Meu Perfil
BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 56 a 65 anos, Arte e cultura, Gastronomia, e história de Belém



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog



Outros sites
 Cais do Silêncio - Literatura de Jason Carneiro
 Quarto Escuro - escritos, lidos, gostos e desgostos de Bruna Guerreiro
 Oníricos - O e-book de Bruna Guerreiro
 Cerveja que eu bebo - Cervejas bem bebidas, experiências compartilhadas.




UOL
 
PELAS RUAS DE BELÉM


PAULO MARTINS, ANO -4

ESTRELA DO NORTE
E O CHEIRO DAS CAROLINAS PARAENSES

Hoje quando vamos a um aniversário, festa de colação ou de casamento, é muito comum estar com destaque na mesa do anfitrião uma bela travessa ou uma terrina com um atraente “Arroz paraense”. Os "mais velhos pouquinha coisa” (© do saudoso jornalista Ewaldo Martins) sabem que há uns tantos anos esse prato não existia pelas ruas de Belém... Trata-se de um arroz que leva tucupi, jambu e camarão seco, ingredientes do tacacá, um dos ícones da cozinha paraense. Pois bem: a audácia de pegar os ingredientes do tacacá e misturar com arroz (que substituiu a goma) tem nome e sobrenome: Paulo Martins, o arquiteto por formação e cozinheiro por vocação, que se tornou o primeiro chef famoso em Belém, praticamente institucionalizando essa nomenclatura para os chefes de cozinha entre nós. Este tal “Arroz paraense” dos dias de hoje foi batizado por ele simploriamente de “Arroz de Tacacá” e está lá no primeiro cardápio do restaurante “Lá em Casa” da Estação das Docas, nos idos de 2000. Fica na categoria “Pratos típicos de nossa criação” e aparece junto com “Picadinho de tambaqui”, “Haddock Paraense”, “Peru no tucupi”, “Filé Marajoara”, “Piramanga” e “Talharim à marajoara”. A descrição do prato é direta: “arroz feito no tucupi, jambu e camarão seco”.

 

Hoje é o “Ano -4” de Paulo Martins, que se foi em 2010, deixando um legado de extraordinária criatividade, hoje espalhado pelas cozinhas de casas e restaurantes de todo o Estado e pelo Brasil afora. Rompeu a tradição no uso de ingredientes centenários paraenses, de nossa melhor tradição indígena, dando a eles novos tratos e novas combinações, alcançando sabores únicos e, acima de tudo, gostosos.

Parte do título aí em cima “Estrela do Norte”, fui buscar em uma entrevista de Paulo Martins publicada em duas páginas da revista Cláudia Cozinha, em fevereiro de 2006, resultado de um papo dele com a chef dessa revista, Bettina Orrico:


CAROLINAS PARAENSES – Luiz Gonzaga ficaria espantado ao provar o cheiro das carolinas paraenses: priprioca, patchuli e cumaru. Ele, que cantou “O cheiro da Carolina”, a moça cheirosa em que todo mundo queria dar uma fungadinha... saberia que aqui era possível comer os deliciosos cheiros que antes apenas eram os perfumes das mais belas morenas paraenses. Foi outra das reconstruções gastronômicas de Paulo Martins, trazendo para a gastronomia o que antes só era usado pela cosmética e perfumaria, industrial ou popular: no VI Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, em 28/04/2006, ele apresentou a sobremesa “Sabores e Odores do Pará”, justamente três carolinas (o doce, obviamente) com três sabores/odores: priprioca, patchuli e cumaru. O patchuli não pegou, mas a priprioca e o cumaru são hoje atrações de primeira linha na cozinha contemporânea paraense e brasileira. A priprioca é uma queridinha de Alex Atala e o pudim com cobertura de cumaru frequenta os melhores restaurantes da cidade. Joanna Martins, filha de Paulo, resgatou a receita original da Carolina em Calda de Priprioca e publicou no perfil Facebook do Instituto Paulo Martins:


A cada ano, desde que o Paulo se foi, tenho dedicado espaço especial recordatório nos dias 9/9 a ele – além das citações durante o ano. É freguês deste blog... como eu tantos anos fui freguês dele, no “Lá em Casa”, restaurante que fundou e onde gestou tantas criações, tamanha revolução cultural na forma de tratar e apresentar a cozinha paraense, ampliando, mas sempre respeitando, profundamente, as nossas raízes culturais, com a utilização de nossos mais tradicionais ingredientes. Acho que este é o Dia da Cozinha Paraense!

Recorde as recordações:

2013 – “Um revolucionário no tratar e apresentar os ingredientes paraenses” – clicando aqui.

2012 – “A herança de Paulo Martins” – clicando aqui.

2011 – “Um legado de criatividade gastronômica” – aqui.

2010 – “Paulo Martins” – aqui



Escrito por Fernando Jares às 06h55
[] [envie esta mensagem] [ ]



JAMYLY QUER SER MASTER CHEF

A EMOÇÃO EM UM FILHOTE AMAZÔNICO

A menina do Amapá com seu filhote fez o chef se emocionar!

Não, não se trata de uma jovem amapaense com o filho ao colo fazendo o patrão chorar.

Traduzindo: a jovem Jamyly Monard, de Macapá, foi, meio “na coragem”, apenas com seu conhecimento, força de vontade e muito amor pela sua terra, disputar o programa MasterChef Brasil, que estreou na terça-feira na Band. Trata-se de uma competição culinária estilo reality show, que chega ao Brasil como sucesso pelo mundo. Aqui tem Ana Paula Padrão como apresentadora e os chefs Henrique Fogaça, Paola Carossela e Erick Jacquin como jurados.

Nesta história Jamyly preparou, em 45 minutos, e montou em cinco, um prato com o peixe amazônico filhote. Veja o Filhote com abacaxi, jambu, molho branco, camarão rosa, castanha-do-pará e arroz com brócolis, que ela batizou de “Surpresa”:


Com sabor elogiado e uma fala segura e emocionante, Jamyly conseguiu balançar o grandão tatuado Fogaça e a argentina Paola. O francês Jacquin fez um belo discurso sobre diversidade cultural e gastronomia, recomendando “seja fiel a suas raízes” e não aprovou a moça, evidentemente porque ela meteu um queijo e um molho branco no filhote... Com a aprovação dos outros dois jurados, ela ganhou o avental para participar do programa.

