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PELAS RUAS DE BELÉM


COMENDO EM SAMPA (2)

OS PRAZERES DA CARNE

Comprovando a teoria de que os molhos franceses são os melhores do mundo (nem imagino como será quando eles descobrirem o tucupi...) o chef Olivier Anquier serve dois deles, extraordinários, em seu restaurante paulistano, o bistrô “L’Entrecôte d’Oliver”. Na contramão dos restaurantes com uma interminável oferta de pratos, este tem apenas um! O “Entrecôte” (R$ 78,00) que dá nome à casa. O cliente escolhe apenas o ponto em que quer a carne, que o garçom anota no papel que cobre a mesa... Andamos por lá em nossas microférias gastronômicas em Sampa. Mas vamos começar pelo começo:


A cestinha de pães do couvert (R$6,20) abre as tentações da refeição e avisa: prepare-se! Os pãezinhos de fabricação própria confirmam o esperado, afinal o dono é afamado padeiro de grandes histórias, inclusive em livros, e grife famosa. Quentinhos e com uma boa manteiga!

Logo em seguida chega à mesa a entrada:


Uma Salada de Folhas e nozes! E um molho tipicamente francês, com azeite e mostarda. Mesmo para quem não é muito folheiro, com este molho espalhado em todas as folhas, elas ficam uma delícia e fazem festinhas nas papilas gustativas. O tal prazer em comer. O bistrô “l’Entrecôte d’Olivier” tem dois endereços em São Paulo. Mas na cidade existem uns restaurantes muito semelhantes, chamados de “L’Entrecôte de Paris”, franquia existente em muitas cidades brasileiras, mas que ainda não chegou aqui pelas ruas de Belém – já estão próximo, em Fortaleza, Brasília, etc.

Vamos conhecer o prato principal:


É o corte francês l’entrecôte, que vem a ser uma parte do nosso conhecido contrafilé, em uma ponta da peça, do lado onde os argentinos retiram o bife ancho, ao que fui informado. É uma carne naturalmente macia – e que nas mãos dos cozinheiros do Olivier fica uma suavidade só. Cobrindo a carne um molho que a jornalista Rejane Bastos diria que “é o quiá!”. Trata-se de um molho forte com mostarda e ervas, mantido em segredo pelo chef, que garante ser de sua família há três gerações e que ele aprendeu com sua tia Nicole, dona de segredos da melhor cozinha francesa. Contrapartida ao segredo, existem boatos que dizem que até fígado de galinha entraria na composição... Talvez porque eu goste de fígado de galinha..., o molho é muito bom, harmonizando com a carne, embora a dominando. Na parte que me coube havia uma área não coberta pelo molho, que degustei em separado e deu para sentir a diferença. Mas é um domínio pacífico, positivo e produtivo! como deveriam ser todos os domínios.

Batatas fritas acompanham o prato. Dito assim, simplesmente, batatas fritas, não se traduz fielmente do que se trata esse acompanhamento. São Batatas Fritas como a maioria das pessoas ainda não havia provado antes. Rita e eu incluídos, nem na França, terra das técnicas adotadas pelo chef Olivier Anquier. Com o tal molho da tante Nicole, então!!! Conforme você vai consumindo a dose de batatas, ela vai sendo reposta em seu prato, infinitamente, na medida de seu estômago – ou gula... Mas elas são tão divinas, que comê-las em excesso não deve ser pecado, ao contrário, é uma homenagem à capacidade laborativa do homem e da excelência das batatas, criações de Deus!

Devidamente embatatados e entrecôtezados, chegamos à sobremesa:

 

A foto é uma paupérrima caricatura do que foi servido. Trata-se de uma musse de chocolate chamada “Royal de Chocolate” (R$ 19,80), coisa de realeza. À primeira vista não parece, mas é maciíssima, de sabor que agrada chocólatras ou não. O garçom chega com uma imensa taça cheia dela e coloca no prato o quanto você quiser, uma única vez. Mas pode pedir para encher o prato, à vontade. Fiquei com apenas duas colheradas, porque... você sabe.


Diante do calor inclemente de SP nestes dias e em suas opções mais saudáveis a Rita foi a uma Fruta da Estação (R$ 9,50), optando pelo abacaxi bonitinho e refrescante aí de cima. Ao contrário do prato principal, que é só um, existem algumas opções de sobremesas.

Enquanto você não vai ao bistrô do Olivier, passe no sítio eletrônico da casa, bem legal, clicando aqui: tem até uma “Rádio l’Entrecôte”, pena que a playlist é pequenina...



