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BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



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PELAS RUAS DE BELÉM


CONVERSAS DE SINOS E DE SÍMBOLOS

ÍCONES DA CIDADE ADQUIREM VIDA (?!)

Domingo. Antemanhã. Trânsito mínimo. Parte da cidade ainda dorme; parte acorda. Madrugadores conversam nos bares. As feiras se agitam na penumbra. Abrem-se as portas dos templos. Falam os sinos.

Com essa locação o escritor, professor e acadêmico vigiense, José Ildone Favacho Soeiro nos situa para a ação de “A conversa dos sinos” em que registra o diálogo entre os sinos das diversas grandes igrejas de Belém. Escreveu-o nos anos 1980 e, com ele, conquistou o primeiro lugar de todas as categorias no “1º Concurso Literário Funtelpa/Rádio Cultura”, de 1987 – época em que o radialista e escritor Orlando Carneiro presidia a Funtelpa.

Vamos ler o trecho inicial em que José Ildone, dá “voz” aos sinos:

DA SÉ

Mais um domingo, dos incontáveis que marcam meu bronze. Preciso avisar que hoje é dia de missa. Quantas vezes já fiz isso? Minha velhice não se mede pelos cabelos brancos, mas pelos dobres e este amolgamento das minhas bordas seculares. Ah, escuto outro.

DO CARMO

Oi, sino da Catedral. Você hoje acordou mais cedo. Será verdade que quanto mais se vive, mais se acorda cedo?

DA SÉ

É verdade, amigo velho. Quanto mais se vive, mais se precisa ga­nhar tempo e ir vencendo os galos no despertar do dia.

DO CARMO

Mas já não temos os galos com que porfiar. Isso há muito. O ar­voredo, nos grandes quintais, foi derrubado As casas se multiplicaram. Os galos estão no Ver-o-Peso, postos à venda. Já não cantam mais, cha­mando o sol e os trabalhadores de enxada aos ombros. A cidade cres­ceu e silenciou os poleiros.

DA SÉ

Em compensação, encheu as ruas de muito barulho. Mesmo ago­ra num domingo preguiçoso, os carros passam acordando muita gente com o ronco dos motores.

DO CARMO

Neste caso, os motoristas é que são os sineiros. Os carros são o bronze que rola no asfalto

DA SÉ

E nós, aqui, solitários. Não será porque nos colocaram mui­to alto, nestas grossas e orgulhosas torres?

DE SANTANA

- Ah meus amigos, deixem eu entrar na conversa. Mas antes, uma reclamação: vocês nem ouviram minha voz, porque acordaram hoje muito tagarelas.

DA SÉ

Desculpe, amigo. Não foi de propósito. É que, nesta fase da ve­lhice, alguns assuntos nos absorvem demais.

O “papo” prossegue e entram na conversa “os mais orgulhosos sinos de Belém”, da Basílica; o de São Raimundo; ouvem-se os de Santo Antonio, Rosário e Trindade e até lamentam o silêncio do sino de Santo Alexandre (à época em lentíssima restauração que durou dezenas de anos até ser resolvida e concluída por Paulo Chaves Fernandes, na Secretaria de Cultura do Estado, em 1998).

Quando José Ildone criou esses diálogos, estava longe de pensar que, um dia, neste distante 2010, mais de 20 anos depois, os monumentos, os símbolos, os ícones mais conhecidos desta mesma Belém, ganhassem “voz” ou, pelo menos, a "capacidade" de “escrever”, de “comunicar-se”. Ainda nem havia por cá a internet e os computadores eram coisa rara...

Lembrei-me dessa conversa criada pelo poeta vigiense diante da verdadeira explosão de perfis, no microblog Twitter, assinados por ícones belenenses. Tem desde o Pensador de São Brás ao Relógio da Praça (Ver-o-peso), do Chapéu do Barata ao Índio da Praça Brasil até uns muito merchandising, tipo Canguru da Radiolux ou Copo da Cerpa. Alguns são de cidades próximas, mas muito ligados, como o Farol de Salinas ou o Cristo de Castanhal.

Conversam entre si, com outros tuiteiros, comentam suas aspirações (Chapéu do Barata: “ainda tenho esperanças que o novo gorvenador olhe por mim. Sou tão bonito, tão charmoso. Feio é o Terminal Rodoviário”); ou os desafios (Relógio da Praça: “tenho que fortalecer minhas ferragens até o Círio! O povo adora subir em mim pra ver a NAZA!”); uma questão do momento (Pensador de São Brás: “ Começou a chover. Moradores de rua correndo aqui pro meu cubículo”); suas dificuldades (Relógio da Praça: “Ficarei recluso esse fim de semana. Judiaram de mim ontem, quase que meus ponteiros quebram! A polícia nem pra me proteger!), como qualquer vivente pelas ruas de Belém da atualidade.

Vamos conhecer alguns deles, com os respectivos endereços no Twitter e pequena explicação – quando entre aspas, é original do autor do perfil e sem aspas, as escrevi. Não estão todos. Faça assim: entre neste e naquele endereço para descobrir outros e saber das novidades. É uma brincadeira legal. E tem muito de não brincadeira.


Acima, os avatares de alguns ícones, pela ordem, o Canguru da Radiolux, o Relógio da Praça, a Estátua da Praça, o Índio da Praça Brasil, o Chapéu do Barata, a Moça do Táxi.

Chapéu do Barata (http://twitter.com/#!/ChapeudoBarata) - “Sou um monumento esquecido por gerações e mais gerações de políticos. Hoje sirvo de abrigo para mendigos. Domingo tem ônibus saindo pra Mosqueiro.” O prédio abrigava um museu em homenagem ao popular governador Magalhães Barata e reproduz o capacete que ele usava. Ideia do jornalista e historiador Carlos Rocque.

Relógio da Praça (http://twitter.com/#!/relogiodapraca) - “Sou o relógio da praça, J.W. Benson me trouxe da Inglaterra ainda pequeno, nem sempre dou a hora certa, estou velho demais pra isso. Mesmo assim tenho prestígio!” Vem a ser o belo relógio da praça Siqueira Campos, popularmente a Praça do Relógio, ao lado do Ver-o-peso.

Pensador São Brás (http://twitter.com/#!/PensadorSaoBras) - “Eu estive pensando... mas ainda não cheguei a uma conclusão.” Monumento em homenagem ao ex-governador Lauro Sodré, mandado fazer por Magalhães Barata que, no entanto, morreu poucos dias antes de sua inauguração, em junho de 1959. A estátua, de Bruno Georgi, mostra Sodré em posição que, dizem, ele gostava de ficar, pensando, e lembra a escultura “O Pensador”, de Rodin.

Estátua da Praça (http://twitter.com/#!/EstatuaDaPraca) Em homenagem à República, fica no centro da praça do mesmo nome, em Belém. Foi inaugurada em 1897, em homenagem ao novo regime, proclamado em 1889.

Índio da Praça Brasil (http://twitter.com/#!/IndioPcaBrasil) - “Sou o Índio da Praça Brasil, em Belém/PA (PS: o verdadeiro nome da praça é Santos Dumont, mas não espalhe).”

A Moça do Taxi (http://twitter.com/#!/a_moca_do_taxi) - “Sou Josephina Conte, adoro Bailes de Carnaval e andar de taxi. Sou uma Lenda! Não esqueça!” Personagem de uma das mais conhecidas “assombrações” de Belém: a moça anda de táxi, desce próximo ao cemitério e pede para cobrar a conta em um endereço... onde informam que a tal moça teria falecido anos antes.

Periquito do CAN (http://twitter.com/#!/PeriquitodoCAN) - “Moro na Samaumeira na praça Santuário, que está localizada em frente à Basílica de Nazaré, em Belém. Vou ficar de olho em tudo por aqui.” As centenas de periquitos naquelas árvores são uma tradição de Belém, especialmente nesta época do Círio.

Canguru Radiolux (http://twitter.com/#!/CanguruRadiolux) – Da série “mercadológica” este é dos mais populares. Até revela seu nome próprio, “Sidney Belém”, obvia ligação entre a terra dos cangurus e esta que o adotou. Símbolo de uma loja, seu bonecão circula sobre um carro, há dezenas de anos. Muda de roupa conforme a época. Na Copa, de camisa da seleção, no Natal, de Papai Noel, etc.

Copo da Cerpa (http://twitter.com/#!/copodacerpa) - “Eu domino vocês, sei que todos me olham quando passam morrendo de sede, naquele engarrafamento tenebroso.”

Farol de Salinas (http://twitter.com/#!/faroldesalinas) - “Meu pai Désiré Potárt me projetou. Tenho 39 mt de altura e minha primeira morada foi em Apeú. Hoje reino em Salinas – PA.”



Escrito por Fernando Jares às 20h47
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VERANEIO EM BELÉM DO PARÁ

QUESTÃO DE RESPEITO

Dia destes ia eu a trafegar, em uma manhã tranquila de sábado, quando tive a seguinte visão:


Isso mesmo, um carro antigo, muito bem conservado, a esbravejar, exigindo um direito inalienável: “Esta vovó exige respeito, dê a vez aos idosos. Sou de 74, tá!” Sem dúvida, merece todo respeito, até pela forma educada de reivindicar, ao contrário de outros, muito mais jovens, que fecham as ruas e prejudicam meio mundo, nos seus protestos reivindicatórios. Geralmente justos, mas... desrespeitosos.

A preocupação deste escriba fica por conta da falta de respeito generalizada, a carros e humanos, que anda por aí, por parte de motoristas, pedestres e, principalmente, das autoridades, às quais pagamos salários (com os elevados impostos que recolhemos) geralmente polpudos, para cuidarem de nosso bem-estar, segurança, etc. etc. Para nos respeitarem. Esse lance de respeito ao próximo – a quem Jesus mandava amar, imaginem! Se nem respeitam... – parece que está meio fora de moda por uma parcela da sociedade. Tomara que os que ainda exercitam o respeito, multipliquem-se. Por falar nisso, domingo tem eleição, ótima oportunidade para manifestar-se a respeito, sem trocadilho ou redundância.

Mas, deixando esta escapada reflexiva de lado, voltemos ao objetivo do post: mostrar o carro que flagrei aqui mesmo, pelas ruas de Belém.

 

Lógico que parei, desci e fotografei... uma serelepe Veraneio. Uma “vovó” sajica, inteirona, como nessa foto de perfil.  Este utilitário foi fabricado pela Chevrolet dos anos 1960 até 1989 (leia no site da revista “Quatro Rodas”, clicando aqui). Não existem muitas por aqui, pelo menos com essa idade. Muitas irmãs dela tiveram sérios problemas existenciais: eram o veículo preferido pela repressão política dos anos da ditadura militar, nas suas caçadas aos opositores do regime. Para quem não viveu a época, basta ver os filmes sobre o período. Nos jornais e revistas, não, porque a censura não permitia a publicação de notícias sobre os deslizes do poder... Isso prejudicou muito a imagem das Veraneio. Quem sabe, o lancinante apelo por respeito tem a ver com algum episódio dessa época. Sem dúvida, sra. Veraneio, a culpa não era sua, mas dos homens que a utilizavam para a violência oficial.

 

A Veraneio tinha charme. Veja a foto acima, desta uma que encontrei, posando meio de lado. O fabricante tratava-a no masculino, todo mundo, no feminino... questão de preferência, imagino. Olhe aqui este anúncio (de 1972) incentivando conhecer o Brasil em um veraneio e que começa citando esta nossa cidade: “Partindo de Brasília, você tem milhares de quilômetros de rodovia a sua espera. De Pôrto Alegre até Belém do Pará, e a várias capitais nordestinas. O Veraneio roda suavemente: a suspensão independente com molas espirais deixa todos os buracos para trás.” O "pôrto" mudou, com a queda de alguns acentos diferenciais, ainda nos anos 1970, mas os buracos...