Quero ser mais que cozinheira. Tenho a minha cidade nas minhas costas. Isso me faz grande, me faz forte”, disse Jamyly. Fogaça emocionou-se, aprovou a garota (22 anos, estudante), elogiou o jambu e aconselhou: “Respeite as suas raízes”. Fogaça já esteve aqui pelas ruas de Belém, onde participou da versão deste ano do festival gastronômico Ver-O-Peso da Cozinha Paraense e conheceu a realidade de um filhote no mercado de peixe. Viu a imensidão amazônica dos ingredientes da Amazônia e deu, ele e Jacquin, um conselho de ouro para jovens chefs. Na verdade, bebam nas fontes, abeberem-se na riquíssima cultura alimentar local.

Para ver esse quadro do programa clique aqui.

Vamos torcer pela Jamyly. Ela nos representa. Terça-feira tem mais.



Escrito por Fernando Jares às 15h08
[] [envie esta mensagem] [ ]



REMANSO: 34º MELHOR NA AL

CULINÁRIA AMAZÔNICA QUE MISTURA A TRADIÇÃO E A INOVAÇÃO

A “Tendência pela natureza” que eu destaquei no livro “Gastronomia do Pará – O Sabor do Brasil” para este início de século foi ponto alto, na noite de ontem, na premiação dos 50 Melhores Restaurantes da América Latina. O primeirão da lista, o “Central” de Lima, Peru, é comandado por Virgilio Martinez, um campeão de pesquisas com ingredientes naturais, especialmente da Amazonia Peruana e dos Andes. Quando ele esteve aqui pelas ruas de Belém, participando do programa “Visita Gourmet”, no restaurante “Remanso do Bosque”, andou até pelos interiores e esteve na feira de Abaetetuba, para conhecer por dentro este PARAíso natural – leia “Dos grãos dos Andes aos peixes das Amazônias” clicando aqui e, logo antes, “O encontro das Amazônias no Remanso”.

Outra boa notícia para a culinária paraoara: dos “Top 5”, três já cozinharam nesta cidade: o campeão, Virgilio Martinez; o 3º colocado, Alex Atala, do “D.O.M” é um mais entusiastas participantes do “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense” e grande usuário e divulgador de nossos ingredientes; e a chef do 4º lugar, o “Mani”, Helena Rizzo, já cá esteve, também no Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”.

REMANSO CRESCE

Mas a grande notícia foi que o “Remanso do Bosque” não apenas permanece na lista dos Melhores Restaurantes da América Latina, como cresceu quatro postos e agora é 34º! (A lista completa está aqui).

O título aí em cima, deste post, é o mesmo que o concurso, comandado pela poderosa revista inglesa Restaurant, deu para a apresentação do Remanso na galeria dos premiados.

E veja que primor de texto descreve o restaurante e o belíssimo trabalho de seus dois titulares, os irmãos Thiago e Felipe Castanho, no site do prêmio, com grande destaque para a gastronomia do Pará:

Pará, a única região do Brasil que realmente desenvolve uma culinária local, é o lar do Remanso do Bosque, um restaurante autêntico da Amazônia, que fica de frente para um parque nacional que faz parte da floresta amazônica, apenas a 30 minutos de distância da selva profunda.

Lá, Thiago Castanho trabalha diariamente com uma rede de pequenos produtores e um dos mercados mais importantes da América Latina, os fornecedores. O Remanso do Bosque é um restaurante que oferece dois tipos de cozinha: a contemporânea amazônica e a tradicional amazônica. A primeira é apresentada em um cardápio à la carte focalizada em três elementos centrais - o fogo, peixe e mandioca. A segunda opção está exposta no menu de degustação que está centrado na pesquisa de produtos locais e silvestres, e nas técnicas culinárias modernas e nativas do Brasil. Os pratos mais emblemáticos da casa usam os peixes nativos como o filhote na brasa, o pirarucu ao leite de castanha do Pará, e a moqueca com tucupi.

Uma conquista para a cozinha paraense, para os ingredientes únicos deste Estado, para o trabalho do povo desta terra, que transforma produtos naturais de qualidade em um resultado reconhecido internacionalmente. Parabéns Thiago Castanho, Felipe Castanho e aos pais deles, d. Carmen e o Chicão, do “Remanso do Peixe”, onde tudo começou. E a toda dedicadíssima equipe que trabalha com eles.

Veja abaixo a imagem da página do “Remanso do Bosque” no site do prêmio. Para ir lá, clique aqui.




Escrito por Fernando Jares às 10h13
[] [envie esta mensagem] [ ]



O AÇAÍ DO MINISTÉRIO DO TURISMO

AÇAÍ “TRADICIONAL” COM MORANGO E GRANOLA?
 ÉGUA, SUMANO!

 

Esta foto do açaí servido de forma estranha aos hábitos paraenses foi publicada na página do Facebook do Ministério do Turismo, com a seguinte frase: “Tá na hora do lanche! Que tal um tradicional açaí paraense?” Como não tem nada a ver com a tradicional forma de consumir o açaí aqui no Estado, gerou uma polêmica e tanto. Foram centenas de comentários espinafrando a postagem oficial do Turismo Brasileiro, defendendo a cultura alimentar paraense, chutada para longe no post. Por exemplo, a jornalista brasileira Luciana Bianchi, que vive e trabalha em Londres, foi uma das primeiras a reagir: “O açaí tradicional paraense não é consumido e servido desta forma.” E até ofereceu consultoria ao Ministério... destacando o livro “Cozinha de Origem” de Thiago Castanho, escrito em parceria com ela. Joanna Martins, do Instituto Paulo Martins, também criticou, embora reconheça que “É mt bom q o Ministério divulgue os nossos produtos, mas que o faça da maneira correta.” (Leia aqui)

O Ministério passou a responder em tom monocórdico a todas as críticas: “Quando citamos açaí tradicional do Pará , estamos fazendo referência ao estado de origem da deliciosa iguaria e não ao seu modo tradicional de preparo.” Saindo pela tangente, como se diz...Na contramão da avalanche paraensista em defesa do que de fato é “tradicional” no nosso Estado, apareceu um perfil “Governo do Pará” em defesa do Ministério do Turismo, a botar panos quentes, meio na linha infame do “falem mal, mas falem de mim”, dizendo: “Opa, sim! Açaí é pra todos os gostos. Pode misturar com tapioca, farinha ou açúcar também, que a gente adora!” no que deixou o MTur todo feliz... Mas mereceu contundente resposta de Karolina Miranda de Camargo que afirma, entre outras coisas, que o Ministério é useiro em dar informações erradas sobre Belém e dá o exemplo de postagem em que o órgão oficial do turismo brasileiro afirma que Belém é na beira do rio Amazonas: “Belém: cidade para todos os gostos. Na beira do Rio Amazonas e cercada pela Floresta Amazônica, vivenciou a época áurea dos barões da borracha. http://bit.ly/1stov8G” Você pode conferir clicando aqui.

