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PELAS RUAS DE BELÉM


DE BELÉM PARA O RIO DE JANEIRO

Acompanhei a notícia da nomeação de D. Orani João para a Arquidiocese do Rio de Janeiro como, acredito, a maioria dos católicos paraenses: um lado de alegria, por ver o crescimento, em nossa igreja brasileira de um homem de grande valor, uma importante liderança cristã nacional, que fica assim bem próximo à dignidade cardinalícia; um outro lado de tristeza, por termos desfrutado por tão pouco tempo de sua atuação dinâmica e objetiva.

O dia cheio de ontem não me permitiu escrever a respeito e, como hoje é sábado, dia de folga do blog, só ia comentar a mudança na segunda-feira. Mas o cartum de hoje do A. Torres, no Diário do Pará, que está aí em cima, me fez estar aqui a escrever. O Arnaldo (Torres), de quem fui colega na grande escola de todos nós que foi o jornal A Província do Pará, foi de uma felicidade, e competência, muito grandes ao aliar as imagens de D. Orani e do Cristo Redentor para, em bela linguagem figurada e rica em simbologia, transmitir a missão/desafio que esse pastor terá no Rio, ao tempo em que se despede de seus fiéis de Belém.

Os frutos da presença de D. Orani entre nós são muitos, principalmente por sua dedicação à N. S. de Nazaré, valorizando a fé bicentenária de nosso povo, orientando no sentido real da devoção mariana - que nos leva a Cristo -,  ampliando os horizontes de nosso Círio, que vem ganhando cada vez mais valores litúrgicos de acordo com sua grandiosidade popular. Em suma, assim eu entendo, e concordo, menos carnaval e mais oração, de que tanto todos nós precisamos, pelas ruas de Belém. Teve sua gestão também um componente muito destacado, na valorização dos meios de comunicação católica no Pará.

Essa nomeação não deve ter sido surpresa para ninguém que acompanhava sua trajetória firme e bem direcionada, com franca exposição, e aprovação, nacional. Mas eu alimentava uma esperança: com esse valor todo, seu crescimento fosse aqui mesmo: com a elevação ao cardinalato, entre nós. Um cardeal na Amazônia! Sonho antigo dos católicos da região. Afinal, somos um dos principais centros marianos do mundo, criação de uma imensa população católica, na maior floresta do mundo, às margens do maior rio do mundo, todos grandiosas criações de Deus. População que precisa de um pastoreio forte, ativo, para livrá-la dos lobos vestidos de cordeiros que infestam a área. Bem, fica para outra vez, ou quem sabe, um dia ele volte com essa missão.

Que Deus esteja consigo, como sempre, D. Orani.

Para quem gosta de ir a fundo nos assuntos, o documento de nomeação de D. Orani, conforme divulgado pela Santa Sé, pode ser lido clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 14h15
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O VIDEOFONE DE 45 ANOS

1 2

O guia da American Airlines sobre a NY World’s Fair(1) e a página com o pavilhão da Bell.

 

 Quando a AT&T apresentou o picturephone, o telefone do futuro que “permite que você olhe para a pessoa com que estiver falando”, durante a New York World’s Fair, em 1964/1965, no magnífico pavilhão The Bell System Exhibit, todos acreditavam que aquele era um dos caminhos da comunicação no futuro.

Ele era uma das grandes atrações da monumental feira, em especial do pavilhão da Bell.

O fato foi lembrado há dias por David Pogue, especialista em tecnologia do The New York Times, ao testar a versão 4.0 do Skype, que faz maravilhas na comunicação interpessoal via internet, com imagem. Você pode ler a matéria do Pogue no NYT, clicando aqui.

Ele destaca que 45 anos após a feira as pessoas continuam preferindo usar apenas áudio, quando há opções tecnológicas disponíveis. Por quê? Acha o jornalista norte-americano que todos, naquela época, haviam esquecido um pouco um fator importante da natureza humana (do comportamento do consumidor): as pessoas não queriam ser vistas no telefone, para preservar sua privacidade: seja pelo aspecto de ter de estar bem vestido, bem apresentável, até que, muitas vezes se faz alguma coisa durante um telefonema, inclusive, “um rolar de olhos diante de um comentário estúpido”...

A matéria foi veiculada também, traduzida, no portal G1, ontem, e você pode ler clicando aqui. Vale a pena conhecer este Skype 4.0.

Mas o tradutor esqueceu de citar a Feira Mundial de Nova Iorque, que chama apenas de “uma feira de tecnologia em 1964”. David Pogue havia definido em qual feira foi feita a apresentação.

Para mim é importante registrar isso direitinho, pelo fato de que eu estive lá, na New York World’s Fair, e tive a oportunidade de ver funcionar o tal videofone. E não apenas eu, mas outros quatro colegas, estudantes, na época, dos quais pelos menos três ainda andam por aqui, pelas ruas de Belém! O poeta Ronaldo Franco, sempre a escrever coisas belas pelas páginas do Diário do Pará e em seu blog, o economista Sérgio Leite, que encontrei um dia destes, o advogado Thadeu de Jesus e Silva, com quem não falo faz tempo. Do quarto mosqueteiro, João Batista Amaral, nunca mais tive notícia.

De uns tempos para cá comecei a usar o tal Skype, primeiro somente áudio e desde o ano passado o vídeo. É fantástico. No Natal, “trocamos” presentes em frente às câmeras, entre Belém e São Paulo. Uns parentes nossos fizeram a ceia de Natal em Belém e Houston, onde estão filho e nora, câmeras ligadas, microfones abertos e muita fraternidade.

Refletindo sobre essa mudança de comportamento, quando as pessoas hoje buscam o Skype (ou sistemas semelhantes) e seus recursos mais modernos, a Rita fez um comentário muito pertinente: com a nova estrutura das famílias, cada vez mais espalhadas pelo mundo, a necessidade de aproximação física, de pelo menos ver e ouvir imagens reais em tempo real, tornaram-se muito fortes. Não basta mais apenas ouvir a voz do netinho. As vovós querem ver as carinhas dos netinhos, mesmo que ela esteja em Belém e o pequerrucho na Austrália.

 

1

Para recordar, no centro da Feira Mundial de Nova Iorque a Unisfera, em aço inoxidável(1). Aqui, uma visão elevada da feira (2).



Escrito por Fernando Jares às 21h42
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A MELHOR REPÓRTER DA WEB

A melhor repórter de site de notícias do Brasil é a mezzo-paraense Gabriela Guerreiro, da Folha Online, de Brasília. Quem costuma circular por esse site, sempre lê suas boas matérias e entrevistas com os figurões do Planalto (estes, nem sempre tão bons), já que ela faz cobertura política na Capital Federal.

Pois bem, a Gabriela acaba de conquistar uma das categorias, a de Melhor Repórter de Site de Notícias, do “Troféu Mulher Imprensa/2008”, realizado pela revista e portal Imprensa, com parceria da Maxpress, Aberje e apoio do Boticário e que reconhece as jornalistas que tiveram mais destaque no ano. A primeira fase da escolha é feita por jornalistas profissionais de todo o Brasil e a segunda por votação popular.

Ela tem nome comprido, Ana Gabriela Guerreiro Viola da Silveira Leite, onde o Guerreiro é bem paraense, lá de Oriximiná, terra da mãe dela e de uma infinidade de Guerreiros, inclusive jornalistas, uns naturais da família outros agregados, alguns que andam cá pelas ruas de Belém, onde tem muita gente que votou e torceu por ela.

Graduada em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub), em 1999, tem mestrado em Estudos de Jornalismo pela Universidade de Brasília. É professora licenciada do UniCeub e já trabalhou na Agência Brasil e na rádio CBN.

A notícia da premiação no Folha Online está aqui. Você também pode ler sobre a premiação e os resultados no hot-site do portal Imprensa.



Escrito por Fernando Jares às 17h52
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SEGURANÇA É FRUTO DA JUSTIÇA

A incompetência dos poderes constituídos em garantir a constitucional segurança a que todos temos direito, não é novidade em Belém. Esse cartum do – este sim, muito competente – Biratan, já denunciava a insegurança existente na cidade em 1985, quando foi publicado, na sempre lembrada A Província do Pará. Até um hífen e uma perna de M, já haviam sido surrupiados...

Esta ilustração vem bem para lembrar que, em meio a grande crise de segurança que vivemos pelas ruas de Belém, hoje, quarta-feira de cinzas, a igreja católica coloca em discussão mais um tema importante para toda a sociedade, independentemente de vinculação religiosa: a Segurança Pública. A partir do lema “A paz é fruto da justiça”, recolhido do livro do profeta Isaias (Is 32,17) , que já sentenciava assim, há quase 3 mil anos, a CF/2009 buscará, a partir das comunidades, um projeto, a curto, médio e longo prazos, para uma sociedade melhor, onde as pessoas sejam de fato respeitadas em seus direitos.

Uma Terra de Direitos, não nessa concepção fantasiosa, publicitária, que vemos fartamente na mídia, Terra onde um homem é assassinado, dentro de casa, porque não tendo recebido a indenização por ter sido demitido, não tinha dinheiro para os assaltantes!

Tal projeto será entregue, como proposição popular, às autoridades, considerando a dificuldade existente, por parte do legislativo, do executivo e até do judiciário, em gerar ações que atendam as necessidades do povo.

Participemos. Cada um em seu espaço próprio, com seu conhecimento, na busca da justiça, que levará à paz, que conduzirá a uma efetiva Terra de Direitos, tendo como base os valores cristãos. Assim poderemos reverter a situação. Como diz D. Orani, não é empreitada para os 40 dias quaresmais. Mas é o momento adequado para o início desta tarefa.



Escrito por Fernando Jares às 16h15
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RELIGIOSIDADE CONJUGAL

UM MOVIMENTO PARA CASAIS DE TODO O MUNDO

Um movimento que reúne casais católicos em todo o mundo faz hoje 70 anos de fundado, com ramificações em todo o planeta. Com o nome Equipes de Nossa Senhora, promove a espiritualidade conjugal, que busca de forma moderna e consciente, ajudar os membros “a caminhar para a santidade, nem mais nem menos”, como disse seu fundador, o padre francês Henri Caffarel, na foto ao lado. Utiliza para isso o estudo e a oração. Atuante em 70 países, conta com mais de 10 mil equipes (geralmente de sete casais e um sacerdote ou acompanhante espiritual), agregando 114 mil membros, sendo 52.559 casais. O Brasil é o líder mundial no movimento, com 32% dos equipistas (36.770) e 2.988 equipes.

