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BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



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PELAS RUAS DE BELÉM


EXPERIÊNCIA ADQUIRIDA

O QUE HÁ SOB AS RUAS DE BELÉM?

A queda de um edifício, construído ou em construção, causa impactos nos mais variados sentidos da palavra, adjetivo ou substantivo, em uma comunidade. Desde aqueles estritamente físicos, pelo choque ou colisão do elemento contra o que lhe esteja próximo, até a impressão ou efeito deixados, em função do acontecimento.

Isso foi muito bem sentido pelas ruas de Belém a partir da tarde de sábado (29/01), com a queda de um edifício em construção na travessa 3 de maio. Por isso, acaba sendo assunto cá nestas páginas virtuais.

Registrando aqui, o mais cotidianamente possível, as coisas, geralmente boas, que vi e vejo pelas ruas de Belém, nem sempre aparecem fatos que ocorrem sob as ruas de Belém. Inúmeros geólogos, engenheiros e estudiosos do solo belenense têm emitido opiniões sobre a insegurança desse subsolo. Lembro até de um que afirmou que, sob Belém, havia um grande colchão de lama (imagino que não falasse figurativamente, caso em que nem precisaria descer ao subsolo...). Mais recentemente, acho que ano passado, um especialista alertou para o excesso de edifícios na área central de Belém, especialmente no bairro do Umarizal.

Resumo da ópera: é preciso ter muito cuidado com as fundações. Cuidado redobrado, triplicado. A UFPA, ao que li em seu sítio eletrônico, vem estudando isso, via pesquisadores do Centro Tecnológico (leia “Geotecnia faz mapeamento das fundações de Belém”, no jornal Beira do Rio, clicando aqui). A prefeitura, ao emitir a autorização para a construção de um prédio leva em conta esses condicionantes? Alguém terá tido a boa ideia de uma parceria com a UFPA para emitir pareceres científicos sobre a viabilidade da construção? Ou o único estudo de viabilidade é o econômico?

Tudo bem, estou focando apenas na questão segurança do subsolo, não coloquei a qualidade do material utilizado na obra. É que, caso haja qualquer deslize na qualidade desse material, entendo que o caminho é a cadeia, pura e simples, para os responsáveis. Nem vale discutir. Lógico, se houve erro na dimensão das fundações, os responsáveis também devem pagar caro por isso, seja resultado de ignorância ou má-fé. Aliás, por falar em responsabilidades, imagina-se que os responsáveis indenizem os grandes gastos com toda essa operação, à prefeitura, ao Estado, à Cruz Vermelha, etc. Não se trata de uma catástrofe natural, tipo no Rio de Janeiro, é muito diferente. O seguro de construção do prédio, por certo, cobre tudo isso.

EXPERIÊNCIAS – Belém tem diversas experiências de prédios que adernaram, que necessitaram de “calços” para voltarem a ser habitados. De casas que racharam por dificuldades nos alicerces. O fato mais grave é a queda do edifício “Raimundo Farias”, também em construção, há 24 anos, com a morte de 39 operários (veja, clicando aqui, reportagem histórica, da TV Liberal, da época do acidente).

Diante da provável realidade dessa experiência adquirida não ser utilizada como subsídio para evitar novos erros, esperemos que a experiência da impunidade dos responsáveis não se repita. Com recursos jurídicos, protelaram tanto a decisão, que o crime prescreveu. Parece ficção? Não, é pura realidade! Leia, clicando aqui, matéria do Diário do Pará de hoje, sobre o que aconteceu com aquele desabamento.

JORNALISMO – Os profissionais de comunicação de Belém responderam prontamente e com responsabilidade ao acontecimento. Por via das redes sociais a cidade tomou conhecimento do acontecimento, até bem antes dos meios de comunicação de massa. Eu soube do desabamento praticamente na mesma hora, porque uma pessoa da família viu a queda do prédio e logo nos informou: às 13h59 já postei no Twitter (leia aqui), avisando os coleguinhas de plantão (é discussão habitual, entre jornalistas, no final de semana, quem está de plantão...). Centenas, milhares de mensagens circularam e logo o assunto estava entre os Trending Topics, o ranking que mede os assuntos mais presentes na rede. Serviços independentes como http://twitter.com/#!/belemtransito ou http://twitter.com/#!/belemdopara produziram muita informação, fotos, etc., assim como os perfis dos veículos de comunicação. O Secretário de Comunicação, jornalista Ney Messias, acompanhou desde os primeiros momentos, informando, via Twitter, as ações oficiais na área. Os jornais impressos refizeram seus primeiros cadernos, que já estavam até imprimindo ou impressos, quando aconteceu o acidente (você sabe que, aos sábados, os jornais estão nas ruas por volta das 15, 16h, o que quer dizer que são “fechados” muito mais cedo). E conseguiram textos e informações de qualidade. Televisão e rádio dedicaram tempos e recursos preciosos a orientar as pessoas.

Infelizmente com perda de vidas e com perda de recursos, talvez até por quem não os pudesse perder, foi um momento maduro no jornalismo paraense.



Escrito por Fernando Jares às 23h24
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FICA SÓ O RURAL


O "TERRA DO MEIO" VAI FECHAR!

A notícia apareceu, de leve, meio duvidada, no último fim de semana, mas foi confirmada no decorrer desta. O restaurante “Terra do Meio” vai fechar, mesmo. Uma pena, uma perda. É um espaço único para lazer e refeições, não muito distante de quem vive ou passeia pelas ruas de Belém. Mas, embora não distante, sofre com a dificuldade de acesso, especialmente nestes tempos de fortíssimas chuvas – se os administradores municipais não conseguem evitar alagamentos e outras dificuldades em áreas asfaltadas, drenadas (???), no centro das cidades, imagine em vias de terra, que deviam nos levar à natureza natural...

O “Terra do Meio” andou cá pelas páginas deste blog, quando a casa do escritor André Nunes foi transformada num restaurante na beira d’água, com muita criatividade. Leia “Canoa, cotia distraída, pássaros e boa comida”, clicando aqui e ainda “Comendo na beira d’água e do mato”, clicando aqui, onde você pode ver algumas das iguarias da casa.

Agora o André decidiu fechar o serviço. Tudo vai continuar lá, com o cuidado que ele tem por aquele pedaço de natureza, ainda ao natural, há quatro décadas. Do restaurante rural, fica só o rural. É a perda de um recurso valioso para nosso pobre menu de atrações a apresentar aos turistas. Será que alguém, da Paratur, Belemtur ou alguma entidade pública da área esteve por lá? Interessou-se em dar apoio, estimular a visita de turistas, colocar nos roteiros da cidade? Essa é a função da entidade estatal do turismo: apoiar os empreendimentos, ajudando-os a ganhar estabilidade empresarial.

Mas o melhor é passar a palavra ao próprio André. Para isso, transcrevo a seguir um texto por ele postado ontem no blogTipo assim... folhetim”, no formato idealizado pelo autor:

E O TERRA DO MEIO VAI FECHAR

 Esta é a última semana de funcionamento do Restaurante Rural Terra do Meio.
Domingo, 30 de janeiro de 2.011.
Inaugurou em 30 de maio de 2.009, sabendo que não era imortal posto que é chama, mas foi infinito enquanto durou.

O réquiem formal termina por aí.

O que eu queria mesmo era dizer que foi prazeroso!
Nunca curti tanto.
Vi e revi velhos amigos. E aí se incluam os novos que em um passe de caruana, de repente, viraram amigos de infância e, o que é melhor, relembrávamos reminiscências não havidas.
No início levei uma bronca da encantaria, a velha turma daqui, com quem convivo há quarenta e três anos. O Maraca, o Curupira, o Mapinguari, a Matinta, e até o Capelobo. Com letra maiúscula, sim senhor, porque a encantaria também é gente.
Quarenta e dois anos de convivência achavam que tinham direto de pelo menos ser ouvidos.
Até acho até que tinham. No início ficaram amuados, mas canalhas que são, logo aderiram ao espírito da coisa. Ensinaram-nos a fazer perfumes com ervas, raízes e cipós do mato, licores mil, inclusive seu mais recôndito segredo: licor de flor de jamburana.
Vão sentir falta. Eu também, claro, mas nos acostumaremos.
E tudo vai voltar a ser como antes nas cabeceiras do rio Uriboca. Sem essa de nostalgia, apenas lembranças. Todas ótimas.

Informe publicitário:
De vez em quando, espero que muitas vezes, abriremos para eventos programados. Aniversários, casamentos, confraternizações, ou, mesmo, aluguel para gandaia.
As canoas, o salão, as malocas, as trilhas, as jaçanãs, as castanheiras seculares vão estar nos trinques. A Gilmara, o Maraca, a Dona Édina cozinheira, a Graça, também.
O telefone é o mesmo, (91) 3255-1882
Fim do informe publicitário.

Estou cuíra para citar um mundo de gente, amigo(a)s, blogueiro(a)s, jornalistas e demais canalhocratas que embalaram e se deixaram embalar por este sonho.
Abraço a cada um de vocês na lembrança do Baratinha-Ronaldo Barata e do Juca-Juvêncio Arruda.
Sempre nos veremos nos botecos da vida, ou, quem sabe um dia, aqui mesmo embalados pela magia da flor da jamburana.

andré costa nunes



Escrito por Fernando Jares às 18h46
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PARÁ-TURIM, EM 1911 (2)

“UMA DAS MAIS COMPLETAS E BRILHANTES SEÇÕES”

Semana passada, fizemos a apresentação da “Esposizione Internazionale delle Industrie e del Lavoro in Torino, 1911, onde o Pará teve destacada participação – você pode ler “Indústria e Trabalho Paraenses Em Exposição” clicando aqui.

Era governador do Estado o dr. João Antonio Luiz Coelho. Em mensagem dirigida, em 07/09/1911, ao Congresso Legislativo do Pará, Coelho afirmou que “auxiliado eficazmente por todos os municípios, que não duvidaram avigorar o empenho do governo em concorrer ao grande certame da capital toscana, com o fito de abrir novas fontes de expansão às nossas indústrias, consegui reunir o maior número possível de expositores, sendo-me grato afirmar que no pavilhão do Brasil a seção paraense tem figurado entre as mais completas e brilhantes”.

Hoje vamos conhecer a delegação oficial do Estado, que foi presidida por um ilustre paraense, o comendador João Antonio Rodrigues Martins, cônsul do Brasil em Gênova, em missão voluntária, sem remuneração, como assegura o relatório do governador: “sei do acrisolado amor que ele consagra à Pátria e particularmente ao Pará, e do qual mais uma prova deu, prestando-se a desempenhar o cargo de nosso delegado oficial sem remuneração alguma”.

Outro grande nome da delegação paraense foi o botânico suíço Jacques Huber, diretor do Museu Paraense (hoje Emílio Goeldi) e um dos maiores especialistas em borracha no mundo, sendo naturalmente uma atração na Exposição. O auxiliar do delegado foi Jayme Gama e Abreu, que habitualmente cuidava de exposições do Pará no Brasil ou no exterior. Uma comitiva oficial bem reduzida, registre-se...