Considerando a explicação dada pelo MTur o que se vê é que houve uma tremenda confusão conceitual: o que era para ser promoção turística, isto é, do turismo gastronômico paraense (para conhecer o açaí “de verdade” tem que vir prova-lo pelas ruas de Belém, no Pará) virou, numa visão distorcida da função do órgão, promoção comercial de propaganda do açaí produzido no Pará. Isso é bom, de fato, mas não é o que se esperava de um órgão destinado a promover o turismo.

A reação foi belíssima, uma demonstração forte de paraensismo em defesa de um ícone da cultura alimentar paraense. O “barulho”, como defendeu e pregou essa reação a Joanna Martins, foi tal que o Ministério do Turismo não teve jeito: tentou corrigir a besteira, trocando a frase, que agora diz: “Tá na hora do lanche! O açaí é consumido de diversas formas no Brasil. Na foto, é acompanhado de banana e granola”. Basta você ir até lá, clicando aqui. A gambiarra da edição com a troca da frase você pode ver clicando em “Editado” para ter acesso ao histórico de edições, como na imagem abaixo. Não deixe de ler os comentários, que são mantidos mesmo depois da edição feita pelo Ministério.




Escrito por Fernando Jares às 17h07
[] [envie esta mensagem] [ ]



NO PARÁ O SABOR DO BRASIL

COZINHA DO PARÁ PARA LER E PROVAR

Os jornais de Belém anunciam hoje, com boas matérias, o lançamento do livro “Gastronomia do Pará: o sabor do Brasil”, logo mais às 19h, no Espaço São José Liberto (Polo Joalheiro), escrito pelo professor Álvaro do Espírito Santo e por este jornalista/blogueiro.

Quem for até lá vai conhecer um livro que conta o que é a cozinha paraense, em pesquisa que abrange deste os tempos do início da conquista da região pelos portugueses e influências ocorridas ao longo dos séculos, como a africana. Influências que não alteraram o perfil brasileiríssimo da cozinha paraense, uma vez que tem suas receitas básicas, modos de preparo e ingredientes originários da grande floresta e de seus habitantes. Hoje ainda se cozinha no Pará da mesma forma que há centenas de anos, uma cultura alimentar preservada como em poucos locais do Brasil. A mais brasileira das cozinhas regionais do Brasil:


Matéria publicada hoje no jornal Diário do Pará. Clique aqui.

O livro foi apresentado aos participantes da VII FITA – Feira Internacional de Turismo da Amazônia, em maio passado e teve seu primeiro lançamento em junho, em Lisboa, como parte da programação da visita de uma Missão Empresarial do Pará a Portugal. O lançamento foi em um jantar paraense muito requintado, criado e preparado pelos chefs Ofir Oliveira e Ilca Carmo, que você pode conhecer clicando aqui. Este é um livro para conhecer e para amar mais a maravilhosa cozinha paraense. Somente amamos de verdade, aquilo que conhecemos – este é o objetivo do livro ao revelar a gastronomia do Pará.

 

Matéria publicada hoje no jornal O Liberal. Clique aqui.

No espírito de resgate e revelação quem for ao lançamento vai poder provar um prato da antiga gastronomia paraense, comum pelas ruas de Belém em tempos coloniais, um arroz de carril, cuja receita foi encontrada no livro “Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas”, do Padre João Daniel, dos anos 1700. O chef Ofir Oliveira, apaixonado pesquisador da cozinha paraense fez a reconstrução da receita, com pequenas adaptações aos ingredientes hoje disponíveis e conseguiu um sabor que deve ser muito semelhante àquele que encantava os visitantes do século XVIII. Oportunidade única de ler e provar a história da cozinha do Pará.

Um passeio pelo livro você pode fazer lendo o post imediatamente anterior a este, logo abaixo.



Escrito por Fernando Jares às 16h01
[] [envie esta mensagem] [ ]



COZINHA PARAENSE

A MAIS BRASILEIRA DAS COZINHAS BRASILEIRAS

Sinto-me inclinado a dizer que a cozinha paraense é das mais autênticas, sob o ponto de vista brasileiro, levando em consideração que o índio transmitiu-lhe pratos, fórmulas, adubos, temperos, aromas, preservados em estado de pureza. Há quitutes no Pará que hoje se saboreiam como o aborígene os deglutia quatro séculos atrás.”

A dúvida do escritor paraense Leandro Tocantins, que está como acima, no clássico livro-guia ”Santa Maria de Belém do Grão Pará”, de 1963, não tem mais razão de ser. Foi resolvida e a cozinha paraense ganhou seu atestado de a mais autenticamente brasileira das cozinhas regionais do Brasil, no livro “Gastronomia do Pará: o sabor do Brasil”, que tem lançamento na próxima terça-feira, 26, às 19h, no Espaço São José Liberto.

Em um dos artigos que forma o livro, “A construção da gastronomia do Pará: os três primeiros séculos (XVII a XIX)” o professor Álvaro Negrão do Espírito Santo apresenta o resultado das pesquisas realizadas para sua tesa de doutorado “Viagens e sabores na Amazônia Brasileira: os territórios do turismo gastronômico em Belém do Pará” pela Universidade de Coimbra, Portugal:

As conexões com a culinária portuguesa e negra, nesse período, não inibiram a presença dos produtos autóctones na dieta alimentar paraense. Este fato fundamenta a tese de que a gastronomia do Pará é a mais autêntica e original do país. A vinculação da cozinha paraense às raízes da floresta perdurou ao longo do século XX e no início deste século.

O livro faz uma viagem desde os primórdios da colonização do Pará até este século XXI. Álvaro participa com a parte da pesquisa histórica, com artigos que fazem parte de sua tese de doutorado e eu entro com a atualidade da cozinha paraense, no século passado e neste. Vamos conhecer um pouco do livro.