Escrito por Fernando Jares às 19h13
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COMENDO EM SAMPA (1)

DEGUSTAÇÃO DA MELHOR CHEF DO MUNDO

Neste e em próximos posts vamos fazer um roteiro de microférias gastronômicas pelas ruas de São Paulo, a mais efervescente panela das cozinhas brasileiras, pelo tamanho da cidade, pela quantidade de restaurantes, pelos grandes chefs que concentra, pela sua multiculturalidade. Um passeio por uma gastronomia cada vez mais sofisticada e complexa, com ingredientes pra lá de selecionados e exclusivos, com pratos criativíssimos, grifados, geralmente muito caros. Mas também por endereços bem mais populares, churrasco, sandubas únicos, inspiradores da nação sandubeira brasileira. Sempre procurando identificar a presença de ingredientes amazônico/paraenses.

A primeira escala será no restaurante “Maní”, o 36º melhor do mundo, conforme o ranking The World's 50 Best Restaurants 2014 da revista inglesa Restaurant, comandado pelo casal Helena Rizzo (gaúcha) e Daniel Redondo (catalão), ela a melhor cozinheira do mundo no ano passado, quando conquistou o prêmio Veuve Clicquot de “Melhor Chef Mulher do Mundo”, pela mesma publicação. Ambos já andaram aqui pelas ruas de Belém, participando do “Ver-O-Peso da Cozinha Paraense”.

A proposta de brasilidade da casa começa no nome, a jovem índia ultrabranca que, precocemente falecida, fez nascer em seu túmulo uma planta desconhecida, cujas raízes eram imensamente brancas, a mandioca, o que eternizou a jovem amada pela tribo.

O Menu Degustação por Heloísa Rizzo e Daniel Redondo, com suas atraentes pequenas porções, é meio caro (R$ 380,00). Comecemos pelo Couvert (R$ 22,00), que não faz parte do Menu e em seguida vamos à descrição das etapas servidas nesta apresentação, inclusive com as alternativas para quem tem restrição alimentar, no caso a glúten e lactose. Todos os pratos observaram essa indicação.

UM COUVERT ARTÍSTICO

Manteiga com flor de sal, Coalhada seca com páprica doce, Queijo de cabra com pimenta rosa, dois pãezinhos de queijo, recheados com queijo líquido, Brioche de queijo da “Padoca do Mani” (padoca é como em São Paulo chamam as padarias...) e um sensacional “biscoito” de polvilho, assado – umas placas grandes feitas a partir de nossa conhecida goma de tapioca, que lembram bastante o pão de tapioca de Abaetetuba (que você pode conhecer clicando aqui), embora com bem mais sabor. Deixa qualquer caboco paraoara assanhadíssimo... Arte gastronômica para começar. Veja nos detalhes o pão/biscoito de polvilho e os pãezinhos de queijo:


ESFERAS FERAS

Vindas da cozinha molecular, esferas de caipirinha de caju e de jabuticaba, envoltas em finíssima camada de chocolate abriram o desfile. Tudo muito gelado, se desfaz ao ser colocado na boca, ficando um sabor suave da caipirinha leve e do chocolate.

COMISSÃO DE FRENTE

Um trio formado por:

- Espetinho de polvo a galega com batata confitada e páprica doce
- Chips de batata com rosbife e mostarda dijon
- Bombom de foie gras recheado com goiabada e capa de vinho do porto
Tudo saboroso, mas destaque especialíssimo para o bombom de foie gras, ao estilo das esferas, é surpreendente.

CONEXÃO INCA–CEARENSE

Ceviche de caju com raspadinha de cajuína, megarrefrescante utilização da tradicional fórmula peruana com uma bem nordestinamente brasileira cajuína e o próprio caju.

SOPA DE VERÃO

A influência espanhola dos chefs perpassa o cardápio. Nestes dias de intenso calor paulistano caiu muito bem esta sopa fria de jabuticaba com lagostin no vapor da cachaça e picles de couve flor e amburana. A tradicional fórmula espanhola (gazpacho), com ingredientes brazucas.

UM PRATO QUE TEM TUTANO!

Tutano com pupunha, açaí e saladinha de espinafre com mostarda. Pupunha em terra paulista é o excelente palmito da pupunheira que, neste caso, perde o miolo, que é substituído por um tutano deliciosamente temperado. Pra quem gosta de tutano, só tem um defeito... é pouco! Visualmente fica parecido com um osso e seu tutano. O açaí compõe o cenário amazônico e o sabor.

OLHA O TUCUPI AQUI!

A janta vai ficando paraoara: chegou um delicado nhoque de mandioquinha com araruta (sem trigo!) e dashi de tucupi – o dashi é um caldo de peixe básico da cozinha japonesa, aqui na versão de tucupi. Um prato nipo-paraense? Até com jambu.