 



Escrito por Fernando Jares às 19h36
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VIVA OS FARAHZINHOS!

 

Diz o escritor paraense Haroldo Maranhão que “o perfeito jornalismo está na coluna obituária, da qual o adjetivo é delicadamente afastado para as páginas de esporte e da ação política” (“Miguel, Miguel”, Editora Cejup, 2ª edição, 1997). Hoje não temos colunas obituárias nos jornais de Belém e, talvez, esse papel seja dos Avisos Fúnebres. Só se sabe quem morreu, se deixou na família condições para publicar um anúncio...

É muito pouco. Permitam-me discordar (especialmente o jornalista Elias Pinto, ardoroso estudioso das letras haroldianas) da afirmativa do mestre Haroldo Maranhão. As poucas linhas ficam a dever, em muitos casos. É um desafio twitteriano, sem dúvida.

Esse anunciado aí em cima é um caso típico: é um dos famosos irmãos “Farahzinhos”! Muita história essa dupla de gêmeos agitou em Belém e, especialmente, no Mosqueiro. Tudo bem, haroldianos, a palavra “Farazinho” assim, entre aspas e sem o “h”, já nos remete à história da dupla, agitada desde o nascimento, precedido, no caminho para a maternidade, de um acidente com o carro, naqueles idos de 71 anos passados:

10 de 03 de 39.
Muita chuva e nevoeiro.
Seu Salles, o motorista
caía em um boeiro,
Juntamente com seus pais
E o médico parteiro.

Generalíssimo Deodoro,
A rua do acidente,
Dr. Acilino de Leão,
Atendeu a parturiente
As 7:00 e as 7:15 horas,
Nasciam os inocentes

Essa história está no Cordel dos Farahzinhos, do autor mosqueirense, “poeta e intelectual”, Antonio Fernando Cohen, que apresenta o trabalho como “seistilhas de pé quebrado”.

Os “inocentes” pintaram e bordaram ao longo da vida. Mereceram amizades e nem tanto, mas tudo acabava bem.

Ano passado, quando fizeram 70 anos, este blog os homenageou. Leia sobre eles, clicando aqui.

São figuras de uma Belém passada, que deve ser reverenciada, lembrada e amada. Hoje há outra cidade, também a ser reverenciada e amada para, no futuro também ser lembrada. Que vivam sempre os Farahzinhos!

Eles tinham, também, ações políticas. Apoiaram o marechal Zacarias de Assumpção, um ex-governador, candidato ao governo do Estado no pleito de 1965, em que foi eleito o major Alacid Nunes, ainda pelo voto direto – antes da plena instalação da ditadura militar. Veja na foto abaixo. À esquerda, braço erguido, um dos Farahzinhos (qual, qual? Sou péssimo em distinguir gêmeos...) comanda manifestação em pleno sábado na João Alfredo, carregando o marechal. O sábado era o dia do footing da João Alfredo, com maciça presença da juventude a passear de cima para baixo, de baixo para cima. Mas isto é outra história.

 

Foto publicada na revista Mensagem, outubro de 1965. Diz a legenda na revista: "O marechal Zacarias de Assumpção, na véspera do pleito, improvisou, por influência de seus companheiros de campanha, um passeio pela João Alfredo, em hora de maior movimento (era sábado). E nessa ocasião um pequeno grupo se juntou, carregando-o em grande estilo, como se fôsse um vencedor. No dia seguinte a desilusão chegou, pela linguagem das urnas. Há quem diga que a manifestação de sábado teria sido mais uma dos Farahzinhos..."



Escrito por Fernando Jares às 10h48
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PELOS IGARAPÉS DE SANTARÉM

ÁGUAS LÍMPIDAS E FRIAS

Escrevendo sobre os igarapés de Santarém, o naturalista inglês Henry Bates, no século XIX, disse que “Esses riachos da floresta, com suas águas límpidas e frias, a fluir murmurantes por seus leitos arenosos ou forrados de seixos, no fundo de ravinas agrestes e tropicais, sempre tiveram enorme encanto para mim.” Para mim também, Mr. Bates.

A viagem desse cientista à Amazônia foi entre 1848 e 1859 e ele a descreveu minuciosamente no livro “Um naturalista no Rio Amazonas”. A primeira parte do capítulo referente a Santarém, onde ele permaneceu três anos (1851 a 1854), está transcrita no recém-lançado livro “Memória de Santarém”, que Lúcio Flávio Pinto escreveu e Miguel Oliveira, do jornal O Estado do Tapajós, editou.

Veja porque eu concordo com o sr. Bates:


Esse igarapé, de águas límpidas e frias, que fluem murmurantes sobre um leito arenoso, vindas do interior da floresta, eu fotografei há duas semanas, em um sítio em Santa Luzia, pertinho de Santarém, entre a cidade e a vila de Alter do Chão. E quem foi o responsável pelo convescote? O jornalista Miguel Oliveira. Aliás, não bem convescote, porque não teve a refeição – mas, a bem da verdade, não aguentaríamos, Rita e eu, comer mais nada, após o opíparo almoço que ele preparou, literalmente, para nós, imediatamente antes... Mas isso é outra história! E que história...

O banho na água de correnteza forte neste pequeno, simples e paradisíaco lugar teve, digamos assim, uma função digestiva: a água veloz e fria massageava a pancinha cá do Degas, cheia de gostosuras da terra santarena, ajudando o atarefado e sobrecarregado estômago. Registre-se que o mesmo não acontecia com a Rita, muito mais comedida nas quantidades alimentares ingeridas...

O caminhar, em contato direto com a natureza, hoje como há 150 anos, encanta o homem do século XXI como encantou aquele inglês dos 1800. E, considerando a dificuldade de acesso, nos dias de hoje, a pedacinhos encantados de paraíso como este (estes, porque por lá os há muitos), fica fácil imaginar a riqueza turística espalhada pelos igarapés de Santarém. E de todo o Pará. Um tesouro para o melhor turismo de natureza, turismo ecológico ou lá que nome tenha.

 

Crianças e adultos, aproveitamos todos, o esplendor da natureza, aqui como em outros trechos do riozinho. Logo após, junto à casa do sítio, uma intervenção humana racional: uma piscina aproveita a água corrente, mantendo o fluxo natural e proporcionando plenos mergulhos e a natação, por aqueles que dominam estas artes de conviver com as águas e com os peixes. Tudo cercado por muita natureza, o som dos pássaros em plena liberdade.

 

A mim tudo isso agrada. Menino criado, primeiro, na margem barrenta do rio Guamá (no Jurunas) e, depois em uma Capanema sem a grandiosidade dos rios amazônicos, onde o igarapé Atolador (ô nomezinho...) era meu universo fluvial, um igarapé assim translúcido é um sonho. Como o é o Tapajós e suas praias únicas, seus peixes bonitos e de sabores exclusivos. Tudo muito agradável.



Escrito por Fernando Jares às 19h00
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MULTICULTURALISMO AMAZÔNICO

CARNAVAL, LETRAS, ARARAJUBA E MIRITI

De tema no carnaval, nos braços do povo, a patrono de um Fórum de Letras, em meio a acadêmicos e intelectuais, o poeta João de Jesus Paes Loureiro circula com a mesma desenvoltura de caboclo abaetetubense, senhor das maravilhas e encantarias da região em que nasceu e que canta com tanta maestria, como canta o amor, os desenganos, as glórias e as dificuldades das nossas gentes.

Em fevereiro Paes Loureiro foi o enredo da escola de samba “Quem São Eles” (leia sobre, clicando aqui) e agora é o patrono do “XVI Fórum Paraense de Letras”, da Unama, em outubro.

Homem de letras clássicas e populares, homem de políticas, homem de gentes daqui e de outras terras, o poeta, folclorista, ensaísta, dramaturgo. professor e pesquisador, João de Jesus Paes Loureiro, paraense de Abetetuba, doutorado pela Sorbonne de Paris, sendo o Patrono do Fórum, será homenageado durante a sessão solene de abertura, dia 25 de outubro, às 18h30.

“O nome de Paes Loureiro para Patrono, além da sua contribuição para a formação de leitores, um dos critérios de escolha, deve-se também à sua relação com o tema deste 16o Fórum, à consciência social e ao moderno apelo ecológico que o poeta revela em seu trabalho, frutos de sua forte relação com a Amazônia, sem perder de vista o caráter universal, humanista da sua obra”, nos informa a professora Célia Jacob, que coordena o evento.

O “XVI Fórum Paraense de Letras”, da Unama, este ano está associado ao programa “Debates - Cultura e Pensamento”, do Ministério da Cultura, conjunto de oito debates selecionados pelo MinC, nas seguintes cidades: Belém, Brasília, Registro (SP), Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Uberlândia (MG) e transmitidos ao vivo pela internet

O tema do Fórum será “Amazônia, tão perto e tão longe. Territórios, fronteiras, identidades e multiculturalismo”, e do Cultura e Pensamento, “Amazônia: paisagens, narrativas e sentidos”.

O Fórum de Letras da Unama, realizado pelo 16º ano consecutivo, é hoje um dos mais importantes eventos acadêmicos da Amazônia e produz, a cada ano, importante material e formação, entre intelectuais, estudantes, professores, pesquisadores, contribuindo expressivamente para o desenvolvimento e consolidação da cultura regional. O evento de lançamento de livros, no final do Fórum é um verdadeiro espetáculo de vitalidade intelectual praticada pelas ruas de Belém. E de outras cidades.

O debate “Cultura e Pensamento – Amazônia” reúne as três maiores instituições de ensino superior do Pará, UFPA, Uepa e Unama, agindo em parceria e tem como curadores docentes pesquisadores, representando cada uma das instituições: Prof Dr. José Guilherme Fernandes (UFPA); Prof Dr. Josebel Akel Fares (Uepa); Prof Dr. Paulo Nunes (Unama).

Informam os organizadores que “por meio desse ciclo de debates, espera-se  promover a integração da produção acadêmica e artística da Amazônia e que se proponham ações parceiras para o desenvolvimento da Região, com a representação dos seus Estados e os segmentos da sociedade envolvidos nas áreas de cultura e educação”.

Paes Loureiro, além de homenageado, participará nos debates “Cultura e Pensamento na Amazônia”, nas tardes e noites dos dias 26 e 27, no Auditório David Mufarrej . Com o poeta, além dos curadores, estarão presentes nas mesas redondas os professores, pesquisadores e escritores Selda Vale, Graça Silva, Lúcio Flavio Pinto, Márcio Souza, Marisa Mokarzel, Jerusa Pires Ferreira, Eduardo Huarag, Marcos Frederico Krüger, Roseli Risuenho, Willi Bolle, Henryk Siewierski e Amarílis Tupiassu, representando as nossas três universidades, a Universidade Federal do Amazonas, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, a Universidade de São Paulo, a Universidade de Brasília e a Pontificia Universidad Catolica del Peru.


Explica a organização do Fórum que a ararajuba (Guaruba guarouba), eleita para ilustrar o evento, pela coloração que remete à bandeira nacional, concorreu com o sabiá como símbolo do Brasil. Perdeu. O sabiá é nacional, gorjeia aqui como lá. A ararajuba é de cá, só da Amazônia, faz parte desta paisagem. Aqui a ararajuba segura um fruto de miriti (Mauritia flexuosa). O miriti tem forte relação simbólica e material com a cultura da Amazônia.



Escrito por Fernando Jares às 16h51
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TRI EM GASTRONOMIA

REVELAÇÃO RECONHECIDA NACIONALMENTE

Em novembro de 2008 a revista Menu, de circulação nacional, apontou os “10 chefs do futuro” que, segundo a publicação, serão “os cozinheiros que devem brilhar na gastronomia da próxima década”. O jovem paraense Thiago Castanho, do restaurante “Remanso do Peixe”, foi um dos apontados. Para ler essa matéria da Menu, clique aqui.