 

No artigo “O fascínio da floresta na cozinha paraense” este escriba, como coautor do livro, conduz o leitor pelo mundo mágico que é a cozinha paraense, “onde a natureza comanda o espetáculo, fornecendo os principais personagens e atores.” Assim, desfilam ao longo das páginas “Os principais personagens” que são a mandioca, o pirarucu e a “fauna ictiológica”, a tartaruga, o jambu e sua “eletricidade” vegetal, o multipresente açaí, o feijão manteiguinha de Santarém. Belas mantas de pirarucu seco fazem uma página dupla:


Depois desfilam os pratos principais que formam a cozinha papa-chibé, que comemos habitualmente pelas ruas de Belém, como o pato no tucupi, maniçoba, tacacá, caranguejo toc-toc, casquinho de caranguejo, unha de caranguejo, a tartaruga com seus pratos como sarapatel, paxicá, picadinho e farofa no casco, as variações do pirarucu e de outros peixes, o vatapá paraense, o caruru ou o bolinho de piracuí, que você vê nesta página dupla:


Estão no livro também sabores marajoaras, como frito de vaqueiro, o turu, a canhapira, filé marajoara, etc.

A importância de Anna Maria Martins na valorização da cozinha popular paraense, dando a ela um selo de qualidade de aceitação internacional e as novidades criadas, desenvolvidas e divulgadas pelo chef Paulo Martins, também estão na pauta do livro. Em “Vai uma pupunha com roquefort?”, que repercute matéria de página inteira que publiquei no jornal “A Província do Pará”, nos idos de 1995, mostro no livro os novos pratos arquitetados por Paulo Martins, misto de arquiteto e cozinheiro, que sabia usar sua criatividade com extremo bom gosto e equilíbrio: “Paulo Martins começou sua revolução a partir da reutilização e recombinação dos ingredientes tradicionais com os quais estava acostumado a trabalhar e ver sua mãe, d. Anna Maria Martins, trabalhar ao longo dos anos”.

Há histórias de pratos como o “arroz de jambu” e o “muçuã de botequim”, o festival gastronômico “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”, etc.

O também pioneiro e divulgador de nossa cozinha, chef Ofir Oliveira, está presente com suas criações.

O livro chega aos dias atuais com a forte tendência pela natureza, que valoriza os ingredientes paraoaras e a entrada em cena de novos ingredientes, como o chocolate da ilha do Combu, mel de abelhas nativas, plantas antes medicinais ou de cosmética, que agora dão novos sabores e perfumam pratos modernos, onde despontam as criações dos irmãos Thiago e Felipe Castanho.

Mais detalhes você vai conhecer ao vivo e em belas cores na terça-feira, 26/08, no São José Liberto, a partir das 19h.

Por agora, fique com este tamuatá no tucupi:



Escrito por Fernando Jares às 21h56
[] [envie esta mensagem] [ ]



JORNALISTA RUBENS SILVA

POLÍTICA, CÍRIOS & PATOS

Completaram-se hoje os sete dias de falecimento do jornalista Rubens Silva, morto no dia 15 de agosto, e seus amigos e parentes rezam por sua alma na Capela de Lourdes. Rubens, a quem os mais amigos chamavam de “Rubico”, foi-se aos 84 anos. Era um tipo simpático, de bem com a vida, sempre bem informado – e isso já é motivo de felicidade para um bom jornalista! Cobriu durante muitos anos a área política para o jornal A Província do Pará, onde fomos colegas por boa dezena de anos. Assinava uma muito lida coluna que levava seu nome. Todas as vezes que dava uma notícia em primeira mão, exclusiva, complementava com a expressão “quem sabe, sabe” – afinal comum em sua coluna...

Acho que a melhor homenagem que podemos fazer a quem escreve é ler seus escritos. Afinal, para isso é que os escritos são escritos, ora pois. Por isso estes dias andei a cascavilhar exemplares antigos da Província, a relembrar o Rubico.

Veja a coluna dele de 11 de outubro de 1998, um domingo do Círio:


Além de notícias sobre política, naturalmente que fatos ciriais têm espaço garantido. Selecionei dois tópicos interessantes que reproduzo abaixo. O primeiro conta a história de um pequeno Círio realizado na Assembleia Legislativa, um na Polícia Militar e um pelos alunos do Carmo. Começavam nessa época os minicírios, hoje tão comuns pelas ruas de Belém e em cidades próximas, em repartições e empresas privadas – formas do povo católico exteriorizar sua homenagem à padroeira deles todos, N. S. de Nazaré.

Veja o que ele escreveu sobre:

Primeiro Círio

A Assembleia Legislativa do Estado realizou sexta-feira, o primeiro Círio, saindo a procissão às 9 horas da Capela de São João, com destino à sede do Legislativo. O Círio foi acompanhado pelo padre Ronaldo Menezes e pela Banda de Músicos da Polícia Militar. Os moradores dos arredores da AL enfeitaram as fachadas de suas casas e ao final do Círio foi feita uma queima de fogos. Parte da área foi isolada, para evitar acidentes.

No assunto: a Polícia Militar também realizou ontem o seu Círio, assim como os alunos do Colégio do Carmo.

Mais adiante, no espaço reservado à pequenas notas, que ele denominava de “Circuito Fechado”, uma interessantíssima sobre hábitos e costumes paraenses em torno do Círio: a disputa por um pato, que devia ser um legítimo representante do “patarrão”, objeto de desejo de duas consumidoras na “Feira da 25”, hoje “Feira da Maiorana”, com a mudança do nome da rua de “25 de setembro” para “Romulo Maiorana”:

Na tradicional Feira da 25 de Setembro, era registrada, na manhã de sexta-feira, uma briga inusitada entre duas senhoras, que disputavam o mesmo pato para o almoço do Círio. De nada valeram os apelos do vendedor, dizendo que havia patos para todo mundo. O eleito quase fica depenado, mas ao final, com a interferência de outros vendedores da área, o pato ficou com uma terceira cliente. Um fato realmente atípico.”

Como a página era sobre política, a matéria ao lado falava sobre mulheres eleitas, ou não, no que chamava de “bancada do batom”, no pleito daquele ano, e lá estava Elcione Barbalho, que acabara de conquistar seu segundo mandato na Câmara Federal.