Vejam-nos abaixo, em foto caprichada, acompanhados do representante brasileiro na exposição, J. C. Costa Sena, preparados para receber convidados da elite de Turim, em um grande banquete que o governo do Pará ofereceu durante a exposição, em novembro daquele ano.

 

Naturalmente, a borracha desempenhou um papel muito importante nesta exposição, embora estivéssemos próximos de perder a hegemonia mundial na sua produção. Por isso a presença destacada de Jacques Huber, assim justificada pelo governador João Coelho: “cujos conhecimentos científicos, notadamente no que concerne à propaganda da borracha, tão necessários se faziam a seção paraense”.

Veja aqui a foto do estande da “Borracha do Pará”, espaço nobre na Esposizione:


Para que os visitantes tivessem maiores informações sobre como era produzida a borracha natural paraense, foram pintados e instalados grandes quadros, a óleo, retratando o processo – por sinal, um dos problemas que, logo adiante, causaram o grande tropeço da economia da borracha na região...

Veja neste quadro o processo do corte da seringueira e a coleta do látex:


E neste outro quadro o processo de defumação do leite da seringueira:

 

Muitos outros produtos da indústria paraense estavam presentes, como destacou o governador João Coelho – e já vimos, na semana passada, no estande da indústria de cigarros Aurora. Na próxima semana conheceremos outros produtos paraenses expostos em Turim, há um século.



Escrito por Fernando Jares às 20h58
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BELÉM, A AGONIA

UMA VISÃO FOTOGRÁFICA E UMA VISÃO LITERÁRIA

Mês de aniversário da fundação da cidade é tempo de comemorar o que Belém tem de melhor. Mas também é um tempo para reflexão sobre a urbe. Por exemplo, neste último fim de semana, seria mais justo falar na “afundação” da cidade... tal a praticamente inédita quantidade de alagamentos pelas ruas de Belém. Alguma coisa não tem sido feita...

Dia destes, apreciando dois postais, integrantes da coleção “Diário Documentário – Belém 395 anos”, fui motivado a refletir sobre a Belém de hoje. Essa coleção integra um álbum que reúne fotos da cidade, no passado e hoje, sendo os postais distribuídos diariamente aos leitores do jornal Diário do Pará. As fotos novas são cuidadosamente feitas, no mesmo ângulo das antigas, pelos fotógrafos do jornal, para transmitir bem a ideia do que mudou.

Veja a rua João Alfredo, no chamado centro comercial, que as antigas gerações nos deixaram:

E veja agora o mesmo ponto da João Alfredo, que a nossa geração vai deixar para os que nos sucedem:


O contraste é chocante. E a foto atual foi feita em dia sem movimento, um domingo, provavelmente. Nos dias de atividade comercial, essas tendas/barracas estão cheias de bagulhos e gente. E a sujeira é muito maior... Uma pena que a outrora chique via de comércio, a rua dos Mercadores, tenha sido transformada no pior tipo de feira imaginável. Aquele tipo que não deveria existir em lugar nenhum. E, de vez em quando, pelo meio dessas barracas e das gentes que por lá circulam, passa um ladrão a correr com uma bolsa ou pacote na mão, atrás dele alguém desesperado a gritar e nenhum policial para deter o bandido. As pessoas veem, lamentam, não podem fazer nada, pois o criminoso provavelmente está armado. Infelizmente, já vi essa cena, mais de uma vez – e hoje vou muito poucas vezes àquela área da cidade...

Contribuindo para a nossa reflexão sobre a cidade que esta geração constrói (ou destrói) tenho cá um texto inédito: “Belém, a agonia”, a visão ficcional de uma lamentável realidade, pelo poeta, cronista e professor Paulo Nunes, autor, entre outros, do livro “Banho de Chuva”.

Belém, a agonia

Paulo Nunes

O livro prenuncia. No número 395 da avenida Luzânia, o carro da assistência berra sirenas e urgências. A maca nervosa faz-se denúncia; é quando adentra no ambiente uma senhora semidesfalecida. A aparência, apesar de algumas gambiarras em sua fisionomia, indicava a gravidade do caso.
Encharcada de fungos, chagas grafadas pelo descuido de “méridos” e “endermeiros” (quem escolhera esses profissionais para tomar conta de vidas?), de alguns hospitais – 3 ao todo? – dos quais a mulher foi expatriada por “falta de leito”. A paciente – nunca uma expressão parecera soar assim tão adequada – equilibrava-se no calendário, e talvez por isso, se avolumassem anomalias e, corpo inchado, volumoso, de saúde vil, gases entrincheirados entre lixos, dejetos, calçadas-unhas-encravadas. A moribunda pensava ainda “para que reciclar, reciclar-se?”, a vida aqui é para sugar e nada devolver-se?
A junta médica foi instada a opinar:
- Sofre d’alcoolismo?
- Melancolia?
- Amnésia ela tem?
- Faz-se preferível não adiantar sintomas...
- Não, há a tendência à surdez e à esquizofrenia, porque nela batem ponto os sons ensurdecedores, os playboys do barulho, carros frenéticos, aparelhagens de mil e tantos decibéis...
- Os rins apresentam inchaço, as águas que a paciente ingere estariam contaminadas? Como os lençóis freáticos? Dói onde, velha?
Ah! Os gemidos.
- Vejam: há piolhos e carrapatos, bostas espalham-se por todos os lados. Lulus e Lolós desovam nela imundícies por todo canto. Não se salva ninguém, de nenhuma classe social.
- Não tem quem dela cuide? Parentes, aderentes, alguém que se responsabilize?
- Foi encontrada abandonada numa marquise, dizem estar sem assistência há muitos anos, afirmou uma popular que acompanhava a desfalecida senhora e chamou o serviço de urgência.
Os doutos do Pronto Socorro não quiseram perder tempo.
- Entubem a paciente! Qualquer que for o resultado, façamos uma maquiagem para que repórteres não nos imponham responsabilidades diante d’agonia...
- Coitada, velha estropiada, acho que não chegará aos 400 anos.
- Assistente, rápido, mande higienizar o necrotério.
Foi quando um assistente remexeu-lhe os bolsos; num arremedo de documento, amassado e borrado, se lia o nome Maria de BGP.



Escrito por Fernando Jares às 21h25
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CULTURA GASTRONÔMICA

EM DEFESA DA COZINHA POPULAR PARAENSE

No “National Tapioca Day”, 28 de junho, alguns norte-americanos comem de um tudo feito com farinhas de tapioca, especialmente o famoso pudim que, muitos gostam de dar de presente aos amigos. Após aparecer em um episódio da série “Garfield e amigos” a data ficou popular, no final dos anos 80. Não, não é feriado e nem uma data oficial. Apenas aparece em blogs, em promoções de restaurantes, etc.

Pois é, eles têm um Dia da Tapioca. Informal, mercadológico. Como o nosso Dia da Pizza, entre outros.

Lembrei-me disso ao provar a tapioca de cupuaçu. Veja aqui:

 

Torradinha, a gente sente “no céu da boca” o gostinho leve e marcante do doce de cupuaçu. Gostooosa. Comprei-a no Box do Dinho, ali na Feira da 25 (iiih, acho que vão ter de mudar o nome da feira...). Veja na foto: alguns grãos, ou pérolas, como prefiram, são amarronzados, pois é onde se concentra mais o doce. Mas percebe-se um gosto global. Tem também de maracujá, de castanha-do-pará, mas a que eu gostei de verdade foi a de cupu. Já fiz diversas combinações e todas ficaram delícia. Também, é covardia, né...

Olhando esses recursos extraordinários e cruzando com a promoção lá de cima, fica a certeza: precisamos, aqui no Pará, criar ações de valorização de nossa rica e variadíssima cozinha. Por exemplo, o “Dia do Pato no Tucupi”, com direito a uma semana de “festejos”. Precisamos voltar com o “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, genial criação do chef Paulo Martins. Vou mais fundo: criar um “Festival Paulo Martins de Gastronomia Paraense”. Há muitas alternativas, mas é necessário iniciativa, vontade de fazer acontecer.

Algumas iniciativas carregadas de burocracia estão atrapalhando essa cultura. À luz de legislação voltada para procedimentos industriais, autoridades da área de alimentos atacam o cerne de nossa produção popular, nossa cozinha artesanal, proibindo isto e aquilo. O caranguejo tirado é proibido, nada de casquinhos, de unhas, etc. Delícias que já sumiram dos restaurantes. E, quem o servir, pega multa. O queijo do marajó está proibido, pela Anvisa, de ser comercializado em restaurantes, feiras, fora do local de origem porque não existe registro desse tipo de queijo. Ele nem aparece no “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” que, no entanto, registra “queijo de minas”, queijo do reino, etc. Para sair da ilha, teria que mudar de nome(!) e assumir o título de requeijão, de manteiga, por exemplo. “Os verdadeiros produtores se recusam a descaracterizar o produto e preferem manter queijo do marajó para não serem engolidos por uma legislação que desvaloriza a cultura”, afirma o chef Thiago Castanho, do restaurante “Remanso do Peixe”. Aí, eles não podem exportar a produção.

Ao que sei, existem estudos acadêmicos, na UFPA, para a padronização do queijo do marajó, como requer a legislação. Só precisam ir para o campo para que sejam implementados, pelos “canais competentes”.

Nos últimos meses até o tacacá anda sendo ameaçado, com o questionamento da qualidade do serviço das bancas espalhadas pelas ruas de Belém. Conversando, hoje, com Thiago Castanho, lembrei que na Bahia as “baianas do acarajé” são certificadas, recebendo treinamento sobre a padronização do produto, sua apresentação, higiene e até o tipo de roupa que elas usam é regulado. Já testemunhei isso, no Pelourinho. Cidades do interior também adotam essa política.

Thiago afirma que o problema não é apenas local. Lembra a discutida questão da “flor do sal”, tempero muito utilizado pelos grandes chefs na alta gastronomia, que vem a ser um extrato do melhor do sal marinho, de sabor requintado, obtido em coleta superficial nas salinas. Mas que é proibido de comercialização no Brasil porque... não contém iodo. E, no Brasil, por decreto-lei de 1969, o sal tem de ter adição de iodo. (Você já pensou que o sal, aqui no Brasil, não tem gosto de sal de verdade, mas gosto de sal com iodo?)

Tudo isso, toda essa megaburocratização do trato oficial da culinária popular, da cozinha de rua, é coisa recente. Temos novas autoridades no Estado. É hora de agir, em defesa desse patrimônio cultural da gente paraense.

Por falar em cozinha de rua, está em Belém um dos mais famosos chefs e críticos de gastronomia do mundo, Anthony Bourdain, apresentador do programa “No Reservations” – no Brasil, “Sem reservas”, visto no canal “Discovery Travel & Living”. Há que agir rápido, senão...