O movimento existe pelas ruas de Belém há mais de 30 anos, e aqui e em municípios próximos, como Castanhal, São Miguel do Guamá, Salinas, Capanema e Abaetetuba, são 54 equipes, com 332 casais e 45 sacerdotes.

O movimento é chamado Equipes de Nossa Senhora porque cada equipe tem o nome de uma Nossa Senhora como intercessora junto a Cristo. Rita e eu participamos da Equipe Nossa Senhora de Guadalupe.

Para mais informações existem diversos sites disponíveis, como o daqui de Belém ou o nacional, ou ainda o site internacional e de diversos países.



Escrito por Fernando Jares às 16h12
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PELOS RIOS DO MARAJÓ

O POVO DE PEDRO MARTINELLI

Um de meus últimos trabalhos, antes da aposentadoria, envolvendo um profissional externo, foi com o fotógrafo Pedro Martinelli. Ele estava registrando pessoas em atividade em todo o vasto universo da Vale, empresa por empresa, Brasil todo. E eu o recebi e acompanhei em parte do trabalho em Barcarena. Como me afastei da empresa em seguida, não vi o resultado. Mas para mim teve um resultado importante aquele contato, embora fugaz, com um dos profissionais da fotografia que mais respeito no país. Não o conhecia pessoalmente, embora macaco de auditório do trabalho dele, desde muito tempo.

Martinelli tem uma experiência praticamente única no país sobre a nossa Amazônia. Como ele nos conhece, gente. Muito mais do que andar pelas ruas de Belém, muito mais do que muitos de nós conhecemos a nossa região. Por isso é importante ir onde ele está, acompanhar o trabalho dele, que desde 1970 percorre este imenso território. São livros, reportagens, o site dele.

Um dos lugares onde o Martinelli está, agora, é em um blog, onde conta histórias de suas andanças por este Brasil que Deus criou e a gente habita, uns construindo, outros destruindo. Mas é assim mesmo. O Martinelli é um dos que nos ajuda a conhecer melhor o Brasil, a preservar nossa memória, a amar mais nossa terra, Isso é importantíssimo. Principalmente porque anda em falta.

Hoje, terça-feira de carnaval, ele colocou um post interessantíssimo, sobre as gentes da ilha do Marajó: O povo do sal. Vá até lá. Depois, é fazer como eu fiz, sair navegando pelo blog, no que, aliás, aproveitei uma dica que me mandou hoje o Emerson.

Bom restinho de carnaval...



Escrito por Fernando Jares às 15h53
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GOLPE NA MEMÓRIA

MANOEL PINTO DA SILVA SEM LETREIRO

 

Essa foto aí em cima é da década de 70, do século passado. Todo mundo vê que é a praça da República, tendo ao fundo o edifício Manoel Pinto da Silva. À direita veem-se os prédios da Assembléia Paraense, Gualo, Basa e... o belíssimo Grande Hotel, sacrificado para dar lugar ao Hilton, que traria turistas e mais turistas, de todo o mundo, para Belém (isto, em 1984). Traria.

Mas o assunto é o Manoel Pinto da Silva. O Guilherme Augusto, em sua coluna de ontem (domingo), no Diário do Pará, informou que havia sido retirado o letreiro com o nome do prédio que lá estava deste a construção do mesmo, o que ele classificou, muito justamente, como “símbolo de uma época”. Sem dúvida, mais um golpe na memória da cidade. Por isso merece este registro.

A foto aí em cima eu retirei de um folheto da Paratur, do final dos anos 1970 (não tem data, mas já registra a TV Liberal, de 1976, e ainda anuncia a tartaruga e o casquinho de muçuã como pratos típicos...). Também não tem o crédito da foto, mas eu acho que seja do Luiz Braga, creditado em diversas outras fotos na peça. No topo do edifício aparece o letreiro do GuaraSuco, o guaraná líder do mercado na época. Eu trabalhava na Mendes Publicidade, dona da conta do GuaraSuco, e participei da instalação desse letreiro monumental. Era visto de toda a cidade! Um marco na propaganda outdoor de Belém.

Antes do GuaraSuco, havia no local o letreiro da loja A Automobilista, que ficava no térreo.

O letreiro ao lado, menos visível na foto, é o nome do construtor do edifício, o empresário português Manoel Pinto da Silva, que agora foi retirado. Um empreendedor e tanto que, nos anos 1950 meteu a cara em elevar um prédio de 26 andares em Belém. Não era apenas o mais alto do Norte. Era um dos mais altos do país, provavelmente o terceiro. E um dos maiores do mundo, como se vê na página 153 da Agenda Pombo de 1962, que o coloca em 19º lugar (o antepenúltimo na relação abaixo)! Jovem, eu tinha o maior orgulho disso. Tanto que guardei a agenda que, para completar, era brinde da firma Victor C. Portela S/A, meu primeiro emprego. Mas isso é outra história.

 

E no jornal de hoje o Guilherme Augusto acrescenta: “Ele também ganhou fama internacional quando apareceu no filme Perigo Real e Imediato, de 1994, estrelado por Harrison Ford.” Pra quem tem dúvida, basta pegar o filme na locadora, como ele sugere ou ler a história, contada por Mário Guzzo Jr., no site Falha Nossa. O Pedro Veriano deve saber em quantos outros filmes ele apareceu. Merecidamente.



Escrito por Fernando Jares às 16h34
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VIVA NOSSA LÍNGUA MATERNA!

O FALAR É DEMOCRÁTICO

Qual será a língua materna do paraense?

“Mar tu pensa qui sô lesa? Num sô não. Vu ficano aqui na ilharga pá vê se tu num vai quere butá farinha no meu pirão, ora!”. Será que é essa, da frase criada pela jornalista Cléo Soares, em matéria publicada em O Liberal (22/08/2004)? Segundo a Cléo, um morador da ilha Juruaba, no município paraense de Cametá, entenderia perfeitamente. E ela traduz: “Tu pensas que eu sou bobo? Não, vou ficar por perto para ver se tu não vais querer puxar o meu tapete, me passar a perna”, ou algo assim.” A língua paraense, registrada por estudiosos como Vicente Salles, Rosa Assis, Vicente Chermont de Miranda, Raymundo Mário Sobral entre outros.

Será que é o linguajar dominante nos romances de Dalcídio Jurandir ou Benedicto Monteiro? O das poesias de Max Martins ou de João de Jesus Paes Loureiro? Os será das quadras de Juracy Siqueira? O que falamos pelas ruas de Belém?

“A palavra falada é um fenômeno natural; a palavra escrita é um fenômeno cultural. O homem natural pode viver perfeitamente sem ler nem escrever. Não o pode o homem a quem chamamos civilizado, por isso, como disse, a palavra escrita é um fenômeno cultural, não da natureza mas da civilização, da qual a cultura é a essência e o esteio”, escreveu o poeta português Fernando Pessoa logo na abertura de “A Língua Portuguesa”. Será essa a nossa língua? Ou a de Jorge Amado? Ou a de Caetano Veloso?, escritas da língua falada.

O que terá nossa língua com aquela tão bem expressada pelo padre Antonio Vieira, de quem ano passado comemoramos os 400 anos de nascimento, e a quem o mesmo Pessoa acima citado chamou de “Imperador da Língua Portuguesa”?

Tudo isso é só para despertar o tema, nesta data (21 de fevereiro) em que se comemora o Dia Internacional da Língua Materna. Isso mesmo! A data existe e foi criada pela Unesco (em 1999) para valorizar a diversidade linguística e cultural do mundo, desenvolvendo uma consciência maior das tradições linguísticas. Segundo a Unesco, existem mais de 6.000 línguas faladas no mundo, sendo que a metade delas caminhando para a extinção! Sem dúvida o paraensês e suas variantes (abaetetubês, cametaês, etc.) estão entre elas, vítimas da violência cultural representada principalmente pela televisão.

Voltando ao Pessoa no mesmo livro (pág. 57 da edição da Companhia das Letras, de 1999: “Na palavra falada temos que ser, em absoluto, do nosso tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos arriscamos ao ridículo ou a incompreensão. Não podemos pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda, e não se subordina a quem a escolhe.”

O Dia Internacional da Língua Materna (a falada, portanto, que Pessoa considera democrática, porque “temos de obedecer à lei do maior número”) é data pouco comemorada no Brasil. Portugal faz mais festa para ela, especialmente nas escolas.

Acho isso importante. Tanto que estou cá a escrever sobre o tema, em pleno sábado de carnaval, à tarde, dia de folga no blog! Mas agora vou ouvir o samba enredo do “Quem São Eles”, sobre o Dalcídio Jurandir. Viva a língua paraense!



Escrito por Fernando Jares às 16h15
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NEQUINHO, O PALHAÇO QUE ERA

QUEM É O NEQUINHO?

  

O palhaço Nequinho, ator local, um dos grandes sucessos dos primeiros tempos da televisão no Pará.

 Os mais novos, a menos que sejam leitores do Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, seguramente não sabem quem é. Nequinho foi um palhaço, pioneiro da TV Marajoara, a nossa primeira televisão, inaugurada em 1961. Sua alegria, por meio de um veículo de comunicação ainda novo, era espalhada para crianças e adultos, pelas ruas de Belém. Eu entre os que gostavam de ver essas palhaçadas. Aliás, eu tinha até um colega do colégio, o Bosco, que fazia malabarismo nesse programa, em dupla com o Baltazar.

No JP da primeira quinzena de janeiro/2009 há uma carta do jornalista Raymundo Mário Sobral, que explica como tudo começou: “Quando da implantação da TV Marajoara, eu, a Maria Sylvia Nunes, o Sarubinho (Deus o tenha) e a Maria Helena Coelho ficamos encarregados de produzir toda a programação ao vivo do Canal 2. Vai que o diretor Péricles Leal me designou para ficar com a programação de humor, inclusive, eu deveria montar um circo para ser exibido aos sábados à noite. Me virei pacas, andei pela periferia e fui fazendo o elenco. O Nequinho apareceu nos estúdios, fez um teste e deu um show.” A carta completa você encontra no site do Jornal Pessoal.