Pois bem, ontem à noite, em São Paulo, a gastronomia paraense conquistou triplo destaque, em uma das mais importantes premiações do setor no Brasil: o “Prêmio Guia Quatro Rodas Brasil 2011” e, confirmando a profecia da Menu, Thiago Castanho foi anunciado como o “Chef Revelação”, um dos cinco principais títulos na área dos restaurantes, de todo o Brasil, para o guia da revista Quatro Rodas:

Chef do Ano: Simon Lau (Aquavit, Brasília, DF)
Chef Revelação: Thiago Castanho (Remanso do Peixe, Belém, PA)
Restaurateur do Ano: Paulo Geremia (Casa di Paolo, Bento Gonçalves, RS)
Novidade do Ano: Tre Bicchieri (São Paulo, SP)
A Melhor Carta de Vinhos: Durski (Curitiba, PR)

Mas não foi só, pois Thiago trouxe para Belém mais dois troféus:

Melhor restaurante da região Norte, para o “Remanso do Peixe” e uma estrela do Guia Quatro Rodas, também para o Remanso. Para quem não sabe, o Guia concede apenas até três estrelas e é muito econômico nesta premiação. Em todo o Brasil, são apenas seis os restaurantes que chegam às três estrelas:

Antiquarius (Rio de Janeiro, RJ)
D.O.M. (São Paulo, SP)
Fasano (São Paulo, SP)
Le Pré Catelan (Rio de Janeiro, RJ)
Locanda della Mimosa (Petrópolis, RJ)
Olympe (Rio de Janeiro, RJ)

Leia sobre o melhor do Guia Brasil 2011, clicando aqui.

Ao anunciar a conquista de Thiago, a “Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança”, que tem associados em todo o Brasil, deu o destaque devido à conquista, dizendo em seu sítio eletrônico do “orgulho de ter em suas fileiras, e tem também o prazer de parabenizar o ganhador do prêmio de Chef-Revelação – Thiago Castanho, do restaurante Remanso do Peixe (Belém-PA)”. Leia a nota clicando aqui. O Remanso é um dos mais novos integrantes da confraria dos Restaurantes da Boa Lembrança.

NOVO RESTAURANTE – Em dezembro Thiago Castanho inaugura uma nova casa pelas ruas de Belém, na 25 de setembro, cujo nome será “Remanso do Gosto” (título ainda provisório...). A linha do cardápio trabalhará o resgate das melhores tradições gastronômicas paraenses, segundo ele me informou hoje, ainda de São Paulo. Naturalmente que também apresentará seus pratos contemporâneos, como o “Carré de cordeiro com mousseline de pupunha” da foto abaixo, que faz parte da chamada alta gastronomia, com que ele tanto faz sucesso lá por baixo, especialmente em São Paulo. Para isso terá espaço especial, onde receberá convidados, inclusive chefs estrelados.




Escrito por Fernando Jares às 19h48
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CRÔNICA DE UM PASSEIO INOLVIDÁVEL

BELÉM, UMA CIDADE QUE SÓ VENDO

Cronista de primeiro time, Dênis Cavalcante contou suas andanças pela cidade com os escritores Zuenir Ventura e Luis Fernando Veríssimo, em (obviamente) bela crônica, “Zuenir, Veríssimo e eu” em O Liberal, do dia 10/09 passado.

Escreveu sobre os ilustres visitantes, que vieram para a Feira do Livro, e de sua admiração por eles: “Semana passada tive o inolvidável prazer de ciceroneá-los por três inesquecíveis dias em Belém. Esperança Bessa e Regina Alves, competentes jornalistas, e nas horas vagas, tietes de carteirinha da dupla, ajudaram-me sobremaneira na prazerosa missão. Acreditem, foram três dias de puro deleite”. Eu acredito. De leite, de guaraná, de cupuaçu, de cafezinho, de pirarucu, etc. etc. Também, um quinteto desses circulando pelas ruas de Belém, havia de ser inolvidável, mesmo.

Mas o ilustre acadêmico/cronista não contou tudo. Zuenir contou. Escreveu, também com muito entusiasmo, sobre sua estada cá por nossa terra, descrevendo seu deslumbramento com os resultados da Feira e, principalmente, traçando um roteiro da cidade, como ele sabe muito bem escrever, em O Globo de 08/09. Um texto que está fazendo o maior sucesso e que reproduzo a seguir. Quem me deu a dica, imagine só, foi a Delyse Braun, bragantina, sobrinha e marketeira, que vive lá nos Estados Unidos, com o seu André.

Antes do texto, uma justa interrupção fotográfica. Citada por Zuenir Ventura, aqui está a “Pietá” a que ele se refere, em foto de Octávio Cardoso, que captei no blogSub Rosa”.

 

SÓ VENDO

Acostumados com o clichê preconceituoso que acredita não haver vida inteligente fora do eixo Rio-São Paulo, nos surpreendemos quando encontramos alguma atividade cultural em cidades do chamado "interior" — o "centro" somos nós, claro. Por exemplo: onde é possível reunir cerca de 650 mil pessoas, um terço dos moradores, para tratar de um assunto meio fora de moda, a leitura? Pois acabo de ver o fenômeno em Belém, na XIV Feira Pan-Amazônica do Livro, um dos três principais eventos do gênero no Brasil, este ano dedicada à África de fala portuguesa. Houve shows com Gilberto Gil, Lenine, Emílio Santiago, Luiza Possi, mas o destaque foram os R$30 milhões faturados com a venda de 500 mil volumes, superando, segundo os organizadores, a Bienal do Rio.
Há cidades brasileiras que só vendo. A capital do Pará é uma delas. Além de ser uma das mais hospitaleiras do país, gosta de seu passado e é hoje um exemplo de como revitalizá-lo. Já escrevi e repito que a intervenção que o arquiteto Paulo Chaves fez no cais da cidade, transformando armazéns e galpões na monumental Estação das Docas, é uma obra que não deve nada à que foi realizada em Barcelona ou Nova York (o prefeito Eduardo Paes devia ir lá ver). Outro genial exemplo de reaproveitamento é o centro onde se realiza a Feira, o Hangar, um gigantesco espaço que antes, como diz o nome, servia de estacionamento para aviões.
E não fica nisso. Há roteiros culturais como o do núcleo Feliz Lusitânia e seu Museu de Arte Sacra, onde se encontram uma Pietá toda em madeira, o São Sebastião de cabelos ondulados e a famosa N. S. do Leite, com o seio esquerdo à mostra dando de mamar. Sem falar nos museus do Encontro e de Gemas do Pará, e numa ida a Icoaraci para ver as cerâmicas marajoara, tapajônica e rupestre.
Para quem gosta de experiências antropológicas, recomenda-se — além dos 48 sabores regionais, a maioria, do sorvete Cairu — uma manhã no mercado Ver-o-Peso, onde me delicio nas barracas de banhos de cheiro lendo os rótulos: "Pega não me larga", "Amansa corno", "Afasta espírito", "Chora nos meus pés". Com destaque para o patchuli, que a vendedora me diz ser o odor de Belém. Mas antes deve-se passar pela área dos peixes: douradas, sardas, tucunarés, enchovas, piranhas, tará-açus. "Esse aqui é o piramutaba", vai me mostrando o nosso guia, o cronista Denis Cavalcanti; "aquele é o mapará, olha o tamanho desse filhote".
Desta vez, o ponto alto da visita foi uma respeitável velhinha fazendo o comercial do Viagra Amazônico para mim e o Luis Fernando Veríssimo: "O sr. dá três sem tirar, e depois ainda toca uma punhetinha". Isso com a cara mais séria do mundo, sem qualquer malícia, como se estivesse receitando um remédio pra dor de cabeça. Só vendo.
Publicado em O Globo de 08/09/2010 (Fonte: Rádio do Moreno)

O elogio à Estação das Docas é espetacular e faz justiça ao citar o arquiteto Paulo Chaves, responsável por aquilo existir. Aliás, também responsável por quase tudo de bom que Zuenir cita, como o Hangar, a Feliz Lusitânia, Museu de Arte Sacra, o museu das Gemas (São José Liberto). E a própria Feira do Livro, que foi criação também do Paulo Chaves. Só escapou, na lista, Icoaraci, o Ver-o-Peso e a Cairu... Um pique de elevação cultural da cidade e resgate histórico e arquitetônico, que repercute em todo o mundo e que, infelizmente, foi interrompido nos últimos anos.

Outro comentário: achei os resultados (oficiais) da Feira do Livro um tanto, elevados. Como escreve o cronista, “um terço dos moradores” esteve lá, isto é, de cada três moradores de Belém, um foi à Feira. Não sei bem como foi feita a contagem. Eu fui lá duas vezes... Vi que se entrava diretamente da área externa de alimentação, sem passar pelas portas de acesso oficial, onde poderiam estar os contadores... então, os números seriam ainda maiores? E os expositores, que entravam dezenas de vezes, também seriam contados?



Escrito por Fernando Jares às 18h38
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OBRAS OU CÓPIAS-PRIMAS?*


Na primeira coluna gastronômica pelas ruas de Belém depois que o Paulo Martins foi cozinhar no céu vamos combinar: escrevo sobre ele. Aliás, melhor, o próprio Paulo vai escrever para nós.

Durante uns três anos o Paulo assinou, em O Liberal, a coluna com o cabeçalho que está aí em cima, “O Arquiteto e o fogão”, contando experiências, lembranças, coisas do dia a dia e divulgando receitas. Coisa testada e aprovada.

Escolhi um texto, como sempre leve e cheio de humor crítico, que toca em um ponto que venho tratando aqui faz tempo: o respeito à autoria das receitas. Paulo Martins inovou na gastronomia paraense e é reconhecido por isso no Brasil e no exterior. Os restaurantes que usam essas criações, bem que poderiam dar o crédito ao criador. Mas ainda não encontrei esse respeito. É, por exemplo, o caso do "Arroz de jambu", cuja história foi contada neste blog: clique aqui para ler. Até denunciei um caso no Rio de Janeiro, onde uma chef assumia a criação do “Muçuã de Botequim”, o que provocou a reação de leitores na Vejinha/Rio! Para ler “Boteco do Rio assume ‘criação’ do Muçuã de Botequim”, clique aqui e para ler “Veja/Rio registra autoria paraense”, clique aqui.

Diante disso, é oportuno ler o que Paulo publicou em 15 de setembro de 2006, antecipado pela ilustração do J. Bosco, que acompanhou a publicação:

OBRAS OU “CÓPIAS-PRIMAS”*


É preciso inspiração divina para criar um prato? Esta pergunta me persegue há muito tempo e é uma das primeiras que todos me fazem, associando-a a outra relacionada com minha profissão: a arquitetura ajuda na confecção e decoração dos pratos novos?

Qualquer exercício de criação requer muita transpiração e conhecimento do que se está fazendo. Inspiração divina, fórmulas mágicas ou secretas, feitas em noite de lua cheia ou em total escuridão - é coisa de quem não domina o seu ofício e faz da sorte e do acaso a inspiração de sua única "obra-prima". Tenho convicção de que Lavoisier tem razão: "na natureza nada se cria, tudo se transforma" - e digo eu: "tudo se copia". Com bons produtos se pode fazer comida ruim, mas com produtos ruins nem mágico faz boa comida. Os grandes mestres em qualquer arte sempre tiveram muito trabalho para produzir obras-primas e marcarem suas obras. Na cozinha é assim também.

O meu processo de criação começa por uma pesquisa na minha "caixinha de cheiros e sabores", que todos nós temos na memória. Essa caixinha vai se fazendo ao longo da vida, com vários componentes. O nariz, por exemplo, é importantíssimo para um bom chef: ele cheira tudo, pois tem que registrar o que sente na sua "caixinha". É comum os chefs também levarem à boca tudo que lhes é apresentado de novo.

Pois bem: com a minha "caixinha" em uso vou fazendo mentalmente novas combinações. Mistura daqui, acrescenta de lá e lá vem a saliva na boca: será que deu certo? Para saber, só fazendo! Mãos à obra.