O OVO PERFEITO

Conquista da alta tecnologia gastronômica na cozinha contemporânea, o Ovo Perfecto é um clássico da casa. Feito com perfeição: o ovo é cozido a 63º durante uma hora e meia, revelando novo sabor. Servido com espuma de pupunha (o palmito!) assado – o ovo poderia ter um pouco mais de tempero, para harmonizar mais com o palmito. É um clássico da casa. Apresentação requintada.

FALSOS TORTÉIS

São “falsos” porque são de palmito pupunha, ao invés de trigo, para quem tem intolerância ao glúten e lactose (servido para substituir o “ovo”, que contém leite...). Recheados com abóbora, manteiga de sálvia e melão, com farofa de castanha-do-pará.

COCA-PÃO

Coca é o nome deste prato, feito com o pão catalão chamado coca, com molho de tomate, legumes na brasa e atum. Na Catalunha o pão com tomate é um dos pratos típicos mais emblemáticos, o “Pa amb tomàquet”. Lembra a popular bruschetta italiana.

PICADA NO POLVO

Polvo na brasa com purê de batata doce. Chips de batata doce, cebola roxa na brasa e azeite de picada, que vem a ser um azeite típico catalão, onde cada família tradicional de cozinheiros tem a sua própria fórmula. Este, da família de Daniel Redondo, leva alho, azeite de amêndoas, açafrão e pão.

ROBALO, NA MODA

11. Moqueca de robalo com terrine de arroz de coco e delicado vinagrete de pimentões.

FEIJOADA MUDERNA

12. A mais completa tradução da feijoada, diria Caetano Veloso, ao se deparar com este prato em Sampa? Ou seria condensação? Ou desconstrução? Pois bem, aí na foto tem uma “Feijoada”. Paio, couve, laranja, farofa, canelone de porco e esferas de feijão. Todos os fortes sabores da feijoada estão aí, saborosos, mesmo. As esferas de feijão desfazem-se ao tocar o céu da boca, espalhando o líquido da feijoada. O prato campeão deste menu!

LAPSANG SOUCHONG

Rosbife macio em crosta de lapsang souchong, uma folha chinesa, usada como chá, que dá um forte gosto defumado à carne, uma vez que a folha é tratada sobre fumeiros. Servida com salada morna de batatas coberta com ovo cozido e ralado, alcaparras desidratadas e um creme de gema de ovo caipira.

COELHO-BOMBA

Arroz de coelho com açafrão e lombinho muito macio de coelho. O arroz é outra especialidade típica da casa: o chamado arroz bomba catalão.

SABOR MARAJOARA

“Põe tapioca, põe farinha d'água, / Põe açúcar não põe nada” canta Nilson Chaves (aqui) na clássica definição musical de nosso açaí. Mas na versão Maní ele comparece com os acompanhantes com quem anda em plagas não amazônicas: marshmellow de açúcar mascavo, raspadinha de morango, banana nanica e gelatina de guaraná, farofa de aveia e sorbet de açaí. Sugeri que, para ser nacional, faltou a farinha! Mas ficou refrescante e agradável.

SOBREMESA REAL

Nos idos de 1920 o Rei Alberto, da Bélgica, visitou o Brasil. No Rio a visita incluiu a Confeitaria Colombo, onde foi homenageado com um doce que levou o seu nome e de tão gostoso, entrou para a história da Colombo e da doceria nacional. Com o mesmo nome Helena Rizzo fez uma releitura da sobremesa: doce de ovos, purê de ameixas, gelatina de morango, morangos, nata e um delicado suspiro. Gostoso e fofinho. A visão e o sabor contemporâneos para uma criação de quase um século!

OS SEM LEITE

Para quem tem intolerância à lactose, uma festa de sabores: sorbets de graviola, caju, goiaba e acerola. O sorbet é um irmão do sorvete, só que sem leite. É pura fruta, gelo e açúcar. Como eram os sorvetes e picolés nos meus tempos de criança pequena lá em Capanema...

OLHA O PEQUI AQUI

Fechando a noitada, um agrado do Saulo, que nos atendeu magnificamente, como que um amuse-bouche ao contrário... já que fora do cardápio, mas ao final da refeição, uma cortesia da casa: um Doce de Pequi. 



Escrito por Fernando Jares às 19h16
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NOITE DE VINHOS

WINE DINNER NO BENJAMIN

Para quem gosta de um bom vinho em harmonia cuidadosamente estudada com pratos preparados com requinte: vai começar a temporada 2015 do “Wine Dinner” do restaurante “Benjamin”, que acontece toda última quinta-feira do mês – com raríssimas exceções, em função de algum feriado ou evento muito importante. Neste inverno amazônico, está convidativo um vinho pelas ruas de Belém. Hoje pela manhã, fez 25º! A primeira edição do evento será nesta quinta, 29/01, a partir das 21horas. O custo por pessoa é de R$ 140,00, incluindo ainda água mineral, refrigerantes e café expresso. Reservas pelos telefones 3343-3758 e 99152-9804.