O Lúcio faz então um desafio: quem sabe o nome do cidadão que vivia o palhaço Nequinho?

Busquei na minha coleção da revista TV Roteiro, na época da morte desse querido palhaço, 1967, em sua melhor fase, e localizei uma edição com a capa dedicada a ele: “Nequinho, o palhaço que era”, onde desfia seu valor e o quanto era querido. “Nequinho morreu, mas como era um palhaço, sua presença está em todo lado onde há alguém que lhe faça a vida”. Mas todo o texto não cita o nome civil do artista.

Mas a busca foi bem sucedida em edição anterior. Uma típica notícia de última hora, pequena, sem foto, para registrar o fato, que ganhou tratamento especial na edição seguinte:

Manoel Ângelo de Oliveira, Nequinho, palhaço de grandes méritos, autêntico ídolo da meninada paraense, faleceu, deixando em amarga tristeza, além de seus familiares, a interminável legião de amigos e admiradores de todas as idades”.

Nequinho morreu no dia 17 de outubro de 1967. Posteriormente foi realizado um show, no auditório da Rádio Marajoara, com grande número de artistas paraenses, “em prol dos familiares do falecido palhaço”, como registrou a TV Roteiro.

Pronto, a resposta ao desafio do LFP está aí. E um pouquinho da história de nossa televisão registrada na blogosfera.



Escrito por Fernando Jares às 17h05
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UM FUSCA DAQUELES TEMPOS

QUE TAL PASSEAR NUM FUSCA ASSIM?

Esta belezura anda por aí. Gosta? Fique de olho. Esta foto eu fiz no
shopping Pátio Belém (já treinando para deixar de dizer Iguatemi). 

Gosto muito de carros antigos, tanto que no passado fiz uma coleção de miniaturas de carros do início do século XX. Já que não dava para ter os de verdade... Cheguei a ter a coleção da Matchbox quase completa, acho que faltaram uns dois. E de outros fabricantes. Quase cem miniaturas. Hoje estão guardadas, algumas danificadas.

Mas isso é só pra dizer que quando vejo um carro antigo na rua, mesmo não tão antigo, paro e vou olhar. Tiro foto do carro, curto a beleza.

Uma vez hospedei-me em um hotel em Miami, todo ele voltado para carros antigos. Tinha deles no lobby, no restaurante, a lojinha vendia de um tudo relativo a carros antigos, etc. Qualquer dia conto essa história.

Fiel a esse papo, fiz a foto aí de cima, de um Fusca que circula aqui, pelas ruas de Belém, com todo esse charme. Tive um parecido, era 1965, só não tinha esse luxo do pneu faixa branca. Olhando, bateu uma saudade... Por sinal estou contando o tempo para ver um certo Opala, que entrou recentemente para a família, lá em Niterói.



Escrito por Fernando Jares às 17h01
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DALCÍDIO EM MARÇO

ENCONTROS ESTUDAM DALCÍDIO JURANDIR EM MARÇO

Dalcídio Jurandir vai estar em alta neste carnaval, como enredo do Quem São Eles, no desfile oficial da Aldeia Cabana. E em março há programação cultural do mais alto valor, para quem se interessa pela literatura paraense, particularmente por este autor marajoara, e não quer perder momentos únicos.

Durante o ano a Unama tem uma ampla programação. Mas vamos ver agora a referente ao próximo mês de março. Anote logo na agenda, que é coisa a não perder.

Na semana de 16 de março acontecem os Encontros com Dalcídio Jurandir: “a farinha d’água dos meus beijus”. Serão no auditório David Mufarrej, sempre às 19h, mediados pelo professor Paulo Nunes, um grande especialista em DJ.

Veja só o cardápio dos Encontros:

16/03 (segunda-feira) Dalcídio Jurandir e Bruno de Menezes, com Maria de Belém Menezes e Rosa Assis (Unama). Maria de Belém vem a ser filha do grande poeta paraense de “Batuque”, de quem é estudiosa, e irmã de nosso mais competente orador sacro, Monsenhor Geraldo Menezes.

Na mesma programação, outro Encontro, de Dalcídio Jurandir e Graciliano Ramos, pela professora Marli Furtado (UFPA).

17/03 (terça-feira) O primeiro encontro será de Dalcídio Jurandir e Eneida, a querida cronista paraense que tanto amava o carnaval, pelas professoras Josse Fares (Unama) e Josebel Akel Fares (UEPA).

Em seguida o encontro será de Dalcídio Jurandir e Benedicto Monteiro, conduzido pelo professor José Guilherme Castro (Unama).

18/03 (quarta-feira) Dalcídio Jurandir e Ferreira de Castro, terão um encontro onde a professora Amarílis Tupiassú (Unama) vai mostrar as linhas que unem nosso autor ao português que tão bem descreveu A Selva.

Na segunda parte encontram-se as obras de Dalcídio Jurandir e Lindanor Celina, com Rosa Assis e Paulo Nunes (Unama) a mostrar os talentos superiores do marajoara e da romancista e cronista bragantina (embora nascida pras bandas de Castanhal).

19/03(quinta-feira) Dalcídio Jurandir e Guimarães Rosa: na recepção e crítica de Álvaro Lins, trabalho que será conduzido pelo professor Günter Pressler (UFPA).

Estadual – Fique atento que a UEPA também anunciou programação sobre Dalcídio Jurandir para março:

O (re)lançamento do romance “Primeira manhã”, pela Eduepa, que será acompanhado de uma mesa redonda sobre o livro tendo como convidado especial Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, que faz a Apresentação (a confirmar); Paulo Nunes (prefácio - Unama); Marli Furtado (posfácio - UFPA); Rosa Assis (Glossário- Unama); Josebel Akel Fares (coordenação da edição - UEPA); e ainda um dos filhos do escritor.



Escrito por Fernando Jares às 17h49
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BIGGS EM BELÉM

O FAMOSO ASSALTANTE PASSOU POR AQUI. ASSALTADO.

 12

Biggs - o retorno - em Belém. A recepção da mídia foi grande(1). A Veja mandou aqui seu famoso
repórter fotográfico Carlos Namba. E Biggs retribuiu: até beijou o chão (2) à moda de João Paulo II.

Ronald Biggs, considerado o mais famoso assaltante do mundo, título que “desfruta” desde 1963, está muito doente. Preso em Londres, passou o fim de semana hospitalizado, com pneumonia, e ontem voltou à prisão. Leia no Veja.com.

Pois bem. Este famoso súdito de S. M. a Rainha da Inglaterra, andou cá por estas terras, numa situação nada agradável. Aconteceu em 1981.Lembrando: feito o assalto ele foi preso, com seus comparsas, e condenado. Fugiu em 1964. Fez plástica na França e viveu na Espanha, na Austrália e no Brasil, onde casou ou coisa semelhante e teve um filho salvador, pois lhe garantiu o direito de não ser extraditado (direito mais torto, esse...), mesmo condenado a 30 anos de cadeia na Inglaterra. O filho virou astro da Globo, no programa infantil Balão Mágico. Lembram do Mike?

Pois bem, novamente. Em março de 1981 um tal John Miller inventou um cinematográfico seqüestro do ladrão londrino, parece que para vender a história a quem melhor pagasse. Biggs foi capturado no Pão de Açúcar, Rio de Janeiro, atraído para uma falsa entrevista (nessa época ele cobrava por entrevistas, fotos, festas, comerciais, tudo que passasse pela frente). Em seguida colocado em um jatinho e trazido para, tchan, tchan, tchan: Belém do Pará! Mas não foi assim facinho, tipo vai andando aí. Dizem que estava em uma caixa, que foi transferida do aeroporto, pelas ruas de Belém, para um barco, que teria saído do Iate Clube, na época um dos mais badalados de Belém (sim, esta terra já teve Iate Clube, e de grandes baladas!). Mais adiante foi transferido para um iate muito bem equipado, onde Biggs foi devidamente desembalado. O objetivo era ir para Antigua, no Caribe, mas a embarcação foi interceptada em Barbados... e Biggs recambiado para o Brasil, em meio a um grande imbróglio diplomático! Nossa tradição de proteger condenados por crimes comuns é antiga.

Ah, tenho uma história com o tal Biggs. Uma vez em São Luís, hospedado no Quatro Rodas, participei da festa de um colunista social local, para apontar as misses qualquer coisa, que não lembro mais. Era na pérgula da piscina e lá instalei-me, com a Rita ao lado, que fique claro... Horas tantas, eis a surpresa: Ronald Biggs era um dos convidados especiais, participando do júri que escolheria as beldades! Espantado, exclamei: “Ops, cuidado com os relógios e as carteiras” (ainda não havia celular...). Ao que a Rita reagiu com um forte “psiiiiiiu”, recomendando-me um diplomático silêncio. E tinha razão: o cara era ladrão de 2,6 milhões de libras na Inglaterra. Mas aqui era um cidadão respeitável, até juiz, de concurso de miss, mas juiz...

Caso você queira saber mais sobre a história do Biggs, procure em The Big One: Ronald Biggs and the Great Train Robbery. Não se espante, é na Crime Library, na seção Gangsters. No  Acervo Digital da Veja você pode consultar a revista 660, de 29/04/1981. É livre.



Escrito por Fernando Jares às 17h16
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HASTA LA VICTORIA

GUEVARA E O GOVERNO PARAENSE

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O Guevara no anúncio do Governo do Estado (1) e a ilustração tradicional, sobre a foto de Korda (2).

“A revolução está em curso”, anuncia o Governo Popular do Pará, em peça publicitária veiculada ontem, onde a ilustração é o revolucionário cubano Che Guevara. A figura do Che foi construída, com parafusos, porcas e arruelas, sobre a famosa foto “Guerreiro Heróico”, de Alberto Korda, nos inícios da revolução fidelista. Infelizmente o autor da competente ilustração não é identificado no anúncio, que é assinado pela agência Vanguarda. Será local? Terá a peça sido adquirida externamente? O único elemento gráfico aplicado é a estrela da boina do Che, como que uma assinatura do PT no anúncio, deixando claro que o Popular referido na assinatura da peça é desse partido.

