao mais que tricentenário ou quase quatrocentão, clique aqui e veja uma bela animação, feita sobre desenhos do competente Sérgio Bastos. Quer ver um álbum com fotos legais do Ver-o-Peso? Venha comigo ao Blog da Franssinete Florenzano, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h37
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VER-O-PESO DA COZINHA PARAENSE

GASTRONOMIA PARAENSE MOSTRA SEU VALOR


Está confirmada a realização, agora em abril, de 25 a 27, do IX Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, mais uma vez trazendo a Belém alguns dos principais chefs de cozinha do país. Eles conhecem e desenvolvem nossas riquezas gastronômicas, transmitem conhecimento, mostram seus talentos.

Deve-se a criação deste que é, hoje, um dos mais criativos festivais gastronômicos do país, ao chef paraense Paulo Martins. O primeiro Ver-o-Peso aconteceu em dezembro de 2000. A marca dele está aí em cima e tinha o primeiro prato da Boa Lembrança do “Lá em Casa”, o “Macarrão Paraense”, como ilustração. De lá para cá muita coisa evoluiu nas cozinhas (dos restaurantes e das residências) em função da revolução culinária causada por este evento em, pelo menos, dois aspectos:

(1)   a grande divulgação, em nível nacional e internacional, da cozinha paraense, como a mais autenticamente brasileira, porque originária diretamente da floresta amazônica;

(2)   a valorização dos profissionais das cozinhas de Belém, com os cursos e oficinas acontecidos durante o festival, onde os grandes chefs transmitiam seu conhecimento e sua experiência.

Alguém lembra que antes do Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, praticamente não havia risoto pelas ruas de Belém? Pelo menos no conceito italiano, que encontramos hoje em quase todos os cardápios. Pois bem, foi resultado de uma oficina de risotos em dos encontros.


Cada edição do Ver-o-Peso da Cozinha Paraense rendia uma enormidade de reportagens, artigos, entrevistas, em jornais e revistas de circulação nacional, além da ampla cobertura local. Aí em cima você vê como a revista Caras mostrou o evento. A Gula fez matéria de sete páginas. A Desfile deu uma página, a Gazeta Mercantil abriu um grande espaço e por aí...

Paulo ficava radiante, muitas vezes copiava tudo e mandava-me. No clipping do primeiro veio um bilhete: “Obrigado por tudo. As matérias são frutos dos vossos briefings. Este ano tem mais.” O “este ano” refere-se a 2001, porque o bilhete é do início desse ano. E o agradecimento deve-se ao fato de eu ter feito, como colaboração ao evento, um detalhado briefing sobre a cozinha paraense, ingrediente por ingrediente, prato por prato, para orientação dos grandes chefs. Além de um paper sobre as atrações turísticas do Pará.

 

“Perfeito em todos os aspectos” foi como avaliei a primeira versão do festival, na coluna “Tour” que assinava, na época, em A Província do Pará, em 10/12/2000, onde narrei com detalhes o que foi o evento: visita ao Ver-o-Peso, para conhecimento, ao vivo, das maravilhas naturais de nossa cozinha; river tour com almoço regional sob a batuta de Paulo Martins; oficinas comandadas pelos convidados; e o grande “Banquete dos Chefs”, encerrando a jornada gastronômica.

Vamos conhecer, ou relembrar, como foi o cardápio do banquete deste primeiro Ver-o-Peso da Cozinha Paraense, com alguns comentários que fiz à época.

Os pratos foram desenvolvidos a partir de receitas originais dos chefs, com a adição dos produtos regionais. As entradas ficaram à conta da chef Teresa Corção (Restaurante Navegador, RJ), com as sopas frias “Gazpacho de Bacuri” e “Vichyssoise de Cupuaçu”, “integrando nossas frutas mais marcantes com as técnicas de sopas frias espanhola e francesa, onde o gazpacho ganhou muitos elogios pela perfeição do conjunto”. O primeiro prato foi assinado pelo chef Celso Freire (Restaurante Boulevard, Curitiba) e foi um “Filhote com persillade de farinha d'água e veleaute de tucupi”: “a crosta de farinha estava perfeita, crocante e saborosa e o molho, delicioso, tinha a decoração de jambu frito”. Foi a primeira vez que provei o tal jambu frito. E fiquei fã, direto. O segundo prato teve a criação do chef Sergio Arno (Restaurante Vecchia Cucina, SP) que apresentou um “Risoto de pato ao molho de agrião e canela”, “onde o pato era legitimamente paraense, assim como os ingredientes do tempero que deliciou a todos”. As sobremesas foram do chef pernambucano Cesar Santos (Restaurante Oficina do Sabor, Olinda) que caprichou em uma “Miscelânea Paraense”, com Musse de Bacuri, Musse de Açaí e Pavê de Cupuaçu, “valorizando o sabor muito especial das frutas paraenses”, disse o criador do prato.

 Os vinhos, uma seleção de Dânio Braga, “que justificou cada uma de suas escolhas para o coquetel de abertura, entradas, peixe e carne: Spumante Bianco Loredan, Gasparini Brut, Vichon Sauvignon Blanc e Rubizzo Tinto 99”.

“A GENTE GOSTA MUITO DAQUI, DE CORAÇÃO... E DE ESTÔMAGO.”

 

Veja o que diz o texto da legenda dessa foto do Dânio Braga admirando um cacho de pupunhas, no Ver-o-Peso, que publiquei nessa mesma data:

Na visita ao Ver-o-Peso, Dânio Braga, do Locanda delia Mimosa, de Petrópolis, e que criou e lidera o grupo de selecionados Restaurantes da Boa Lembrança em todo o Brasil, observa fascinado um cacho de pupunhas, em foto de João Peres. Procura entender a magia dessa frutinha, que possibilita tão extraordinárias composições, seja na guarnição de pratos, seja como tradicional acompanhante de produtos como nosso doce de cupuaçu ou mel de cana, ou virando canapé, como servida com queijo roquefort. Ele é apaixonado pelas coisas da culinária paraense e, da sua mulher Lilia Seldin, eu ouvi uma frase que expressa esse pensamento: "a gente gosta muito daqui, de coração... e de estômago"!



Escrito por Fernando Jares às 12h38
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LIZ TAYLOR NO PALÁCIO

A DAME VISTA AQUI, NOS IDOS DE 1960

Um dos templos do cinema em Belém, que tinha instalações com todo requinte e conforto, o Cine Teatro Palácio, hoje transformado em estabelecimento religioso, viu e exibiu muitos filmes com a grande estrela Elizabeth Taylor, hoje falecida.

Quais filmes e sobre a qualidade deles é assunto para os colegas jornalistas e críticos especializados em cinema, como o Pedro Veriano, a Luzia Álvares, o Marco Antonio Moreira e outros craques, que sabem de tudo na área. Uma vez, eu até tentei, na antiga revista TV Roteiro, mas não passei de uma única publicação. A revista acabou...

Infelizmente a DameElizabeth, como ela se apresentava no Twitter (postava muito pouco, mas foi por lá que eu soube sobre a morte do Michael Jackson), nunca andou pelas ruas de Belém. Pelo menos com sua identidade revelada... Mas, mesmo assim, tenho cá um registro interessante:


Esta é uma página do Cine Programa que o Cine Teatro Palácio publicava, com regularidade, sobre suas atrações e grandes eventos, nos seus inícios. Tinha um formato quadrado, de 15,5cm. A matéria acima saiu na edição que comemorava o primeiro aniversário do cinema, em dezembro de 1960. Para que você tenha uma ideia, esta é a edição nº 35, em um ano.