Só pra ilustrar, olha o Box do Dinho aqui embaixo.

 



Escrito por Fernando Jares às 20h58
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CIDADE-BERÇO

CIDADE DE BEIRAIS SONOROS

Chegando ao final da semana de aniversário da cidade, aqui vai um poema que canta as belezas e maravilhas que encontramos pelas ruas de Belém, suas coisas, sua gente, seu estado de coisas e de gentes. É do acadêmico (da Academia Paraense de Letras), poeta, advogado, contista, orador, conferencista, trovador Leonam Gondim da Cruz e fomos buscar no suplemento especial “Viva Belém”, em formato de revista, do jornal A Província do Pará, publicado em 14 de janeiro de 2001, há exatos 10 anos, quando Belém comemorava seus 385 anos. E o poeta, no seu canto, já se referia aos 400 anos da cidade-amada. 10 anos depois, parece que a cidade continua olhando o evento... como uma data distante.

Mas vamos ao poema:

Cidade-berço

Leonam Cruz

Entrada e saída, partida e chegada;
cidade-contraste, cidadã-nascente,
onde a Amazônia recebe
pela primeira vez
ou se despede para sempre,
ou deixa-se ficar,
como um peregrino insatisfeito.

Cidade-verde,
que amanhece nos beirais sonoros,
onde o sol canta na voz dos passarinhos;
que amadurece no meu sonho,
conduzindo nos braços
um buque de recordações.

Cidade-feiticeira e meta-física,
que fuma tauari
no feitiço de suas chaminés invisíveis
que o passado agasalhou
na minha recordação.

Cidade que guarda o semblante da utopia,
porque conduz a fisionomia da esperança.
Cidade cosmopolita feita de anseios
e energias, que fez através das mangueiras
a sua arquitetura diflnitiva.

Cidade-árvore feita de esmeraldas,
que conseguiu fazer com que as ruas,
as esquinas, e até os próprios arranha-céus,
se transformem num simples complemento
de sua exuberante e inédita paisagem.

Cidade que me acolheu no primeiro dia,
e onde eu tive o primeiro leito,
e ela teve um berço no meu coração.
Cidade de gosto diferente,
que possui um horizonte feito de vegetais
dos mais diversificados paladares.

Cidade inesquecível e dadivosa,
de gloriosa floresta,
que dá ao forasteiro,
uma série de emoções,
surpreendentes e inesperadas.

Cidade de frutas cujo universo de nomes
constitue-se numa orgia de línguas,
cheia de termos esquisitos e exóticos.

Cidade das raízes alimentícias
E do segredo das plantas miraculosas.

Belém da culinária diversificada,
que trás o ineditismo africano,
e o sabor indígena da selva
retratado no aspecto incomum da maniçoba
e no tacacá saboroso,
vendido nos encontros fugidios das
esquinas, ao entardecer.

Belém onde há sempre um jeito de escapar
e se esconder para saborear
uma farofa de tartaruga
ou um casquinho de muçuan.

Cidade-guerrilheira de Batista Campos,
o único sacerdote épico do mundo,
que teve na mudança do curso malvado da
história, a sua utopia.
Cidade-genitora, cidade Joana D'Arc,
Bendito celeiro de Angelim e Vinagre,
Eternamente manchada do sangue cabano,
Historicamente invencível
Capital da Cabanagem!

Cidade que guarda com carinho
a sua semente um dia lançada
por Francisco Caldeira Castelo Branco
em 12 de janeiro de 1616
e que vai ser quatrocentona em 2016.
Cidade feita de gente alegre, gente triste,
feliz e infeliz, dentro do seu mundo.

Cidade-paraíso, cidade-lágrima,
Cidade-sorriso, cidade-controvertida.

Nada há que nos distancie,
pois quando aqui me encontro,
é como se estivesse sendo recebido,
no meu céu, na minha casa, no meu lar.

De tuas entranhas saem coisas
poderosas e inesquecíveis,
com este poema que nasceu de ti
e é todo teu enquanto continuas sendo
eternamente minha!


Skyline de Belém antiga, em homenagem a esta Belém que teima em querer ser moderna. Onde tartarugas e muçuãs são proibidos, caranguejos idem, queijo-do-marajó também. Dificuldades do progresso, do modernismo?



Escrito por Fernando Jares às 20h35
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PARÁ-TURIM, EM 1911

INDÚSTRIA E TRABALHO PARAENSES EM EXPOSIÇÃO

Há um século, em 1911, o Pará fazia sucesso na Itália, exibindo sua produção para o mundo. Aliás, o Brasil, república ainda nova, tratava de mostrar-se à comunidade internacional. Isso aconteceu na Exposição Internacional de Turim, no original, “Esposizione Internazionale delle Industrie e del Lavoro in Torino, 1911.

Empresas, organizações e personalidades paraenses ganharam destaque e trouxeram de lá prêmios importantes, representados por medalhas e diplomas.

Já publiquei aqui um postal da Fábrica Palmeira, do início do século XX, que apresentava essa premiação, (re)veja:

 

Agora, destaque para as medalhas conquistadas pela Palmeira. Naquela época isso era importantíssimo para as organizações, comparável às certificações internacionais tão buscadas hoje, tipo ISO, OHSAS, etc. Era um atestado de reconhecimento, nacional ou internacional.

 

A exposição de Turim, em 1911, foi uma grande expo internacional realizada para comemorar os 50 anos da unificação italiana, ocorrida em 1851. Lá estavam países de todos os continentes, como Inglaterra, França, Estados Unidos, Áustria, Brasil, Argentina, Chile, Equador, Japão, Grécia, Suíça, Bélgica, Alemanha, Sérvia, entre outros.

Veja o cartaz da Exposição:


Os pavilhões espalhavam-se pelas duas margens do rio Pó, ocupando grandes espaços e dando origem a novos equipamentos urbanos, como o “Stadium di Torino” com capacidade para 40 mil pessoas sentadas e 30 mil em pé. O pavilhão do Brasil era no capricho, veja:

 

Realizada de abril a novembro, a Exposição de Turim tinha uma publicação tipo revista, “L’esposizione di Torino”, de circulação regular, que apresentava os países participantes. Em uma dessas edições, o Brasil, e os expositores brasileiros, foi o destaque. Esta era a capa da publicação:

 

Pois bem, esta edição com o Brasil como pauta, teve, naturalmente, circulação pelas ruas de Belém. E um dos exemplares apareceu recentemente, doado por uma senhora de tradicional família paraense ao Paulo Mendonça, que vem a ser o proprietário do restaurante “Largo da Palmeira”, que na semana passada foi apresentado aqui. Paulo entregou a revista ao cineasta Caio (Caíto) Lanhoso Martins, que cuidou de recuperar algumas páginas danificadas e fazer a sua digitalização. Repassou a este escrivinhador diversas dessas páginas, que vou apresentar em alguns posts, dando destaque aos produtos e às coisas do Pará lá expostas, para que comemoremos juntos o centenário dessa exposição, justo a partir desta semana de desaniversário de Belém – para usar a linguagem aliciana, que anda na moda... Para abrir a série, veja o mostruário da Fábrica de Cigarros Aurora, de Brandão & Cia.




Escrito por Fernando Jares às 19h08
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ATORES DO COTIDIANO

ATORES DO ATORRES, PELAS RUAS DE BELÉM

 

Com esta charge publicada hoje, no jornal “Diário do Pará”, o cartunista Atorres mostra que é um especialista na arte do bom humor... e da política. Só mesmo um político dos bons em mirabolantes negociações pra reunir essas figuras em um mesmo ambiente... Com a experiência que tem em acompanhar e registrar de um tudo que acontece pelas ruas de Belém, ele sabe que isso é facinho de acontecer na "vida real", portanto aí estão os seus personagens preferidos, irmanados, pelo bom humor, pela criatividade. E não se duvide se isso acontecer ainda hoje, logo mais, às 18h, no lançamento do livro do Atorres, “Antes charge do que nunca”, evento que integra as comemorações dos 395 anos da fundação de Belém. Por isso é realizado no palácio Antonio Lemos. Vamos lá.

Semana passada ele andou cá pelo blog e você pode ler “Atorres, antes charge do que nunca”, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 16h13
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QUAL É O GENTÍLICO MAIS CERTO?

BELENENSE, BELEMENSE OU BELEMITA?

Quem nasce em Belém é belenense, afirmam os dicionários e nossa tradição, de muitos anos. Assim o aprendi e, provavelmente, você, leitor, mesmo não nascido nestas terras – mas que o estudou na complicada aula dos gentílicos, quando temos de decorar tantos nomes. O de Belém é fácil, diante de quem nasce em Salvador, por exemplo: soteropolitano...

Diz o dicionário Houaiss que belenense é termo que existe desde 1616 (conforme o IBGE, registra), “relativo a Belém PA ou o que é seu natural ou habitante”. Diz também que designa o “torcedor do Futebol Clube Os Belenenses, de Lisboa”, cujo nome refere-se ao gentílico, mas de um bairro da capital de Portugal, onde está a conhecida Torre de Belém e a saborosa “Única Fábrica dos Pastéis de Belém”, como tem escrito na fachada... Este dicionário registra o termo belemense como "menos us. que belenense (nas acp. gentílicas)”.

Para o dicionário Aulete belenense refere-se a “Pessoa nascida ou que vive em Belém, capital do Estado do Pará.” Não registra a palavra belemense. Estranhamente admite que belenense é “o mesmo que belemita”, embora defina belemita como “Indivíduo nascido ou que vive na cidade de Belém (Cisjordânia).”

O VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (2009, com a nova ortografia), da Academia Brasileira de Letras, reconhece os três adjetivos.

Embora cá eu escreva sempre belenense, há quem pense ao contrário, como o escritor paraense Leandro Tocantins, autor de clássico livro-guia “Santa Maria de Belém do Grão Pará”, cuja primeira edição é de 1963, pela Editora Civilização Brasileira. Aliás, esta edição tem uma curiosidade, logo na capa: o nome do livro saiu impresso com um erro: “Santa Maria do Belém do Grão Pará”... embora logo na folha de rosto e nas seguintes, apareça com o nome certo, “de Belém”. Não tenho a segunda edição, onde, talvez, tenha sido publicada alguma errata. Pois bem, neste livro Leandro Tocantins, já falecido, usa belemense, como em “É preciso que os belemenses redescrubam a cidade e sejam guardiães fiéis de seus monumentos históricos e artísticos, e de suas boas tradições” (página 65).