Ingredientes separados, começamos a fazer o que foi pensado: barriga no fogão, calor, lá vem a divina... transpiração. Muita transpiração depois... Que sorte: hoje eu estava bem inspirado. Só depois da quarta tentativa, com tudo já modificado, vem a certeza de que na próxima vez sai uma obra-prima, que nem o Pará, "obra-prima da Amazônia", como diz o Adenauer (o Góes, naturalmente, não o estadista alemão).

Para que a sua criação dê sempre certo e você não corra o risco de errar, use a lei de Lavoisier, mas faça uma cópia bem feita. Seja modesto, não assuma a paternidade do filho dos outros. Credite a você o mérito de ser um bom copista e não espere que os outros descubram e digam que você não tem imaginação. As pessoas que convivem comigo sabem que é assim que procedo. Só brigo e discuto pela paternidade de minhas três amadas filhas, que tenho certeza de serem as maiores obras-primas que Tânia e eu fizemos.

Arroz de Jambu, Haddock Paraense, Mussuã de Botequim, Picadinho de Tambaqui, Massa Negra de Maniçoba, Pato do Imperador e etc. são "cópias-primas".

A seguir publicou a receita de uma de suas preciosidades, o “Pato do Imperador” – que já encontrei em um restaurante aqui em Belém com o jocoso e até desrespeitoso nome “Pato do Japa”. É que o Paulo Martins criou este prato para o banquete que serviu ao Imperador do Japão em visita a Belém. Mas isso é outra história... Vamos à preciosa receita do pato paulino, apropriada a estas gastronômicas épocas pré-ciriais:

Pato do Imperador

Ingredientes (quatro pessoas)

02 peitos de Pato
01 litro de Tucupi
01 maço de Jambu
03 folhas de Alfavaca
03 folhas de Chicória
02 dentes de Alho
01 unid. de Pimenta-de-cheiro
Sal a gosto
250 gramas de Farinha d'água (de mandioca)
50 gramas de Manteiga
50 gramas Arroz
04 folhas de Acelga
Para o “vinha d’alhos”:
01 unid. de Limão
02 cabeças de Alho
Sal a gosto
100 ml de Vinho branco
01 unid. de Pimenta-de-cheiro

Modo de fazer

Limpar os peitos de pato em água corrente. Em um recipiente preparar o “vinha-d’alhos” com o suco do limão, as cabeças de alho socadas, o vinho branco, a pimenta-de-cheiro, sal e água a gosto.

Temperar os peitos no “vinha-d’alhos" e deixar descansar de um dia para outro na geladeira.

Assar os peitos com papel alumínio, em forno médio, por aproximadamente 20 minutos. Em uma panela colocar para ferver o tucupi com a pimenta-de-cheiro, os dentes de alho, alfavaca e sal a gosto. Em 2/3 do tucupi já temperado ferver os peitos de pato já assados até ficarem bem macios. Desfiar os peitos já macios e reservar. Catar o jambu, separando as folhas com os talos mais tenros, lavar em água corrente.

Em panela com água fervente e sal a gosto escaldar levemente o jambu. Escorrer 3/4 do jambu e com apontada faca picar; o restante conservar em um pouco da água do cozimento.

Fazer o arroz puxado com a parte do tucupi em que foi fervido o pato. Com o arroz já pronto, misturar o pato desfiado e o jambu picado.

Como servir

Em um prato bem grande colocar a folha de acelga e dentro dela o arroz já pronto e misturado com o pato desfiado e o jambu picado. Decorar corn as folhas de jambu que não foram picadas, e regar com o tucupi que .não foi usado para amaciar os patos.

 (*) O título do artigo publicado não tem interrogação. Coloquei, propositadamente, a interrogação no título do post, para questionar o assunto.



Escrito por Fernando Jares às 19h37
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ECOLOGIA NO TRAÇO


Você quer conhecer arte contemporânea, o humor gráfico do mais fino traço, em 29 países ao redor do mundo, sem precisar sair de Belém? Sem gastar nada? É fácil: basta ir ao São José Liberto e visitar o “3º Salão Internacional de Humor da Amazônia”, que será aberto nesta sexta-feira (17/09). Vai até 26 de setembro, com entrada franca.

Artistas de 29 países foram selecionados, entre os quase 600 trabalhos inscritos: os vitoriosos são da Argentina, Austrália, Azerbaijão, Brasil, Bulgária, Chile, China, Chipre, Colômbia, Cuba, Espanha, EUA, Finlândia, França, Hungria, Índia, Indonésia, Irã, Itália, Letônia, Macedônia, México, Peru, República Tcheca, Romênia, Sérvia, Turquia, Ucrânia, Venezuela. São 147 trabalhos, em três categorias: 69 cartuns ecológicos, 42 cartuns de tema livre e mais 36 caricaturas, categoria nova. Tudo coordenado pelo criador do evento, o consagrado cartunista castanhalense, Biratan (Porto).

Esta é uma arte muito bem cultivada pelas ruas de Belém, onde temos nomes premiados nacional e internacionalmente. Entre os paraenses selecionados estão Alessandro Tûnas, André Abreu, Casso, João Bento, Junior Lopes, Luiz Pê, Neto e Waldez.

O tema do Salão é, mais uma vez, “Ecologia no traço”, um assunto que interessa a todo mundo em todo o mundo. Basta ver a amplidão das inscrições. É um salão de sucesso, verdadeiramente mundial.

Haverá também uma mostra de vídeos denominada “Minuto pelo Planeta”, da mesma forma com o tema Ecologia.

O homenageado do Salão é o grande jornalista, escritor, sambista, letrista e carnavalesco, o sempre lembrado e querido, Euclides (Chembra) Bandeira, dono de um aguçado senso crítico e de humor fino. Falecido em 2000, Chembra terá uma sala especial para ele, com dez caricaturas feitas por mestres do traço, daqui e de fora: Alan Souto (RJ), Amorim (RJ), Baptistão (SP), Biratan (PA), Fernandes (SP), J. Bosco (PA), João Bento (PA), Junior Lopes (SP), Luiz Pinto (PA) e William (PB).

Ano passado o homenageado foi o historiador Vicente Salles. Para conhecer algumas peças do salão de 2009, leia “Meio ambiente e história na melhor ilustração”, clicando aqui.

E ainda tem mais: palestras, oficinas e workshops. Tudo “de grátis”. Veja toda a programação, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 19h45
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UM MESTRE DOS SABORES

SETE DIAS DE PAULO MARTINS NO CÉU


Eu não gostaria nunca de ter visto o cartum acima publicado. Mas o chef Paulo Martins foi chamado por Deus na última quinta-feira (09/09) e o Arnaldo (Torres) fez-lhe essa belíssima homenagem, na capa do Diário do Pará de sexta-feira. O mestre inovador, criador da nova cozinha paraense, chegando ao céu, recebido por um Deus com a única preocupação que o Paulo causava aos amigos e conhecidos (antes da terrível doença que o levou): o regime, a dieta! O artista do design mostra a importância do artista de outra manifestação cultural, a gastronomia – e nós, os paraenses, somos muito bons em ambas.

Hoje, no sétimo dia da ida do Paulo, seus amigos e parentes reúnem-se para orar por ele, em uma igreja-monumento, a capela do Colégio Santo Antonio.

Desde o infausto acontecimento, como se dizia antigamente, nos melhores jornais do passado, os melhores jornais e outros veículos de comunicação dos dias atuais registram a perda para nosso Estado e para a gastronomia nacional, desse valioso profissional.

São muitos os aspectos da vida de Paulo Martins a merecer registros especiais. Tenho aqui ao lado inúmeras publicações e amostras de trabalhos realizados a partir dos sonhos e da determinação de Paulo. Mas, para hoje, resolvi publicar alguma coisa do que se disse sobre ele nestes últimos sete dias, resultado de garimpagem que fiz, modestíssima clipagem...

O mestre dos sabores era um urbanista que harmonizava Belém com sua vocação amazônica. A sensibilidade o afastou da administração pública”, disse o jornalista Edir Gaya em sua página no microblog Twitter. Nos 140 caracteres definiu muito bem o arquiteto e chef. Como arquiteto, PM deixou também criativas contribuições à cidade.

O chef (francês) Claude Troisgros, registrou o falecimento de Paulo em sua página no Twitter:

“Faleceu hoje o meu amigo Paulo Martins. Para quem não sabe, Paulo foi um pioneiro na divulgação da arte culinária do Para.

Ele valorizou como ninguém os produtos da terra Paraense. Um homem que amou a sua terra, os seus amigos, a sua profissão.

Obrigado Paulo, e não esquece de levar com você, lá em cima cupuaçu, jambu, tacacá, tucupi, mussuan...”  Naturalmente Claude referia-se ao “Mussuã de Botequim”, uma das muitas criações do Paulo...

O sítio eletrônico do canal GNT registrou assim:

“O chef paraense Paulo Martins, um dos grandes mestres dos sabores regionais, faleceu na madrugada desta quinta-feira (9), por volta das 4h. Formado em arquitetura Paulo entrou na “cozinha” em 1972 quando resolveu abrir um restaurante no porão da casa dos avós. De lá para cá se tornou um dos grandes conhecedores dos ingredientes da Amazônia e mobilizou chefs como Flávia Quaresma, Alex Atala, Bel Coelho e Andrea Tinoco. Responsável pelo consagrado evento "Ver-o-Peso da Cozinha Paraense", Paulo Martins chegou a ser homenageado pelo chef Claude Troisgros em um episódio do programa “Menu Confiança”, em 2009.

Para Claude Troisgros, graças à sensibilidade de Paulo os produtos da gastronomia do Pará ganharam importância mundial. “Paulo, não se esqueça de levar lá para cima tucupi, jambu, cupuaçu, tacacá e, principalmente, sua alegria”, despediu-se Claude.

E disponibilizaram o “Menu Confiança”, gravado aqui pelas ruas de Belém, em homenagem a Paulo Martins. Para ver, clique aqui.

O jornalista Ismaelino Pinto, em O Liberal, registrou assim a perda do grande paraense:

“Antes de Paulo, existiu D. Ana Maria Martins, que fundou o "Lá em Casa", até hoje uma referência gastronômica da cidade em todo o Brasil. Paulo, um curioso da gastronomia, criou pratos e iguarias que hoje se tornaram nacionalmente conhecidas, como a pupunha com queijo roquefort. Paulo foi quem lançou a nossa cozinha no país e trouxe chefes de cozinha do mundo inteiro pra conhecer a mais brasileira das comidas. Com ele vai um tempo de Belém da delicadeza, do refinamento. Com ele vai um pouco da nossa originalidade, sem cópias absurdas, nestes tempos de releituras do que há de pior.”

Carlos Alberto Dória, que citei como epígrafe do post sobre a morte do Paulo Martins (leia clicando aqui), escreveu sobre nosso querido chef: “Homem de grande vitalidade e tesão pelo que fazia, o mundo da gastronomia sofre grande baixa.” Leia “Tristeza Amazônica”, clicando aqui.

Fernando Castro Jr., editor de turismo do Diário do Pará, assim manifestou seu sentimento com o falecimento de PM:

O Pará perdeu Paulo Martins, responsável por fazer com que o Brasil e os principais centros emissores de turistas do mundo olhassem para o nosso Estado como importante destino turístico gastronômico. Criativo e pesquisador de muita acuidade, Paulo Martins deve ser lembrado não apenas como o chef de méritos tão inquestionáveis quanto aplaudidos, mas, sobretudo, porque a partir dele o turismo receptivo no Pará ganhou um novo e importante nicho, que, em sua memória, jamais poderá ser esquecido e, muito menos, deixar de ser trabalhado.”