Vamos ao menu da noite, com informações do chef Sérgio Leão:

PRIMEIRA ENTRADA – Espumante Alamos Extra Brut
Tartar de Tomate com Atum
Este vinho é novidade (primeira safra) da argentina Catena Zapata, de Mendoza, em estilo bastante seco e refrescante, utiliza 50% da uva Chardonnay e 50% da uva Pinot Noir, dos vinhedos de Tupungato. Teor alcoólico é 12,5%.

SEGUNDA ENTRADA – Vinho Branco Goulart Torrontés
Torta de frutos do mar
Outro argentino, produzido na Bodega Goulart na Região de Salta, apresenta cor amarelo-esverdeada, no olfato toques de pera e jasmim. Na boca, leve, frutado e com final cítrico. Teor alcoólico de 14,2%, é produzido 100% com a uva Torrontés.

PRIMEIRO PRATO – Vinho Tinto Ventoux Delas Freres 2013
Mignon e Ratatouille
Este vinho é produzido no Valle Du Rhône, França, pela vinícola Cotês Du Rhône, utilizando uvas Grenache (80%) e Syrah (20%). Durante o processo de maturação permaneceu por seis meses em barricas de carvalho. O teor alcoólico é de 14%.

SEGUNDO PRATO – Vinho Tinto Carmen Petite Syrah
Almondegas de cordeiro em cama de rizone ao pesto de tomates e manjericão
Um chileno de casta bastante apreciada nos Estados Unidos, o Gran Reserva Petite Sirah é um tinto rico e concentrado. Produzido pela vinícola Viña Carmen, é elaborado com uvas do Valle del Maipo e maturado por 14 meses em barricas francesas. Teor alcoólico, 14,5%.

SOBREMESA – Vinho do Porto Burmester
Mousse de Chocolate
Este porto tem nome alemão, mas tudo começou com uma dupla de empresários na Inglaterra, que decidiu explorar o vinho produzido na nossa muito querida Vila Nova de Gaia, em frente à cidade do Porto, do outro lado do rio Douro, aí se estabelecendo, ainda no século XVIII. Produzido pelo método tradicional, sua maturação é em balseiros de carvalho, por três anos, quando é feito o blend e engarrafado. Teor alcoólico de 20º C.



Escrito por Fernando Jares às 22h35
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COZINHA DE ORIGEM PREMIADA

UMA GRANDE SEMANA PARA O PARÁ

Semana passada a gastronomia paraense andou em alta no mundo, com posição de alto destaque em duas premiações internacionais, com o livro “Cozinha de Origem” do chef Thiago Castanho, escrito em parceria com a jornalista Luciana Bianchi.

Primeiro o livro apareceu na lista de premiados do site “Como Sur – South American Gastronomy”, como o Melhor Livro de Cozinha do Brasil em 2014. O “Como Sur” é um site de notícias e informações sobre a cena gastronômica na América do Sul e sua grande expansão, com correspondentes espalhados nos principais mercados do continente, como Lima, Buenos Aires, São Paulo e outras cidades. Destina-se a profissionais da indústria gastronômica e assemelhados, assim como amantes da boa comida. É considerado uma boa fonte para os que querem saber onde estar, onde comer e como chegar lá, divulgando estas informações em escala mundial.

Veja a lista dos premiados 2014 do “Como Sur”:

Brazil

Best New Restaurant: Sensi

Best New Cookbook: Cozinha De Origem, Thiago Castanho

Best Chef: Alex Atala

Best Event: Paladar Cozinha do Brasil

Best Restaurant: D.O.M.

Você pode conferir estes resultados clicando aqui.

Quando foi na sexta-feira, outra grande notícia: o “Cozinha de Origem”, em sua versão em inglês, “Brazilian Food” foi premiado no “Gourmand World Cookbook Awards”, a mais importante premiação de livros de cozinha do mundo!, como o Melhor Livro de Cozinha Latino-americana feito no exterior, no caso, no Reino Unido, de onde o livro tem sido distribuído para todo o mundo.

E tem mais: com essa indicação o livro vai, como finalista, disputar o prêmio, na mesma categoria, com representantes de outros países, para ser The Best in the World. O evento de premiação acontecerá em Yantai, China, em junho deste ano!

A cozinha de origem criada e desenvolvida pelas ruas de Belém anda assim pelo mundo:



Escrito por Fernando Jares às 15h27
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COMIDA DE CHEF EM 1º DE FEVEREIRO

LEVANDO A BOA GASTRONOMIA
PARA FORA DOS RESTAURANTES.