Na terceira edição, de 1987, pela Editora Itatiaia, que teve apoio e o entusiasmo de Olavo Lyra Maia, à época presidente da Belemtur, lá está o mesmo texto, agora à página 111. Esta é quase uma reedição do livro, embora anunciada como “revista e ampliada”, mas teve mantido o seu texto original, em que pese muitas informações já estarem desatualizadas. Ganhou, sim, novas páginas na introdução e um álbum de belas fotos das atrações existentes pelas ruas de Belém e arredores. Criticado por grafar o nome da cidade com aquele “m”, Leandro Tocantins faz aqui a defesa do termo escolhido. Esse trecho é o que transcrevemos a seguir (página 50 e seguintes):

Sobre a palavra belemense, como escrevi, escrevo e escreverei, devo dizer que não me importo com certas regras dos gramáticos, encerrados em seus gabinetes, alheios ao ar puro da criação popular, insensíveis às sugestões da fala geral. Desde a 1ª edição de Santa Maria de Belém do Grão Pará, certo crítico me corrigiu com azedume. Explicando a lei gramatical, ele me ensinava que era belenense. Eu caíra em imperdoável erro e o crítico se arrepiava todo.

Só nesta 3ª edição vou explicar essas partes do livro "onde inexpresso jaz meu verbo", como diria um poeta, e o meu crítico quase disse assim. Pois, muito bem, minha palavra é ricamente expressa, permanece belemense e jamais belenense, da criação dos gramáticos. Se desde que me entendo criatura humana ouço e leio belemense, por que alterar o que o povo consagrou em mais de século? Lembro-me de T. S. Eliot "Deixareis meu povo a esquecer e esquecido?" Jamais sacrificaria o bom-gosto popular ao pedantismo de determinadas regras gramaticais. Afinal, as palavras são rebeldes, já notou o ensaísta, crítico e poeta mexicano Octavio Paz.

Há uma tradição longa, como bem de raiz, entre os paraenses, de usar "belemense". Desde criança, insisto, meus ouvidos captam esta pronúncia. Como exemplo, entre tantos, e posso até dizer, todos, três dos maiores historiadores paraenses – e, em especial, historiadores de Belém –, Ernesto Cruz, Augusto Meira Filho, Eidorfe Moreira, escrevem "belemense".

Ernesto Cruz recorda em seu livro Belém aspectos geo-sociais do Município a encenação pastoril, na época natalina, das "famosas Belemitas, conjunto infantil, onde as crianças-artistas, bem ensaiadas, exibiam-se com desembaraço, alcançando grande prestígio nos teatros da cidade" Criação do poeta e teatrólogo Elmano Queiroz, que teve muitos imitadores, conclui Ernesto Cruz.

Não alcancei, menino de Belém as tão queridas Belemitas. Mas ouvi tantas lembranças e elogios de meus Pais, de minha avó e de minhas tias, que me tornei rendido a encantos apenas pressentidos nesses autos natalinos. O prestígio é tanto que até hoje ainda se diz sou belemita — uma forma carinhosa de se declarar nascido em Belém do Pará.

Ora, imagine-se termos de corrigir o excelente Elmano de Queiroz, para atender aos gramáticos daqui por diante será Belenita!

Leandro Tocantins faz, em seguida, a defesa dos termos franceses que avultam no seu texto, justificando-os pela feição afrancesada da “pequena Paris tropical” e afirmando que “esses valores são permanentes na memória cultural da cidade”.

Invoca testemunhos de “bons ventos de aceitação” à sua obra, citando grandes nomes da intelectualidade brasileira, destacando dois paraenses:

Dalcídio Jurandir, o admirável romancista paraense, no seu jeito seco de dizer, uma vez se externou para mim: Canção do Paraíso! Eneida, que a princípio ficou magoada porque ela própria queria escrever um guia de Belém (e como teria escrito um excelente guia!), acabou me anistiando: assinou linda crônica no Diário de Notícias.

Se tão eméritas figuras da inteligência receberam este livro como anjo bom, dou-me por instruído de que a Cidade, mais que o autor, é a responsável pela tal "Canção do Paraíso". Sem um grande assunto, embaraça-se o espírito do escritor, e se torna um recinto gelado. Afinal, como lembra Marcel Proust, "tudo está no espírito".

Ficam as opções em aberto. Esperemos os especialistas.



Escrito por Fernando Jares às 21h44
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DE BISCOUTOS AO BACALHAU

DELÍCIAS À SOMBRA DA HISTÓRIA

No dia do aniversário de Belém elegi um local nostálgico para almoçar, ali na Manoel Barata: o restaurante “Largo da Palmeira”. Não, ele não é antigo, é de 1996. Mas incorpora uma série de elementos resgatados da antiga Fábrica Palmeira, que era bem em frente. Já escrevi sobre certas trocas que Belém faz, uma delas esse belíssimo prédio, pelo que lá está hoje. Leia “Palmeira, de fábrica a camelódromo”, clicando aqui.

Nas paredes do restaurante estão cartazes e quadros que evocam os produtos, os anúncios, a fábrica em si. Veja esta sofisticada (para a época, primeira metade do século XX) caixa de biscoutos:

 

Espalhados pelos salões estão alguns móveis originais, um deles até com as iniciais “FP” gravadas na parte superior, como você vê aqui ao lado. O proprietário, Paulo Mendonça, é um cuidadoso colecionador de preciosidades da Belém de outras épocas e parte disso está nesta casa. A Palmeira teve um passado brilhante, de empresários bem sucedidos e de bom gosto, que as gerações mais recentes não conseguiram preservar. Conheça um pouco mais dos dois prédios da Palmeira – o primeiro foi destruído por um incêndio, o segundo pelas picaretas em nome do progresso. Leia “Um prédio com duas belas versões”, clicando aqui.

Mas a gente vai ao restaurante é pra comer, não é mesmo? Rita e eu fomos até o “Largo da Palmeira”, em parte atraídos por essas belezuras históricas, em parte pelas gostosuras servidas, que todos elogiam.

O restaurante funciona apenas para o almoço e o movimento maior – com muita gente, inclusive conhecidos que trabalham na área central da cidade, advogados, publicitários, comerciantes – é no bufê por quilo (R$ 38,00), variado e saboroso. O Pirarucu de Casaca, por exemplo, é uma delícia:

 

A Rita foi ao bufê e logo trouxe algumas guloseimas, à guisa de antepasto, como feijão manteiguinha de Santarém, finas fatias de picanha grelhada, um creme de camarão, ovinhos de codorna (sou quase um ovívoro), que acompanhamos com bem geladas Cerpinhas. É que eu fui a um dos pratos servidos à la carte, que são poucos, pelas características da casa, o famoso bacalhau grelhado (R$ 24,00). O fiz em homenagem aos fundadores da cidade que, muito provavelmente, comeram um bacalhauzinho ao tomarem conta deste pedaço da terra do pirarucu, que eles ainda não deviam conhecer...

Este bacalhau do “Largo da Palmeira” é um prato simples e saboroso, pois o bacalhau, quanto mais simplesmente tratado, mais saboroso fica. Aprendi isso com a minha lusitana avó. E este estava assim, conforme essa regra. O grelhado é feito com muita competência, sendo bem tostado na parte externa, preservando a naturalidade do sabor do peixe no interior. A posta é coberta com alho frito no ponto que me agrada, em que ganha crocância, perdendo o sabor picante e o seu forte odor, o que, traduzindo, quer dizer que dá para beijar depois... Para acompanhar, pegamos no bufê batatas, cebolas e brócolis, tudo cozidinho no ponto. Olhe o bâcalháu, em sua performance:


Muita gente, pelas ruas de Belém, ainda lembra bem da Fábrica Palmeira, fechada nos anos 1970 e demolida para dar lugar a um shopping Center, o que não veio a acontecer. Ainda não consegui uma foto desses tempos mais recentes. A que está aqui abaixo, mostrando um ângulo do salão, eu captei do “Álbum do Pará” de 1939, com relato da administração do interventor federal José Carneiro da Gama Malcher, que vem a ser a inspiração para o nome da avenida Governador José Malcher e avô de d. Anna Maria Malcher Martins, mãe do chef Paulo Martins, criadores do restaurante “Lá em Casa”. Do álbum constam anúncios e artigos sobre empresas.

 

Quem sabe, algum dos móveis espalhados pelo salão do “Largo da Palmeira” ainda possam ser identificados em alguma das fotos antigas... Pena que o tempo e a qualidade gráfica não ajudem. Veja este outro móvel que fotografei no restaurante:


Entre os amigos que por lá encontramos estava o José Maria Toscano, gente boa, advogado e grande conhecedor de nossas melhores “casas de pasto”. Disse-me que almoça lá quase todos os dias. Na saída, registrei-o ladeado pelo proprietário do restaurante, Paulo Mendonça e pela filha deste. Destaque para a marca da Fábrica Palmeira, em um quadro ao fundo:

 



Escrito por Fernando Jares às 20h53
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BLOG NO RÁDIO

PELAS RUAS DE BELÉM NO AR


http://pelasruasdebelem.zip.net

Um pouco da história deste blog, de sua proposição, de seu cotidiano, do pensamento do autor, foi ouvido, ontem, 12/01, pelas ruas de Belém.

Dentro da programação que comemorava os 395 anos da fundação de Belém a rádio Liberal/CBN realizou uma entrevista com o redator deste espaço. O apresentador Cleiton César conversou comigo sobre a cidade e sobre a proposta deste blog. A produção da entrevista foi da jornalista Jeniffer Galvão, parceira de jornadas, em tempos recentes, lá em Barcarena, no Jornal Vila dos Cabanos, no O Cabano, (que vez por outra transcreve, em sua versão on-line, e com autorização e citação da fonte, posts nossos) e na Albras.

Você pode ouvir a entrevista (9 minutos), clicando aqui.

Acompanhado pela gerente de jornalismo, Vilma Reis, aproveitei para conhecer as instalações das diversas emissoras do Sistema Liberal de Rádio, no prédio da Brás de Aguiar, onde outrora foi a Mercúrio Publicidade.



Escrito por Fernando Jares às 21h49
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ATORES DO HUMOR

ATORRES, ANTES CHARGE DO QUE NUNCA

Quem anda por estas linhas virtuais, sabe que sou chegado às artes de cartunistas, chargistas, caricaturistas. Tenho, aqui na parede, 17 caretas minhas, pelo traço de um punhado de amigos...). É que temos no Pará alguns dos mais premiados (no país e no exterior) artistas do humor gráfico, gente competente, criativa.

Pois bem, um desses amigos, o Atorres, que conheço desde os tempos d’A Província do Pará – não estou entregando nada, ele confessa que tem 22 anos de jornalismo mas, diga-se, era bem garoto naquele tempo – lança nesta terça-feira (18/01) o livro “Antes charge do que nunca”, dentro das comemorações dos 395 anos da fundação de Belém. Olha:


O próprio Arnaldo apresenta o livro:

Gente, finalmente tomei vergonha na cara e vou lançar na próxima terça-feira, no Palácio Antônio Lemos, o meu primeiro livro solo com uma seleção de charges publicadas no Diário do Pará. São mais de 100 charges publicadas na capa do jornal e na coluna dominical do jornalista Mauro Bonna entre 1996 e dezembro de 2010 que abrangem de tudo. Desde Remo e Paysandu até o Papa, passando pelo governo Lula, Ana Júlia, Duciomar Costa, Edmilson, os problemas da economia, violência, a corrupção, a guerra no Rio, eleições, dengue, gripe suína e tudo que nos provoca no dia a dia.