Escrito por Fernando Jares às 17h15
[] [envie esta mensagem] [ ]



GASTRONOMIA DO PARÁ – O SABOR DO BRASIL

A ORIGEM E A MODERNIDADE DA COZINHA PARAENSE

O turismo gastronômico é uma das formas de atrair visitantes a um determinado espaço, que vem crescendo muito na economia do turismo. E pode ser um diferencial do Pará, na grande disputa pelos turistas que circulam pelo mundo. Temos neste Estado a mais originalmente brasileira das cozinhas regionais, porque herdeira direta da cultura indígena e utilizando, até os dias de hoje, ingredientes naturais que vai buscar na grande floresta e nos rios da região. Ao longo dos séculos recebeu a participação de outras vertentes da cultura brasileira – o conquistador europeu e o escravo africano – que se manifesta na adição de temperos e na forma de preparar e conservar alguns ingredientes. Mas a essência foi mantida.

Com esses ingredientes únicos no mundo o Pará é hoje destaque na chamada gastronomia contemporânea. Aquela de restaurantes altamente criativos, principalmente no desenvolvimento de novos conceitos culinários, novas composições gastronômicas, e adoção de novas técnicas de preparação de pratos. São bons exemplos locais o “Lá em casa”, criado pelo precursor da nova gastronomia paraense, Paulo Martins (1946/2010), seguido hoje pela sua filha Daniela Martins, que comanda a casa; e o “Remanso do Bosque”, classificado como um dos Latin America's 50 Best Restaurants, dos chefs, também paraenses, Thiago e Felipe Castanho, herdeiros de uma linhagem que vem da cozinha tradicional paraense do “Remanso do Peixe”, referência regional nos frutos dos rios, à qual acrescentaram conhecimentos das mais modernas técnicas em formação superior.

Esses dois enfoques, a origem e a modernidade da cozinha paraense, fazem a pauta do livro “Gastronomia do Pará – O Sabor do Brasil” que tem lançamento pelas ruas de Belém previsto para a próxima terça-feira, 26/08, às 19h, no Espaço São José Liberto:


O livro é uma parceria redacional deste escriba e do professor Álvaro do Espírito Santo, do Curso de Turismo da UFPA e doutorando pela Universidade de Coimbra. Com enfoque acadêmico Álvaro apresenta valiosos resultados de sua pesquisa histórica sobre a cozinha paraense, sua origem e influências coloniais, nos séculos XVII, XVIII e XIX. Eu entro com uma apresentação da cozinha paraoara dos dias atuais, séculos XX e XXI, incluindo a cozinha contemporânea e sua inclusão nas tendências modernas da gastronomia mundial.

Leia mais sobre o livro em “Um painel da cozinha paraense, dos primórdios coloniais aos dias da gastronomia contemporânea”, clicando aqui.

Este livro foi apresentado na VII FITA – Feira Internacional de Turismo da Amazônia, em maio passado e lançado em Lisboa em junho, como parte da programação de uma Missão Empresarial do Pará que visitou a capital de Portugal. Você pode ler sobre esse evento clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 20h04
[] [envie esta mensagem] [ ]



E A VEJA “COMER & BEBER”?

A INDICAÇÃO DOS MELHORES DA CIDADE

Quem é “viciadão” na seleção dos melhores restaurantes, bares e comidinhas de Belém feita pelo júri convidado pela revista Veja e divulgada anualmente na publicação “Comer & Beber Belém” deve estar com crise de abstinência... É que passou junho e julho e nada da revista circular...

Pronto, seus problemas acabaram! É que houve uma mudança no projeto da Abril para esta publicação, em Belém e em outras cidades, explica-me o jornalista Nélio Palheta que, com seu escritório Xingu Comunicação, representa a Abril no Pará e no Maranhão.

Agora com o título “O Melhor da Cidade” Veja irá preparar uma revista especial com muitas informações do que existe disponível pelas ruas de Belém, em lazer, cultura, serviços e noite, além da tradicional relação de restaurantes, bares, etc. Com circulação prevista para 4 de outubro, o fim de semana anterior ao Círio, com 12 mil exemplares, para os assinantes e para as bancas, segundo a editora será uma edição guia, para ser consultada durante o ano inteiro, e aproveitar o que há de melhor na cidade. A edição estará disponível para download gratuito no tablet e haverá também um site com todo o conteúdo sobre o melhor da região.

Um júri de moradores da cidade, com perfis bem diversificados, irá eleger os melhores estabelecimentos de Belém em quatro segmentos diferentes: comes e bebes, lazer e cultura, noite e serviços.

Serão selecionados os grandes destaques da cidade, como os melhores bares, restaurantes, petiscos e drinques, além de programas específicos de cultura e lazer, como melhores atrações históricas, parques ou praças, passeios de fim de semana e melhor shopping.

Haverá também um conteúdo especial com o que há de melhor para fazer na cidade durante os dias em torno do Círio de N. S. de Nazaré.

Para quem, ainda assim, estiver com saudades do “Veja Belém – Comer & Beber”, também seus problemas acabaram: clique aqui e leia sobre a edição do ano passado, com os vencedores das diversas categorias.



Escrito por Fernando Jares às 14h14
[] [envie esta mensagem] [ ]



EM VISÃO GLOBAL

OS SENTIDOS DE BELÉM

Com direito à capa do caderno “Boa Viagem”, as atrações turísticas de Belém ganharam um bom destaque no jornal O Globo em texto assinado pelo jornalista Eduardo Maia, também responsável pelas fotos das matérias.


Aromas, cores, sabores, sons e texturas: como Belém do Pará se tornou um dos mais interessantes destinos do país”, anuncia a chamada da capa, convidando o leitor a entrar nesta aventura sensorial pelas ruas de Belém.

A gastronomia paraense, mais uma vez desponta como um dos principais atrativos que a cidade oferece aos visitantes. Diz o título de uma das matérias:

Sabores de tucupi, tacacá e jambu apimentam cena gastronômica de Belém do Pará”.

O jornalista reconhece que Belém tem uma “culinária própria” que vai além da tradição, mas está ancorada também na criatividade de jovens que mandam bem nas cozinhas paraoaras:

Em meio a tantas opções de destinos turísticos no Brasil, Belém do Pará definitivamente é para quem quer mais que feijão com arroz. É para quem quer pato no tucupi, tacacá, maniçoba, vatapá... Dona de uma culinária própria, Belém se consolidou como um dos destinos gastronômicos mais interessantes do país, não apenas pelos pratos tradicionais, mas pela criatividade de jovens chefs que reinventam os sabores da terra.