Está de volta o evento “Comida de Chef”, em sua segunda edição, que vem a ser a primeira de 2015. Em novembro do ano passado, em estreia, reuniu aproximadamente 2 mil pessoas – quando abriu já havia um monte de gente na porta e alguns pratos acabaram rapidamente... Para saber como foi, clique aqui.

O “Comida de Chef” se anuncia como a oportunidade de todos conhecerem os pratos requintados da gastronomia contemporânea paraense, produzidos por alguns dos mais conhecidos restaurantes existentes pelas ruas de Belém, com as inovações que fazem sucesso pelo Brasil e pelo mundo afora.

O evento gastronômico será realizado no próximo dia 1º de fevereiro, domingo, novamente na sede da Fundação Curro Velho, à margem da baia do Guajará, das 11h30 às 14h30.

Como destaca Lilian Almeida, uma das responsáveis pelo evento, as pessoas têm a oportunidade de conhecer novos sabores, novas criações, tudo reunido em um só local.

O valor dos pratos é o mesmo do ano passado: R$ 20,00 para os salgados e R$ 15,00 para os doces. Refrigerantes e cerveja, fora a parte. A entrada é gratuita. Compram-se os tíquetes conforme a vontade e disposição de comer... e a disponibilidade de reais.

Veja abaixo os chefs que já confirmaram presença neste encontro gastronômico, com suas respectivas criações e planeje suas ações para o almoço desse domingo. Bom apetite!

ANA PAULA (Avenida)
Farofa de Rabada

ALEXANDRE BARROS (Brasileirinho)
Tropeiro do Mar

PAULO ARAÚJO (Belleville Espaço Gastronômico)
Moranga Paraense

ARTHUR BESTENE (Circus)
Hotmaniva, com salsicha artesanal de maniçoba.

JOSÉ ÂNGELO ARAÚJO (Famiglia Trattoria)
Ravióli de Camarão

MILENE FONSECA (Maricotinha)
Farofa molhada de pirarucu com pesto de jambu, chicória e castanha-do-pará e bananas-passas

MICHELLY MURCHIO (MM Gastronomia Funcional)
Arroz funcional de caranguejo em azeite de alecrim com chicória e gengibre.

FELIPE GEMAQUE e SOLANGE SABOIA (2+1 Produções Gastronômicas)
Feijoada de Frutos do Mangue

PRISCILA THOMÉ (Brownie do Inácio)
Brownie no copo com sorvete de brigadeiro

TAIANA LAUIN (Brigaderie)
Waffle Gourmet

RENATA LIMA (Sweet by Sisters)
Marmita de lascas de brownie metade de brigadeiro com chocolate do Combu e a outra de queijo do reino com cupuaçu




Escrito por Fernando Jares às 19h55
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PANIS NITEROIENSIS (II)

CAFÉ DA MANHÃ EM NITERÓI

Passei alguns dias na muito aprazível Niterói e voltei a dois endereços gastronômicos onde antes já havia estado: o restaurante “Da Carmine”, que faz parte da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, de que tratarei em próximo post, e na padaria “Boulangerie 403 – Aromas e sabores”, que já foi assunto anteriormente nestas linhas virtuais. Você pode ler “Panis Niteroiensis – Você gosta de pão de queijo?” clicando aqui.

Acompanhados de filha, genro e netos sentamos praça lá para um café de manhã, uma das especialidades da “Boulangerie 403”. Pelo cardápio você pode pedir um “pacote” fechado ou escolher entre as inúmeras ofertas do dito cardápio ou entre as guloseimas que enfeitam, e nos tentam, desde as vitrines da casa... Fomos às variedades.

Começamos por uns pães de queijo. Já os apresentei no post acima. Estavam, mais uma vez, perfeitos. São uma riqueza da casa. Veja uma verdadeira “torrinha” deles:

 

A Rita, com suas restrições glutêmicas e lactosianas, optou por salada de fruta, ovos mexidos e uns saborosos tomates assados com ervas:

 

Eu não resisti a um sanduíche oferecido no cardápio, com pasta de azeitonas pretas, salame hamburguês, salaminho, tomates frescos e rúcula (R$ 19,93). O pão, meus amigos, o pão era um sonho: torradíssimo, mas fácil de cortar com os dentes e mastigar, gostoso em sua essência, imagine com esse recheio:


Ainda fotografei uns pães chegando do forno e uns docinhos em exposição...:

 

Na saída uma surpresa: conheci o Luiz Eduardo Costa, Chef de Confeitaria e proprietário da casa, que havia lido o post anterior e muito surpreso ficou com um registro feito aqui pelas ruas de Belém, tão distante da sua Niterói. Ele posou junto ao quadro com a Missão da “Boulangerie 403”.