Em seu sítio eletrônico o suplemento de gastronomia “Paladar”, do jornal O Estado de S. Paulo, assim disse de PM, por via da jornalista Olívia Fraga:

“O profundo conhecimento de ingredientes de sua terra fizeram dele uma espécie de embaixador informal do Pará. Foi Paulo Martins quem apresentou os ingredientes amazônicos a muitos chefs brasileiros e estrangeiros, entre eles Alex Atala e Ferran Adrià. E não era raro ele despachar produtos paraenses atendendo a pedidos de chefs amigos.” Ela também recolheu depoimentos de grandes chefs, que você pode ler, clicando aqui.

O jornalista Elias Ribeiro Pinto, com o título “O nosso chef” publicou no domingo (12/09), no Diário do Pará, muitos trechos de longa entrevista que fez com PM, em 2001, sobre a história do “Lá em Casa” e nossa melhor cozinha. E destacou a importância de seu entrevistado e agora homenageado: “No front de gourmets e comensais, um homem ergueu mais alto a bandeira das nossas delícias. Sob a benção de sua mãe, Anna Maria Martins, Paulo Martins foi o melhor tradutor do comer paraense para os gringos de São Paulo, Rio e alhures. Reuniu em Belém grandes chefs da cozinha brasileira, deixando-lhes à vontade com nossas chicórias & alfavacas.”

Elias também publicou um importante registro histórico, com o belo e imperturbável traço do Luiz Pinto: uma reunião do “Senadinho”, grupo de amigos que se reunia habitualmente no “Lá em Casa”, para longas refeições, ou melhor, longos papos entremeados por excelente comida. D. Anna Maria está no centro e Paulo serve os amigos, alguns que agora estão novamente juntos, lá do outro lado da vida:

 



Escrito por Fernando Jares às 18h09
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EXUBERÂNCIA NO TAPAJÓS

A NATUREZA, O DIVINO E O HUMANO EM FESTA

“Em Alter do Chão não se sente dor, / tem um povo pobre, mas acolhedor. / Por Deus foi criada a sua beleza, / suas praias lindas são da natureza”.

Conheci este marambiré, bem antes de conhecer a beleza das praias que ele cantava e a simplicidade de sua gente. Foi na coleção de LPs (vinis) “Música Popular do Norte” (1976), de Marcos Pereira, em gravação do conjunto “Quem São Eles”, de Alter do Chão. Usei muitas vezes no programa “Turismo Cultura”, que produzi e apresentei na Cultura FM, como ilustração sonora às atrações do rio Tapajós e daquele belo pedaço do oeste paraense. Devo ter pisado pela primeira vez nessas abençoadas areias, lá por 1982/3. Daí, sempre que posso, estico por lá. Já mudou muitíssimo, mas ainda amo muito tudo aquilo.

Ano passado foi especialíssimo: Alter foi escolhida como a melhor praia do Brasil, pelo influente jornal inglês The Guardian (o que você pode ler, clicando aqui) e recebeu a visita do Príncipe Charles, sem sua Camilla. Amores ingleses que repercutem no número de visitantes estrangeiros, que cresce e cresce.

Andamos novamente por lá neste final de semana, Rita e eu, curtindo tudo aquilo – e por isso o blog ficou desatualizado. Motivo mais que justo, acredito e decreto... Olhe o que víamos da janela do hotel:

 

A travessia para a praia é feita em catraias, que são pequenos barcos, canoas, conduzidas por um remador. O movimento estava excepcionalmente grande, neste final de semana. Dê uma olhada nesta foto:

 

Não se trata de nenhuma competição esportiva fluvial. É apenas um momento de rush catraial. Isso mesmo, dezenas de barquinhos atravessando os milhares de visitantes de e para a principal praia de Alter do Chão. Todos ataviados e equipados com coletes salva-vidas, etc. A vila fervia. Gente, gente e mais gente. Muitas vezes mais do que seus habituais 6 mil habitantes. Trios elétricos; festa pra todo lado; artistas badalados e outros nem tanto; carros berradores; políticos famosos e muitos o querendo ser; centenas de cavaletes, placas e assemelhados, até uma versão moderna de homem-sanduíche, na verdade jovens-sanduíche, tudo pretendendo apresentar a melhor opção para o voto.

Mas, por que mesmo estava todo esse mundo lá?

 

Pelo menos teoricamente, o motivo dessa agitação toda é o Sairé, esse artefato ai em cima, conduzido pela d. Maria Justa, que vem a ser a Saraipora, personagem importantíssima, pois tem o privilégio de conduzir o símbolo desta festa religioso-profana. E é um cargo honestamente vitalício. No post imediatamente abaixo você pode conferir o que é o Sairé.

Mas a multidão que vai a Alter do Chão não pensa exatamente nos festejos religiosos que homenageiam a Santíssima Trindade e o Espírito Santo. Na verdade, a maioria procura a festa que acontece no Sairódromo, uma praça especialmente preparada para um típico produto da indústria cultural, o Festival dos Botos. O pórtico de entrada está aqui:

 

O que acontece a partir daí? Tem de tudo. A parte religiosa, no pequeno Barracão; a disputa entre os botos Tucuxi e Cor-de-Rosa, no Lago dos Botos (que é a arena das apresentações); shows com artistas locais e nacionais; muita comida e bebida, em umas tantas barracas, etc. Ah, o Tucuxi ganhou este ano, pela quinta vez, desde a criação do torneio, em 1997.

Mas este fim de semana teve muito mais, que vou esmiuçar em outros posts: como se desenvolve o Sairé propriamente dito; outras belezas naturais, como os lindos e gelados igarapés da região; a boa comida santarena, com que prazerosamente me defrontei; o boa amizade jornalista Miguel Oliveira e sua Rejane, de O Estado do Tapajós, que nos conduziram por meandros gastronômicos e igarapeíferos; o ciceroneamento pelas ruas de Santarém, pelo sobrinho Marcelo e sua Mara, e mais que depois eu conto.



Escrito por Fernando Jares às 21h10
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TEMPOS DE SAIRÉ

COMEÇA O SAIRÉ/2010, EM ALTER DO CHÃO

 

Começa hoje, quinta-feira, a “Festa do Sairé”, em Alter do Chão, a bela vila balneária distante uns 40 quilômetros de Santarém. Vai até segunda-feira, com movimentada programação – muito mais profana do que a motivação religiosa – culto à Santíssima Trindade – que teria motivado o seu início, já vão aí uns 300 anos. Hoje é um acontecimento voltado para o folclore e com o objetivo de atrair turistas e, consequentemente, algum faturamento para os alterenses e para a região.

Ano passado escrevi aqui sobre a festividade, com base em diversos estudos sobre o evento – e transcrevo o trecho que trata do seu desenvolvimento histórico:

Segundo Socorro Santiago, da UF do Amazonas (Çairé, uma festa na Amazônia – 1999) os “padres jesuítas a teriam adaptado de antigo ritual indígena. Ao que se sabe, sempre foi um misto de religioso e profano”. De fato, em “Inventário Cultural e Turístico do Médio Amazonas Paraense”, Violeta Refkalefsky Loureiro e João de Jesus Paes Loureiro (Belém, 1987) citam a pesquisadora do folclore de Santarém, Nice Lobato Gonçalves: “O Sairé é um símbolo de respeito dos índios, usado para homenagear os portugueses (como na foto acima, de O Estado do Tapajós). A sua origem está no fato de que os portugueses que aportavam em nossas terras, exibiam seus escudos. Os índios, então, fizeram o seu, imitando o mesmo modelo da forma dos escudos dos portugueses. Era feito de cipó, recoberto de algodão e outros adornos”. A mesma professora informa que, como nos portugueses, havia cruzes que, neste caso, eram três, que “representam o mistério da Santíssima Trindade. Daí ele ter-se tornado um instrumento religioso”.

Esta festa acontecia em dezembro, junto com as comemorações da padroeira de Alter do Chão, N. S. da Saúde, dia 28.

Em 1943, segundo a prof. Nice, a festa foi encerrada, com a chegada de novos padres (americanos), porque haveria uma exagerada veneração ao sairé (o tal escudo, usado até hoje), “e isso tudo não passava de idolatria”.

O Sairé foi retomado “com cunho folclórico a partir de 1973, como elemento da Cultura Popular Brasileira”, diz a professora, desvinculado das festas religiosas e deslocado para junho.

Em 1997, nova mudança, com a entrada em cena de uma visão, digamos, mercadológica, com forte interveniência do poder público. Passou para setembro, quando o Tapajós está mais baixo e as praias despontam em toda sua beleza (e também fugindo da concorrência da festa dos bois de Parintins); a grafia foi mudada para “Çairé”, considerando que assim está na Grande Enciclopédia da Amazônia, do jornalista e historiador Carlos Rocque e que essa forma teria mais apelo publicitário (ao menos, polêmico...); foi criada uma área própria para os festejos, a “Praça do Çairé”; e a apresentação dos grupos Boto Tucuxi e Boto Cor-de-Rosa.

Sobre a polêmica a respeito da grafia da festa, você pode ler esse post completo, clicando aqui.

 

Este é um registro do Sairé de 1879, apresentado no livro “Çairé – Uma festa da Amazônia”, citado acima, que foi registrado por Herbert Smith, viajante inglês.

Você pode encontrar muitas fotos do Sairé no belíssimo álbum sobre a festa, que está publicado no sítio eletrônico UOL Viagem, clicando aqui.

Alter do Chão, o palco da festa é o mais belo conjunto de praias que conheço, sei que já disse isso aqui. Já ganhou distinções nacionais e internacionais. Já foi visitada por gente famosa, até o príncipe Charles, da Inglaterra. Gosto muito de lá. Pra você gostar também, basta ver fotos como esta, de Rejane Jimenez, que você vai encontrar, juntamente com outras belezuras de lá, clicando no sítio do jornal O Estado do Tapajós, aqui.

 

Nesta época, com as águas mais baixas, as belas praias tapajônicas emergem do rio transparente. Chamar aquilo lá de “Caribe Amazônico” é elogiar o Caribe... Como em todo o oeste paraense, o sol é extremamente generoso em beleza com essas terras, águas e gentes, proporcionando finais de tarde únicos, extasiantes. Para fechar este post, veja abaixo uma foto de domingo passado (05/09), às 18h35, que o autor, o jornalista Miguel Oliveira, de O Estado do Tapajós, denominou, muito justamente, de Milagre da Natureza, que une elementos que expressam a grandiosidade do lugar. Um milagre que os alterenses desfrutam a cada final de dia – já o vi assim, de dentro da água tranquila e limpíssima do Tapajós, considerando-me, Rita e eu, abençoados por Deus pela oportunidade de desfrutar de tão magnífica criação. Vamos lá.




Escrito por Fernando Jares às 11h25
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PAULO MARTINS

 

“O Brasil, desde 1500, se descobre de fora para dentro. Mas parece que isso já começou a mudar, e Paulo Martins sabe disso muito bem.”

 A frase acima, escrita por Carlos Alberto Dória, sociólogo, escritor, especialista em gastronomia, um dos mais respeitados nomes no setor, resume a homenagem que podemos fazer ao chef paraense Paulo Martins, hoje falecido, após dois anos de enfermidade.

Há um vazio. O Pará perdeu um dos paraenses mais radicais na defesa do paraensismo. Não apenas em sua especialidade – o arquiteto que virou-se para o fogão – onde ganhou, de fora para dentro, o honroso título de “Embaixador da Culinária Paraense”. Para ele o Pará era uma entidade que defendia a qualquer custo, mesmo sacrificando amizades. Dizendo o que devia. Quem o conhecia, sabe bem disso. Ele descobria o mundo para o Pará. Ele descobria a gastronomia do Pará para o Brasil e para o mundo!