Conheça como a Dame era vista nestas terras, pelo menos nesta publicação dirigida, naqueles idos de 50 anos atrás:

Pois Elizabeth Taylor – que ainda não há muito foi GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE vem de fazer, também para a "Metro", outro filme nada frio. Trata-se de BUTTERFIELD 8, que bem provavelmente se intitulará VÊNUS DE QUALQUER UM, filme que a apresenta com Laurence Harvey, o galã de Simone Signoret em "Almas em Leilão", e Eddie Fisher, seu marido na vida real, o marido que era de Debbie Reynolds... Há pouco a "Metro" fez, ou melhor, convidou o público de seus cinemas, no Rio e em São Paulo, a votar em suas "estrelas" favoritas. Abertas as urnas, viu-se que Elizabeth ganhara disparada... A popularidade de Elizabeth é um fato, e não é sem razão que ela manda e desmanda, só aceitando os filmes que lhe agradem. A "Metro" espera, proximamente, ter Elizabeth Taylor de volta aos seus domínios para outro filme. É preciso não esquecer que Elizabeth "nasceu" na "Metro", lá estreou quando ainda menina, num filme de Mickey Rooney, e lá se tornou a 'estrela' sensacional que é hoje.”

O primeiro aniversário do Palácio foi festejado com o filme “Começou com um beijo”, com Glenn Ford e Debbie Reynolds, “em uma vertiginosa lua de mel com escalas por N. York e Espanha”, dizia o anúncio do filme. Veja a página inicial deste Cine Programa especial de aniversário, de 6 de dezembro de 1960:


E a capa do folheto, simples no texto e leiaute, era requintada no acabamento, em cartão camurça (está com umas ferrugenszinhas do tempo, mas...):




Escrito por Fernando Jares às 18h20
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FLAGRANTES DA CIDADE MORENA

BUSÕES COMEDY

Devo estes dois flagrantes da Cidade Morena (minha carinhosa homenagem ao grande radialista e jornalista Edgar Proença, um dos fundadores da Rádio Clube, e criador deste “apelido” para Belém) ao grupo de stand up comedy “Em Pé Na Rede”. Ha ha ha ha ha, como eles são engraçados! Você já viu um show deles? Pra quem não conhece vale uma visita ao sítio eletrônico do grupo, onde tem a agenda. Passe lá, clicando aqui.

As duas historinhas a seguir eu ouvi em um show do “Em Pé Na Rede”. Aí fotografei os busões, pra comentar com vocês. Olha no que deu.

FLAGRANTE PEDREIRA


Não deve ser fácil passar o dia carregando paneiro de açaí na cabeça, como fazem alguns trabalhadores pelas ruas de Belém. Descarregam os paneiros dos barcos na Feira do Açaí, ainda de madrugadinha, levam para umas kombis antiquíssimas, que fazem ponto lá. Carregam depois para os amassadores espalhados por toda a cidade.

E esses dois gêmeos univitelinos aí? Rodam a cidade toda, dia e noite, com seus paneirinhos, dispostos a nos garantir o açaí de cada dia, fresquinho como todo mundo quer.

Deve ser por isso que eles são homenageados por essa linha de ônibus: Pedreira. Segundo a galera do “Em Pé Na Rede” deve ser mesmo uma tremenda pedreira passar o dia carregando o paneiro na cabeça...

FLAGRANTE PASSAREDO


Esse pessoal que conta piada de cara lavada, os do tal stand up comedy, fica de olho no dia a dia para capturar aquilo que é a comédia do dia a dia. E como tem coisa! inclusive na casa da gente, na geladeira da gente, he, he, he.

Você já matou a piada da foto acima? Tudo bem, você conhece, na boa, toda a passarada amazônica, sem problema. Mas imagine alguém, não tão versado em passarinhagens, visitante a caminhar pelas ruas de Belém, que se depara com essa informação: uma arara vermelha, muito conhecida em todo o mundo, identificada como... curió! Arara ou curió?

Nada demais para uma cidade onde, reza a lenda, houve um governador que muito se aborreceu quando informaram sobre um certo evento da OEA. Indagava ele: - “desde quando O é A? Não sou muito intelectual, mas as letras eu conheço!” Explicação pra cá, explicação pra lá, tudo explicado e entendido. Mas azedou quando, algum tempo depois, houve uma greve no IEP... Deixa pra lá.

NEM TÃO ENGRAÇADO

Deve haver quem não goste, porque de tudo há quem não goste, mas acho boa a pintura dos ônibus de Belém. A ideia de tematizar com elementos visuais representativos do Estado é muito boa. O leiaute é simples e descomplicado, como devem ser simples e descomplicadas as boas ideias. Tudo bem, tem uma certa arvorezinha que ninguém sabe o que é... Mas a maioria dos símbolos é forte e representa bem a cultura regional, como os dois que estão aí em cima: a arara e os carregadores de açaí. As piadinhas do “Em Pé Na Rede” confirmam a capacidade do design em chamar a atenção, em ser uma referência visual da cidade.

Este comentário está aqui porque foi noticiado que a prefeitura pretende mudar o visual da frota de transporte público da cidade. Será que precisa? Nem é tão antiga... Será que foi obra do prefeito anterior? Uma pergunta é fundamental: quem paga a nova pintura? Será nois, sumano?

Vejo como muito mais urgente, por exemplo, que nossos especialistas em trânsito usem suas inteligências e energias para resolver o problema do tal “transporte alternativo”, que só existe porque não há transporte regular suficiente e adequado. A pintura atual atende a necessidade de comunicação da frota. A disponibilidade de transporte coletivo regular em Belém não atende a demanda. Que tal priorizar o que mais prejudica as pessoas?



Escrito por Fernando Jares às 20h56
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YANKEES COME HERE

A IDEIA REVERSA NA PUBLICIDADE

Uma frase que estava meio fora de moda, ou fora de(a) mídia, nos últimos anos, mas muito famosa nos anos 60 do século passado, apareceu novamente na semana passada: “Yankees, go home!”. Foi vista em manifestações contra a visita do presidente dos Estados Unidos ao Brasil. De acordo com os novos tempos, ganhou até versão própria para o momento, distribuída pela internet: era só copiar.... Veja aqui o modelito.

Mas isto não é um post político. Apenas faz um registro histórico interessante. Veja o anúncio abaixo:


Não se desespere quem é da extrema esquerda. Isto não é o que parece! Não é uma manifestação política, bem ao contrário. Trata-se, tão-somente, de um anúncio destinado a captar investidores para o Estado do Pará, que buscava empresários investidores para implantarem indústrias pelas ruas de Belém e em outras cidades paraenses – e oferecia vantagens fiscais para os que aceitassem o convite.

Não sei ao certo a data da publicação, mas deve ser entre 1968 e 1970. Por aí. O texto do anúncio é simples: “O Pará não discrimina. Aqui a luz nasce para todos. Luz e fôrça. Energia à vontade. Venha e traga a sua indústria. Quem faz a fôrça é a Celpa.” Com os circunflexos já abolidos... Tinha até um “cupão” a ser preenchido pelo interessado em informações sobre “incentivos oferecidos às novas indústrias que se instalam na Amazônia e das garantias que dá a Celpa do fornecimento de energia àquelas que optam pelo Pará”. O anúncio, da Mendes Publicidade, foi publicado em veículos de circulação nacional e chegou a ser premiado pela revista Propaganda e no Prêmio Colunistas.

A ideia a presidir a criação, em uma linha que se usa até hoje, era aproveitar um bordão que, poucos anos antes era bastante popular, apresentando uma posição reversa que, obviamente, estava mais de acordo com os novos tempos do poder militar. Não esquecer que a Celpa era uma empresa estatal, estadual. Na época, chamava-se de empresa de economia mista, já que tinha acionistas privados.