O lançamento faz parte das comemorações dos 395 anos da cidade, uma vez que acontece pelas ruas de Belém a maioria das situações registradas. Anote: terça-feira, 18/01, às 18h, no palácio Antonio Lemos. Vamos lá.

 

Conheça mais sobre o trabalho do Atorres. Clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 21h06
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BELÉM, 300 ANOS

VIVA A OPULENTÍSSIMA BELÉM!


Belém do início do século XX. Veja a quantidade de barcos e navios. Uma cidade opulenta. Opulentíssima. Postal do magnífico álbum “Belém da saudade”, edição da Secult, 1996.

Às vésperas de completar 400 anos, debatendo-se em problemas urbanos e sociais graves, com agravantes políticos, Belém é bela. Belém é amável. Os que aqui nasceram, os que aqui vivem – excetuando-se os zangados por natureza – amam a cidade. Aprenderam a amá-la (mesmo com suas mazelas) como se ama uma pessoa (mesmo com suas mazelas).

Belém tem um passado magnífico. Um futuro desafiador, com tendência a ser também magnífico. O presente, temos que resolvê-lo agora. No máximo, em dois anos.

Hoje Belém faz 395 anos. Em dia de festa, festa nas letras.

Transcrevo a seguir um texto do historiador maranhense José Ribeiro do Amaral, escrito em 1915. Foi o fechamento do estudo “Fundação de Belém do Pará – Jornada de Francisco Caldeira Castelo Branco em 1616” com que Amaral teria ganhado um concurso, nas comemorações dos 300 anos da cidade. Mas, não se sabe o motivo, a memória não foi publicada, o que somente aconteceu em 2004, em edição do Senado Federal, pela mão de José Sarney.

Esse livro foi resenhado pela jornalista Carmen Palheta para o encarte regional da Veja desta semana, que comemora os 395 anos de Belém.

Mas o texto a seguir não está lá. É um adendo, que fui buscar diretamente no livro, resultado de provável andança do autor pelas ruas de Belém, de onde saiu apaixonado, por uma cidade “elegante e opulentíssima”:


Estrada de Nazareth, magnífica avenida arborizada e iluminada à luz elétrica. Postal do álbum “Belém da Saudade”, da Secult, 1996.

Estamos em 1915.

São decorridos, portanto, trezentos anos da partida da expedição. O pequeno estabelecimento português de 1616 transformou-se, com o correr dos tempos, na elegante e opulentíssima Belém dos nossos dias, com seus 150 a 200 mil habitantes, com as suas formosas praças ajardinadas e magníficas avenidas arborizadas, iluminadas todas à luz elétrica. Na Belém, que é hoje um dos pontos mais comerciais do Brasil e, sem contestação, a cidade de maior desenvolvimento do norte do país.

Como está tudo mudado ali!

A tosca e humilde igrejinha de 1616 erigida, Deus sabe com que sacrifícios, pela piedade daqueles ousados expedicionários e onde, pela primeira vez, balbuciaram eles, naquelas terras, fervorosas preces ao Altíssimo pelo bom êxito da sua expedição, essa não existe mais, de há muito varreu-a a mão destruidora do tempo que nada respeita. Mas, em seu lugar, nesse mesmo sítio, campeia essa soberba Catedral, que todos admiramos, remodelada nos nossos dias e em cujo interior se ostentam os traços opulentos da Renascença, belas pinturas a fresco guarnecendo todas as paredes e o teto, nave e altar-mor de puríssimo mármore de pedreiras da Itália, oferta do grande Pontífice Pio IX, essa Catedral, onde, pela primeira vez, pontificou, em 1724, D. Fr Bartolomeu do Pilar, seu primeiro bispo. Essa Catedral, de cujo púlpito, em 1782, desassombradamente combatia D. Francisco Caetano Brandão "a ignorância e a ociosidade, origens venenosas dos maiores males em toda a parte, aqui favorecidos talvez da ardência do clima". Essa Catedral, enfim, donde, em assombros [sic] de eloquência, se fez ouvir o verbo inspirado desse egrégio prelado brasileiro, que foi D. Antonio de Macedo Costa, e de quem, ao sair de uma das suas conferências na Sé, disse alguém: "Acabo de ouvir São Paulo falar no Areópago!"

Fronteiro à Catedral, lá está o Paço Episcopal, outrora Colégio de Santo Alexandre dos Padres da Companhia, teatro dos trabalhos apostólicos, entre tantíssimos outros, dos insignes jesuítas, padres João Filipe Betendorf e José de Morais, historiadores que foram de sua Ordem no Norte do Brasil; e dos triunfos oratórios do sobre todo famoso padre Antonio Vieira.

Não longe daí, vê-se o Palácio do Governo, antiga residência dos governadores e capitães-generais, começado a edificar em 1676, no governo de Pedro César de Meneses, concluído no de Inácio Coelho, seu sucessor, e renovado ou restaurado no governo interino do bispo D. Frº Miguel de Bulhões e dos que se lhe seguiram.

Aí habitaram, outrora, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão de Sebastião José de Carvalho e Melo, o famigerado marquês de Pombal; Manuel Bernardo de Melo e Castro, que foi o executor das odiosas medidas contra a Companhia de Jesus, confiscando-lhe os bens e fazendo remeter presos para Lisboa os jesuítas proscritos; D. Francisco de Sousa Coutinho, D. Marcos de Noronha e Brito que, sob o título de conde dos Arcos, tão vasta celebridade granjeou em todo o Brasil e fez, por Belém, o que, mais tarde, pela Bahia, viera a fazer, e tantos outros que fastidioso seria enumerar aqui.

De todo esse passado longínquo, como que a desafiar a ação destruidora do tempo, nesses três séculos que se completam agora, lá está, impávido, o Forte do Castelo, como para nos atestar a todos a grandiosa obra de 1616, que nos deu a Amazônia de hoje.

São Luis do Maranhão — 8 de dezembro de 1915

 

Esta tela, que está no Museu de Arte de Belém, mostra a concepção do grande pintor paraense Theodoro Braga para a fundação da cidade. Foi pintada em 1908, por encomenda do município, às vésperas dos 300 anos da cidade, portanto, contemporânea da crônica acima. Faz a ilustração do encarte regional da Veja desta semana.



Escrito por Fernando Jares às 08h55
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UM UIRAPURU QUE DÁ PRÊMIOS

FIGURINHAS PARA ARRECADAR MAIS

Um sistema de premiação aos consumidores que exigem nota fiscal nas compras faz sucesso em São Paulo e poderá ser adotado no Pará. Não se trata apenas de sorteios, mas da devolução de parte do valor do ICMS recolhido pelo estabelecimento, ao comprador. O CPF dele é registrado na nota fiscal e depois é só solicitar os créditos. Além disso, há sorteio de prêmios em dinheiro.

Segundo o “Blog do Jeso”, do jornalista Jeso Carneiro, de Santarém, “O programa Nota Fiscal Paulista, implantado pelo governo tucano em São Paulo, passou a ser o objeto de desejo do vice-governador do Pará, Helenilson Pontes. HP acha que, efetivado o programa em solo paraense, a arrecadação de ICMS deve dar um salto histórico.”

Programas de incentivo a exigir nota fiscal são uma tradição. É que muita gente não pede a NF quando faz compras. Os mais antigos devem lembrar-se de campanhas do tipo “Seu talão vale um milhão” e outras mais. Uma que mexeu com a cidade foi a “Uirapuru dá prêmios”, de 1982/83, tempos do governo de Alacid Nunes.

A campanha consistia em preencher um álbum que, uma vez completo e carimbado, habilitava seu dono a concorrer a prêmios de até 1 milhão de cruzeiros (o salário mínimo, na época, era em torno de 20 mil). Além de figurinhas marcadas, que davam prêmios como “radiolas” e bicicletas até camisetas de clubes esportivos de Belém: Paysandu, Remo, Tuna, Izabelense, Sport Belém, Pinheirense e Tiradentes. O álbum e as figurinhas eram trocados pelas notas fiscais recebidas nas lojas. Veja a capa:

 

Belém, suas atrações, as riquezas do Estado, a história, a cultura, o folclore, tudo desfilava pelas figurinhas. Uma historinha era “vivida” por dois personagens infantis, conduzidos por um pássaro, o uirapuru, que ia apresentando tudo às crianças, e viajavam sobre uma estrela, a Espiga, aquela que representa o Pará na bandeira nacional. A primeira página, que você vê abaixo, mostrava um skyline de Belém muito diferente do atual...

 

O “batismo” do Forte do Presépio, pelo fundador de Belém, Francisco Caldeira Castelo Branco, também está na história e entra aqui como homenagem aos 395 anos que Belém comemora amanhã, 12 de janeiro:

 

Atrações de nosso Estado, como o carimbo, siriá, festejos juninos, a marujada, são apresentados ao longo do álbum, que também destaca o Círio de Nazaré, acompanhado, pelas ruas de Belém, por “cerca de 400 mil pessoas”, explicava o falante uirapuru da história. O futebol era representado pelos “três grandes” da época: Paysandu, Remo e Tuna:

 

Ao apresentar o Mangueirão, informa que ele se chama Estádio Alacid Nunes, aproveitando a deixa para falar sobre o governador que, provavelmente não por acaso, é a única imagem do álbum a utilizar seis figurinhas.

A criação e produção do álbum foram da Divisão de Publicações Infanto-Juvenis da Editora Abril, que fez também a impressão. Foram centenas de milhares de unidades. Basta considerar que, apenas as figurinhas “carimbadas”, eram 32.000!




Escrito por Fernando Jares às 18h05
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GASTRONOMIA COMO ATRAÇÃO

PATO NO TUCUPI E PROFISSIONALIZAÇÃO

O jornalista Nélio Palheta fez um comentário ao nosso postDelicadeza gera delicadeza”, de sexta última (07/01), que não coube no espaço disponível. Por isso está aqui. Uma análise escrita por um observador atento, atuante:

Genial! Belém e sua gastronomia já foram temas de outras crônicas como essa. Só para lembrar dois: Zuenir Ventura e Veríssimo. São textos que, ao levantarem a autoestima paraense, provocam o paladar.

Fiquei com vontade de comer pato no tucupi, hoje.

E o tema provoca, não só a boca. Ainda neste domingo (9.1.2011) almoçava na Amazon Beer com o dono da casa, Arlindo Guimarães, e o arquiteto Jaime Bibas (15 quilos mais magro e falando mais baixo ainda). E comentávamos sobre as coisas que o novo governo não pode deixar de fazer, se quiser transformar o turismo, definitivamente, por exemplo, em uma atividade produtiva. No contexto desse segmento, não poderá desconsiderar a gastronomia como um dos fortes apelos turísticos. Ou o governo estimula a profissionalização da gastronomia (sem desvinculá-la da hotelaria como fator sinergético do negócio) ou o setor continuará batendo no teto do mercado porque sem turista não haverá sobrevida, longevidade para os tantos restaurantes e bares e botecos que se abrem na cidade. Há restaurante que só sobrevive porque tem um bom bufê no almoço, à noite vive às moscas. E nos bares, a freguesia é a mesma, que fica rodando.