Os principais expoentes desse movimento são os irmãos Felipe e Thiago Castanho que comandam o Remanso do Peixe e o Remanso do Bosque — este, o número 38 na lista dos 50 melhores restaurantes da América Latina, segundo a revista “Restaurant” de 2014. Os carros-chefe são os peixes amazônicos, como tucunaré, filhote e pirarucu, servidos com acompanhamentos típicos da região, como banana-da-terra frita e castanha-do-pará. Mas o que faz a diferença do lugar é o menu degustação, onde a grande criatividade dos Castanho é servida em 12 pequenas porções. Uma versão miniatura de arroz com jambu, outra de purê de pupunha com um papel de arroz, outra de pirarucu defumado com nhoque de banana e um bolinho de tapioca com geleia de cupuaçu eram alguns dos destaques de abril do menu, que muda constantemente.”

Atento à história da gastronomia belenense, Eduardo Maia registra o pioneirismo do chef Paulo Martins na criação da nova cozinha paraense:

Embora sejam aclamados por nomes de peso da gastronomia brasileira, como Alex Atala, os irmãos Castanho não são os percursores desse movimento. Esse posto caberia melhor a Paulo Martins, fundador do restaurante Lá em Casa. Morto em 2010, seu trabalho de divulgar a comida paraense cabe agora a sua filha, Daniela, que comanda a cozinha de onde sai um dos filhotes grelhados com arroz de jambu mais famosos da cidade. Peça um suco de taperebá ou cupuaçu e curta a brisa da Baía do Guajará que fica bem em frente. O restaurante está muito bem instalado na Estação das Docas, uma área portuária revitalizada no centro da cidade, ao lado do Ver-o-Peso. Antigos armazéns viraram galpões com restaurantes, bares e lojas. Da antiga estrutura sobraram apenas os guindastes portuários, que hoje combinam perfeitamente com as palmeiras do calçadão.”

Um texto tão saboroso quanto os pratos que anuncia, identifica o esforço dos restaurantes de Belém em “levar a floresta para seus pratos”, para em seguida completar este mergulho no mundo exclusivo das sensações da cozinha paraense levando o leitor a completar o farto banquete do outro lado do rio:

E se os restaurantes de Belém se esforçam para levar a floresta para seus pratos, há alguns que funcionam praticamente dentro da mata. Um dos programas de fim de semana mais populares entre os belenenses é almoçar nos restaurantes da Ilha do Combú, na Baía do Guajará, onde só se chega em pequenos barcos. O mais famoso deles é a Saldosa Maloca, com “l” e um espírito de sítio familiar. Os sucos são feitos com frutas colhidas no terreno e os peixes, assados ou fritos, são servidos com generosas porções de farinha, pirão e arroz de jambu e camarão. A vista para o rio e o ritmo lento deste canto da Amazônia fazem querer que a sobremesa não chegue nunca.”

Duas outras matérias completam o trabalho: “Belém do Pará reúne encantos de uma metrópole às portas da Floresta Amazônica” e “Passeios de canoas e Mangal das Garças aproximam Belém do Pará da natureza amazônica”. O jornalista elegeu “O que Belém tem de original” e apresenta em onze fotos:

- O Ver-o-Peso e seus barcos

- Venda de castanha-do-pará na feira do Ver-o-Peso

- Tucunarés no mercado do peixe

- A erveira d. Coló

- As camisas-bandeira do Pará

- A fachada da Catedral de Nossa Senhora da Graça, identificada no sendo a Basílica de Nazaré.

- A Estação das Docas

- O Menu Degustação do Remanso do Bosque

- Fim de tarde na baia do Guajará

- Saldosa Maloca e Belém ao fundo

- Guarás lindinhos do Mangal das Garças.

Você pode ler os textos completos destas matérias e ver as fotos indo ao endereço eletrônico do jornal O Globo, clicando aqui



Escrito por Fernando Jares às 18h30
[] [envie esta mensagem] [ ]



DO CUPUASSU AO CUPUAÇU

SEMPRE UM SABOR EXTRAODINÁRIO

Doce de cupuaçu é bom de qualquer forma, acho que todos concordam. Pode ser em massa, geleia, sozinho, com castanha-do-pará, agora tem até em barrinhas... Mas o meu preferido é o chamado ponto de corte. Tipo goiabada, para cortar e comer as fatias. Mas é muito bom.

 

Quando eu era jovem ainda conheci o doce de cupuaçu da Fábrica S. Vicente, em lata retangular, no que chamamos agora de ponto de corte, como na foto acima. Mas era muito bom! Tinha sempre lá pela casa da minha avó, aberto em datas especiais – afinal não era para a molecada acabar com ele num tapa...

A tal indústria era grande, com muitos empregados, nos idos de 1939 comandada pela sra. D. Maria Rita Ferreira dos Santos, com a firma M. Santos & Filho.

Segundo o “Álbum do Pará”, de 1939, “a heroína desse empreendimento de vulto, que honra o Pará, percebendo, com sua inteligência invulgar, as vantagens excepcionaes que oferece a nossa região tropical ao fabrico de doces e compotas de fructas nativas, iniciou do naca as bases de uma indústria, hoje prospera e conceituada, com irradiação ampla em todos os mercados nacionais e em muitas praças do extrangeiro.”

Mais adiante a mesma publicação informa que “Alem do fabrico de doces, geléas, compotas, goiabada, etc. a operosa organização industrial dedica-se ao beneficiamento de castanha e á exportação de amêndoas, confeites e seus derivados da preciosa e conhecida castanha paraense”.

Em 1960, época em que me lembro de comer destes doces, a fábrica completava 50 anos e publicou um anúncio na capa do “cine-programa” do cinema Palácio, na presidente Vargas, hoje transformado em casa de oração de uma seita protestante. O rótulo da lata é bem mais antigo, pois nos anos 60 já se escrevia cupuaçu com “ç”, mas a S. Vicente vinha do tempo dos dois esses...

 

Houve tempo em que não havia quem fabricasse este doce aqui pelas ruas de Belém, ao menos industrialmente. Os últimos fornecimentos que consegui, faz um bom par de anos, era de uma senhora em Capanema e levava pedaços de castanha-do-pará. Toda vez que eu ia lá trazia um monte dele, que eram consumidos com moderação...