Embora anunciando que se trata de uma “revolução pelo trabalho”, passa uma mensagem ideológica do governo do Estado, de forma bem objetiva. O anúncio divulga um programa de qualificação de jovens paraenses, realizado pelo governo estadual, cuja meta é chegar a 120 mil bolsistas até o final de 2010.

Curiosamente, em post da madrugada de hoje, a jornalista Ana Célia Pinheiro, no seu blog A Perereca da Vizinha, em meio a uma longa reflexão, tem um trecho que elegi ao pensar este tipo de anúncio: “guardo a esperança de que os irmãos petistas e tucanos, um dia, compreendam isso. O dia em que deixarão de torrar milhões em propaganda, para investir em publicidade. Ou seja, o dia em que deixarão de torrar dinheiro público a vender um “paraíso” inexistente. E que investirão esse dinheiro para, de fato, informar a sociedade e chamá-la, convocá-la, a discutir a construção do próprio destino.”

Ou será que o anúncio já quer dizer isso?

Por via das dúvidas, e depois que os quatro heróicos presidentes vizinhos que cá se reuniram (sem Lula) no Fórum Social Mundial, cantaram uma canção para Guevara, escrevo ouvindo a trilha do concerto "Trazendo-Che no Coração", de Paulo André Barata (com Ruy Barata, Alfredo Oliveira, Paulo Chaves) apresentado no Theatro da Paz em 1997, no dia em que se celebraram os 30 anos da morte de Guevara (09/10/1967):

“Hasta siempre, Comandante! / Canta a voz da esperança / vai teu mito fascinante / na poeira da lembrança”.



Escrito por Fernando Jares às 16h58
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UM FRITO CULTURAL COM ARES PANTAGRUÉLICOS

 

Um dos pratos mais tradicionais dos campos marajoaras é o Frito de Vaqueiro. Uma tradição cultural na ilha. Não quer dizer que o vaqueiro fizesse uma fritada. Normalmente era a mulher ou a mãe do vaqueiro que preparava a tal comidinha, que vem a ser uma boa carne de boi ou de búfalo, frita na própria gordura do animal e guardada em latas. Era levada para o campo onde o vaqueiro ia cuidar dos animais. Na hora de comer, bastava aquecer e acompanhar com uma boa farinha, de preferência torradinha. Simples. E muito gostoso. E eles continuam usando esse hábito delicioso. Existem variantes por esse Brasil todo, inclusive ali por Marabá. Disse-me uma vez o Vitor Américo Gomes que a sua mãe, d. Mariquinha, que Deus chamou de volta recentemente, fazia um frito como ninguém, famoso por lá.

Mas nem no Marajó, nem em Marabá. Foi aqui mesmo em Belém que comi, uma noite destas, um Frito de Vaqueiro, em versão nova cozinha paraense. Criação do chef Paulo Martins. Tem no Lá Em Casa, na Estação das Docas. Paulo pegou a tradição marajoara e deu-lhe ares novos, mas tudo dentro dos melhores cânones regionais. Como já fez com outros tantos, criando especialidades únicas (a despeito de muito copiadas) como arroz de jambu, as pupunhas ao roquefort, o pato do imperador e tantos outros mais.

Este frito de que estou falando, e está na foto aí em cima, trata-se de partes gordas e duras de carne (peito, agulha ou fraldinha), que são fritas na sua própria gordura, com sal, raspa de cipó d’alho, alfavaca e chicória.

É servido com farinha d’água (de mandioca, para quem não souber) torrada, maniçoba, beiju de farinha e queijo do Marajó.

Tudo isto combinado com maestria, rendeu-me uma boa coleção de longos minutos de plena satisfação gastronômica. Estava tudo certinho, inclusive a farinha, que parecia recém-ralada e tirada do forno agorinha mesmo – mas era torrada na manteiga, o que lhe dava um sabor ainda mais especial.

Sobre estes beijus (vem um no centro do prato): são outra “descoberta” do Paulo. Botei as aspas porque existe nas melhores feiras, por exemplo, na de Batista Campos. Para quem não sabe, o beiju lembra uma tapioquinha, só que é sequinho, durinho, feito de farinha. O que ele fez, e eu imito de vez em quando, com as devidas homenagens, foi esquentar o citado e passar uma manteiga de verdade, elevando a iguaria popular a entrada de restaurante. Aliás, foi isso que degustei, prazerosamente, nessa noite na Estação, em que estava com a Rita e a Bruna.

Naturalmente que acompanhei essa festança com uma geladíssima Cerpinha, do jeito que eu gosto.

Ah, o cardápio das minhas acompanhantes - um festival de algumas das melhores tradições deste templo da gastronomia paraense: Filé Marajoara, que é um filé alto, de búfalo, com queijo do Marajó e arroz de maniçoba, que foi Prato da Boa Lembrança do Lá Em Casa em 2007; e um Filhote Pai d’Égua, brochete de filhote cozido, intercalado com cebola, tomate, pimentão, na chapa, acompanhado de feijão manteiguinha de Santarém, farofa molhada, arroz de jambu e molho vinagrete. Foi Prato da Boa Lembrança em 1996.

Os elogios ao meu frito podem ser repetidos para estes dois pratos, dos quais, obviamente, recebi um pequeno (infelizmente) quinhão para provar.

As inovações na culinária regional, tão na moda nestes dias nos restaurantes pelas ruas de Belém, exigem o equilíbrio que encontramos nestas criações de Paulo Martins. Não é qualquer coisa misturada com qualquer coisa que vai dar certo... Mas isso é assunto para outro dia.

Para quem quiser uma receita tradicional do frito marajoara, tem no blog Come-se, da nutricionista Neide Rigo.



Escrito por Fernando Jares às 18h21
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DARWIN E EU

DE COMO CONTEI A HISTÓRIA DE ADÃO E EVA

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O caderno "Avante" era a cara dos estudantes nos anos 1950/60 (1). Algum leitor de blog conheceu um deles?.
Duas páginas com a minha história do surgimento dos homens: na primeira (2) a ilustração é uma
figurinha do álbum "Ceu e Terra" e na segunda (3), no final,  começa o arrazoado (arrasador) do professor sobre o trabalho!

Alguns homens têm a capacidade de criar obras que, mesmo sendo muito polêmicas, verdadeiramente revolucionárias, atravessam as gerações, a história, os comportamentos, as ciências, os séculos. Um desses homens faz aniversário hoje. Há 200 anos nasceu Charles Robert Darwin que, com sua teoria da evolução por meio da seleção natural, é discutido até hoje. Imagine-se como foi isso, há 150 anos, época do lançamento do livro A Origem das Espécies. Havia lá em casa um exemplar, quando eu era criança, mas como em inglês, só o papai o lia. Com o tempo, perdeu-se o livro, mais recentemente perdi o pai, mas também não aprendi inglês suficiente para ler no original o The Origin of Species, como aparecia em destaque o título, mas depois vi que era bem mais comprido: On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life. Ufa!

Assim, não li o livro, em uma época em que devorava os que haviam em casa, alguns até que não seria autorizado a ler se o pedisse... lembro-me muito bem de “A Vida Sexual de Solteiros e Casados”, do padre João Mohana. Era fantástico, explicava e mostrava tudinho. Coisas que, naqueles anos 1950, a gente não via na televisão, não se falava em casa nem (formalmente) na escola. Como entendia que a mim não seria permitido ler tal coisa, nunca falei a ninguém. Já adulto, deduzi que a “descoberta” do livro pode não ter sido tão “descoberta” assim, o velho bem que pode ter facilitado o acesso ao livro, para que eu recebesse a formação de um grande mestre. Foi importante. Digo aqui um obrigado que nunca disse a ele em vida.

Mas, voltando ao Darwin. Como resultado da leitura de revistas, coleções de álbuns de figurinhas e as explicações do papai sobre a teoria da evolução, eu sabia dessa história, talvez um pouco confusamente, mas sabia. Foi quando vim estudar aqui, mais um menino do interior pelas ruas de Belém.

Logo no segundo ano, na disciplina História Geral, o assunto apareceu. Devíamos escrever um caderno como se fosse um livro, com nossas opiniões sobre os assuntos que iam desfilando aula a aula. Revirando meus “alfarrapos” (como dizia um colega meu, sabiamente definindo o estado em farrapos em que se encontravam os seus alfarrábios...) encontrei esse caderno.

Logo no começo, sobre os primeiros homens, concordei com a idéia de que vínhamos dos macacos: “não acho que seja uma suposição errada”, garanti.

Mas o “melhor” foi a verdadeira harmonização que fiz do evolucionismo com o criacionismo, termos que obviamente não usávamos na época: “A transformação do macaco em ser humano só foi admitida em 2 macacos (Adão e Eva). E ninguém pode provar se Adão e Eva não tinham feições de macaco e não eram peludos”. Obviamente o professor, que era um padre salesiano, não concordou com estas idéias. E discutimos muito sobre elas.

Bom lembrar disto quando o velho, e cada vez mais reconhecido Darwin, faz seus 200 aninhos. Só esta minha história já tem quase 50!

Há muito que ler hoje no mundo sobre este assunto. Você pode dar uma olhada no UOL Ciência; pode ler o que dizem os conterrâneos dele no TheTimes, de Londres; e até entrar na discussão em Portugal, no portal O Verbo, que garante que nunca fomos macacos.



Escrito por Fernando Jares às 16h32
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CHUVA NO TEMPO DA CHUVA

 

Olha a chuva aí, minha gente! Parece comando de quadrilha (caipira, bem entendido) misturado com grito de guerra no carnaval. Mas é o que merecia a belíssima chuva desta tarde – como o estão sendo de quase todas as tardes, e algumas manhãs também, deste forte inverno equatorial que estamos vivendo. Gosto da chuva. A foto aí eu a fiz por volta das 15h. Muita água, alagando ruas, principalmente devido à má drenagem, por causa de bueiros obstruídos, seja pelo descuido da autoridade competente, seja dos usuários das vias públicas, que tudo jogam na rua, incluindo-se aí alguns maus comerciantes.