 



Escrito por Fernando Jares às 23h09
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CALENDÁRIO UFPA

BELÉM TEM TEMPO EM RECORTES NO MUFPA

Na minha mesa de trabalho existem duas peças, de renovação anual, a que meus olhos estão acostumados a acompanhar a evolução: a agenda da Mendes Comunicação e o Calendário da UFPA.

O Calendário da UFPA é uma obra de arte gráfica que comunica outras artes e que, neste ano, homenageia o Museu da UFPA que está a completar 30 anos. O calendário reproduz doze obras colecionadas no acervo do MUFPA, produzidas até 1980, ilustrativas da arte preservada e difundida no Museu.

Uma exposição das peças que ilustram as 12 lâminas do calendário deste ano com o título “Tempo em recortes” está sendo aberta hoje, às 19h, no belo prédio do Museu e faz parte dos festejos da instituição.

A peça que abre o calendário é “Belém do Pará”, um óleo sobre tela medindo 105 x 210cm, do italiano Joseph León Righini, de 1868, o mais antigo registro da cidade em pintura exposta em museu brasileiro:


Segundo o catálogo da exposição “a obra tem uma história curiosa: pertenceu ao Imperador D. Pedro II, que a deu de presente à sobrinha Francisca de Orléans, por seu casamento com o Duque de Chartres, na França. Décadas depois, o quadro seria comprado em Paris e trazido a Belém, em 1965, para integrar o acervo da UFPA.”

Registro importante valorizado pelos 400 anos que a cidade comemora no próximo ano, esta tela ganhou um pôster em tamanho menor, também trabalho da Editora da UFPA.

Os trabalhos selecionados pela curadora da mostra, Jussara Derenji, que vem a ser a diretora do MUFPA, são de artistas, em sua quase totalidade, que nasceram ou viveram parte de suas vidas pelas ruas de Belém, alguns de fora até cá morreram. Veja aqui a relação dos doze artistas e suas respectivas peças que formam as doze lâminas do calendário e a exposição que está sendo aberta no MUFPA:

Joseph León Righini - Turim, Itália, c.1820 — Belém-PA, Brasil, 1884
BELÉM DO PARÁ, 1868 - Óleo sobre tela, 105 x 210 cm

Denys Puech - Gavernac, França, 1854 - Rodez, França,1942
LA SIRÈNE, s/d Bronze, 79 x 38 x 52 cm

Antonieta Santos Feio - Belém-PA, Brasil, 1897 - Santos-SP, Brasil, 1980
RETRATO FEMININO (título atribuído), 1918 - Óleo sobre tela, 72 x 59 cm

Manoel Pastana - Castanhal-PA, Brasil, 1888 - Rio de Janeiro-RJ, Brasil, 1984
RUY BARBOSA, 1923 - Óleo sobre tela, 152 x 100 cm

Theodoro Braga - Belém-PA, Brasil, 1872 — São Paulo-SP, Brasil, 1953
HERÓIS DO RIO FORMOSO, 1939-1940 - Óleo sobre tela, 91 x 150 cm

Carmen Sousa - Lisboa, Portugal, 1908 — Belém-PA, Brasil, 1950
CABEÇA DE NEGA PAULA, 1949 - Bronze, 44 x 17 x 27 cm

João Pinto - Belém-PA, Brasil, 1911-1991
MARIA ANTONIETA LASSANCE PINTO, 1952 - Óleo sobre tela, 116 x 78 cm

Armando Balloni - Bolonha, Itália, 1901 — São Paulo-SP, Brasil, 1969
PAISAGEM URBANA (título atribuído), c. 1960 - Óleo sobre tela, 82 x 60 cm

Augusto Morbach - Itaquatins-GO, Brasil, 1911 — Belém-PA, Brasil, 1981
COMÉRCIO DE CASTANHAS, 1961 - Óleo sobre tela, 120 x 90 cm

Benedicto Mello - Belém-PA, Brasil, 1926-2004
Sem título, 1969 - Mista sobre madeira, 148 x 110 cm

Ruy Meira - Belém-PA, Brasil, 1921-1995
Sem título, 1975 - Óleo sobre tela, 98 x 98 cm

Valdir Sarubbi - Bragança-PA, Brasil, 1939 — São Paulo-SP, Brasil, 2000
Sem título, c. 1980 - Óleo sobre tela, 81 x 71 cm

Aqui abaixo estão obras do castanhalense do Apeú, Manuel Pastana, um Rui Barbosa que ele pintou quando morava no Rio de Janeiro; e uma obra da série “Antiguos Dueños de Las Flechas” do bragantino Valdir Sarubbi de Medeiros, em que ele homenageia rios e indígenas da sua Amazônia, utilizando o título de uma música gravada por Mercedes Sosa.