Lembrei-me desta história toda ao saborear algumas fatias de um doce de cupuaçu em ponto de corte dos dias atuais, produção da marca “Feito por nós”. Gosto desta marca e do que faz. Acompanho sua trajetória faz anos. Aliás, acompanho e como o resultado da trajetória! E como é bom comer esses doces - tem sempre no supermercado. Olha de onde tirei umas boas fatias, de dar água na boca:


Para ver a linha completa de produção deles, clique aqui.



Escrito por Fernando Jares às 17h59
[] [envie esta mensagem] [ ]



UM CLÁSSICO MODERNO

UM BOLO CONFEITADO? UM DOCINHO? UM SALGADO?


A foto pode induzir a erro a quem não é cá da “terrinha” (como o jornalista bragantino Edwaldo Martins chamava carinhosamente Belém, fazendo uma releitura do “santa terrinha”, como os portugueses relembravam sua amada pátria...). À primeira vista pode parecer um bolo confeitado. Um olhar mais apurado revela que a parte clara é farofa e a escura, carne. O limãozinho, ao fundo, é uma pista... a confundir.

Estamos diante de um “Muçuã de Botequim” (R$ 28,00), tal como me foi servido, noite destas, no restaurante “Lá em Casa” (Estação das Docas).

O prato é criação do chef Paulo Martins (1946-2010), cofundador da casa, com sua mãe Anna Maria Martins, e continua uma delícia, na cozinha comandada pela chef Daniela Martins, herdeira dos saberes do pai e da avó, e que lhes segue bem a trilha. Hoje o “Muçuã de Botequim” é presença em muitos restaurantes, às vezes com o nome alterado e alguma pequena mudança na receita, mas a base é sempre a mesma: a descoberta de Paulo Martins de que era possível criar um “genérico” para o prato proibido. Virou um clássico moderno.

Conto essa história no livro “Gastronomia do Pará: o sabor do Brasil” (pág. 75) que, juntamente com Álvaro do Espírito Santo, deverei lançar pelas ruas de Belém no próximo mês. No artigo ”O fascínio da floresta na cozinha paraense” conto das criações e inovações de Paulo Martins na cozinha paraoara e, na página 75 está o “Muçuã de Botequim”:

Ainda nos anos 1980 ele [Paulo Martins] havia criado um prato sucedâneo que faz sucesso até hoje: o Muçuã de Botequim. O muçuã é uma pequena tartaruga de água doce, de um palmo de comprimento, de carne deliciosa, comum nos restaurantes paraenses até os anos 1960/70, quando foi proibida a sua captura, para assegurar a sobrevivência da espécie. Paulo substituiu a proibida carne do quelônio, que os paraenses amavam, por músculo bovino, conservando os temperos originais e a forma de preparo, herdada dos antepassados. Teve grande aceitação e hoje é um prato popular pelas ruas de Belém e em outras cidades brasileiras. E tem história sobre ele: nos idos de 2009 a revista “Veja Rio” informou sobre a inauguração de um bar carioca que tinha como uma de suas principais atrações justo este prato, como criação da chef da casa [para ler sobre, neste blog, clique aqui]. Diversos leitores da publicação escreveram denunciando a apropriação da receita original do chef paraense e a revista publicou os reclamos, repondo a verdade [para ler neste blog sobre a resposta, clique aqui]. Em outra oportunidade, ao ser anunciado que em determinado evento em Belém o muçuã de botequim estava no cardápio, fiscais da preservação foram ao local preparados para apreender os animais... e custaram a entender que era um “genérico” para “enganar a vontade” (de comer o original), como registrou na revista “Veja Rio” a leitora Jacqueline Ulbricht, ao reivindicar a paternidade paraense da iguaria.

Aqui mesmo já mostrei como ele é servido no restaurante “Tipiti” – para ler, clique aqui.

Olha aqui o prato posando para “foto oficial” para o acervo do Instituto Paulo Martins – assim ele está no livro citado acima e no livro “Culinária Papa-Chibé – A comida do dia a dia do paraense”, edição do próprio IPM, uma coletânea das melhores receitas da cozinha paraense, assinadas por seus criadores ou por quem as sabe fazer como ninguém. Inclusive esta do “Muçuã de Botequim”.




Escrito por Fernando Jares às 20h12
[] [envie esta mensagem] [ ]



NO CIRCUITO LISBOETA

FORRANDO (BEM) AS BARRIGAS NO BARRIGAS

Come-se bem em Lisboa e em Portugal todo, ouvi recentemente do senhor vice-cônsul de Portugal, Joaquim do Rosário. Destacou, inclusive, as famosas “tascas”, geralmente casas simples, mas de muito boa qualidade e sabor, nas comidas servidas e nos vinhos oferecidos. Um bom exemplo está no post imediatamente abaixo. Isso para além dos bons e tradicionais restaurantes, alguns de renome internacional, especialmente os dedicados à gastronomia contemporânea, no que são bons os chefs alfacinhas.

A visita objeto deste post , mais uma etapa no circuito gastronômico em Lisboa que fiz recentemente, é a um restaurante especializado em pratos típicos locais, instalado no movimentado e famoso Bairro Alto, que confirma a afirmativa quanto a qualidade da cozinha portuguesa:

 

Isso mesmo. Trata-se de “O Barrigas”, um dos mais antigos restaurantes daquela região, ambiente simpático, acolhedor, as paredes revestidas em madeira, pequeno, os pratos principais anunciados na lousa ou na ardósia, como gostam de chamar por lá.

Estávamos em um grupo com gente que entende do riscado, chefspelas ruas de Belém, como Ofir Oliveira e Ilca Carmo, portanto muito bem acompanhado eu, e ainda os professores Ângela e Álvaro do Espírito Santo, ele parceiro no livro “Gastronomia do Pará: o sabor do Brasil” (leia sobre o livro aqui), que já conhecia a casa.

 

Entre as especialidade lusitanas que circularam na mesa estava esta “Açorda de Bacalhau” (€ 10,50). A açorda é um tipo de sopa que, geralmente não é cozida, mas a água em que se cozinha o acompanhamento, no caso o bacalhau é colocada sobre fatias de pão e temperos refogados em bastante azeite e temperos verdes. Uma gostosura.

 

Outra atração deste jantar de início de noite em domimgo lisboeta, ainda com luz do dia, foi um “Bacalhau a Lagareiro” (€ 16,90), outro prato muito característico – como se vê uma belíssima posta de bacalhau ao forno, com muito azeite e alho, acompanhado de batatas a murro.