Mas uma chuva é coisa bonita. Abusando do direito de escrever na primeira pessoa que um blog permite, deixa eu dizer que hoje fiz algo que não fazia há muitos e muitos anos: fiquei deitado em uma rede, no pátio, lendo, pegando aquele chuvisco gostoso, que o vento vai jogando. Maravilha!



Escrito por Fernando Jares às 21h43
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A NAVEGAÇÃO E A FÉ

EM NAVEGAÇÃO TODOS SOMOS RESPONSÁVEIS

Quem corta os rios desta Amazônia gigantesca, sejam riozinhos do Anfrísio ou riozões das Amazonas, tem que ter fé. Em alguma coisa. No comandante ou piloto que leva a embarcação; no boto que acompanha o barco; na Iara que espreita os passageiros mais bonitões; no Deus que criou aquelas coisas todas, inclusive o próprio viajante. Pelo tanto que já naveguei, de navio grandão a pô-pô-pô, lanchinha ou lanchão, pude perceber que a maioria dedica sua firme fé a Deus. Ou a alguém em Seu grande conceito, que inclui N. S. dos Navegantes, Bom Jesus dos Navegantes, Santo Amaro, N. S. de Nazaré e outros mais, dependendo da devoção de cada um.

Quem já varou essas “águas de meu Deus”, principalmente em noite escura, onde piscada de estrela já é luzeirão, pra mais ainda nestas épocas de chuva forte, sabe bem o quanto a fé é luz para os espíritos apertados diante do desconhecido. No leito do rio, nada se vê, ouvem-se apenas algumas batidas, em troncos. A primeira vez que subi o Amazonas de catamarã, não teve jeito, de madrugada lá estava eu na cabine, para identificar a barulheira que se ouvia de vez em quando. Muito simples: quando um tronco passava entre os cascos (são dois, paralelos) do catamarã, batia em um e no outro, causando o barulhão. Nada de mais... E voltei a dormir, que sempre durmo bem nessas viagens, ao balanço de uma rede e com a brisa a refrigerar o corpo.

Deve ser por esse aspecto essencial da fé que existem tantos barcos com nomes de santos, de Nossas Senhoras sob as mais diversas invocações, de salmos e até aqueles mais diretos e objetivos, como os famosos Fé em Deus.

Refletindo sobre isso é que entendi um painel existente na Capitania dos Portos, ali na rua Gaspar Viana, tantas vezes já visto, mas só um dia destes observado, numa circulada mais tranquila pelas ruas de Belém.

No grande painel (ou banner, ou empena, como se chama em publicitês), que é reproduzido logo aqui embaixo, há uma figura de Cristo no centro/sul da Amazônia, tendo sob suas mãos uma grande quantidade de barcos, como que participando de uma romaria fluvial. A peça divulga o Programa de Segurança da Navegação na Amazônia Oriental, que tem um slogan bastante sugestivo: “Segurança da navegação: todos somos responsáveis”, invocando também a responsabilidade divina sobre os nossos barcos. Estamos nas mãos de Deus. Ainda bem!



Escrito por Fernando Jares às 21h42
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HINOS NO CARNAVAL

UM COLOSSO, TÃO BELO, E TÃO FORTE

A Orquestra de Percussão do Quem São Eles, orgulhosamente anunciada pelo intérprete oficial, Silvinho da Beija-Flor, executa alguns acordes (20 segundos) do Hino do Pará, fazendo a introdução do samba-enredo do ano passado, “Bendito seja, Benedicto”, que você pode ouvir aqui. A idéia foi sucesso absoluto. Este ano eles repetem a dose, com arranjo ligeiramente diferente, muito bonito. Já falei nisso ontem.

Mas olha a coincidência: a Mangueira, este ano de 2009, entra na avenida anunciada por acordes do Hino Nacional, para mostrar seu enredo sobre a história da formação do povo brasileiro. Escute aqui a versão do CD oficial, no site da escola (quando abrir precisa clicar em “Samba-Enredo” e depois em “Ouvir Samba”).

Nosso hino presta-se muito bem a esses arranjos, como já havia sido demonstrado, por exemplo, por Letícia Secco (por onde anda ela, que não se ouve seu cantar pelas ruas de Belém?), no medley paraense, em que canta o samba-enredo “Pará, o mundo místico dos caruanas”, da Beija-Flor/1998, e faz o final com rápidos acordes (cinco segundos) do hino do Estado, com interpretação orquestral. Está no refinadíssimo CD “Vôo Livre” (ai, agora voo não tem mais acento! Mas nesse tinha!), de 2000, da série Pará Instrumental, pela antiga Secretaria de Cultura. Mas por escola de samba, pra mim, o Quem São Eles é pioneiro.

HINO DO PARÁ – O Hino do Pará, que é uma peça belíssima, bem que deveria ser mais popularizado. Já o foi. Quando eu estudava o segundo grau (ginásio), no Colégio do Carmo, nos anos 1960, cantávamos regularmente este hino, salvo engano, uma vez por semana. Hoje, nas execuções que tenho presenciado, muito pouca gente acompanha. É uma louvação às grandezas do Estado e uma forma de chegar mais perto, de amar mais a nossa terra. Desde criança. É assim que se pratica o civismo.

Dando uma mãozinha nessa divulgação, você pode ouvir o Hino do Pará no portal do Governo do Estado, clicando diretamente aqui. Para acompanhar e relembrar, ou aprender, aqui está a letra:

Salve, ó terra de ricas florestas,
Fecundadas ao sol do equador !
Teu destino é viver entre festas,
Do progresso, da paz e do amor!
Salve, ó terra de ricas florestas,
Fecundadas ao sol do equador!

Estribilho
Ó Pará, quanto orgulha ser filho,
De um colosso, tão belo, e tão forte;
Juncaremos de flores teu trilho,
Do Brasil, sentinela do Norte.
E a deixar de manter esse brilho,
Preferimos, mil vezes, a morte!

Salve, ó terra de rios gigantes,
D'Amazônia, princesa louçã!
Tudo em ti são encantos vibrantes,
Desde a indústria à rudeza pagã,
Salve, ó terra de rios gigantes,
D'Amazônia, princesa louçã !



Escrito por Fernando Jares às 23h21
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MAX MARTINS EM OUTRA H'ERA

Página do livro "Diários de Max Martins" (Secult, 2007)

Sou um homem sem títulos,

sou todo legenda.

(de “Sou um homem sem títulos”)

Faleceu esta noite, após longa enfermidade, o poeta Max Martins, de quem Benedito Nunes disse que exercia o ato de criar a poesia “com piedoso amor e inalterável dedicação”, na apresentação do livro “H’era”, de 1971. O nosso filósofo maior define Max como um dos raros, entre nós, que “persistem, a despeito do estado de solidão a que se expõem, em fazer da poesia um modo de ser, sempre recomeçado: travessia de margem a margem do profundo solo da palavra poética, subsistente por baixo do solo nativo”. Neste livro está o poema Ver-O-Peso, que já publiquei neste blog, criação de um homem que nasceu e viveu pelas ruas de Belém. De 1926 a 2009.

Em 2006, pelos seus 80 anos, foi organizada um exposição na Sol Informática, sobre os diários de Max. Uma outra forma de se manifestar, alguém que fez da poesia o seu modo de ser. O curador da exposição foi o artista plástico Jorge Eiró, que escreveu na apresentação:

“O poeta Max Martins possui algumas dezenas de cadernos/diários onde ele há tempos costuma fazer suas anotações junto a colagens, grafismos, desenhos a pastel e nanquim. Esses diários, raríssimas vezes mostrados ao público, trazem fragmentos de seus poemas e de outros grandes poetas, notas dos “livros de sua vida”, carinhosas referências a amigos e amores, pensamentos dispersos e observações cotidianas, escritos com uma caligrafia personalíssima, como ideogramas orientais em um “livro de cabeceira”. Ele amalgama essa escritura a colagens diversas de gravuras, recortes de revistas, fotografias, selos de cartas e toda sorte de relicários gráficos que o poeta elege como matéria plástica. A alquimia poético-plástica do mago Max se completa com riscos subscritos a pastel, grafismos (jamais) inúteis , pinceladas a nanquim, guache ou qualquer outra tinta cósmica-orgásmica.”

O texto completo da apresentação, assim como as obras expostas você encontra no site da galeria da Sol, clicando aqui.

Para conhecer a vida e a obra de Max Martins você pode ir às páginas dele no Cultura Pará. E há também comunidade no Orkut.

Para completar, e ainda postar no mesmo dia/noite em que Max Martins deixou sua gente para ir poetar em outra dimensão, porque assim como a sua obra continuará viva e presente aqui, ele deverá produzir em algum lugar da eternidade, porque Deus não é bobo de perder um cara que soube valorizar tão bem a criação..., aqui vão dois poemas, dois extremos, um de 1952 e outro de 2001:

Estranho (1952)
Não entenderás o meu dialeto
nem compreenderás os meus costumes.
Mas ouvirei sempre as tuas canções
e todas as noites procurarás meu corpo.
Terei as carícias dos teus seios brancos.
Iremos amiúde ver o mar
Muito te beijarei
e não me amarás como estrangeiro.

Diante de ti (2001)
Floresta de sangue - O aroma
ainda detém-se entre os arbustos lavados.

De um ramo a outro recompõe-se amarelo o segredo: ORAR
                                                            jogar pedras
                                                            palavras para o céu
                                                            para proteger-me.
E infundir silêncio nesta mão de madeira escrevendo o caminho.

Caminho por ti.
Caminho no tomo sombrio de uma bibliografia nervosa.

Tua frente é o que sabe melhor o não dito
(de onde segue este rio e a noite obediente)

Colocaram uma estrela trágica no vinho do beijo,
no fôlego com o beijo, na tua boca do cântico
dos cânticos
                   destes anos.
O tempo cavou o milagre do tempo e do ritmo. A língua
foi a origem do mundo. À Rainha-mãe da água e das ondas,
                                         do poema do aroma.
E à dissolução do amor na debulha dos grãos.