Escrito por Fernando Jares às 23h20
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DO PIRARUCU AO CUMARU

GASTRONOMIA VARIADA E DE BOA LEMBRANÇA

O pirarucu é um dos peixes amazônicos com maior “personalidade” em termos de sabor. Forte, marcante, a exemplo de muita coisa – comível ou não – nesta Amazônia, exclusivo. Seja ele “fresco” ou “salgado”. São sabores diversos, mas ambos muito agradáveis. O pirarucu fresco é fino (ou phino?), um sabor suave, que aceita bem um tempero equilibrado: apenas com molho de manteiga com alcaparras, receita criada pelo José Almério (da Alunorte), é uma das preciosidades que já provei – supimpa! diria o meu avô. O salgado é de sabor mais agressivo, pesado, único, possibilitando pratos que são um desafio à criatividade de quem comanda a cozinha, de uma cozinheira na beira de um rio amazônico a sofisticados chefs de cuisine. Sou fã de carteirinha de um pirarucu seco bem feito.

Com esta vocação gastronômica, eu já estava mesmo atrasado em provar o “Pirarucu ao leite de coco”, o primeiro prato da Boa Lembrança do “Remanso do Peixe”. Dia destes almocei lá. O prato de cerâmica já está em uma parede de casa, abrindo uma nova coleção. Ops, esta é a terceira semana em que comento um prato da Boa Lembrança! Mera coincidência... embora uma coincidência exercida com toda a satisfação!

Preciso dizer que, antes do pira (olha a intimidade!) andamos, Rita e eu, por algumas entradas. Uns “Bolinhos crocantes de piracuí” (10 unidades, R$ 15,00) abriram os trabalhos, irrigados por cerpinhas. Um “Casquinho de bacalhau” (R$ 13,00) despertou meus instintos luso-parauaras. Seria o bacalhau servido em inofensivo casquinho de caranguejo, ou de muçuã, pratos proscritos dos restaurantes por zelosas decisões oficiais?


Convenhamos, não era bem um “casquinho”, como eu esperava... mas um copinho. Embalagem à parte, estava muito bom, molhadinho, com a farofa torradinha e um dente de alho assado (eu gosto) por cima.

Mas vamos ao “Pirarucu ao leite de coco” (R$ 58,00). Veio em porção suficiente para os dois – considerando as entradas e umas planejadas e almejadas sobremesas. Trata-se de pirarucu dessalgado (originariamente salgado, portanto), cozido no leite de coco, com legumes da terra, como o descreve o cardápio da casa, acompanhado de arroz branco. No sítio eletrônico da Boa Lembrança o prato é apresentado com a companhia de um “arroz com jambu”, variante da receita criada pelo chef Paulo Martins. Ei-lo:

 

Sendo uma das mais consideradas casas com especialização em peixes pelas ruas de Belém, (a “Moqueca Paraense” já foi assunto nestas ruas: clique aqui) não foi surpresa estar o prato com sabor muito bom. É tipo um ensopado, como se dizia no tempo da mamãe – que o dicionário Aulete afirma ser “carne em pequenos pedaços (ou camarão, peixe etc.) cozida em molho, com batatas ou legumes”. Tinha grande variedade de vegetais, como quiabo, brócolis, couve-flor, banana, abobrinha, cenoura, maxixe, em um molho de coco. Não veio com farinha e eu, obviamente, pedi. Não há como comer pirarucu salgado sem uma boa farinha. E a farinha servida estava de acordo, gostosa. O único senão ficou por conta de um acompanhante pra lá de amargo. Muito amargo. Amarguíssimo! Coisa de jiló! Não deu para comer – e o desgraçado ficou para o final... Perguntei ao garçom sobre a identidade do criminoso, ele levou o indigitado, disse que iria à cozinha analisar, e sumiu. Não voltou mais.

 

Mas agora falemos de coisas doces. O chef Thiago Castanho, uma das estrelas da casa (juntamente com o pai, Francisco, que comanda os peixes), vem fazendo excelentes e bem-sucedidas criações com o uso de elementos inovadores captados diretamente da floresta amazônica. Aí na foto está um “Pudim de leite com calda de cumaru” (R$ 9,00) com “pérolas” de tapioca caramelada. Coisa fina. O pudim de leite é uma das sobremesas mais tradicionais e mais gostosas em todas as casas. Este estava no ponto que eu gosto, cremoso. O cumaru (sementes) tem um sabor tipo baunilha, mais forte, e vem fazendo sucesso nas mais finas cozinhas brasileiras. É nosso, é amazônida. Como a tapioca, riqueza popular que vai virando joia preciosa.

 

Outra sobremesa muito bem recebida foi uma “Torta de banana” (R$ 9,00), pâtisserie com um creme gratinado (brulée – onde a crosta é queimada na hora, no prato) de compota de banana caramelada, com amburana, outra das especiarias amazônicas a pular das barracas de remédios e perfumes para dentro da doceria... E ainda tinha, por cima, uns minissuspiros de cumaru. Hummm – suspiro de novo!

Ah, a receita do “Pirarucu ao leite de coco” você encontra aqui.

Bom apetite.



Escrito por Fernando Jares às 19h18
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PARÁ-TURIM, EM 1911 (5)

A FIBRA PARAENSE NA EUROPA

 

Quando eu era criança (pequena) lá em Capanema, o município era um grande produtor de malva, como toda a chamada “região bragantina”. Morando na margem da estrada Capanema-Salinas (àquela altura, PA-13, bem me lembro) via sempre passar, principalmente entre sexta e sábado, os cavalos carregando os fardos da malva que os produtores daquela área rural (Colônia Pedro Teixeira) iam vender aos armazéns exportadores, na sede do município, distante quatro quilômetros de casa. Bragança, ponto final da estrada de ferro que levava o seu nome e cidade com porto de rio, era a mais importante daquela região. Tinha até agência de banco!

Veja na foto acima a identificação de que as fibras que estão nesse mostruário – Fibres, diz o cartaz lá em cima – são originárias do Estado do Pará, do município de Bragança. Ele está no setor de fibras do magnífico pavilhão brasileiro na Esposizione Internazionale delle Industrie e del Lavoro in Torino, 1911. Este blog apresenta uma série sobre essa expo para resgatar o que foi a participação de nosso Estado nesse grande evento que, neste ano, completa um século. Como fonte, uma publicação da Exposição, editada naquele ano. Para quem não leu ou quer relembrar, os posts já publicados podem ser acessados bastando clicar no “aqui” ao lado de cada título, conforme a ordem de publicação:

1. Indústria e trabalho paraenses em exposição, aqui

2. Uma das mais completas e brilhantes seções, aqui

3. Os produtos paraenses da (e para a) floresta, aqui

4. Casacas e bengalas do “Statto del Pará, aqui

A malva era uma grande riqueza local, infelizmente perdida, por falta de planejamento e assistência técnica aos produtores, que usavam processo extremamente rudimentar, que resultou na deterioração da qualidade do produto. Foi-se a fibra paraense, em tempos reconhecida pelo mundo...

A revista que registrou a apresentação das riquezas industriais e extrativas do Pará aos italianos, e a visitantes de todo o mundo, naquele começo de século XX, mostrou também as paisagens e as atrações do Estado. Com ou sem fibra. E não apenas as vistas pelas ruas de Belém, a capital. Veja abaixo uma representante de nosso interior, exatamente da cidade que forneceu essa fibra: Bragança. Diz a legenda: “A vida marítima na Amazônia – Embarcação de Bragança”. Esta e a foto acima são creditadas a F. Dricot & Cie., de quem consegui encontrar a citação, como responsável pela capa de um almanaque, em 1904, que se acha depositado no Liberaal Archief, na Holanda.