Tudo está mais lento. O pensar, o dia, até o computador em que escrevo, acostumado a ler e guardar tanta coisa de Paulo Martins em sua memória. Pegou-me desprevenido! Estou de mala pronta para embarcar daqui a pouquinho. Mas vou lá com ele. Um abraço final ao corpo, o beijo da despedida no amigo de tantos anos, parceiro de tantas tarefas, às vezes até batalhas. Do “Lá em Casa” ainda pequeno, no porão da d. Anna. Dos meus jantares com namorada e do dia dos namorados, religiosamente em mesa para dois no “Lá em Casa”. Dos jantares de aniversário de casamento. Da vida profissional, os anúncios, as promoções, as malas-diretas. Esta é uma memória que está bem aqui, vivinha, enquanto penso no quão grande foi o Paulo Martins. Corajoso, audacioso.

Ele foi assunto inúmeras vezes neste blog, merecidamente, nada de coisa de amigo, tanto ele sempre fez pelas ruas de Belém, desde os tempos em que, ainda arquiteto, queria uma cidade melhor, muito jovem ainda, na presidência da CODEM. O segundo post que fiz, nos idos de 2007, quando ainda nem sabia direito como fazer o blog, o Paulo estava presente (leia aqui). O primeiro post foi para Nossa Senhora de Nazaré e seu Círio.

Recebeu o reconhecimento em vida, aqui, pelo Brasil e no exterior. Terá se apercebido, na doença, que o maior e mais famoso chef do mundo, o espanhol Ferran Adrià, veio a Belém para visitá-lo? Tomara que sim.

Paulo, até breve. Dá um beijo na d. Anna por mim.



Escrito por Fernando Jares às 09h59
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MEMÓRIA DE SANTARÉM

A HISTÓRIA RECENTE POR FONTES DO COTIDIANO


As 420 páginas do livro que você vê acima, que tem formato grande, de 22x32cm, guardam os mais variados aspectos da história de Santarém e da gente santarena, em uma forma leve e agradável de ler, sem os rigores e a (muitas vezes) difícil linguagem acadêmica, que segue os rigores da ciência. Baseado principalmente em fontes impressas e em depoimentos, no exercício de sua brilhante verve, o jornalista Lúcio Flávio Pinto montou um bem organizado mosaico da história da cidade em que nasceu. Tipo o trabalho que ele vem fazendo há tempos no Jornal Pessoal e que já resultou em dois livros “Memória do Cotidiano”, onde exercita a linguagem jornalística que tão bem domina.

Ao longo de uns cinco anos Lúcio foi levantando essas informações, que publicava em um encarte no jornal O Estado do Tapajós, dirigido pelo jornalista Miguel Oliveira (outro grande profissional que passou pela “escola real” que foi a redação de A Província do Pará), ao qual tinham acesso apenas os felizes moradores da Pérola do Tapajós e alguns que recebiam a publicação em terras outras. Tive o privilégio de ler alguns desses encartes que o Paulo Ivan Campos recebia lá na Albras.

Lúcio Flávio, na “Apresentação” do livro, explica que “Esse conjunto de informações, extraídas de jornais e outras fontes cotidianas, mostra que esta terra tem história e tem inteligência. Não é um acampamento montado às pressas para abrigar pessoas em trânsito, em busca de sucesso ocasional e individual. Os personagens que surgem destas histórias e estórias participaram ou continuam a participar da construção de uma comunidade, de uma cidade, de um município e de um Estado, transmitindo entre si suas experiências e anseios.”

A apresentação do livro é primorosa e merece um destaque especial. O projeto gráfico é do designer Paulo Sérgio Bastos, como sempre competente e cuidadoso com o que faz. Todo o conjunto está muito bem, capa, sobrecapa, contracapa, divisórias, tudo muito classudo, como diria o falecido jornalista Edwaldo Martins, trabalhado em preto e branco. Gostei demais das vinhetas do barco e do aeroplano (um Catalina), presença na sobrecapa e que ilustram as capas internas e o leiaute das divisórias dos capítulos. A capa que você vê lá em cima, ainda não tinha o nome do autor e da editora. Outro destaque é a impressão, com capa-dura e sobrecapa, tudo feito em Santarém, pela Gráfica Tiagão. Comprei o meu exemplar na revistaria “12 horas”, no Boulevard Shopping e custou R$ 60,00. Aqui pelas ruas de Belém o livro está também na Fox e na Newstime.

Segundo o diretor-editorial da obra, jornalista Miguel Oliveira, em declaração à Agência Pará, trata-se de um livro de consulta sobre fatos e personagens da história de Santarém. Miguel explica que “o conteúdo do livro é quase que documental. Tivemos a preocupação de incluir no livro, por exemplo, a transcrição de documentos oficiais ou eclesiásticos que estavam condenados ao limbo. Esse mérito o livro tem, que é de resgatar acontecimentos a partir do testemunho de personalidades e pessoas do povo, mas temos a consciência de que esta é apenas uma parte da história da cidade", declara.

Tudo bem, de minha parte bem que gostaria que o livro tivesse mais fotos, mas...

Uma coisa que gostei bastante: a catalogação dos assuntos e o belo índice remissivo ao final. Mão na roda para quem pesquisa ou estuda.

Veja aqui os assuntos tratados no livro: arte e cultura de Santarém; antologia das enchentes e da várzea; política santarena, a influência do baratismo (1940/1965) e o trauma pós-cassação de Elias Pinto (1966/1971); o dia a dia de Santarém no século XX; a questionável gestão pública no século XX; a vida social da elite santarena; a marcante presença nordestina; a bola que rolava nos gramados santarenos; cronistas viajantes e um olhar curioso sobre Santarém; gente que marcou a história santarena; religião: o diário inédito de D. Anselmo e a influência histórica do catolicismo; antologia em verso e prosa; projetos inacabados de desenvolvimento econômico; comunicação em Santarém; o retrato de uma época através de anúncios e propagandas.

O livro foi lançado nos festejos dos 349 anos de Santarém, 22 de junho, e teve o apoio do Governo do Estado do Pará, Prefeitura de Santarém e da Mineração Rio do Norte.

Abaixo, vista aérea da cidade, de 1957, que faz parte do livro "Memória de Santarém":




Escrito por Fernando Jares às 18h56
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PEDRO TEIXEIRA

NA INDEPENDÊNCIA, O DESBRAVADOR

Dia destes li no jornal sobre a revitalização da praça Pedro Teixeira, ali no início da av. Presidente Vargas, local que os mais antiguinhos chamavam de Escadinha do Cais do Porto... Estava suja e maltratada, como de resto muitos logradouros públicos.

Tem este nome desde os festejos dos 350 anos de Belém, em 1966, quando foi inaugurada a grande estátua em homenagem ao desbravador da Amazônia, o navegador Pedro Teixeira – estátua que agora foi lavada e ganhou melhor apresentação.

Teve inauguração com pompa e circunstância, como a merecer o dito personagem. E por isso ganhou um encarte especial no jornal Folha do Norte de 6 de outubro de 1966, com alegoria na capa unindo as bandeiras do Brasil e de Portugal (ilustração do desenhista Aderbal Mello). Achei que esta ilustração tinha a ver com o Dia da Independência, pelo que ele andou por aí a desbravar e pautei para hoje...


A edição foi uma “Homenagem de Victor C. Portela S. A. Representações e Comércio à Cidade de Belém, Pelo Seu 350 Aniversário de Fundação no Dia em Que é Inaugurado o Monumento a Pedro Teixeira” informava a capa da publicação. Já falei aqui, algumas vezes, dessa firma, pois foi lá que comecei a trabalhar. Ficava na praça Visconde do Rio Branco, onde hoje é a sede da FotoAtiva. Mas isso é outra história.

O dito Victor C. Portela era importante líder na comunidade portuguesa e teve muito a ver com o acontecimento. Tanto que assina uma página sobre a constituição de um “Centro de Estudos Portugueses”, em conjunto com a Universidade Federal do Pará. Há também artigo do historiador Ernesto Cruz, de Augusto Meira Filho, do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, e um depoimento do jornalista João Malato.

Segundo a publicação, a ideia de homenagear Pedro Teixeira era antiga, pelo menos desde 1941 o engenheiro Augusto Meira Filho imaginava uma praça na quadra da Presidente Vargas, entre Aristides Lobo e Ó de Almeida, até a Frei Gil (onde hoje está o Palácio do Rádio). Convidou até o arquiteto David Lopes para, juntos, criarem o projeto. A coisa ganhou corpo, o prefeito Abelardo Condurú aprovou e logo deu partida nas desapropriações. O projeto teria, inclusive, área para estacionamento de carros, inclusive no subsolo. Uma coluna de 18m seria a base para a estátua do conquistador, em bronze. Tudo foi se encaminhando, até por volta de 1951, quando tudo foi... parando. Sabe como é, mudança de prefeito, de partido, etc.

O projeto voltou, sob a liderança da colônia lusitana, que decidiu fazer a homenagem, chamando Meira Filho e David Lopes para tocarem a obra. Novo local (o atual) foi escolhido e inteiramente urbanizado, em espaço cedido pelos SNAPP (Serviço de Navegação da Amazônia e Portos do Pará, hoje CDP). Prédios de madeira que havia no local (Correios e Sindicato) foram refeitos em outra área, em alvenaria. A prefeitura preparou o local (o prefeito era Stélio de Mendonça Maroja) e o monumento foi ofertado pela Comunidade Portuguesa A estátua, de duas toneladas, em bronze, foi produzida em Lisboa pelo artista Antonio Duarte. Mármores do pedestal e a rosa dos ventos perfazem 40 toneladas. Os trabalhos de engenharia estiveram sob a responsabilidade do engenheiro (português) Laurindo Amorim, que assinou muitos prédios em Belém, como o da sede social da Assembleia Paraense, na Presidente Vargas.

E viva o Dia da Pátria! Embora aqui, pelas ruas de Belém, muita gente não tenha tido a oportunidade de comemorar, especialmente trabalhadores em supermercados e comerciários de grandes lojas, obrigados a trabalhar em pleno feriado nacional, a principal data cívica do país. Para atender a ganhância dos empresários e pela necessidade dos trabalhadores ganharem “mais algum” no final do mês, junto ao pequeno salário.



Escrito por Fernando Jares às 18h52
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MENEZES & NUNES

A ARTE NOVA DE BRUNO NA VISÃO DE BENEDITO


Quando escrevi aqui sobre a Feira do Livro (encerrada ontem) citei um folder sobre o patrono, Bruno de Menezes, distribuído no estande da UFPA. Imagino que muita gente ficou sem ele, ou nem teve conhecimento da peça. Como publica uma fresquíssima crítica assinada por Benedito Nunes, que vem a ser o presidente do Conselho Editorial da Editora da Universidade Federal do Pará e o maior pensador e crítico literário, entre os viventes pelas ruas de Belém, decidi transcrever esse artigo a seguir, como homenagem a Bruno de Menezes, a Benedito Nunes (finalista no Prêmio Jabuti/2010, prêmio que ele já ganhou em 1987!) e aos leitores deste espaço virtual. A capa do folheto está aí acima. O texto de BN, abaixo:

O índio e o caboclo já tinham retomado, no cenário modernista, o lugar que ocupavam desde o romantismo. São eles que se mitificam na grande suíte das raças que coloca Macunaíma, em 28, como estrela luzindo no céu do Brasil. Do mesmo ano data o grande poema afro-brasileiro, de Jorge de Lima, Essa Nega Fulo, quase um paradigma da nossa poesia negra, que Gilberto Freyre e Roger Bastide foram os primeiros a interpretar.