E não se trata de ensinar a cozinhar simplesmente. O mercado precisa rever e qualificar todo o conjunto de tarefas que uma casa precisa para operar com qualidade e eficiência. A começar pelo empreendedor. É estimulante que um cidadão que gosta de cozinhar, criar, reunir os amigos em torno da mesa que prepara, ponha à venda seu hobby, mas daí transformar sua experiência diletante e caseira em um bom negócio, servindo a clientela profissionalmente, vai uma diferença que pode ser medida pelo tempo de duração do empreendimento. Falta profissionalização, e isso explica, em grande parte, a mortalidade de casas que abrem com glamour na decoração, mas nem tanto empenho no atendimento e na qualidade do cardápio.

É comum sair de restaurante em Belém insatisfeito com o atendimento. Fui quinta-feira comemorar o aniversário da minha neta numa pizzaria de marca internacional localizada na Av. Nazaré com Travessa Rui Barbosa. Foi uma experiência dramática. Para começar, foi preciso pedir uma porção de folhas de manjericão porque a Pizza Marguerita tinha, contadas, meia dúzia de folhas da erva; quando vieram as bebidas já estávamos bem avançados na pizza e o pior aconteceu: a garçonete derrubou as bebidas e deu um banho de suco de laranja na minha filha, a pizza ficou boiando, ela correu para o banheiro. Resistimos, nada parecia nos tirar a felicidade pelos 10 anos da Luna. A garçonete não pediu desculpas, mas comemos a pizza e pedimos outra; a casa estava praticamente vazia, demorou; a mesa estava repleta de louça suja e assim continuou quando a segunda pizza chegou; foi preciso pedir para trocarem a louça, renovaram os pratos, mas os copos não e assim preferimos acabar o mais rapidamente. E sumir. A conta também demorou, e quando veio adicionava 10%. Recusamos pagar. –Volte sempre! E não um educado – Desculpe pelo transtorno!, respondido com um – Nunca Mais! E saímos horrorizados. E pensar que a pizzaria fica num hotel de baixo custo, pressupondo que a freguesia maior é de turista que não sai para gastar em restaurantes convencionais.

Por essas e outras, os vivas à gastronomia paraense não podem considerar apenas as virtudes dos sabores dos seus ingredientes únicos, seus peixes maravilhosos e seu pato no tucupi exclusivíssimo. É preciso gestão, empreendedor qualificado e não aventureiro que constrói e um prédio moderno e o decora com sofisticação, ignorando o atendimento aos clientes.

Nélio Palheta

A dupla Zuenir Ventura/Luis Fernando Veríssimo, citada acima, andou feliz pelas ruas de Belém e por isso foi assunto em “Belém, uma cidade que só vendo”, que você pode ler, clicando aqui.

Sobre os conceitos do Nélio – parceiro de muitas jornadas – concordo plenamente. Ainda no sábado passei por algo semelhante em um bar/restaurante com pretensões carioquistas. Falta de ingredientes para os pratos no cardápio, idem das cervejas anunciadas, demora exagerada, inclusive com as entradas, até os talheres colocados invertidos na mesa... embora a comida, no final das contas, estivesse boa. Mas sobre isso, eu escrevo qualquer sexta-feira.

Aliás, o publicitário Thiago B. L. Mendes contou hoje, no Twitter, os problemas de uma desastrada ida, ontem à noite, ao McDonald’s de Nazaré, onde foi pessimamente atendido... e ainda faltava refrigerante!



Escrito por Fernando Jares às 19h36
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FALECEU O FILHO DE DALCÍDIO

HOJE CHOVE NOS CAMPOS DE CACHOEIRA

José Roberto Pereira, filho do escritor paraense Dalcídio Jurandir, faleceu na madrugada de hoje (08/01) em Niterói, onde morava com a família. Dessas coincidências que ampliam a dor da perda, no mesmo dia do aniversário de sua mãe, dona Guimarina, e de sua irmã, Margarida (Margô) Benicasa, alerta-nos a professora Célia Jacob. Os dois irmãos estiveram cá, pelas ruas de Belém, para as comemorações do centenário de nascimento de Dalcídio. A data mereceu registro neste blog e você pode ler clicando aqui e aqui, entre outros inúmeros registros sobre a obra do escritor.

“Zé Roberto, Margô e Carmem (a viúva de Zé), incansáveis batalhadores na divulgação da obra de nosso maior escritor marajoara. Zé se foi. Uma grande perda para nós”, complementou a professora Célia.

Paulo Nunes, professor e escritor, estudioso da obra de Dalcídio, poeta de pena (ou teclado) ágil, já hoje mesmo, dia lusco-fusco, de chuviscos com cara de garoa sulista, vento friozinho pela manhã, produziu um poema dedicado ao seu amigo e companheiro na difusão da obra do grande caboclo marajoara. Leia-o em primeira mão:

Há irmãos que se não escolhe a linha do tempo
Escolhas feitas de inverdades.
Veredas, igarapés de saudades, no sumidouro
do giz e do quadro verde, genomas e DNAs:
Oh master magister!
Índio tchucarramãe poderia ter sido.
Equilibrista na linha do Equador,
Adestrador-açu nas tramas do tucumãzeiro,
pois não?
Nos silos do véu de Baco,
bastava lhe chamarem China,
isso já nos valia um riso aberto e uma vã piada.
Das folhas da pereira recobriu seu som,
- Carmen, na metade da laranja -
O que te fez, Zé, essa artimanha de agora sumir-se
na cartola do mago
(Que-que isso companheiro?, perguntarão em Niterói).
Zé Roberto se foi?
Mas quando... ele fará o sempre
nas chuvas dos campos de Cachoeira.
 
                        Paulo Nunes, Belém, 08/01/2011

Além dos posts lincados acima, você pode saber mais sobre Dalcídio Jurandir nas palavras do próprio Paulo Nunes, um especialista em literatura, no documentário “Regatão Cultural”, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 15h52
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DELICADEZA GERA DELICADEZA

FRASE GASTRONÔMICA DA SEMANA

“A sensação boa de se sentir acolhido com comida é indelével.”

Janaina Fidalgo, jornalista, no blog do suplemento “Paladar” do jornal O Estado de São Paulo.

Sentir-se acolhido, em qualquer situação, já é muito bom. Sentir-se acolhido em terras estranhas, mais ainda. Por alguém que desconhecemos, muito mais. Com uma boa comida rolando pelo meio, é mesmo indelével!

Fiquei matutando nessa palavra. Diz o dicionário Aulete que indelével é algo “que não se pode apagar, eliminar”. E mais, que é aquilo “que não se pode dar fim, destruir, suprimir ou fazer desaparecer (paixão indelével); indestrutível; inextinguível.”

Ser acolhido com uma boa comida é algo que nos crava um sentimento indelével no coração, como sempre desejamos que sejam as melhores paixões: indestrutíveis, inextinguíveis.

A jornalista Janaina Fidalgo usou essa expressão ao fechar uma sentimental crônica de ano novo, em que fala (bem) da gente paraense, de um pato no tucupi e... de uns certos ovos de pata, não necessariamente a consorte do dito pato, consagrado pelo nosso tucupi.

A história aconteceu em São Paulo, mês passado. Ela estava em um restaurante com amigos, gente que gosta de comer bem, e lá vieram os melhores depoimentos de cada participante. Diz Janaina: “Não havia como não passar por Belém e suas delícias: açaí (o verdadeiro, não o de paulista) com peixe frito, maniçoba, tucupi, tacacá, sorvetes da Cairú, aviú, tambaqui, piracuí, farinha d’água, pato no tucupi e tantas outras palavras cheias de is e us”.

Ela conta que, ao final da refeição, foi perguntada por uma pessoa da mesa ao lado, sobre como sabia tantas coisas da gastronomia paraense. Janaína explicou do Círio em que esteve aqui e como havia sido “iniciada” em nossas delícias. Aí, os vizinhos de mesa, todos paraenses, entenderam tudo...

Mas aqui eu passo as palavras diretamente para a autora:

“Ao me despedir, a moça que puxou a conversa de início pediu meu telefone: ‘Quero te mandar um pato no tucupi, posso?’ Fiquei surpresa. Conhecia e admirava a delicadeza paraense, mas não esperava tal oferecimento. ‘Pode, é claro!’, disse, algo incrédula. (Será que ela entrará em contato para cumprir a promessa?, pensei, confesso, ao sair do restaurante).
Paulistana equivocada. Isso é o que eu fui. Sheila – é este o nome dela – não só me ligou na manhã seguinte, como, extremamente gentil, falou da alegria de encontrar por aqui gente que gostava e conhecia comidas caras a ela. Pediu meu endereço e entregou na minha casa uma travessa de pato no tucupi devidamente acompanhada por farinha d’água e pimenta no tucupi.
Fiquei tocada com o gesto, com a delicadeza, o cuidado, a simpatia de uma ‘estranha’. Mal sabia Sheila o valor que a comida ocupa na minha vida, o quanto isto tem o poder de acionar o botão da emoção. O pato estava uma delícia e alegrou várias refeições – tanto que nem lembrei de tirar uma foto. Mas o maior prazer foi a delicadeza do oferecimento.”

“É uma das características dos paraenses”, disse aqui a meu lado a Rita, após ouvir-me ler, quase emocionado, a literalmente deliciosa crônica da coleguinha paulistana.

Em seguida ela conta sobre um outro mimo que recebeu, uns ovos de pata – quanta coincidência em favor da literatura gastronômica, Senhor! – que lhe ofertou a também jornalista Neide Rigo que, da mesma forma, bem conhece e aprecia as gostosuras paraenses. E conclui:

“Foi há mais de mês, mas a sensação boa de se sentir acolhido com comida é indelével. E calhou de o post nascer hoje, no quinto dia do mês. Apesar de não dar bola para a mística da “mudança” de ano, encanta pensar que uma vida boa e feliz se constrói a cada dia. A cada gesto. E com delicadezas como essas.”

Foi bem a moça, pois não? Aliás, Janaina e Sheila foram muito bem. Sugiro que você leia a crônica completa, no blog do “Paladar”, que você pode acessar, clicando aqui.