Do zênite da boca ao papel suado da terra
crescem os mamilos da rosa. Arfam as pétalas sangüíneas.
Na messe do outono do galo o aroma desmaia.
Dói-me feliz o que ainda ignoro - diante de ti.



Escrito por Fernando Jares às 23h58
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QUEM SÃO ELES, O PARÁ NO CARNAVAL

A VOZ DA CONSCIÊNCIA CULTURAL

Dá para imaginar se, naquele janeiro de 1946, o alfaiate Almerindo Gonçalves Cardoso, o sapateiro Alberto do Carmo Peixoto, o ferreiro Antônio Gonçalves Cardoso, irmão de Almerindo, e o barbeiro Anastácio Barros Soares não tivessem transformado o bloco “Tá feio” na escola “Quem São Eles”?

Como seria ilógico o velho nome, diante de tanta coisa bonita que este Império do(de) Samba tem realizado, ao longo das gerações. No mínimo, já teria mudado para “Tá bonito!”. Escrevo isto ouvindo o samba-enredo deste ano “Dalcídio Jurandir – O Marajó na Celebração do Centenário”, de Oswaldo Garcia e Antonio d’Pádua. Escrevo isto depois de ouvir enredos antológicos. Com a alma feliz, lá em cima, justificado por ser Quemzão (ou Quenzão, como desejariam os mais gramaticamente corretos...) desde tantos anos, provavelmente atraído por aquilo que o atual presidente da Escola, André Vilhena, chama de “enredo informação”, que ele coloca como “fator crítico do Quem”. Já falei desses meus amores quemzonísticos em post anterior, que você pode ler clicando aqui.

E o samba-enredo deste ano tem um refrão que define muito bem essa posição cultural paraensista: Quem São Eles somos nós / A voz da consciência cultural / o Pará no carnaval / valorizando o enredo regional. Pra mim, tá na história!, para arrastar os foliões pelas ruas de Belém. Aliás, como no ano passado, eles fazem, na entrada, algumas notas do Hino do Pará, por sinal, diferentes das utilizadas em 2008. Muito legal isso. Divulgar este belíssimo hino é outra necessidade. Quem o conhece? Quem o sabe cantar?

Deixa também um desafio diante do pouco conhecimento da obra do escritor: Quem é ele? / É urgente reeditar... e divulgar / a obra-prima literária / do escritor marajoara / que alguns teimam em olvidar.

Este ano é o segundo da trilogia dedicada a grandes escritores. 2008, Benedicto Monteiro, no ano que vem João de Jesus Paes Loureiro. Trilogia mais que perfeita.

O CD oficial, capas aí em cima, tem ainda o samba do ano passado (Bendito seja Benedicto), dedicado ao Bené Monteiro, falecido alguns meses após a homenagem, e outros antológicos, como o do Theatro da Paz, o Delírio Amazônico, o Pai d’égua, o dedicado a Edyr Proença, o Preamar e um que conta a história da escola, “Desde o Tempo do Tá Feio”. É parceria com a Ná Music (ainda não está no site). Custa R$ 10,00.

 

VEJA AQUI, A LETRA DO SAMBA-ENREDO:

Chove nos campos do Marajó
Ponta de Pedras, Cachoeira do Arari
A Amazônia é o cenário
Celebrando o centenário
de Dalcídio Jurandir.

Embalado pelas mãos da maré cheia
Dalcídio camarada Jurandir
Acabo de chegar do Marajó
Da pajé ouvi a voz
Lendas e mitos conheci no Arari
Na imaginação marajoara
O mundo começara ali!

Que maravilha!
Rios, mistérios, ilhas, abraçando o mar
E a chuva que caia me encharcava de alegria
Deu vontade de ficar...

Karuê! Karuá!
Tem carimbó, vaquejada ao luar
Tem lundu, siriá
Quem é de fé vai rezar
Pra São Sebastião abençoar.

Quem é ele?
É urgente reeditar... e divulgar
A obra-prima literária
do escritor marajoara
que alguns teimam em olvidar.

Quem são eles somos nós
A voz da consciência cultural
O Pará no carnaval
valorizando o enredo regional.

 



Escrito por Fernando Jares às 21h07
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PELAS RUAS DE CACHOEIRA

Detalhe da capa de "Chove nos campos de Cachoeira", Edição Cejup, de 1991. A ilustração é de Jaime Bibas.

O UNIVERSO DE DALCÍDIO JURANDIR

Os poucos que atenderam ao convite do Quem São Eles e foram ao auditório do Senac, ontem à noite, fizeram um muito agradável passeio por Cachoeira do Arari e pelos campos marajoaras, tendo como fio condutor a narrativa de Dalcídio Jurandir e como acompanhantes a professora Rosa Assis e o jornalista Avelino do Vale. Como leitmotiv, o centenário de nascimento do escritor, que é homenageado pelo Império do Samba Quem São Eles, que vai levar sua história e sua obra para ser conhecida pelas ruas de Belém. Por sinal, o samba-enredo está muito bom, mas vamos falar dele em outro post.

Rosa Assis, professora doutora em letras, uma especialista em crítica textual ou genética textual, estudiosa da obra de nosso grande escritor, é autora de diversos livros e palestras sobre DJ, do clássico “O vocabulário popular em Dalcídio Jurandir” (UFPA, 1992) à edição crítica de “Chove nos campos de Cachoeira” (Unama, 2002), entre outros.

Ela nos levou ao passeio pelo mágico linguajar caboclo (ou caboco, como também usava Dalcídio) desse marajoara, extraordinário em mostrar o falado no escrito, registrando para sempre uma riqueza única, cada vez mais ameaçada pelas avalanches culturais que invadem as culturas nativas. Falou-nos dos vestidos matinê, na percisão, no preguntar, na pontuação estilística de DJ, das suas variantes conceituais, da gapuiação que ela tanto gosta de fazer nos textos desse autor. Navegamos pelos termos que marcam uma época, mas que muitos ainda resistem, para os manter vivos, nessas comunidades.

Aliás, foi sobre essa resistência do povo de Cachoeira que nos falou Avelino do Vale, ao discorrer sobre a Folia de São Sebastião, que acontece nessa cidade, entre 10 e 20 de janeiro – coincidentemente, dia 10 é o aniversário de DJ. Na verdade a festa começa entre junho e julho do ano anterior, dependendo da baixa das águas. Os foliões percorrem os retiros (as fazendas), com ladainhas e participação dos moradores do local, homenageando S. Sebastião. Ao longo do semestre circulam a região e em 10 de janeiro chegam de volta à Cachoeira, com uma procissão que já foi muito grande, mas hoje, vítima dos mais diversos problemas, deste a proibição pura e simples pela igreja católica (de 1965 a 1987) até a má vontade dessas mesmas autoridades eclesiásticas, o que  ocorre, possivelmente, pelo componente carnavalesco, que é muito forte nesta folia. Mas os foliões fazem questão de ressaltar que são católicos e rezam pelo e para o santo, além de caírem na gandaia – que é grande. Avelino mostrou cenas de uma reportagem que realizou na folia deste ano. Para saber mais sobre esta cidade você pode visitar o site cachoeirense, clicando aqui.

Este blog fez homenagem a DJ no dia de seu centenário, 10 de janeiro. Você pode ler aqui.

Pra fechar, um brinde para este sábado, o texto da professora Rosa Assis que faz a contracapa de seu “Vocabulário popular em DJ”:

Ler os romances da Série Extremo Norte,
com toda a viveza de seu vocabulário,
é conhecer a ilha do Marajó;
é percorrer os bairos periféricos
de Belém do Pará;
é andar em estivas;
é beber açaí;
é tomar tacacá;
é comer frutos variados;
é comer peixes amazônicos diversos;
é se banhar nos rios e igarapés;
é ter medo de boto;
é correr do candiru;
é acreditar em seres fantásticos;
é descer ribanceiras;
é remar e pilotar montarias,
cascos "gaiolas";
dançar ao ar livre;
é participar dos "serenos";
é compartilhar de mutirões;
é tomar banho de cuia;
é se curar com remédios caseiros;
é tomar banho de cheiro;
é imaginar outras formas
de viver diferentes das que na
cidade se possa experimentar.



Escrito por Fernando Jares às 13h40
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O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO EM BELÉM

O ACORDO E ALGUMAS DICAS ESPERTAS

O Curso de Letras da Unama (com a professora Célia Jacob à frente) preparou e distribuiu à larga, pelo menos na quarta-feira à noite, um “Guia prático da nova ortografia”, preciosidade no formato 8x11cm (fechado) com as novidades do chamado Acordo Ortográfico apresentadas de forma simples e inteligente. É o primeiro que vejo circular aqui pelas ruas de Belém, com produção local. As ilustrações, de inspiração amazônica – uma temática sempre presente na Unama – estão atreladas aos exemplos apresentados, com as legendas na nova forma de escrever: “jiboia de miriti” ou “o voo da arara”. Aliás, todo cuidado é pouco ao escrever no word, pois o “corretor” ortográfico, ainda não atualizado, decide que voo continua com circunflexo (ops, preciso alterar essas palavras antigas na correção automática ou desativar o recurso!).

Tudo isso aconteceu na palestra/aula sobre o novo Acordo Ortográfico entre os países de língua portuguesa, proferida pela Prof. Dra. Amarílis Tupiassú. Antes de falar sobre as novidades, ela fez conosco (o grande auditório David Mufarrej estava lotado, com gente em pé e sentada no chão!) um passeio pela história da língua portuguesa, desde as origens, sua evolução, inclusive aquela que ocorre atualmente, e a necessidade de transformação, em algo que é dinâmico, como as pessoas: “a língua somos nós”, afirmou. Destacou que o Acordo, que é mais um dos diversos já feitos, busca conferir à língua portuguesa uma só forma de escrever (e não, necessariamente, de falar, por isso o acordo é ortográfico), unindo essa comunidade no mundo – que hoje anda ao redor de 200 milhões de pessoas, sendo a sétima mais falada no planeta. São oito os países em que é a língua oficial: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor Leste. Timor entrou depois de estar assinado o Acordo, pois somente obteve a independência, da Indonésia, em 1999 e elegeu seu primeiro presidente em 2001. O Acordo foi negociado de 1986 a 1999.