Segundo o portal da UFPA “A produção do calendário e do pôster, com o destaque para a vista de Belém assinada por Righini, é a primeira de várias ações com as quais a UFPA presta tributo à capital paraense nos seus 400 anos, que se completam em janeiro de 2016.” Leia a matéria completa sobre o evento de hoje clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 20h05
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BALADA DA GRANDE VIAGEM (2)

VOU-ME EMBORA, VOU-ME EMBORA.
PRA BELÉM DO GRÃO-SENHOR!

Vamos concluir hoje a publicação iniciada ontem (aqui) do poema “Balada da Grande Viagem”, do padre Belchior Maia D’Athayde, de 1954, quando ele se preparava para deixar a sua cidade amada de Recife, capital de seu Estado natal, para uma nova missão, na desconhecida Belém do Grão-Pará. Continua ele o canto de despedida, sendo que as mangueiras que fala logo no primeiro verso refere-se o autor à mangueiras recifenses e não às que se espalham pelas ruas de Belém, que ele ainda não conhecia.

Poeta, educador e escritor, esse sacerdote foi aqui diretor do Colégio Salesiano Nossa Senhora do Carmo, ainda hoje em plena atividade formadora da juventude na Cidade Velha. Dá para entender no poema que ele viaja ao desconhecido (se ainda hoje o somos para muitos, imagine há 60 anos!!!!) para cumprir a sua vocação de religioso, obediente às determinações da sua ordem, a serviço do Senhor, mudando o refrão que repete ao longo do poema:

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará
!”

para, no final:

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-SENHOR
.”


BALADA DA GRANDE VIAGEM (Continuação)

Sob mangueiras frondosas,
Em plagas que, carinhosas,
Te foram cálido lar,
Tu deixas os teus filhinhos,
Reclamando teus carinhos,
De mãos postas, a rezar.
De olhos longos nos caminhos,
Marcando a estrada das ondas,
Com os olhos a gotejar.
Em plagas que, carinhosas,
Te foram cálido lar.
Aonde vais, velho marujo,
Insensível, como o mar?

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará!

E aquela santa velhinha,
Pequenina, encolhidinha,
Quando chegar a noitinha,
Debalde te esperará.
E, na sua geografia,
Cada dia, cada instante,
Cada instante, mais distante,
O teu barco ficará.
Quando chegar a noitinha,
Debalde te esperará.
Desfiará seu rosário,
Como um longo itinerário,
Seguindo o croché de escuma
Que teu barco fiará.
Quando chegar a noitinha,
Debalde te esperará.

Cada vez mais encolhida,
Nos seus setenta e três anos,
Mal se sustendo de pé,
Fiará suas esperanças,
Nas malhas dos desenganos
Da linha do seu croché.
Nos seus setenta e três anos,
Mal se sustendo de pé.

Aonde vais, velho marujo,
Insensível, como o mar?
Se amor de mãe não dobra,
És um monstro singular.
Aonde vais, velho marujo,
Insensível, como o mar?

Eu irei.   Serei um monstro
De singular raridade.
O meu barco é fabricado,
Com retalhos de saudade.
Leva, em vela, mastreado,
Um pedaço de luar.
Da velhinha, encolhidinha,
O olhar longo, molhado,
Será santelmo sagrado
Que me há de alumiar.
Eu irei. Serei um monstro,
Um monstro bem singular.

O meu barco é fabricado,
Com retalhos de saudade.
Leva o alvará da bondade
Para outras praias do mar.
Eu irei. Serei um monstro,
Um monstro bem singular.

Leva, em vela, mastreado,
Um pedaço de luar,

— U'a mensagem de carinho,
Para outras praias do mar.
Eu irei.   Serei um monstro,
Um monstro bem singular.

Da velhinha encolhidinha
O olhar longo, molhado,
Será santelmo sagrado,
Que me há de alumiar,
— Um poema que declama
Amor, amei, hei-de-amar,
Que eu vou gravar nas areias
Das outras praias do mar.
Eu irei.   Serei um monstro,
Um monstro bem singular.

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará.
Que não fica neste mundo.
Fica muito mais pra lá.
Não mora no continente.
Não tem pouso no oceano.
Não conhece paralelos,
Não mora em meridiano.
Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará,
Que não fica neste mundo.
Fica muito mais pra lá.