Escrito por Fernando Jares às 18h59
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O SOBERANO DOS GUARANÁS

ENCANTOS DE UMA TRADIÇÃO INDUSTRIAL


Surpreendente demais a notícia publicada hoje (leia aqui, no Amazônia Jornal) sobre o fechamento, ontem, de uma das marcas mais tradicionais dos refrigerantes paraenses da primeira metade do século XX, última delas a sobreviver, em produção, ao virar do milênio: o Guaraná Soberano. Eram muitas as marcas locais naqueles tempos: Simões, América, Soberano, Vigor, Globo, Vitória e tantas outras. O Soberano, embora tenha ficado alguns anos desativado, após a morte de seu criador e grande timoneiro, Hilário Ferreira, voltou com adaptação aos novos recursos da indústria. Informações de hoje davam conta de que tudo seria um conjunto de mal-entendidos. Aguardemos.

Fui criado ligado a guaraná. O papai tinha uma dessas marcas (América), mas isso é outra história. Ele era amigo do Sr. Hilário Ferreira e, volta e meia, eu ouvia este nome nas conversas familiares. Soberano e Simões foram os grandes líderes do mercado de refrigerantes pelas ruas de Belém naquele meio de século. Depois o Simões saiu de cena e soberano ficou o Soberano. Pouco depois algumas marcas uniram-se para lançar o GuaraSuco, que dominou na segunda metade do século passado. Nessa parte eu já entro profissionalmente, mas também é outra história.

Ano passado o querido Ubiratan de Aguiar, jornalista e advogado (companheiro em inúmeras coberturas de lançamento de carros, ele Editor de Veículos de O Liberal e eu de A Província do Pará), o eterno colunista social Pierre Beltrand, no carismático 10/10/2010, Dia do Círio, em sua revista Grand Monde, encartada no Amazônia Jornal, lembrou de um Círio de 60 anos atrás. Lá estava o Soberano:

PIERRE TRADIÇÃO

Recordo-me que para a quinzena das festividades do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, eu, rapazinho nos anos 40, ganhava da minha avó-mãe roupa e sapatos novos para o tradicional footing pelo largo de Nazaré, caminhando pelas calçadas do quadrado da praça, onde as 'barracas da Santa' e do 'Guaraná Soberano' eram os pontos de encontros dos vips para os jantares patrocinados por entidades em benefício das obras sociais da Basílica. Era uma festa! Muitos bebendo cerveja da fábrica paraense e degustando amendoim torrado. Algo chic para a época. Uma festa de confraternização sem arrastões e bebedeiras, porque ali estavam os socialmente corretos. Na área dos fundos da Basílica, que era chamado de 'C. Da Festa', estavam as barraquinhas da festa, onde eram servidas iguarias como vatapá, cariru, fritada de camarão, maniçoba, tacacá, açaí, com cerveja bem gelada e 'batidas' de maracujá e limão. Lá, eram onde os simples se divertiam e as 'gentes bem', depois de irem nas barracas vips, excursionavam por lá. Que saudade daquele tempo! Havia mais pureza nos comportamentos e gestos humanos. E assim já se passaram mais de 6 décadas. Época que não voltará mais. A felicidade é que, hoje, estou narrando, ou melhor, escrevendo essa história da minha juventude.

Muitas vezes ouvi falar e já li sobre a chiqueza dessa tal barraca do Soberano, que rivalizada em importância social com a oficial, vejam só.

Existe uma Fundação Hilário Ferreira que, infelizmente, dedica muito pouco espaço em seu sítio eletrônico à história de seu patrono, que foi um grande empreendedor em sua época. Leia:

Nasceu em Melgaço do Minho, em Portugal, no dia 02 de fevereiro de 1898. Chegou ao Brasil e ao Pará com 14 anos de Idade. Fixando residência definitivamente em Belém, “Seu” Hilário, permaneceu no Pará por um período ininterrupto de 1912 a 1982, faleceu sem nunca mais ter deixado o território paraense.

Foi um dos pioneiros na exploração industrial do guaraná no Pará, começou trabalhando na fábrica de guaraná Simões. Após 15 anos, fundou sua própria empresa “Fábrica Guaraná Soberano” que iniciou com a produção do guaraná e da kola.

Uma curiosidade: o nome do estabelecimento era Fábrica Soberana, legenda que, na marca da empresa, envolvia o busto de uma bela mulher com um copo de guaraná na mão. O guaraná é que era Soberano. Recentemente consegui comprar uma dessas garrafas pet de dois litros deste guaraná, com um sabor ainda parecido com o dos velhos tempos. Viagem guaranáfica à infância... Tão sucesso quanto o guaraná fazia a cola. Na verdade não era cola e sim kola, como está aí no texto acima e no rótulo que reproduzo (que encontrei marcando um livro do papai!). O slogan, um primor da época: “Kola Soberano, com K tem melhor paladar”.

Ocupando até hoje um belo prédio na Cidade Velha – onde até poucos anos era possível ler frases anunciando os antigos produtos, sob a pintura – tem muita história para contar. Lembro do que me falava, encantado, o jornalista Edwaldo Martins, sobre uma visita que fez aos belos salões da casa (no andar sobre a fábrica) e o que viu por lá de peças de bom gosto e beleza. Você pode ler a respeito no blog literário “Versos e Rascunhos” o agradável texto “Encantos do sobrado Soberano” – basta clicar aqui.

 

O anúncio que está lá em cima eu o capturei do site da Fundação HF (clique aqui). Não dá para ler aqui, mas na parte inferior da peça há uma mensagem pessoal do proprietário da empresa, que define que o anúncio foi publicado em alguma edição especial de dezembro de jornal local: “Hilário Ferreira apresenta aos seus amigos votos de Boas Festas e muitas felicidades no decorrer do Novo Anno.”

Atualização em 30/03/2011

ESCLARECENDO O IMBRÓGLIO

 

O jornal Amazônia, edição de hoje, 30/03, informou “não ser verdadeira a acusação de que a empresa (Soberano) possuía documentos falsificados grosseiramente para mante-la em funcionamento”, como afirma a notícia acima, cujo texto está reproduzido mais abaixo. Como antecipei neste post, poderia haver um grande mal-entendido na história. E parece que de fato houve. Assim como registramos o fato, lamentável por todos os aspectos, nos apressamos em registrar o esclarecimento. O Governo do Estado se preocupou em esclarecer o imbróglio em nota publicada no endereço eletrônico da Agência Pará de Notícias, da Secretaria de Comunicação do Estado, onde garante que não houve fraude. A empresa está regular com o órgão ambiental estadual.” Leia a nota clicando aqui.

Leia o texto da notícia do Amazônia, publicada apenas na versão gráfica, por isso reproduzida abaixo:

Proprietários de fábrica esclarecem sobre licença

Os proprietários da fábrica Soberano afirmam não ser verdadeira a acusação de que a empresa possuía documentos falsificados grosseiramente para mante-la em funcionamento. Na última sexta-feira, 25, a secretária de Meio Ambiente, Teresa Cativo, emitiu declaração reforçando a veracidade da licença ambiental que estava sob responsabilidade da Fábrica Soberano. No documento, ela explica que na data de emissão realizada pela Superintendência da Sema, o Sistema Integrado de Licenciamento e Monitoramento (Simlam) estava com problemas operacionais, o que impediu a impressão da licença nos moldes gráficos nos quais a Sema emite. Ibama, Sema e Dema foram à sede da empresa Soberano sob a alegação de que a fabrica possuía documentação falsificada Um dos proprietários, Fernando Ferreira, que foi conduzido à Delegaciad e Meio Ambiente (Dema) no dia 15 de março, diz que foi extremamente arbitrária a forma de atuação dos órgãos. Os proprietários esclarecem que a acusação anunciada por Dema e Ibama não é verdadeira, já que toda documentação está de acordo com os trâmites legais. O histórico da tramitação de processo na Sema mostra que a numeração da LO 4.037/2010, expedida pela Secretaria, é a mesma que constava no documento apresentado como "grosseiramente falsificado" na operação do Ibama e Dema. Ou seja, os documentos nunca foram falsificados.