Foi também consumido um “Arroz de polvo” (€ 12,80), do qual não tenho foto.

O jantar foi acompanhado com o tinto alentejano “Monsaraz” (€ 13,50).



Escrito por Fernando Jares às 22h18
[] [envie esta mensagem] [ ]



OS PASTÉIS DA MINHA AVÓ RENASCEM

NO BACALHAU DA ALFARRABISTA

Bisbilhotar livros antigos, vasculhando prateleiras, é um prazer para quem gosta deles. Acompanhar essa atividade com um café ou um copo e alguns petiscos, mais agradável ainda. Pois foi em um ambiente assim que estive em Lisboa, no espaço “Há café no alfarrabista”, em plena Baixa lisboeta, na rua da Madalena.

Local pequeno, paredes cheias de livros antigos e tradição a nos olhar e nós a olhar para eles, algumas mesas, uma microcozinha.

 

Uma olhadela no cardápio, exposto em uma mesa externa, na estreitíssima calçada, chamou-me a atenção uma dita “Bruschetta de bacalhau”. Parei. Mas o Ingo, garçom, brasileiro, pasmem, paraense, há quatro dias no posto, informou-me que um curto-circuito acabara de queimar o forno elétrico e não havia bruschetta... Como gostei do ambiente, lá fiquei no “Há café no alfarrabista” e optei por uns “Pastéis de bacalhau com arroz" (€ 5,00), que vieram também com uma salada crua e que acompanhei com uma bem geladinha cerveja Sagres Mini/20cl (€ 0,80), pois o sol lá fora, na inclinada rua da Madalena, estava  terrível e o calor berrava por uma cerveja...

 

Já disse nestas linhas que “pastéis de bacalhau” é como se denomina, em grande parte de Portugal, aquilo que convencionamos chamar de bolinhos de bacalhau – se bem que, ao norte de Portugal, também usam denomina-los de bolinhos de bacalhau. Note que o formato cilíndrico fica mais para o design dos nossos conhecidos croquetes. Era assim que minha avó portuguesa os fazia aqui pelas ruas de Belém e estes foram, entre os que por lá comi, os mais próximos daquele sabor que vive no setor lembrança/saudades da infância de minhas memórias. Crocante por fora e uma textura suave no interior, com tempero agradável e equilíbrio honesto entre o bacalhau e a batata. Apenas um pouco demorado o serviço, tempo aproveitável com as ofertas de leitura...

O nome “há café no alfarrabista”, extremamente óbvio, deixa claro que se trata de um alfarrabista onde há café. Alfarrabista é um nome que não usamos por cá, mas indica um local ou alguém que trabalha com alfarrábios, que vem a ser livros antigos ou velhos – tive um colega que chamava esses seus guardados de “alfarrapos”, como a indicar o estado em que se encontravam... Usamos preferencialmente a expressão “sebo” para esse negócio. Vale dizer que este local se destina efetivamente a exposição e venda (e compra) de livros antigos, uma tradição iniciada pelo avô da atual proprietária há mais de 100 anos. Ao longo da história, sempre ali na Madalena, houve tempo em que os livros ficaram guardados e um filho do fundador colocou a numismática como negócio principal do local. Só em 2009 os livros saíram de seu descanso para voltar a habitar as prateleiras, trazendo junto a proposta de lugar para encontro e exercício da amizade e fraternidade. Vez por outra estão por lá autores em busca de fontes para suas inspirações e a aproveitar o ambiente intimista – no dia em que lá estive a jovem cozinheira estreava um prato e estava ansiosa pela opinião de uma também jovem comensal – e ao que indicava, habituée do local...

Embora seja negócio com objetos antigos e antigas tradições, é bem jovem a organização, com sítio eletrônico com lojinha (clique aqui) e nas redes sociais (clique aqui para o facebook).



Escrito por Fernando Jares às 18h20
[] [envie esta mensagem] [ ]



A GASTRONOMIA COMO ATRAÇÃO TURÍSTICA

GASTRONOMIA DO PARÁ – O SABOR DO BRASIL

Apresentado incialmente no II Congresso de Hospedagem, Gastronomia e Hospitalidade da Amazônia Legal, que integrou a programação da VII da Feira Internacional de Turismo da Amazônia (Fita), em maio passado, e lançado oficialmente em Lisboa, como parte da programação do voo inaugural da Tap ligando diretamente Belém à capital portuguesa (sobre este lançamento, leia clicando aqui), no início de junho, o livro “Gastronomia do Pará – O Sabor do Brasil” foi assunto hoje no programa “Sem Censura Pará”, na TV Cultura.

 

(Foto Camila Lima/Portal Cultura)

Dividi a bancada de entrevistados com o Inspetor Max Silva, chefe do Núcleo de Comunicação da Polícia Rodoviária Federal, e o Tenente Coronel Reginaldo Pinheiro, coordenador da Operação de Verão dos Bombeiros, que falaram sobre as ações dessas instituições com o objetivo de nos dar um melhor veraneio, sem acidentes e outros imprevistos. Também esteve lá o psicólogo Jairo Vasconcelos, do Clube do Remo, a explicar a relação dos brasileiros com o futebol e as reações vistas no país diante da catastrófica eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo.

Antes o livro já havia sido assunto de entrevista no programa “Argumento”, comandado pelo jornalista Mauro Bonna, na TV RBA (foto ao lado), onde também estive, falando como coautor do livro – feito em parceria com o prof. Álvaro Negrão do Espírito Santo, da UFPA, doutorando na Universidade de Coimbra. O livro tem a finalidade de apresentar a gastronomia paraense, desde a sua formação histórica até os dias atuais, que são de destaque no mundo gastronômico, como uma nova fronteira da culinária, com ingredientes novos e revolucionários.

Com a atenção dada aos aspectos históricos e a formação dos ingredientes regionais – em uso desde a colonização até os nossos dias – o livro não deixa dúvida: a cozinha paraense é, efetivamente, a mais brasileira de todas as formas regionais de cozinhar no país. O livro também evidencia, desde a sua “Apresentação”, assinada pelo governador Simão Jatene, que a nossa gastronomia é uma manifestação cultural do povo paraense. Um mundo mágico, um grande espetáculo que deve ser trabalhado como foco para atrair turistas de todo o mundo, na realização do turismo gastronômico.



Escrito por Fernando Jares às 18h51
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]