Este blog já divulgou, no dia 5 de janeiro, uma série de informações sobre estas novidades, que podem ser acessadas clicando aqui.

Importante: o Novo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras, deve ser lançado no próximo mês (março), e espero que fique disponível no site da ABL, como hoje acontece, mas ainda só com as alterações de 1971. A Academia anuncia o novo VOLP apenas “para breve”. Mas caso queira consultar o atual, pode clicar aqui.

Mais uma boa notícia: o Guia de que falei lá em cima pode ser baixado no site da Unama. Para facilitar ainda mais a sua vida, basta clicar aqui.

DOCUMENTÁRIO – Antes da palestra foi mostrado o documentário “Língua – vidas em português”, que percorre alguns países onde essa é a língua oficial ou onde existem comunidades que a falam. Com a participação de gente como José Saramago, João Ubaldo Correa, Martinho da Vila (surpreendente) e pessoas desconhecidas, mas com testemunhos muito valiosos. Uma peça que serviu maravilhosamente de introdução à palestra e que merece ser vista. Só encontrei à venda no Submarino.



Escrito por Fernando Jares às 18h21
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ANIVERSÁRIO DO REMO

REMO: 104 ANOS

Revista paraense Caraboo, de 1916

Expediente da revista "Caraboo", em edição do mesmo ano da citada no texto abaixo.

“A revista ilustrada “Caraboo”, de propriedade e redação do sr. Romeu Mariz e secretaria de Arthur Silva, publicou no dia 5 de fevereiro de 1916, uma notícia sob o título Club do Remo. Nesse informativo redacional estavam contidas notícias sobre a fundação da agremiação azulina. Começava assim:”

Exatamente com essa redação se inicia a primeira nota do livro que conta a “História do Clube do Remo”, de 1905 a 1969, um detalhado trabalho, com mais de 600 páginas, registrando os feitos do clube, ano a ano. É de autoria de um dos principais historiadores modernos do Pará, Ernesto Cruz, autor de mais de duas dezenas de livros. Ele próprio um remista confesso, como conta nas “Primeiras Linhas”, à guisa de prefácio: “Acostumei-me desde o ano de 1913, a ir todos os domingos e feriados ao Largo de São Braz, para assistir aos treinos e às partidas de futebol, que ali, num campo improvisado, eram disputados entre os clubes da terra” (...) “dentre todos a minha simpatia e preferência, Grupo do remo. Por este eu torcia e vibrava cada vez que metia um goal nos adversários.”

Mas voltemos ao texto daquela primeira nota, onde ele registra a notícia da “Caraboo”:

“No dia que hoje transcorre, em 1905, fundou-se em Belém o Club do remo, fato determinado por uma dissidência do Sport Club do Pará, à frente do qual se achavam os incansáveis sportmen Raul e Victor Engelhard, Roberto Figueiredo, Antonio Pina e Melo, José H. Danin, Narciso Borges, José Olimpio Gomes, Eduardo Cruz, Jean Marechal, Alfredo Cruz, Eurico e Euclides Borges, Samuel Capper, José Aranha, Abílio Silva, Amaral Menezes, Palmério Pinto, Oliveira da Paz e outros”.

Mais adiante Ernesto Cruz registra que eram sete no primeiro instante da dissidência e que foram 20 os que assinaram a ata de fundação, publicada no Diário Oficial de 09/06/1905, criando assim, mais um club pelas ruas de Belém. Como desde esse início havia uma forte ligação com regatas – disputaram a primeira em 7 de setembro desse ano – o nome veio de um clube inglês, o Rowing Club, sugestão de um dos fundadores, recém-chegado da Europa.

O livro do mestre Ernesto Cruz relata centenas de feitos do Remo, mas, curiosamente, provavelmente pelo viés torcedor do grande historiador, de quem sou leitor desde a juventude, omite a famosa derrota, por 7x0, para o Paysandu, em 22/06/1945...



Escrito por Fernando Jares às 18h04
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COPA 2014 - A DECISÃO ESTÁ CHEGANDO

DA UNIÃO PELA COPA À MAQUIAGEM DE MANAUS

 Sei que as cartas estão lançadas. A decisão sobre quem vai sediar a copa de 2014 na Amazônia está próxima: será anunciada a 20 de março. Os inspetores da Fifa chegam hoje a Manaus e amanhã andarão pelas ruas de Belém.

Mas, em resposta a um post deste blog sobre o assunto, Franklin Veloso, um amigo que é apaixonado pelo futebol – e pelo Paysandu – manda-me um e-mail em que destaca que, se essa será a copa ecológica “deveriam ter feito maior pressão para escolherem no mínimo duas cidades na Amazônia (40% do território brasileiro), já que são 12 cidades-sede”. Ele lembra que, no exterior, o Brasil é conhecido pelo Rio de Janeiro e pela floresta amazônica.

Tem razão, um melhor planejamento estratégico, um entendimento entre governantes (por sinal Eduardo Braga, governador do Amazonas, é paraense), a união entre os políticos, poderia ter levado a uma ação inteligente como essa. Ambas as cidades seriam beneficiadas. A revista Veja, meio na brincadeira, até que cantou essa pedra, como destaco no post anterior. Mas a união teria sido mais objetiva.

Franklin recorda que, quando foi anunciado que a copa do mundo de 2014 seria realizada no Brasil, quem fez o discurso representando o Brasil e a Amazônia foi Eduardo Braga.

E veja a ação de Manaus: o Portal Uol acaba de divulgar que a cidade de Manaus está sendo maquiada para receber os inspetores da Fifa. Olha só:

“A pouco mais de algumas horas para a chegada dos inspetores da Fifa, o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus realizaram uma verdadeira 'Operação Maquiagem' para impressionar a comitiva que desembarca nesta quarta-feira (4) na capital amazonense. Manaus tenta ser a sede amazônica da Copa e disputa a vaga com Belém (PA) e Rio Branco (AC). A 'Operação Maquiagem' (como estão sendo conhecidas as intervenções feitas às vésperas da chegada da comitiva) começou há pelo menos uma semana.” Você pode ler a notícia na íntegra clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 15h51
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DALCÍDIO E O MARAJÓ NO SAMBA

QUEM SÃO ELES ESTUDA DALCÍDIO E O MARAJÓ

 Os súditos do Império do Samba Quem São Eles cuidam muito da cultura paraense, sabendo usar o tesouro comunicacional com que contam para divulgar e preservar esses valores. No passado já cantaram a cronista Eneida, “sempre amor”; o teatro da Paz, onde “Ceci beijou Peri ao som do Guarani”; as belezas do Marajó, “barreira do mar”; o universo linguístico paraoara, que “é pai d’égua ou não é?”; o escritor Benedicto Monteiro, que “bendito seja Benedito”, ano passado, entre tantos sucessos que já desfilaram pelas ruas de Belém. Este ano cantam o centenário do escritor marajoara Dalcídio Jurandir, “o escritor marajoara que alguns teimam em olvidar”.

Mas eles não ficam só no cantar e sambar. Vão fundo no estudo e promovem, a partir de hoje, o segundo seminário sobre “Dalcídio Jurandir o Marajó na celebração do centenário”, que é o enredo de 2009. Sou fãzão do Quemzão (trocadilho infame e paupérrimo!) e andei por lá nos tempos do Luis Guilherme (encontrei-me com ele dia destes), dos poemas/letras do Paes Loureiro, dos sambas do Simão Jatene, das boas idéias do Rosenildo Franco.

O seminário é de três dias, no Senac, da Serzedelo Correa, 279, e começa às 18h30.

Hoje tem mesa redonda sobre “A Cultura Marajoara: Ascensão e Queda de uma Potência Civilizadora”, com o arqueólogo Marcos Magalhães e “Pesca e Ambiente Aquático nos Campos do Marajó”, pela ictióloga Ivaneide Assunção, ambos pesquisadores do Emílio Goeldi.

Amanhã a pajé e escritora Zeneida Lima fala sobre “A Importância da Pajelança Cabocla na Ilha do Marajó” e o poeta João de Jesus Paes Loureiro, sobre 'O Significado Estético da Pajelança'.

Na sexta-feira é a vez do jornalista Avelino do Vale apresentar o tema “A Folia de São Sebastião Hoje e em Dalcídio Jurandir” e da professora Rosa Assis, da Unama, falar sobre “O Vocabulário Popular em Dalcídio Jurandir”.

Inscrições gratuitas. Informações: 9978-9646 e 8190-8808.



Escrito por Fernando Jares às 15h06
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O FIM DO ARRAIAL DE NAZARÉ

QUAL ARRAIAL?

Anuncia-se o fim do “arraial” de Nazaré. Trata-se de um espaço onde existem barracas para a venda de comidas e bebidas e um parque de diversões do tipo roda gigante e outros mais, na época do Círio. Nesse período são montadas também umas barracas nas cercanias da praça, para venda de guloseimas, muita bebida, artigos diversos e até de jogo de azar...

A matéria em que a Diretoria da Festa de Nazaré anuncia essa novidade está em O Liberal de hoje e pode ser lida no Portal ORM. Assunto para muita discussão.

Sou dos que defende, intransigentemente, a preservação de nossas tradições, já tão maltratadas, ao longo dos anos. Mas sobre o “fim do arraial” me parece que há um erro de objeto. O que será extinto, a partir de 2010, não é o Arraial de Nazaré. Esse não existe mais, há muitos anos.

A coisa começou a ser destruída, nos tempos dos governos militares, quando “desapareceram” os belos coretos que ficavam na praça Justo Chermont, que todo mundo chamava de Largo de Nazaré. Até aqueles tempos, ainda havia um verdadeiro arraial de “festa de santo”. Como no interior.

Mas o golpe de misericórdia veio com a construção, no Largo de Nazaré, do chamado Conjunto Arquitetônico de Nazaré (CAN), que nunca entendi porque se chamava conjunto, já que não combinava com nada naquele espaço. Aí os barraqueiros foram expulsos da praça e alojados em terreno ao lado, ao que parece de propriedade da igreja. Muitos ficaram espalhados pelas calçadas vizinhas, aumentando o tumulto pelas ruas de Belém.