Escrito por Fernando Jares às 19h20
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AS TELAS DE ROHIT

UM ARTISTA DA TELA, NA TELA

 

Trabalhar com Antar Rohit foi uma daquelas experiências que constroem conhecimento e geram satisfação, a cada momento, a cada passo. Nos meus longos tempos de trabalho na comunicação empresarial na Albras, a fábrica de alumínio que fica logo ali em Barcarena, tive diversas oportunidades de exercitar esse prazer profissional.

Lá pelos 1990, começamos a utilizar o teatro como forma de comunicação, para motivação e mobilização da equipe, principalmente em assuntos de relacionamento interpessoal e segurança no trabalho. Tinham que ser mensagens simples, atraentes e rápidas, já que apresentadas no intervalo do almoço ou na troca de turnos. A parceria com o Rohit foi uma experiência extraordinária.

Era incrível a capacidade dele assimilar a ideia das mensagens e seu cuidado profissional. Não se limitou às reuniões de briefing para receber informações corporativas, institucionais ou técnicas. Logo na primeira empreitada pediu alguns dias para circular pela fábrica (inclusive à noite, já que funciona 24h/dia), conhecer os locais de trabalho, conversar com as pessoas, fazer “laboratório” de criação e interpretação. Criou personagens magníficos, dirigidos e interpretados por ele próprio e pela Roseana Nogueira.

Não me esqueço de uma peça em que apenas ele fazia todos os personagens. O cenário era um painel, tipo um grande biombo, com as figuras dos personagens pintadas, deixando um espaço para a cabeça – do próprio Antar Rohit, que corria de um lugar para outro, por trás do painel, trocando as perucas e alguns adereços do rosto, com incrível rapidez, interpretando pai, mãe, filho, filha, etc. Virava adolescente, criança, em instantes!

Fiz com ele-artísta-plástico parceria na capa de um CD, mas isso vai ser outra história.

Formalmente, para as leis dos homens, Antar Rohit se foi em novembro de 2007, vítima de câncer.

Mas ele está de volta! Certo que, para seus amigos e admiradores, sua imagem, pelo brilhante trabalho que nos legou, nunca deixou de estar bem viva, por perto.

Mas agora é diferente. Todo mundo vai poder vê-lo em ação. Tire só um fino, da foto aí em cima.

Estreou este fim de semana em Curitiba, Rio, São Paulo e Campinas “Corpos Celestes”, um filme feito em 2006, mas apenas finalizado em 2009/2010. Um dos atores principais é Swami Antar Rohit, um paraense por (auto)adoção, nascido em Los Angeles, em 1960, que desde os cinco anos sabia andar pelas ruas de Belém, morreu em Porto Alegre, formou-se em psicologia na Holanda, viveu na Índia, aprendeu pintura e teatro nos Estados Unidos. Um cidadão do mundo que criou um mundo de coisas belas que sobrevivem a ele próprio, mostra-se como ator de cinema em um longa dirigido por Marcos Jorge e Fernando Severo.

O filme conta a vida de um astrônomo, em duas épocas: a infância em que participa o personagem do Rohit, Richard, um americano que explica tudo sobre astronomia ao menino (Chiquinho/Rodrigo Cornelsen), e a fase adulta do astrônomo Francisco (Dalton Vigh).

O filme chega aos circuitos especiais já com prêmios e elogios da crítica. Veja outra foto:


Sugiro uma visita ao sítio oficial do filme (clique aqui), de onde captei as duas fotos acima, de onde pode ir ao trailer.

Muito bom ver o making of do filme – nesta primeira parte, lá pelo segundo minuto, tem uma cena inteira com Rohit e o garoto: clique aqui.

Vale ler o que Rodrigo Fonseca escreveu no Blog do Bonequinho, de O Globo, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 20h25
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HISTÓRIAS DE JAVALIS

ASTERIX E OBELIX TÊM RAZÃO

Sempre disse que o melhor javali que havia comido o fizera na “Amazon Beer”, na Estação das Docas, que é uma cervejaria onde se come muito bem (já escrevi sobre ela, você pode ler, clicando aqui). Foi um javali delicioso, há alguns anos, nem lembro o nome do prato. Mas o bichinho fugiu do cardápio... embrenhou-se em algum pedaço de floresta. Algum tempo depois fui no canto de umas bruxas e cai num caldeirão (acho que era na Benjamim, um certo restaurante bruxal) com um javali meio sem gosto, fibroso. Ano passado javaliei-me no simpático restaurante “Tutto”, na Rui Barbosa, enfrentando um reforçado “Confit de javali” (era R$ 55,00 por pessoa) com risoto de cream-cheese e batatas grelhadas, que acabei nem comentando cá por estas linhas, mas que estava em ponto bom.

Gosto da carne do javali, embora ele tenha esse nome meio no passado... Talvez para lembrar o glorioso passado do bicho, um meio antepassado darwiniano e ainda sobrevivente do nosso conhecido e tradicionalmente saboroso porco. Era caça requintada dos nobres, foi presença em brasões de famílias e cidades. Prato preferido do Asterix e do Obelix...

No final do mês passado, sem precisar avançar pelos bosques e campinas, defrontei-me mais uma vez com um deles. Não aqui, pelas ruas de Belém, mas pelas ruas da cidade que Araribóia fundou, Nichteroy, RJ. Ei-lo, a esperar o momento grandioso de um prato bem feito:

 

O repasto foi no restaurante “Da Carmine”, integrante fluminense da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança – ops, esta é a segunda sexta-feira seguida em que um Boa Lembrança está em cartaz! Semana passada foi o Lá em Casa com seu “Filhote no leite da castanha-do-pará” – post que você pode ler clicando aqui, onde explico sobre os pratos da Boa Lembrança.

Desta feita foi uma “Costoletta di Cinghiale con Risotto al Gorgonzola” (R$ 45,75). Gosto deste restaurante, já lá estive algumas vezes e tenho cá seus pratos-coleção, na parede “Outros Restaurantes”...

Trata-se de uma bela e bem cortada costeleta de cinghiale, ou melhor, de javali, assada em um molho que é um primor, feito com ervas aromáticas, vinho, cenoura, aipo e por aí. Rapaz, é mesmo uma delícia. Só lamentei não ter por lá uma farinhazinha das nossas... Mas nem tudo pode ser perfeito, infelizmente. O risoto de gorgonzola estava muito bem equilibrado – este queijo tem de ser usado na dose muito correta, para que não fique excessivamente forte na composição dos alimentos com que deve combinar, e não dominar. Por sinal a combinação do molho da costeleta com o risoto ficou admirável. E tome vontade de uma farinha no capricho, daquelas da feira da 25... Mas não fique você apenas no desejo. Não tem viagem programada a Niterói? A receita do prato está no sítio eletrônico da Boa Lembrança e você chega até lá com apenas um clique, aqui.

Bom apetite.



Escrito por Fernando Jares às 18h57
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DULCINÉIA NA FEIRA

RESGATE DE UMA GRANDE AUTORA PARAENSE

Vamos conhecer mais completamente a poesia de Dulcinéa (ou Dulcinéia) Paraense na Feira Pan-Amazônica do Livro deste livro. É escolha do grande Benedito Nunes, que Paulo Chaves vai cuidar, naturalmente, com imenso carinho e, esperamos, resgatando a sua produção, hoje esparsa e muito pouco conhecida.