Para Gilberto Freyre, trata-se, em Jorge de Lima, de uma poesia mestiça, miscigenada, que une culturas em vez de separá-las. Jorge de Lima, como Bruno de Menezes, também dá a palavra ao negro. "Seu verbo se faz carne: carne mestiça". O negro já aparecera, com o naturalismo de Aluisio de Azevedo, no romance O Mulato. Faltava, para que ele aparecesse na poesia, simplesmente como homem, independentemente de sua condição de escravo contra a qual Castro Alves se bateu, o recuo do culto da forma dominante com o parnasianismo. Esse recuo foi propiciado pelo simbolismo, que facilitou a aparição do verso-livre. E o verso-livre deixou passar os ritmos africanos. Essa franquia deu-se ao mesmo tempo em que estudos antropológicos e sociológicos destacaram o papel das etnias na formação do povo brasileiro. Escrevia Roger Bastide, nos anos 40, em A Incorporação da Poesia Africana à Brasileira: "Os poetas brasileiros se serviram, de modo análogo, de estudos científicos, e, ainda atualmente, procuram neles elementos poéticos. Mas é nisso mesmo que o lirismo africano do Brasil encontra a sua maior originalidade. Pois é evidente, diz ele, que os fenômenos afro-brasileiros diferem dos fenômenos afro-norte-americanos e dos fenômenos puramente africanos. Por isso, três poesias mais ou menos na mesma época vão seguir vias diversas: a da Europa cantando o negro puro, a da América cantando o negro ocidentalizado, a do Brasil cantando o momento saboroso do sincretismo e das metamorfoses" (op.cit. 40/41).

Os ritmos africanos, mostrou-o Bastide, nada têm a ver com "o ritmo clássico dos antigos poemas". Acrescente-se que o que caracteriza "o estilo da África é força do ritmo; até se pode dizer que sua arte é apenas ritmo". Vingando o verso livre, por força da revolução modernista, "nada mais impedia que o lirismo apreendesse e incorporasse, em sua carne, as batidas do tambor, as pulsações do sangue negro e novas musicas". Em Batuque, de Bruno de Menezes, e nos Poemas Negros (os propriamente ditos e outros) de Jorge de Lima, com os quais os do nosso poeta têm afinidades, rufam as batidas do tambor e pulsa o sangue negro. Xangô, de Jorge de Lima, põe-nos no espaço de um terreiro como a primeira das vinte composições que formam Batuque. Num e noutro, o ajuntamento de raças. Em Xangô são quimbundo, cafuzos, cabindas, mazombos. Em Batuque são cheiros vegetais, gaforinhas, pixains que rodopiam no terreiro.

"Rufa o batuque na cadência alucinante..."

Cessaram as sublimações e o regime do alevantado ideal em Bruno, e no adestrado sonetista Jorge de Lima o alexandrino deixou de vingar. Num e noutro, o mesmo sentimento de irrevogável mágoa - não piedade - pela desumanização do negro escravo - e de orgânica e temporal solidariedade com os sofrimentos dele. De Jorge de Lima em Olá! Negro:

“Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos

e a quarta e quinta gerações de teu sangue sofredor

tentarão apagar a tua cor!”

...................................................

Negro, ó antigo proletário sem perdão,

Proletário bom

Proletário bom

Em que se distinguem os dois poetas, pois que ambos dramatizam a situação do negro? Em Jorge, o reconto prepondera sobre o drama; em Bruno, o drama é em parte ritualístico. Naquele, o negro é objeto passivo de uma história, No último, é um protagonista atuante, que fala, canta e dança. Cada parte do livro de Bruno vem ou pode vir acompanhada de partitura. A fala ou canto recebe em geral o enxerto de toadas de cunho popular ou de extração folclórica.

A face ou fase modernista da obra poliédrica de Bruno não gerou apenas uma poesia de ressonância afro-brasileira. Quero crer que o painel a ela correspondente abrigou - e penso que o poeta sabia disso e o cultivou - um dos mais autênticos projetos por parte de um poeta de formação erudita, praticante do metro e cultor da rima, de uma poética verdadeiramente popular, alimentada por essa tradição sedimentada que chamamos de folclore, com suas danças de roda, folguedos juninos, fórmulas mágicas, adivinhações, toadas. Desse ponto de vista, Bruno é inventor, um Orfeu Negro; e como inventor, único em seu gênero.

Belém, agosto de 2010

Benedito Nunes

BIO

Na parte interna há um apanhado da vida de Bruno, que aproveito para reproduzir também e assim contribuir para o conhecimento sobre o grande poeta paraense:

A voz de Bruno de Menezes sai de dentro dos tambores. Uma voz que ecoou pela primeira vez no mundo no dia 21 de março de 1893, em Belém do Pará, no bairro do Jurunas, onde Bruno nasceu.

Uma voz especial, que, assim como aprendeu observando o mundo que o rodeava a traduzir poeticamente as raízes da cultura negra e mestiça, aprendeu também os afazeres e os ofícios da vida prática, tornando-se, aos dez anos de idade, aprendiz de encadernador e, aos dezessete, aprendiz de gráfico, ofícios que lhe proporcionaram um contato maior com o universo dos livros. Vale dizer que aprendeu tudo quase por si só, porque cursou apenas o curso primário no Grupo Escolar José Veríssimo, em Belém Casou-se com Francisca Santos de Menezes, com a qual teve sete filhos.

Bruno atuou em várias frentes da cultura: fundou, em 1923, a revista literária Belém Nova. Em 30 de maio de 1944, tornou-se membro da Academia Paraense de Letras, ocupando a cadeira de Natividade Lima, e presidiu a entidade de 1956 a 1958. Pertenceu também ao Instituto Histórico e Geográfico do Pará e à Comissão Paraense de Folclore.

Em 1960, o reconhecimento fora do estado veio da Bahia, recebendo o primeiro prêmio "Cidade de São Jorge dos Ilhéus" no concurso de sonetos para as "Chaves de Ouro" de Guilherme de Almeida, da Academia de Letras de Ilhéus (Bahia).

Por volta de 1920, quando o simbolismo dominava o panorama da poesia no Pará, irrequieto, Bruno de Menezes ansiava por uma nova poética, apontando para o modernismo, no poema "Arte Nova":

“Eu quero um’Arte original... Daí

esta insatisfação na minha Musa!

[...]

Gloriosa um’Arte que os Ideais renova!

- Razão da causa por que eu me requinto

na extravagância de uma imagem nova!”

Bruno de Menezes, Dalcídio Jurandir e Jacques Flores, entre outros, lideravam o grupo de poetas que se autodenominaram “Vândalos do apocalipse”, o que prenunciava o espírito novo que os animava. Mais adiante, já integrados nas raízes do povo paraense, reuniam-se na feira popular do Ver-o-Peso, e o grupo passou a chamar-se “Peixe Frito”.

No dizer de Machado Coelho (em A Província do Pará, 1953), os poemas selvagens de Bruno de Menezes são "cheios de expressão, de naturalidade, de colorido, de pensamento, de tudo enfim que é de nossa terra e de nossa gente"

Anunciando o modernismo em Belém, o lirismo do poeta de Batuque se fez sangue e corpo no ritmo do negro e do mestiço paraense com cheiro e raízes misturadas: "Patchouli, cipó-priprioca [...] crioulas mulatas gente pixaim..."

“A carne transpira... é o almíscar da raça

É o cheiro malino que sai da mulata.”

Em 2 de julho de 1963, a voz que reuniu as vozes de negros e mestiços, emudeceu, aos setenta anos de idade, em Manaus, mas seu canto continua vivo, ecoando entre nós.

ARTE NOVA

No texto acima é citado o soneto “Arte Nova”, que reproduzo abaixo, tal como está no trabalho “Bruno de Menezes e o modernismo no Pará”, da professora, mestre em letras, Terezinha de Jesus Dias Pacheco, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Santarém), que você pode ler na íntegra clicando aqui.

 Arte Nova

Eu quero um’Arte original... Daí
esta insatisfação na minha Musa!
Ânsias de ineditismos que eu não vi
e o vulgo material inda não usa!

E a Idéia é ignota... A Perfeição em si,
tem segredos de morte e alma reclusa...
Sendo a glória espinhosa, – eu me feri...
justo e, pois, que este sonho arda e relusa!...

Toda a volúpia estética do Poeta
que eu sou, – para a Poesia que mim sinto,
provém desse Querer em linha reta!

Gloriosa um’Arte que os Ideais renova!
– Razão da causa por que eu me requinto
na extravagância de uma imagem nova!

Segundo a professora Terezinha de Jesus Dias Pacheco,Arte Nova’ é um metapoema, no qual o autor tenta questionar o fazer poético. Para ele, a criação poética é um árduo trabalho, é tirar a palavra de um encarceramento semântico. Re-significar as palavras é uma tarefa que se impõe: rever conceitos e formas literárias é uma necessidade íntima do poeta. Ele, embora sem direção, já anuncia a sua nova concepção de poesia. Caminha para a liberdade de poder expressar o que estiver de acordo com sua concepção poética. O sujeito desse poema repudia todos os postulados canônicos da poesia, até então instituídos. Começa a querer destruir as amarras que aprisionam as palavras em regras. Através de uma forma poética canonizada – o soneto – Bruno de Menezes tenta experimentar o novo na literatura.”

Para ler mais sobre o patrono da Feira do Livro e o poema Batuque, clique aqui.

 



Escrito por Fernando Jares às 19h03
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COMENDO NA FEIRA E NO RIO

COMIDINHAS CULTURAIS HISPANO-PARAENSES

Numa feira de caráter cultural, como a Feira do Livro, alimentam-se muitos outros aspectos da humanidade, além daquele estritamente vinculado ao intelecto. Por exemplo alma, ou o espírito, como querem alguns, encontra grandes espaços, com livros e músicas. O alimentar a cultura musical, erudita ou popular, tem destaque também – e neste ano, tome destaque no popular.

Mas andar, andar, andar por aqueles corredores é como caminhar pelas ruas de Belém, dá uma fominha danada... Por isso a alimentação corporal não pode ser descuidada e a Feira tem lá grande praça, interna e externa, dedicada a agradar o estômago, com variadíssimas opções, de pizzas a biscoitos (de Caicó, no RN), de sanduíches a sorvetes, etc. etc.

Desenvolvi nos últimos anos um ritual gastronômico: começo a visita à Feira do Livro pelo “estande” dos “Churros do Chaves”:

 

Este ano os “Churros do Chaves” tinham a companhia de batatas fritas do mesmo Chaves. Inicio sempre a visita nesta barraca, para comer seus deliciosos churros de... cupuaçu (R$ 2,00). Isso mesmo. Eles fazem este tradicional doce de origem espanhola, muito popular em feiras e eventos semelhantes por todo o Brasil, com recheio do nosso cupuaçu! E o doce, daquele amarelinho, dourado, é bom mesmo, ano após ano eles mantêm o padrão. E eu a freguesia... Aliás, são sempre dois, um na chegada e um na saída. E não vão mais porque aquela delícia carrega uma elevadíssima dose de óleo... e eu fico com medo de encontrar a minha cardiologista.

Na chamada Praça de Alimentação, no interior do Hangar, deparei com uma opção que logo me cativou:


É o que você vê: “Iscas de Pirarucu com Açaí” (R$ 18,00), na companhia da recomendável farinha baguda e torradinha (como recomendou-me, recentemente, o poeta Ronaldo Franco), a prima farinha de tapioca, esta menos torrada do que seria de desejar, e um arroz neutro. O açúcar eu dispensei.

Lá estava na Praça de Alimentação o “Point do Açaí” de quem já me declarei aqui fã. Os caras trabalham profissionalmente e com competência e entregam sempre qualidade. Gosto disso. Em um ambiente movimentadíssimo, tudo rápido, carregado mesmo, eles não perderam o rumo. E olhe que eu estive lá nas duas vezes que visitei a Feira... E fui à mesma pedida. E fiquei satisfeito. A Rita, mais comedida, acompanhou-me com um “Açaí Especial” (R$ 9,00) que, se não era daquele “papa” que ela tanto gosta, teve plena aprovação pelo gosto fresquinho.