Concordo que o parquinho é importante para as crianças. Que o diga o radialista e comerciante Carlos Santos (ah, também ex-governador!) que faz lá a sua festa de aniversário, convidando a criançada. Mas há outros espaços, talvez até mais adequados, para instalar o tal parque, que é de uma empresa privada e como tal, interessada em atender seus clientes.

Os saudosistas esperneiam. Já tem gente falando em “arrancar a página da história”! Mas é bom pensar sobre o que estão defendendo. A verdade é que as novas dinâmicas da cidade (e da sociedade), talvez influenciadas por acontecimentos como esses acima, foram acabando com o arraial. Acho que não há mais o que “salvar”! Deveríamos ter gritado quando os coretos desapareceram. Quando aquela coisa arquitetônica foi construída – e depois ainda ganhou uma cerca.

Neste caso, talvez tenha faltado maior habilidade à Diretoria da Festa em comunicar o fato à comunidade. A sociedade deve ser informada e respeitada. As explicações são necessárias e declarações do tipo “Não vejo motivo para insatisfação”, já admitindo previamente que a medida não seria bem recebida, não agregam nada.

Atualização em 04/02: a Diretoria da Festa de Nazaré anunciou para hoje uma coletiva em que vai explicar as mudanças, mas logo disse o que pretende. Está no site do Círio de Nazaré, que você pode acessar por aqui. As medidas são muito boas e o que resultar vai continuar sendo chamado de arraial, já que é assim que as pessoas querem. Essa de proibir bebida alcoólica na área é elogiável. Com estes esclarecimentos, confirma-se que o problema foi a forma de dizer...



Escrito por Fernando Jares às 18h46
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BELÉM HOSPITALEIRA

O RESGATE DA HOSPITALIDADE

 O paraense, o belenense em especial, sempre teve uma grande tradição de povo hospitaleiro. Isso era muito forte há alguns anos. Tínhamos a tradição de receber bem, de fornecer informações aos visitantes – informação certa! Isso fascinava quem andava pelas ruas de Belém.

Confesso que não tenho ouvido muito desses depoimentos ultimamente. A modernidade de costumes, um certo “medo urbano” em função da escalada da violência ou o egoísmo pelo isolamento do cidadão das cidades grandes, parece que dominavam.

Por alguns depoimentos pessoais e em entrevistas de participantes, senti que, de alguma forma, no Fórum Social Mundial reviveu este “espírito paraense” de hospitalidade.

Danielle Mitterrand, viúva do presidente francês François Mitterrand, foi uma das personalidades mundiais que esteve por aqui. Ela, que tem um passado de defesa das liberdades, aos 84 anos dirige a Fondation France-Libertés e participou de todos os FSM. Transcrevo abaixo um trecho de entrevista que ela concedeu ao jornal Diário do Pará, publicada hoje na coluna Mauro Bonna, em que ela fala sobre Belém e destaca essa questão da hospitalidade:

“Nós tivemos tanto trabalho, que ficamos praticamente entre o apartamento em que estamos hospedados e o Fórum. Atravessamos a cidade antiga, que é muito bonita. Vimos também a interação entre a cidade antiga e a modernidade. Achei isto muito interessante, muito vivo e presente em todos os lugares. Mas, o que mais me marcou aqui foi a acolhida calorosa do povo do Pará, do povo de Belém. Isto para nós é extraordinário, ser acolhido com tanto calor. Mas, não tive tempo de conhecer Belém o suficiente para poder falar.”



Escrito por Fernando Jares às 18h45
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ANIVERSÁRIO DO PAYSANDU

95 ANOS DE TRADIÇÃO

 

Foi aqui, no La Bombonera, que o Paysandu obteve sua maior conquista internacional. Apenas o Santos, dos tempos de Pelé, havia vencido o Boca nesta arena!

 

Em um dia como hoje, 2 de fevereiro, em 1914, coincidentemente também uma segunda-feira, um grupo de esportistas paraenses reuniu-se em uma casa na rua dos Pariquis, 22, para fundar um novo clube. Desejavam eles plantar a semente de uma agremiação destinada a conquistar grandes glórias, no Estado e nacionalmente.

95 anos depois o cartel de conquistas é grande e único na região Norte. Naquela data eles criaram o Paysandu Foot-Ball Club, nome que seria trocado, duas semanas depois, para Paysandu Sport Club, que prevalece até hoje, como símbolo de grandes conquistas e felicidade de milhões de torcedores.

Com efeito, o nome foi uma homenagem “ao feito glorioso e heróico da Marinha de Guerra Brasileira ao transpor o Passo do Paysandu, na Guerra contra o Paraguai”, como consta dos registros da época. Estavam presentes grandes paraenses, a partir do dono da casa, Abelardo Conduru, Deodoro de Mendonça, Edgar Proença (este eu conheci, já bem velhinho, mas extremamente ativo, sagaz e inteligente), Arnaldo Moraes, Miguel Pernambuco, Heráclito Gurjão, Manoel Oliveira da Paz, Hugo Leão (a despeito do nome, foi um dos idealizadores do novo clube...) e muitos outros. Foram 42 os que assinaram a ata.

Originou-se o grupo de antigos jogadores e torcedores do Norte Club, mais conhecido como Team Negra (em função de seus calções brancos e camisas pretas), insatisfeitos com os rumos da agremiação e sedentos de vitórias muito específicas. Tanto que, ao ser convidado para ingressar no Grupo do Remo, o jogador Hugo Leão foi incisivo, segundo o jornalista Ferreira da Costa no livro “A Enciclopédia do Futebol Paraense”:

- Vou fundar um clube para superar o Grupo do Remo!

A primeira partida, em 14 de junho, pegou o time em evolução e acabou perdida para o dito Grupo do Remo, por 2x1. Com duas curiosidades: o primeiro gol remista foi marcado (contra) numa infelicidade do zagueiro Bayma, do Paysandu. O novo time reagiu e empatou, mas um pênalti, inexistente, ao que disse a imprensa da época, marcado pelo juiz confessadamente remista, Guilherme Paiva, fechou o placar. Admissível para um time com cinco meses de existência, mas profundamente injusto, como se vê. Coisas que acontecem pelas ruas de Belém.

Muitos feitos gloriosos estão na história do “Papão da Curuzu” (título dado pelo jornalista Everardo Guilhon, de A Vanguarda, em 1948), como a histórica vitória de 7x0 sobre o mesmo Remo (desta eu falarei em junho); a derrota imposta ao Peñarol, de 3x0; duas vezes campeão brasileiro da Série B (1991 e 2001); vencedor da Copa dos Campeões Brasileiros (2002); ou a histórica participação na Taça Libertadores da América (2003), quando, na fase classificatória, venceu quatro partidas, empatou duas e não perdeu nenhuma! Nas oitavas de final venceu o Boca Juniors no famoso La Bombonera e somente foi eliminado no segundo jogo, por 4x2. Isso sem falar nos 42 títulos estaduais e grandes conquistas em outros esportes.

Mas isto é só um registro de 95 anos!

Nos últimos dois anos o futebol do Papão afastou-se dessa rota gloriosa, para frequentar meandros bem menos expressivos do futebol local e nacional. Mas já está saindo desse quadro terrivelmente negativo e inexplicável.

 



Escrito por Fernando Jares às 17h34
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COPA DE 2014

LULA DEFENDE BELÉM COMO UMA DAS SEDES

 Está na coluna Radar, da revista Veja desta semana:

“No meio do encontro entre Lula, Ricardo Teixeira e Joseph Blatter, na quinta-feira passada, o presidente da Fifa pediu ao presidente da República sugestões para as cidades-sede da Copa de 2014. Inicialmente, Lula enumerou as óbvias: Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte. Em seguida, a surpresa: Lula incluiu Belém e, mais do que isso, deu ênfase à capital paraense. Qual é o problema? Bem, das dezessete candidatas, doze serão escolhidas. E, embora não se diga com todas as letras, apenas uma cidade representaria a região amazônica - e a favorita sempre foi Manaus. Agora, a Fifa tem algumas saídas. A primeira é fazer a vontade de Lula. A segunda é mudar os planos e incluir duas cidades amazônicas na Copa. E a terceira é fingir que não ouviu o que foi dito.”

A lógica da Veja no final da notícia é “arrebatadora”: tem 100% de chances de acertar o resultado... além de considerar a opção Belém uma surpresa! Mas, a parte isso, fica o registro de alguém fazendo alguma coisa, no caldeirão da decisão, pelo Pará. Talvez por saber que o presidente ia “puxar a brasa” para trazer alguns dos melhores jogadores do mundo para andar pelas ruas de Belém é que nenhum peso pesado do Pará estava lá, brigando pela ambicionada vaga de uma das sedes da copa.

Mas o fato é que o governador do Amazonas, Eduardo Braga (PMDB) estava lá, participou do almoço oferecido pelo governador de São Paulo, José Serra, e ainda entregou a Blatter o certificado “Amigo da Floresta e do Clima”, alegadamente por seu “compromisso em realizar a Copa de 2014 no Brasil, incluindo uma sede amazônica, além de adotar um conjunto de práticas sustentáveis nas cidades sedes do campeonato”, segundo o Portal do governo amazonense. Que jura que Blatter “reagiu eufórico à homenagem”.

Parece uma história que teria acontecido aqui há muitos anos, nos tempos em que o futebol paraense era outra coisa. Haveria um grande jogo entre Paysandu e Remo, decisivo, como sempre era nesses idos, o juiz vinha do sul. Não lembro dos dirigentes dos dois clubes, nem do papel de cada um nesta história, mas o que conta a lenda é que um deles foi ao aeroporto, para receber o juiz, conseguiu até entrar na pista para ir lá ao pé da escada, “sensibilizar” a autoridade esportiva que chegava. Qual não foi a sua surpresa, quando aparece, no alto da escada, saindo da aeronave (provavelmente em Constellation...) o dirigente do outro clube, já no maior papo, até com o braço sobre o ombro do tal juiz... Não sei se é fato, lenda ou piada, mas contava-se por aqui.



Escrito por Fernando Jares às 22h55
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