Nascida há quase um século nesta nossa terra, viveu pelas ruas de Belém uma intensa e jovem produção literária, quando ganhou o mundo e saiu pelo país a mostrar seu talento. Ancorou pelo Rio de Janeiro e mora lá há muitos anos. Fez, neste janeiro, 93 anos!

Embora ausente faz tanto tempo, ela e seu trabalho circularam, gráfica e virtualmente, pelas ruas de Belém, em 2008, quando foi assunto de duas crônicas de Amarílis Tupiassu, na revista Mulher e de dois posts neste blog, em que divulguei informações sobre sua vida, dois poemas, um artigo e até sobre músicas dessa escritora e autora paraense Para ler, clique aqui e aqui, onde encontrará os links para as crônicas de Amarílis Tupiassu.

Justíssima a homenagem do Governo do Estado a essa ilustre paraense, que o jornalista Bernardino Santos anunciou hoje (10/03), em sua coluna em O Liberal:

Viva Dulcinéia!

Há alguns dias, o secretário de Cultura, arquiteto Paulo Chaves, procurava um nome para homenagear como patrono da Feira Pan, evento, aliás, criado em sua administração.
Surgiram três nomes: Mário Faustino, Paulo Plínio Abreu e Dulcineia Paraense.
Na dúvida, brincou: vou ouvir o oráculo.
O oráculo, no caso, era o filósofo Benedito Nunes, a quem visitaria, naquele dia.
No hospital - e lúcido - Bené ouviu os três nomes e não demorou um minuto para responder:
- Escolhe a Dulcinéia, que está viva.
Dulcinéia Paraense será homenageada na versão 2011 da Feira Pan Amazônica do Livro.

Vai aqui mais um poema de Dulcinéia Paraense, publicado originalmente na antiga revista Terra Imatura, que captei na edição 07 da muito atual revista PZZ:

 INCOMPREENDIDO

Alma incompreendida
Se eu pudesse fazer de ti, como as múltiplas estrelas
um precioso colar,
te ostentaria, então, orgulhosa e altaneira
sobre o meu peito arfante a humanidade inteira
para fazer vibrar de inveja e de desejos
aqueles que fecharam as bocas aos teus beijos,
aqueles que te viram e não te compreenderam
aqueles que te possuíram e não souberam te amar.



Escrito por Fernando Jares às 19h11
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FLAGRANTES DA CIDADE MORENA

FLAGRANTE CARANGUEJEIRO

 

Caranguêêêêjo! Olha o caranguêêêêjo! Justo na semana passada, no dia em que começava mais um dos inúmeros defesos do caranguejo, que se espalham ao longo do ano, encontrei um vendedor dos cascudinhos peludos, apregoando sua preciosidade. Talvez nem soubesse do defeso, ou os animais oferecidos fossem de sua “reserva pessoal”, guardadinha para quem gosta desta maravilha de nossos mangais. Isso é permitido pela dura lei em defesa da reprodução dos bichinhos.

Não, não era esse das fotos aí de cima e em destaque ao lado. Essas fotos eu às fiz no final do ano passado, ali pelas bandas do Reduto, acho que na Ó de Almeida. Lá ia o vendedor dos caranguejos a caminhar com suas fieiras ao ombro, em busca de ganhar algum, para o sustento da família.

Esses vendedores ambulantes – estes sim, ambulantes de verdade – são cada vez mais raros pelas ruas de Belém. Mas já os tivemos de um tudo. Bananas, peixes, camarão (e os tinham vivos, pulando nos paneiros), pupunha, que Billy Blanco compôs e Leila Pinheiro eternizou na gravação de “Pupunha Cozida”, para não ir mais atrás no tempo, com os leiteiros, etc. Na porta de casa, invariavelmente, há anos, de manhã e de tarde, passa o vendedor de tapiocas. Tapioooooca! É voz íntima aos moradores das cercanias. Soa bem e agradável e não nos agride, como aquelas infames cornetas da Liquigás.

FLAGRANTE DE ERRO HISTÓRICO

 

No local onde havia, em tempos passados, a fábrica Palmeira a prefeitura atual criou o “Espaço Palmeira”, que é popularmente conhecido como camelódromo – por ter recebido comerciantes de rua, esses que montam barracas para vender as mais variadas bugigangas, pelo meio das calçadas.

Há nesse local um enorme painel com a finalidade de explicar a origem do nome e o que havia ali. Diz o texto que “Poucos registros ficaram sobre a famosa fábrica”. Ao que parece, existem sim registros sobre a fábrica, bastando pesquisar – lógico que depende do conceito de “poucos”... Aqui mesmo neste blog, que não é especialista em história, já divulgamos inúmeras informações sobre esse outrora belíssimo local (clique aqui). A seguir o texto incorre em erro grave, incompreensível por ser praticado pela prefeitura, ao afirmar: “O antigo endereço era Av. Paes de Carvalho, hoje Ó de Almeida”. A rua Ó de Almeida corre nos fundos da antiga Palmeira e nunca foi Paes de Carvalho.

A rua (e não avenida) Paes de Carvalho era ao lado da igreja de Santana, começando na praça em frente à igreja e seguindo em direção à hoje Presidente Vargas. Em passado mais remoto, no século XIX, era conhecida como rua São Vicente, segundo o historiador Ernesto Cruz em “Ruas de Belém”. A Manoel Barata seria da praça para baixo, na direção da Cidade Velha e seu nome inicial era rua Nova de Santa Ana, segundo a mesma fonte.

Existe um prédio na hoje Manoel Barata, quase chegando à avenida Presidente Vargas, no número 704, que se chama “Paes de Carvalho”, em homenagem ao antigo nome da rua. E mais: cá mesmo já mostrei, em 2009, um anúncio da fábrica Palmeira, publicado originalmente em 1964, nos jornais que circularam pelas ruas de Belém em um domingo de Círio. Para ver, clique aqui. E o endereço que está no anúncio é rua Senador Manoel Barata, 648. Mais uma evidência que a Paes de Carvalho, endereço da Palmeira, não mudou de nome para Ó de Almeida e sim para Manoel Barata.

Descuidos como esse geram inverdades história que, por serem afirmadas por um órgão público, com aparente seriedade, deturpam a realidade. Lembra a placa em frente à igreja de Santo Antonio de Lisboa, já mostrada aqui? Não? Então leia, clicando aqui.

Uma dúvida: o selo no tal painel, na parte superior direita, registra a firma proprietária da Palmeira como sendo Pinho Corrêa & Cia. Como sempre vi esse selo com a firma Jorge Corrêa & Cia, vou tentar descobrir quando houve por lá um senhor Pinho... Deve ter havido, pois a prefeitura reproduziu o selo.

FLAGRANTE BANHEIRO PALMEIRA


Aproveitando a andança pelo tal Espaço Palmeira, veja aí o que encontrei: a placa informativa da existência de um banheiro público na área. Coisa sempre muito necessária e meio rara pelas ruas de Belém, a não ser em dias de festa. O uso do mesmo custa módicos 50 centavos, como informa a tal placa, finamente ilustrada com uma... palmeira. Há se o “seu” Jorge Correa vê esta armação... Não me perguntem pelo banheiro que, agradeço a Deus, não estava precisando utilizar. E este blog não faz a linha das reportagens investigativas.



Escrito por Fernando Jares às 17h27
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PARA FICAR NA (BOA) LEMBRANÇA

UM FILHOTE A NÃO ESQUECER


A castanha-do-pará é um dos tais ingredientes fundamentais da culinária local. Já foi até produto importante da pauta de exportação para todo o mundo. A sua adição aos pratos doces é tradicional, centenária mesmo. Mas também de muitos anos o nosso caboclo descobriu que nos pratos com sal ela se saia muito bem. Não me deixa mentir uma das iguarias mais fantásticas da gastronomia paraense de antigamente (hoje proibida pelo Ibama), o “jabuti no leite da castanha”. E castanha tem leite? Na verdade ela tem um finíssimo óleo que, devidamente processado (coisa simples), produz esse “leite”.