Faltou a foto do pato no tucupi, o que é plenamente compreensível. Já fiz isso diversas vezes, quando a concupiscência gastronômica, aquela de “estalar a língua”, como diria o Eça de Queiroz, nos faz esquecer o profissional e se agigantar o glutão... com todo o respeito. Mas cá, pelas ruas de Belém, não faltam fotos do pato no tucupi e, a mais recente, publiquei-a em outrubro passado, ao (re)escrever sobre a gastronomia paraense, um post que pode ser lido, clicando aqui. A foto é do premiado Luiz Braga, reproduzida de um antigo folheto da Paratur:

 

Ah, e a história da “iniciação” gastronômica da Janaina Fidalgo é também bastante legal e vale muito ler um depoimento assinado por ela, sobre a experiência cirial que viveu. Para ler “Nada se compara à ‘experiência' do Círio”, no blog "Espaço Aberto" basta clicar aqui.

E aproveitemos o fim de semana para um bom pato no tucupi – sem querer fazer inveja...



Escrito por Fernando Jares às 20h13
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ANIVERSÁRIO DE UM SINGULAR PLURAL

ou A GUERRA (QUE NÃO HOUVE) COM A INGLATERRA

Este post o devemos ao jornalista Tito Barata que anunciou hoje no microblog Twitter:

“Se vivo fosse, nosso grande cronista Euclides Chembra Bandeira completaria hoje 65 anos. Aqui uma das suas crônicas” E presenteava seus seguidores com o link para crônicas que você pode acessar no “Textos no Tucupi”, clicando aqui.

O Chembra foi figura única no jornalismo paraense. Militamos ambos em “A Província do Pará” e na Faculdade de Direito da UFPA (ele era, salvo engano, um ano à minha frente).

Foi-se em 2000, muito cedo para o que desejariam seus amigos. Mas ficou na memória de muitos e deixou um rastro positivo de obras e relacionamentos. Por isso tende fortemente a ser eterno.

Ainda em setembro do ano passado, ele foi homenageado de forma muito carinhosa pelo “3º Salão Internacional de Humor da Amazônia” que a ele dedicou um salão com a exposição de 10 caricaturas assinadas por nossos melhores mestres. Veja a seguir algumas dessas belas homenagens, que ele deve ter curtido bastante, lá de sua mesa privilegiada.

Olha o Chembra com alguns de seus “instrumentos” preferidos, no traço do Biratan:

 

A exposição tinha uma apresentação primorosa de outro mestre no trato com as palavras, o jornalista e escritor comendador Raymundo Mário Sobral, que resgato para vocês. Um primor:

Memória de um anti-herói
Singular, sempre foi extremamente plural. Jornalista, cronista, contista, humorista, homem de sete instrumentos. Mas tocava somente tamborim. O que não o impedia de vez ou outra colocar a boca no trombone. Embora levando a vida na valsa no insopitável feitio de anti-herói, deu samba. No Jurunas, que o cobriu das alegrias e alegorias de campeoníssimo.
Às horas vagas costuma a relaxar em papos molhados, consumindo apenas água. Daquela bem branquinha. De gole em gole, copo vai, copo vem, encasquetou escrever sobre a Copa. Golaço de letra. Conquistou o caneco da consagração nacional. Na enganosa aparência, formal, trazia sempre escondido um eterno moleque, pândego e brincalhão que podia perder até as camaradagens nas não desperdiçava uma visceral caçoada.
Para uns era Euclides, para outros Bandeira e para uma enumerável legião de amigos Chembra. Para sua mãe, dona Riso, simplesmente Clidinho. Subiu aos 57 anos mas está aqui e agora. Ressurgente e mais vivo do que nunca.

Agora eis o aniversariante de hoje em ambiente que tanto freqüentou, o Bar do Parque, na visão do João Bento:

 

Sobre o Chembra, após seu falecimento, o jornalista Palmério Dória escreveu “Maior Bandeira”, no jornal Diário do Pará (02/04/2000), de onde pincei este trecho inicial:

Euclides Bandeira vale pelas bandeiras todas do prédio da ONU. A comparação é procedente. O Bandeira – nunca o chamei de Chembra – tem – para mim ele está aqui e agora – sabor universal.
Dono de uma personalidade granítica e doce ao mesmo tempo, é um sucesso aqui, ali e acolá. Tem aqui que uns e outros chamam de
savoir-faire, foie de vivre, alegria de viver. Todas essas coisas que o dinheiro não costuma a comprar.

Da Paraíba, o caricaturista William havia de ver (ou melhor, deve ter visto) o Chembra à margem do oceano, assim:


Das muitas coisas do Chembra que eu li, de uma lembrei-me recentemente, quando das andanças do Príncipe Charles, ano passado, lá pelo oeste paraense. Foi em uma visita anterior, em 1991, quando Sua Alteza passou, de passagem, pelas ruas de Belém. Isso teria desgostado a elite da capital, sem uma recepção glamorosa, uma festa real para ir, etc. Lembrei-me, mas não consegui resgatá-la. Fiquei com o assunto passeando pela cabeça. Com a notícia do aniversário do Chembra, voltei às buscas, com uma pista que me foi dada pelo jornalista Miguel Oliveira, de O Estado do Tapajós (Santarém), de que ele já havia postado esse texto. E consegui! Está no sempre excelente – e sempre o será – blog “5ª Emenda”, do Juvêncio Arruda. Os dois, Chembra e Juca, devem estar lá em cima a rir da história e do trabalho que me deram... Mas valeu.

A crônica tem sua introdução ao estilo chembriano, para levar-nos ao episódio. Ocupo-me a seguir apenas dele, mas o todo pode ser encontrado no “5ª Emenda”, numa postagem/comentário do Miguel, que pode ser lida clicando aqui.

Aí veio o príncipe Charles, inglês, com um número bem maior de guardas, inclusive brasileiros, e um navio enorme que eles chamam de iate. Ao informar à rainha Elizabeth que pretendia descer em Belém e realizar um seminário no Teatro da Paz, uma visita ao Ver-o-Peso e participar de uma roda de samba no Quem São Eles, sua majestade cortou o mal pela raiz, exclamando: “Nem morta!” Charles, filho obediente, desceu em Belém, correu para o “Britânia” e se mandou aí pelos rios. Durante quase dois dias, a bordo discutiu ecologia e meio ambiente com um grupo de velhotes e deixou, em Belém, uma onda de protestos, lamentações e ranger de dentes.
Se por um lado a ausência do príncipe na cidade preservou a própria existência da família real, por outro lado quase provocou uma guerra com a Inglaterra, quando a Ilha das Onças faria o papel de Ilhas Malvinas. Para quem não sabe, a Polícia Militar esteve a ponto de atacar a Marinha Britânica e apresar o iate real, levando-o para o porto do Cebolão. O momento mais tenso, entretanto, foi quando a segurança do vice-governador [Carlos Santos] entrou em alerta máximo. Aí, o governo inglês mandou um fax dizendo que assim também já era covardia e ameaçou retaliar com um submarino que estava estacionado em águas próximas do Outeiro. A nave enfrentava um pequeno problema técnico – cocô no periscópio – mas, dizia o fax, estava em condições de disparar um petardo contra a cidade, destruindo de uma só vez, a Vila da Barca, a Fundação Curro Velho e a Jonasa.
A Inglaterra, na verdade, foi salva pelo gongo. Às 13:30 horas, encerrado o expediente da sexta-feira, o terceiro escalão espalhou-se pelos bares da cidade, o segundo escalão botou as bermudas e foi para o supermercado fazer as compras da semana, e o primeiro escalão seguiu para Salinas. A guerra ficou para segunda-feira, mas aí o príncipe Charles já estava na Inglaterra e o “Britânia” em alto mar. A cidade voltou à rotina, sem mortos e feridos, como convém às pessoas de bom senso. Restou a observação de um caboclo-pescador de Salvaterra, que estava remendando uma malhadeira bem ao lado do trapiche de Icoaraci quando o príncipe desembarcou. Ele esticou o pescoço, examinou, olhou bem e depois sentenciou, voltando ao trabalho.
-Hum, então! Charles por Charles eu sou mais o Charles Santos.

O certo é que um dia Deus chamou o Chembra e lá chegou ele ao céu, vestidinho de anjo, a causar espanto aos que o viam flutuando com ajuda de balões multicoloridos, a destoar da alvura azulada do local. Assim o imaginou o Luiz Pinto:




Escrito por Fernando Jares às 22h24
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FUTEBOL NO EXTERIOR

PAPÃO E LEÃO SÃO O BRASIL

Começa hoje, em Paramaribo, o Torneio Internacional do Suriname, com a presença de dois times paraenses, Paysandu e Remo, do tricampeão surinamês, Inter Moengotapoe, e do S.B.V Excelsior, de Roterdam, que disputa a primeira divisão da Holanda. O festival é para comemorar os 90 anos da federação de futebol do país vizinho.

Que eu me lembre, acho que já fazia tempo que o futebol paraense não arriscava umas aventuras no exterior. Lembro-me que, quando era mais jovem, de vez em quando lá ia um deles, geralmente às Guianas. E traziam títulos, dinheiro e até jogadores. Lembram do lendário François, do Remo?

Os nossos dois times, no Suriname, defendem a honra do “melhor futebol do mundo”! A parada vai ser dura, mas os dois antigos principais clubes do Pará precisam de um teste assim, para ver se saem destes buracos nacionais em que se encalacraram...

Uma curiosidade: pode acontecer lá o primeiro RexPa do ano (“clássico” cada vez mais raro...). Para isso os dois precisam vencer as suas respectivas partidas com os estrangeiros. Ou ambos perderem... É que o Papão joga hoje com o Moengotapoe e o Leão, depois de amanhã, com o Excelsior. No domingo, 9, jogam os ganhadores pelo título e os perdedores pelo terceiro lugar. Já houve um RexPa no Suriname, em 1977, o 478º da série, segundo o jornalista Ferreira da Costa, que terminou em 1x1.

HISTÓRICO - Foram muitas essas excursões, assim como diversos times do exterior que aqui vieram para mostrar seu futebol pelas ruas de Belém, tipo o Beogradski, de Belgrado, Iugoslávia, em 1955, para os festejos dos 50 anos do Remo. Os iugoslavos empataram com o Paysandu (3x3), venceram a Tuna (1x0) e empataram com o Remo (2x2), como nos conta Ernesto Cruz em “A História do Clube do Remo”. Há também a excursão do Peñarol, que perdeu de 3x0 para o Papão, em 1965, fora os jogos da “Libertadores da América”, em 2003, com a participação bicolor, e muitos outros.

Pesquisando nos livros do Ferreira da Costa, especialmente a “Enciclopédia do Futebol Paraense” anotei que em 1952 o Paysandu fez a sua primeira excursão internacional, com jogos nas, aquela altura, Guianas Holandesa (hoje Suriname) e Francesa. Em oito jogos o Papão venceu quatro, segurou três empates e teve apenas uma derrota. E olha que jogaram até as seleções das duas Guianas! Era o timaço de Quarentinha, Pau Preto, Natividade e outros grandes craques.

No ano seguinte, lá foi o Paysandu de novo, conquistando um torneio triangular, do qual participou a seleção de Aruba, a bonita ilha venezuelana, e a seleção da Guiana Holandesa.