 

COMENDO PARAENSEMENTE EM PARATY

Eis que a Gracinha, paraense que vive lá em Paraty (RJ), manda avisar que o seu “Quitutes da Gracinha”, nessa histórica e bela cidade fluminense, tem festival paraense neste sábado, 04/09. Olha só como ela anuncia o cardápio:

Caranguejo na Cuia (massa de caranguejo refogada com azeite de oliva, servido na cuia com farofa de farinha d´agua do Pará) R$15,00
Sopa de Caranguejo R$13,00
Pato no tucupi (Pato assado servido no caldo de tucupi e folhas de jambu) R$31,00
Arroz Paraense (arroz preparado no tucupi, com folhas de jambu e camarão seco salgado) R$29,00
Maniçoba (Folha de mandioca brava moída e cozida durante 7 dias, acrescida de carne-seca, toucinho fresco, toucinho defumado, paio, chouriço paraná, bacon, calabresa, dobradinha e geléia do mocotó de boi)  R$27,00
Delícia de Cupuaçu (creme feito com a polpa do cupuaçu, leite condensado e creme de leite, servido com doce de cupuaçu)  R$13,00
Suco de Cupuaçu.R$7,00
Suco de Bacuri  R$7,00
Tudo em Paraty é histórico, literário, carregado de cultura. Pois bem, olha só endereço do “Quitutes da Gracinha”: Rua João Guimarães Rosa, 19 (sobrado branco e azul, rua da Defesa Civil) Portal das Artes, Paraty. Já contei neste blog a história da maniçoba da Gracinha. Leia aqui.



Escrito por Fernando Jares às 17h55
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MARTINI-ISETTA?

GLAMOUR ITALIANO PELAS RUAS DE BELÉM

Quem encontrar uma Isetta vermelha, um carrinho italiano dos 1950, circulando pelas ruas de Belém ou estacionado na porta de um bar, restaurante, balada e até em um ponto turístico, não pense que caiu na máquina do tempo. Repare bem: em volta dele, só modernidade e gente jovem e bonita. Na porta, a marca das bebidas “Martini” e, na parte de trás, uma forma diferente de abrir, exclusiva deste modelo que por cá circula. Na verdade você estará diante da Martini Isetta:

 

Trata-se de um bar móvel, que faz parte de uma ação promocional, servindo os drinks de Martini, hoje o vermute mais consumido no mundo, segundo o fabricante. A marca italiana conserva a receita original há mais de 140 anos, sempre com imagem associada à sofisticação e ao glamour. Por isso associaram a bebida ao carrinho Isetta, cultuado pelos colecionadores e amantes de carros antigos. Nestas suas andanças já pararam pelo Capital, Forneria, devem estar pelo Louvre, Templários, por aí, pela noite. Sempre com as diversas opções de Martini, em drinks caprichados.

São duas coisas que gosto: Martini e miniatura de carros. Este, “de verdade”, já é uma miniatura, portanto a amar sem fim. A Isetta teve uma versão no Brasil, lançada em 1956, pelas indústrias Romi, com o nome de “Romi-Isetta”, que todo mundo chamava de romiseta. Sempre amei esse carrinho. Para os com um pouco mais de idade relembrarem o modelo e os mais novos conhecerem, aqui estão fotos promocionais do veículo, da época do lançamento, que captei do sítio eletrônico da Fundação Romi, que vale a visita: clique aqui. A garota propaganda, como se dizia naquele tempo é a atriz... Eva Wilma! E o jovem que a acompanha, John Herbert.


 



Escrito por Fernando Jares às 17h50
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CULTURA NA FEIRA

PELAS RUAS DA FEIRA DO LIVRO

Dezenas de milhares de pessoas circulam diariamente, nesta semana e até domingo, na 14ª edição da Feira do Livro. Já tratei do assunto neste blog (para ler “Batuque Afro-Paraense Inspira Feira”, clique aqui), ao homenagear o patrono do evento, o escritor paraense Bruno de Menezes, um grande revolucionário das letras.


Benedito Nunes, nosso mestre maior da crítica literária, escreveu ainda agora, mês passado, sobre Bruno a frase acima, trecho de um texto que devia ser “obrigatório” para quem visita a Feira, recebendo-o na entrada. Mas poucos devem ter tido acesso a ele.

Bruno de Menezes, o grande homenageado da Feira do Livro, é o grande ausente da feira de livros. Não vi livros de Bruno à venda (sobre esta ausência, Elias Ribeiro Pinto escreveu muito bem no “Diário do Pará” de domingo passado, 29/08: “‘Esqueceram de mim’, diz o fantasma do patrono”). No grande salão dos estandes só encontrei o mestre das letras modernistas paraenses no estande da Universidade Federal do Pará, sem dúvida o melhor da Feira. Foi lá que fotografei o painel acima. Foi lá que recebi o único folheto que vi na Feira sobre Bruno de Menezes, com esse texto de Benedito Nunes. Veja aqui o lado externo do estande da UFPA, em bela foto de Bruno Carachesti, que captei do sítio eletrônico da Feira do Livro:

 

No andar superior havia uma bonita exposição fotográfica e de painéis sobre a vida e a obra de Bruno de Menezes, com material de primeira qualidade, trabalho de muito valor, de que gostei bastante, seja pelo conteúdo, seja pelo formato da apresentação.

 

Apenas senti a falta de algum tipo de acompanhamento, monitoria, ou algo interativo, que captasse a atenção dos milhares de jovens que vi circulando por lá. Fiquei mais de meia hora observando o comportamento da galerinha. Pouquíssimos paravam e liam, um ou dois painéis, no máximo. Muitos tiravam fotos com seus celulares, a grande mania da garotada – até eu posei, cercado por uma turma que, provavelmente, achou ter encontrado um papai-noel fora de época...

Um bom número de palestras apresentou Bruno e sua obra a um público, pelo visto, em sua quase totalidade de jovens estudantes, animadíssimos – não sei se com a cultura que lhes era oferecida ou se com a folga da aula... Espera-se que tenham apreendido o valor desse grande escritor paraense.


Na Feira do Livro, quem menos brilha é o livro! Coisas estranhas de Belém...” escreveu o publicitário Adelino Neto no Twitter. Naturalmente influenciado pela força extraordinária dada à promoção dos shows milionários trazidos para atrair dezenas de milhares de pessoas, todas as noites, aos espetáculos. De tal forma isso foi determinante, que o anúncio de abertura da Feira focou exclusivamente nos shows: "10 dias de show com atrações nacionais e locais", chamando para a apresentação do Timbalada, do Pagode do Bilão, Jorge Aragão, Leila Pinheiro, etc. Nenhuma linha sobre a Feira como evento cultural e literário ou sobre os conferencistas presentes. Realmente estranho. Tem razão o Adelino.

Fui, até agora, duas vezes à Feira, ficando por lá algumas boas horas, varando rua por rua, esquadrinhando os estandes mais interessantes – para o meu gosto e interesse. A feira é um grande varejão de livros, com alguns conferencistas ilustres e shows de nomes de grande impacto popular. Senti falta de alguns expositores de outros anos, mas consegui fazer algumas boas aquisições, como “A Amazônia na era pombalina”, no estande do Senado. Preciosidades nos sebos. Alguns nos Autores Paraenses, sempre bem movimentado.


Falei acima no Benedito Nunes: que bom encontrar “Hermenêutica e Poesia”, no estande da UFMG (foto acima), livro que reúne aulas de um curso que BN ministrou por lá. Uma obra em que os mineiros se desdobram em elogios ao mestre: “Benedito Nunes trouxe de novo para nossa meditação ‘ainda’ filosófica, a perspectiva oferecida pelo autêntico Pensar, pelo Pensamento originário, que é sempre o Pensamento do Ser” diz o filósofo e professor Moacyr Laterza, já falecido.

 

No estande da “Alliance Française” havia muita coisa sobre a Guyane e até ganhei o jornal “Ròt Kozé”, editado em Cayenne. Encontrei lá o livro que está aí em cima: “Belem", de Jean-Yves Delitte, que não conta histórias pelas ruas de Belém, mas que apresenta, em quadrinhos, a trajetória do navio com esse nome, lançado em 1896 e que viveu grandes aventuras nos mares do mundo. É o segundo de uma série de três volumes.

O espaço da Secretaria de Cultura, no estande institucional da Feira, praticamente homenageia Paulo Chaves Fernandes, o titular da Secult no governo anterior, já que quase tudo que é oferecido para venda foi editado naquela administração, como CDs, livros, álbuns, etc. Infelizmente na atual esse precioso registro e divulgação da cultura paraense foi descontinuado e até as lojinhas encerradas.

Na capítulo alimentação, come-se bem, na Feira. Mas isso é outra história.



Escrito por Fernando Jares às 21h59
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BOA SORTE ATRAVÉS DOS TEMPOS

DE 10 MIL RÉIS A 70 MILHÕES DE REAIS

Buenos dias amigos! Lembrem-se que hoje pode ser o seu último dia de assalariado.” saudou hoje logo cedo os seus mais de 1.200 seguidores no Twitter, o diretor de cinema Ronaldo Salame (@RSalame). E não foi o único. Centenas, milhares de brasileiros fazem comentários semelhantes esta semana, porque a Mega-Sena está acumulada e vai pagar hoje (se sair...) o terceiro maior prêmio da história, 70 milhões de reais.

Para ter direito a entrar nesta disputa, esses milhares (ou milhões) de brasileiros enfrentam filas, gastam alguns, ou muitos, trocados, utilizam todo tipo de artifício para identificar números premiados, analisam sonhos e mensagens inesperadas, animais que nos cruzam a frente – ou mesmo em laterais distantes, vale tudo.

Mas não pense que estamos sozinhos nessa empreitada de buscar via sorte o volume de dinheiro que nos é muito difícil, quiçá impossível, amealhar com o simples ato de trabalhar honestamente. As loterias existem de muito. Dizem alguns que desde o século XVII.

Aqui pelo Grão-Pará parece que sempre demos bastante valor a essa questão de buscar um dinheirinho (de preferência, dinheirão) via lotérica. Veja só o anúncio abaixo:

 

Foi publicado em “A Província do Pará”, no final do século XIX e está no livro “A história de A Província do Pará”, do jornalista e historiador Carlos Rocque.

A Agência de Loterias do “Bazar Paraense” anuncia que vende bilhetes de loterias de diversos Estados, não apenas a “Loteria do Gram-Pará”, que era a versão local desta forma mais facilitada de ficar rico, pois às quartas feiras tinha um prêmio de 10 mil réis. Era possível, com uma ida à Rua dos Mercadores (hoje João Alfredo) adquirir bilhetes das loterias do Ceará, da Paraíba, de Pernambuco ou de Alagoas.

Os agentes Corrêa de Miranda & Cia. informavam que “Esta agência recebe telegramma de todos os premios no mesmo dia da extracção”. Nada de estresse esperando o resultado! Moderníssima, a agência utilizava os mais recentes recursos de comunicação para atender o anseio de seus clientes diante da fezinha feita. Não muito diferente de hoje, apenas variando os meios de comunicação e o volume da participação dos jogadores: o país deve parar na hora do sorteio. Aliás, atente para a modernidade do anúncio, todo produzido, coisa rara naquelas épocas, com ilustrador famoso que até assina (L. Johnson & Co.) a peça.

E aqui abaixo está outro anúncio, também publicado em “A Província do Pará”, naqueles idos do final dos 1800, que captei na mesma fonte do Carlos Rocque. A “Casa da Fortuna” de Almeida & Fialho, que se anunciam como “os primeiros cambistas”, chama os jogadores de última hora para a “Loteria do Gram-Pará”, que “extrahe-se hoje”. Portanto é anúncio publicado em uma quarta-feira, como hoje... avisando que ainda havia bilhetes disponíveis.

Boa Sorte, como já deviam dizer os leitores de “A Província do Pará” aos amigos, naqueles tempos.

OBS.: No sorteio desta quarta-feira, ninguém levou o prêmio maior, que acumulou novamente, passando para a faixa de R$ 85 milhões, no sábado, 04/09. Mais boa sorte para os apostadores leitores deste blog.



Escrito por Fernando Jares às 10h56
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