Esta é uma introdução para chegar ao “Filhote no leite da castanha-do-pará”, o novo “Prato da Boa Lembrança” do restaurante “Lá em Casa”, que você vê, em pleno esplendor, no foto aí acima.

Uma boa comida, sempre nos deixa uma boa lembrança. Para registrar isso, um grupo de restaurantes, de todo o Brasil, reuniu-se, há uns tantos anos, para criar uma lembrança material, simpática, que perpetuasse visualmente uma boa refeição. Assim surgiu a “Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança” e seus pratos maravilhosos. Os restaurantes associados (o “Lá em Casa” foi o primeiro convidado, em Belém) escolhem um prato especialíssimo e, quem o consome, ganha um prato em cerâmica, com bela decoração – mais que um souvenir, uma peça de arte, assinada, objeto de coleção: tenho todos os do “Lá em Casa”, desde 1994.

O “Filhote no leite da castanha-do-pará” (R$ 45,00) entrou no time. Trata-se de bela posta de um dos príncipes dos rios amazônicos, o filhote, tratada com o carinho que merece a realeza e servida sobre um molho preparado a partir do tal leite da castanha, que combina admiravelmente com alguns alimentos. Neste caso, casamento perfeito.

O molho vem sob a posta do peixe, como que um leito de rio, no qual nada o filhote... e proporciona um sabor tão equilibrado, que é capaz de remeter o feliz comensal à lembrança de um imenso filhote a nadar e alimentar-se de pequenas castanhas, nas margens dos belos e piscosos rios paraenses. O acompanhamento é com arroz de jambu, uma criação do chef Paulo Martins, prato cuja história você pode ler, clicando aqui. Aí ao lado, o prato em cerâmica que a gente leva para casa. Você pode saber como se faz este prato, inclusive o leite da castanha, indo à página dos pratos do “Lá em Casa”, no sítio eletrônico da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, clicando aqui.

Antes de chegar a este manjar tivemos, Rita e eu, como entrada, o ”Biju Marajoara” (R$ 6,00), que vem a ser o nosso beiju de feira (feito com farinha d’água branca), coberto com manteiga e levado ao forno. Para mim é um manjar. Não abro mão e, vez por outra, faço uma versão doméstica, usando esta “descoberta” do mestre Paulo Martins.

Na sobremesa fomos à outra pedida tradicional na casa: o “Bolinho de tapioca com recheio de cupuaçu” (R$ 12,00), que vem morno, acompanhado de sorvete da mesma fruta, que está na foto abaixo.

 

Bom apetite.



Escrito por Fernando Jares às 18h14
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PARÁ-TURIM, EM 1911 (4)

CASACAS E BENGALAS DO “STATTO DEL PARÁ”


Vejam os ilustres e bigodudos cavalheiros, todos muito bem enfatiotados, a mostrar a sua “moderna elegância” no alvorecer do século... XX. E, com certeza, a aproveitar o bom e o melhor em requintado banquete, em Turim. Um banquete offerecido, como se escrevia na época, pelo presidente da Delegação Paraense ao Comitê Executivo da Exposição de Turim e outras personalidades, em 25 de outubro de 1911, nessa cidade italiana.

Como já escrevi em três posts anteriores, o Pará participou, exatamente há um século, com destaque, da “Esposizione Internazionale delle Industrie e del Lavoro in Torino, 1911. Para conhecer a série, leia “Indústria e trabalho paraenses em exposição”, clicando aqui; “Uma das mais completas e brilhantes seções”, clicando aqui; e “Os produtos paraenses da (e para a) floresta”, clicando aqui.

Os representantes do Pará não deviam fazer feio em meio aos bem-vestidos com costumes de fino corte italiano. É possível que algum (ou alguns) deles usasse um traje com assinatura da “Alfaiataria Louvre”, pertencente à firma Almeida Martins & C°, de Belém, – que nesta exposição ganhou Diploma de Honra, conforme consta da “Relação dos expositores brazileiros premiados. [Rio de Janeiro]: Commissariado Geral do Brazil na Exposição Internacional de Turim 1911, 1912, documento que se encontra na biblioteca da Harvard University. Coisa fina, como deviam ser as roupas dessa “Louvre”, a ser digna do nome e do prêmio... Naquele tempo, as roupas masculinas eram feitas por cuidadosos alfaiates. Já escrevi aqui sobre a propaganda de duas antigas alfaiatarias que existiam pelas ruas de Belém, a “Sport-Londrino” e a “Alfaiataria Jares”, a primeira do meu avô e a segunda de um irmão dele (você pode ler, clicando aqui).

Veja abaixo o mostruário enviado pela “Louvre” a Turim: uma protocolaríssima casaca, traje requintado, que ainda hoje é usado, em eventos de muito protocolo, como posses presidenciais, jantares a chefes de estado, etc.

Os senhores do banquete devem usar smokings. Aliás, olhe lá na foto do banquete, o cidadão cá da ponta direita, que tem sobre a perna... o guardanapo. Costume antigo. Admire a casaca da “Louvre”:

 

Um outro produtor paraense mandou para esta exposição dois utensílios para senhores de fino trato (embora, às vezes, finório...), fabricados a partir de algo que era – e ainda é – objeto de desejo na Europa: as nossas nobres madeiras. Bengalas e tacos de bilhar. Dizia a placa sobre as peças, no expositor: “Bastoni fatti con legno pello Stato Del Pará”. Infelizmente, não há identificação do fabricante:

 



Escrito por Fernando Jares às 21h04
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MARIZ E BARROS VERSUS ESTRELAS

BENEDITO NUNES: A VIDA ENTRE ESTRELAS

Em Belém havia uma Travessa da Estrella que, um dia, legisladores sem amor à poesia (e, talvez, nem à história), mudaram o nome para Travessa Mariz e Barros. A justificativa enquadraria aquela artéria à linha das nominações de logradouros no bairro: todos dedicados à guerra do Paraguai, de heróis a batalhas.

Em dias da semana passada, andando pelas ruas de Niterói, justo por uma tal Mariz e Barros, topei com esta placa afixada na parede de um prédio nesta rua:


O texto da placa está aqui, caso haja dificuldade em ler a foto:

Ao projetar a cidade nova de Icaraí, em 1841, permitiram-se os legisladores municipais um momento de poesia, batizando como Rua das Estrelas este logradouro. Durou pouco a denominação, mudada em 1868 para Mariz e Barros, homenagem ao jovem capitão-tenente da Marinha Antônio Carlos Mariz e Barros, nascido em 1835 no Rio de Janeiro e morto aos 29 anos no combate de Itapiru, durante a Guerra do Paraguai. É da tradição que nesse trecho de Icaraí residiu o militar, em sua infância e adolescência

Ao ver a placa, logo lembrei-me do professor, filósofo, crítico, ensaísta, escritor, Benedito Nunes. Fiz a foto e pensei: “preciso mostrar isto a ele”.