Em 1967 o Papão fez outra vitoriosa excursão para aquelas bandas e foram mais oito jogos, faturando sete vitórias e cedendo um empate, para o conhecido Robinhood (escreve-se assim mesmo), ainda hoje um dos mais populares times surinameses.

A Tuna esteve por lá antes, em 1949, segundo encontrei no sítio eletrônico Soccerlogos, participando de um torneio em homenagem à Rainha Guilhermina, da Holanda, disputando com times holandeses e das outras Guianas, vencendo todas as partidas! Fez tanto sucesso que foi programado um jogo extra, com a seleção local, que terminou com empate em 1x1. Cortesia cruzmaltina, com certeza...

Obs.1: Paysandu vence a sua partida, na série de pênaltis (5x4), após ceder o empate no 49º minuto do segundo tempo: gol do Inter Moengotapoe foi em cobrança de falta. Está na primeira final do ano, domingo, 09/01.

Obs.2: O Remo também fez bem a sua parte e venceu o Excelsior, por 2x0. Assim teremos o tradicional clássico RExPA em terras surinamesas, neste domingo, 09/01.



Escrito por Fernando Jares às 19h44
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OLHA NOSSA MÚSICA AÍ!

VAMOS VOTAR NO SOM DE UNS CARAS MUITO BONS!

Dois músicos paraenses, da melhor qualidade, estão concorrendo ao 2º Festival (Nacional) de Música das Rádios Públicas.

Vamos colocar nossas estrelas lá em cima, gente!

Vamos votar no Adamor do Bandolim, na categoria “Música Instrumental” e no Mestre Juvenal, na categoria “Música com letra”. Eles representam o Pará, pois foram vencedores do II Festival Cultura de Música, da Rádio Cultura.

Vamos votar nestes paraoaras, para eles trazerem esses prêmios e desfilarem com eles pelas ruas de Belém.

O grande “chorão” Adamor (Ribeiro) do Bandolim dá show com a composição “Chegou o Zé”, que você pode ouvir clicando aqui.

Já o carimbozeiro juramentado Mestre Juvenal comparece com a força de nosso ritmo de raiz em “Garapé” e para ouvir basta clicar aqui.

Votar é fácil: basta clicar aqui para abrir o sítio eletrônico da Associação das Rádios Públicas. No banner do Festival, que aparece na parte superior, clique em “Música instrumental” e tenha acesso a todos os concorrentes, cada um com seu perfil e a música participante. Vote na enquete ao lado, nessa mesma página. Depois, volte à inicial para selecionar “Música com letra” e o procedimento é o mesmo. Cuidado para não errar, porque só pode votar uma vez!

Agora, conheça a síntese do perfil de cada um de nossos representantes:

ADAMOR DO BANDOLIM

 

O Adamor do Bandolim, cabôco de Anajás, eu acompanho de tempos: olha aí em cima o CD que ele fez para o Projeto Uirapuru, da Secult (nos tempos do Paulo Chaves que, espero, repitam-se) e que eu estou só ouvindo, enquanto escrevo... Ele já foi do Manga Verde e do Grupo Oficina (tenho um LP destes uns). Participa do “Gente do Choro”, grupo que o acompanha na execução da concorrente. No encerramento do “Salão Internacional de Humor” ele estava lá, tocando só com gente boa – e a Rita e eu, só escutando.

Sobre o choro “Chegou o Zé” ele conta que, “em 27/12/2008, ao receber um telefonema, escutou três palavras: ‘Chegou o Zé!’. Era o Paulinho Moura, seu companheiro do grupo ‘Gente de Choro’, que comunicava o nascimento de seu filho mais novo, José Ernesto”. Estava criado o título da música que ele estava criando! Ouça, clicando aqui, algumas músicas do Adamor do Bandolim.

 MESTRE JUVENAL


Mestre Juvenal, aí em cima em foto que capturei do blogSaavedra, música, chibé e poesia”, é um de nossos mestres populares do carimbó que, mesmo sem saber ler e escrever, já compôs mais de 60 músicas. Com este tenho menos contato, mas sei que ele andou pelo “Se Rasgum”. Basta ouvir aí o “Garapé” dele pra sentir a boa voz e o acerto com as batidas firmes e modernas do tambor, que fazem qualquer careta se mexer. Por mais mole que seja...

Fundou o grupo de carimbó de raiz “Fogofagô” e mais recentemente, juntamente com o grupo, evoluiu para sonoridades mais atuais, para a Banda Regional “Fogofagô”.

Para ver o mestre no final do festival da Cultura, clique aqui.

Aceite o convite, gente boa, não deixe de votar nestes músicos muito gente boa: basta clicar aqui.



Escrito por Fernando Jares às 18h06
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FERIADOS 2011

OS DIAS DE FOLGA, OFICIAL OU NÃO

O que mesmo é feriado este ano? Aqui abaixo está uma lista dos feriados previstos para este ano: nacionais; estadual no Pará (apenas um, por lei federal); municipais pelas ruas de Belém (quatro, por lei federal); os chamados de “ponto facultativo” federais, que orientam Estados e municípios – não são feriados, mas não é obrigatório ao funcionário público ir trabalhar nessa data, é facultativo, daí...; e até (dois) de categoria profissional.

O estadual no Pará já todos sabem que é 15/08, Adesão do Pará à Independência.

Os municipais em Belém são: Sexta-Feira Santa, Corpus Christi e N. S. da Conceição. Também era o de Finados, mas este passou a ser federal desde 2002. Daí, Belém pode ter um novo feriado – como já o fizeram outras cidades, aproveitando a “vaga” criada por Finados, que foi federalizado... Uma oportunidade para festejar a fundação da cidade (12/01), que acaba sendo ponto facultativo na prefeitura.

Essa questão dos feriados já foi esmiuçada neste blog. Clique aqui para ler “A regra dos feriados no Brasil”.

E aqui está a tabela da feriadagem neste país, este ano:

Janeiro
1º de janeiro, sábado, Confraternização Universal (feriado nacional)
Março

07, segunda-feira, Carnaval (ponto facultativo)
08, terça-feira, Carnaval (ponto facultativo)
09, quarta-feira, Quarta-feira de Cinzas (ponto facultativo até às 14h) Nenhum dia do carnaval é feriado, apenas há a tradição de não se trabalhar na terça e parte da quarta. As empresas podem exigir, e muitas o fazem, a compensação das horas. Conceder a folga, até o dia todo, compensado ou não, é uma liberalidade. No governo é mais fácil...
Abril

21, quinta-feira, Tiradentes (feriado nacional)
22, sexta-feira, Paixão de Cristo (feriado municipal, obrigatório em todos os municípios, por lei federal)
Maio

01, domingo(!), Dia Mundial do Trabalho (feriado nacional)
Junho

23, quinta-feira, Corpus Christi (feriado municipal em Belém e em quase todos os municípios brasileiros)
Agosto

15, segunda-feira, Adesão do Pará à Independência (feriado estadual)
Setembro

07, quarta-feira, Independência do Brasil (feriado nacional)
Outubro

12, quarta-feira, Nossa Senhora Aparecida (feriado nacional)
24, segunda-feira, Recírio. Não é feriado, mas tradicionalmente, em Belém, não se trabalha pela manhã. O comércio não funciona, em decorrência de um feriado da categoria profissional, para comemorar o Dia do Comerciário, que é 30/10. Geralmente não vale para supermercados e shoppings, que usam a lei da ganhância desenfreada...
28, sexta-feira, Dia do Servidor Público (ponto facultativo)
Novembro

02, quarta-feira, Finados (feriado nacional)
15, terça-feira, Proclamação da República (feriado nacional)
Dezembro

08, quinta-feira, Nossa Senhora da Conceição (feriado municipal, em Belém)
25 de dezembro, Natal (feriado nacional).



Escrito por Fernando Jares às 21h43
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2011 – ODE DEDICATÓRIA

“NÃO MAIS CRIMES, NEM MORTE OU DESPOTISMO”

Neste dia de começo de ano passei os olhos por algumas “Obras escolhidas de Felippe Patroni”, edição de 1975, da Gráfica Falangola Editora, com o patrocínio do Conselho Estadual de Cultura (vejam como era importante!) e encontrei algo muito apropriado para este momento de mudanças e desejo de melhorias.

O paraense: Felippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente foi um brilhante jornalista e escritor, muito combativo e combatido. Graduado em Leis e Cânones pela Universidade de Coimbra, fez seus estudos iniciais aqui pelas ruas de Belém, entre o Seminário e a Catedral. Contestou, foi preso, escreveu livros de direito, de filosofia, de ética, por aí. É o responsável pelo lançamento do primeiro jornal deste Estado, “O Paraense”, em 1822.

Um dos livros de Patroni é a “Cartilha Imperial” que preparou para “uso do Senhor D. Pedro II nas suas primeiras lições de literatura e ciências positivas”, em 1838. Era época da menoridade de D. Pedro e Patroni tentava ser mestre do jovem imperador. Não o conseguindo, decidiu publicar a cartilha que já estava pronta, o que o fez em 1851, em Lisboa.

Nessa cartilha o conterrâneo publica, na abertura, uma “Ode Dedicatória”, “aos nobres e honrados paraenses que amam o Evangelho da Santa Cruz, com preferência a qualquer outra religião” – em latim e em português e com uma longa exposição sobre o argumento utilizado na Ode. Mas não vamos a tudo isso. Reproduzo abaixo apenas quatro das estrofes, que falam diretamente a nossa cidade e o desejo de melhores tempos. Leiamos:

Estrofe 3
Oh! que tu com efeito, Belém santa,
Não és a mais pequena dessas terras
Do Império do Brasil, pois tudo encanta
Alta piedade que abundante encerras:
Posto que o gênio do teu solo espanta
Indoutos charlatães, que, lá nas serras
Da Mantiqueira, Cubatão e Estrela,
Vivem dos versos à Marília bela.

Estrofe 7
Mas oh! não fales mais, sagrada Musa,
Nem digas às potências brasileiras,
Que os paraenses têm virtude infusa
Com desprezo formal das frioleiras
Aqui, no Grão-Pará, não mais se usa
Andar co’Império envolto em bandalheiras:
O presidente, o bispo, os deputados,
todos, todos são pios, são honrados.


Estrofe 15
Demos graças a Deus! que a nossa terra
Já não verte mais sangue; nem partidos
Existem na política que à guerra
De novo se provoquem, sem sentidos.
- Que a morte inexorável tudo encerra,
Grandes reis e os mais pobres desvalidos.
Mas graças à Divina Providência!
Foi-se a morte, o partido e a insipiência.

Estrofe 17
E tu não és de certo pequenina,
Santa Belém, cidade formosíssima!
És grande!... – Que o teu gênio logo atina
Com a lei de JESUS, lei só santíssima,
Do monarcha dos rios é pois sina
A cruz de Cristo alçar a voz altíssima.
No Pará tudo é cristianismo;
Não mais crimes, nem morte ou despotismo.



Escrito por Fernando Jares às 19h01
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