Acontece que nosso maior pensador morava exatamente na tal Mariz e Barros citada lá em cima, que fora Estrella. Provavelmente em nome da poesia que ele tanto amava, admirava, estudava e criticava, continuou morando na Travessa da Estrella. Um ato de rebeldia pacífica em nome daquele mesmo “momento de poesia” usado para justificar a nominação da antiga Rua das Estrelas, em Niterói. Aliás, ele sempre contestou a necessidade da mudança, já que o nome original estava ligado ao grande conflito. Parece-me até que muita gente concorda com ele e continua chamando a travessa pela antiga denominação. É comum vermos em endereços ou até em notícias em jornais, o nome ser seguido de um parêntese: “(antiga Estrela)”. Por isso Bené mandou colocar na frente de sua casa a placa da antiga rua, história que ele conta no programa “Entre nós”, da ORM Cabo, na bela entrevista que a jornalista Layse Santos fez na casa do mestre. Veja o programa, clicando aqui:

 

Pois é, não pude mostrar a foto da rua fluminense e nem comentar essa tremenda coincidência. Foi-se o mestre Benedito habitar entre as verdadeiras estrelas, a chamado do Senhor, no último domingo (27/02). Antes mesmo que eu chegasse a Belém com a foto. Como admirador de sua obra, de sua vida, de um tão amplo conteúdo em um jeito de ser tão natural, cativante, tenho em Benedito Nunes personagem habitual aqui pelas ruas de Belém. A cidade que ele nunca abandonou. Contei algumas histórias interessantes, como “O cartãozinho e o premiozão” (para ler, clique aqui).

Na entrevista com a Layse, ao ser indagado sobre o futuro, ele define o viver a vida como filosofia: “Quero aproveitar o tempo que me resta. Este suplemento de vida”. E repare que ele estava produzindo a pleno raciocínio.

Muito foi publicado sobre o falecimento deste grande paraense. Leia aqui a matéria de Ericka Pinto no sítio eletrônico da UFPA (Pará se despede de Benedito Nunes).

O jornalista e crítico Elias Ribeiro Pinto foi certeiro ao escrever sobre esse paraense que nos orgulha: “Os três primeiros se completavam. Haroldo (Maranhão) nos contos e romances, Max (Martins) na poesia, Bené na filosofia, na ensaística, na crítica. Juntos compuseram o mais alto momento da nossa criação literária, incontornável galáxia, esta sim imortal (sem que nenhum de seus três vértices se submetesse a academias, a não ser aquela, de poltronas austríacas e patronos ilustres, a que Max, antecipando-se a Graça Aranha, gritou um Morra a Academia!), das letras geradas às margens do Acará.” Leia a crônica de Elias, no jornal Diário do Pará, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 22h30
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GUERREIRO: ORGULHO DE SER PARAENSE

UM GUERREIRO AMAZÔNICO NO PLANALTO

 Houve época em que os cidadãos amazônicos tinham plena liberdade para consumir, livre e legalmente, os produtos que a grande floresta lhes oferecia. Dons de Deus e da natureza aos cidadãos destas vastas terras, que circulavam pelos navios, canoas, regatões, barcos de todos os tipos. Nem faz tanto tempo assim. Lembro-me perfeitamente dos leilões de pirarucu, que eram publicados nos jornais. E de meu tio Pedro Gonçalves trazendo, das barrancas dos rios do Amazonas, benditas e bem-vindas “mantas” desse peixe maravilhoso. Ainda de poucos anos, recordo de quelônios de todos os tipos, disponíveis até em restaurantes e indicados nos guias turísticos.

Confesso que passei a infância (talvez pela localização geográfica de Capanema, sem grandes rios, e pelas dificuldades financeiras) e parte da juventude, sem acesso a essas riquezas de nossas águas.

Um dia Deus premiou-me e colocou-me nos braços – literalmente – de uma família do oeste paraense, de Oriximiná, mas que há anos vivia cá, pelas ruas de Belém. A família Guerreiro. Lá encontrei a minha Rita, com quem partilho a vida há quase 40 anos. Lá encontrei sogros que adotei como pais locais. Lá encontrei cunhados/as que se tornaram minha família, em permanente expansão (já são 55 os descendentes de meus sogros Marluce e Guilherme). E lá encontrei também, nesses tempos passados, a mais perfeita forma de preparar um prato de tartaruga, de muçuã, de tracajá, de pitiú, de jabuti e qualquer cascudo semelhante. D. Marluce era a mestra maior nessa arte superior, de aprimorar ao paladar humano, aquilo que Deus já criara perfeito. Tive acesso a um mundo que me era praticamente desconhecido.

Certo dia, já lá se vão muitos e muitos anos, acho que ainda era apenas namorado da Rita, houve um desses almoços opíparos, em um sábado, a filharada e os agregados reunidos, em torno de uma centenária tartaruga, daquelas que forneciam do filé à farofa no casco – a obra-prima final. Aos poucos, ao longo da prazerosa degustação, foi-se formando uma porfia entre dois dos jovens presentes, ambos inveterados amantes – como de resto, praticamente todos os presentes – das delícias que cobriam a mesa. Éramos o meu cunhado Renato e eu. Avançávamos, cautelosamente, estrategicamente, mas com firmeza e audácia, sobre as variedades disponíveis. Ele com verdadeira fixação no “sarapatel”, indiscutivelmente sua preferência, eu mais para o “paxicá” e o picadinho, sem esquecer o extraordinário filé, que deve ser consumido com responsabilidade social, em pequenas porções, afinal é normalmente de pequeno tamanho e deve atender a todos... Não tenho certeza, mas parece-me que a vetusta tartaruga teve, nesse dia, a companhia de outros quelônios de pequeno porte, mas não menos saborosos, como o muçuã, para ambos, uma das mais finas iguarias amazônicas. A disputa foi crescendo. Todos iam parando, abandonando pratos e talheres, e nós dois continuávamos, firmes. O round final foi no quintal da casa, ambos sem camisa, ao sol das 2, 3 horas, sei lá, em torno do casco com a perfeita farofa, caminhando para conseguir “espaço interno” e prosseguir... Não, não era gula. Não era pecado. Ao contrário, era um exercício de amor explícito ao que a natureza nos oferece, ao talento da d. Marluce, um exercício fraterno de amizade, de bem-querer, que se estendeu ao longo destes muitos anos. Até ontem.

Renato Navarro Guerreiro, caboclo paraense nascido nas barrancas do Trombetas, na “encantadora Oriximiná” que ele citava com felicidade, homem apaixonado pela família, dedicado aos amigos, engenheiro, tornou-se um dos mais destacados especialistas brasileiros em telecomunicações, líder da reestruturação das telecomunicações no país, criador do sistema que popularizou a telefonia celular e a internet, que hoje permitem a qualquer brasileiro falar, com baixo custo e facilidade, de qualquer lugar para qualquer lugar. Um verdadeiro guerreiro amazônico em ação no planalto central.

“Um homem excepcional que, com modéstia e devoção, pôs os conhecimentos que adquiriu em sua vida profissional a serviço da coletividade”, escreveu o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao prefaciar o livro de memórias do Renato, em 2006, na coleção Gente, da Universidade Estácio de Sá.

Ontem (28/02/2011, às 5h49) Deus precisou dele. “Chegou o momento dele dar sua insubstituível e inestimável contribuição a Deus! Que ele siga em Paz...”, informou a família, logo cedinho, em mensagem... via celular.

Rita foi até lá com ele, em Brasília (na foto, que capturei do livro de memórias, estão os irmãos Regina, Renato e Rita). Eu vim para cá e deixei as minhas lágrimas transformarem-se em letras de saudade.

Outros também o fizeram. Antes de “resgatar os seus feitos, prefiro resgatar os seus gestos” escreveu com o coração a jornalista Miriam Aquino, que você pode ler clicando aqui. Quem teve a oportunidade de conviver com o Renato, vai chorar. Comigo.

Há muito que ler sobre ele, em citações nos mais variados veículos de comunicação. Veja aqui o que disse o Jornal Nacional. E clicando aqui, leia o registro do Valor Econômico. E aqui da Folha de S. Paulo.



Escrito por Fernando Jares às 18h25
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