Que não fica neste mundo.
Fica muito mais pra lá.
Tem a sua longitude,
Num corpo rijo na cruz.
Tem por sua latitude
Braços abertos em cruz.
Há cinco estrelas na noite,
Cinco estrelas — cinco chagas,
Cinco golfadas de luz.
Estranha rosa-dos-ventos,
Barometrada em tormentos,
Cardealada na cruz.
Cinco chagas, cinco estrelas,
Cinco golfadas de luz.

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará.
Que não fica neste mundo.
Fica muito mais pra lá.
Para estender no caminho,
Levo o alvará da bondade,
A mensagem do carinho,
As epopeias do amor.
Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-SENHOR.
Amor, bondade, carinho.
Carinho, bondade, amor.
Vou-me embora, vou-me embora,
Pra BELÉM DO GRÃO-SENHOR!



Escrito por Fernando Jares às 17h26
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VOU-ME EMBORA, VOU-ME EMBORA.
PRA BELÉM DO GRÃO-PARÁ!

Aproveitando esta semana de aniversário de Belém resgato um poema de 1954, parece-me que pouco conhecido, escrito pelo padre Belchior Maia D’Athaide, salesiano, pernambucano, que foi diretor do nosso Colégio Salesiano N. S. do Carmo, aqui pelas ruas de Belém, na segunda metade dos anos 1950.

Por ocasião dos recentes ataques terroristas em Paris, relembrei no Facebook uma quadra desse mestre escritor:

Liberdade! Brado augusto
que desmorona enxovias,
enchendo de insônia e susto
a noite das tiranias!

Em complemento lembrei que quando cheguei ao Carmo ele estava de saída. Não o conheci pessoalmente. A não ser algumas de suas obras, inclusive um poema sobre sua vinda para Belém.

Autor de diversas obras, ele foi membro da Academia Pernambucana de Letras. Nascido em 1908, em São Lourenço da Mata/PE, faleceu em 1976, em Salvador, onde existe uma escola e uma rua com o nome dele.

Mal chegado a Belém ganhou um prêmio na Academia Paraense de Letras, em 1955, com um novo livro de poesias, “Bissextas”. O jornalista Lúcio Flávio Pinto na “Memória do Cotidiano” de seu Jornal Pessoal, da1ª Quinzena de outubro de 2003 noticia isso (abaixo), Você pode ler essa edição completa no site da University of Florida Digital Collections (UFDC), que pode acessar clicando aqui.

 

Nesse mesmo ano a APL inaugurou nova sede (não ainda a atual) e nesse dia fez festa que Lúcio Flávio registrou em outra “Memória...”, do Jornal Pessoal da 1ª Quinzena de Julho de 2010, que você pode ler clicando aqui.

O padre Belchior Maia D’Athayde é apresentado como educador, declamador, além de poeta/trovador e escritor. Parece ter sido gente muito boa: um dia falei dele e desta sua obra a um pernambucano, engenheiro, João Dália Filho, com quem trabalhei na Albras, e o Dália, que fora seu aluno em Recife, ficou muito feliz com tudo isso.

O poema “Balada da Grande Viagem” conta sobre sua saída de Recife, a despedida da cidade amada, indo em direção ao desconhecido, com este refrão:

Vou-me embora, vou-me embora.
Pra Belém do Grão-Pará!

Embora pouco fale sobre Belém, que ele provavelmente ainda não conhecia, achei o refrão muito melhor do que aquele fatídico de Dorival Caymmi: “Adeus, meu pai, minha mãe / Adeus, Belém do Pará” a canção que estimula as pessoas a deixarem Belém... Esta do Pe. Balchior ao menos estimula a disposição de vir para Belém do Grão Pará...

Como se trata de um poema razoavelmente longo, publico em dois dias: hoje uma parte, que continuará amanhã, se Deus quiser.


Aonde vais, velho marujo,
Depois de tanto ancorar?
Asmático, encarquilhado,
Com o rosto em ondas riçado
E o cabelo salpicado
Da branca espuma do mar...
Aonde vais, velho marujo,
Depois de tanto ancorar?

Quem pensou que, aposentado,
Nunca mais viajarias,
Cavalgando montarias
De escarcéus a galopar?
Aonde vais, velho marujo,
Depois de tanto ancorar?

Não vês que há treva na noite?
O vento, com seu açoite,
Castiga o dorso do mar.
Em qual mareta, marujo,
Vai teu batel soçobrar?

Vou-me embora, vou-me embora.
Pra Belém do Grão-Pará!

Deixa-te à praia ancorado.
Não te lances à aventura.
Nessa idade isso é loucura.
Já é tempo de pensar.
Aonde vais, velho marujo,
Depois de tanto ancorar?

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará!

Ouve a voz, a voz da terra...
Ouve a voz, a voz da gleba,
Que te impede de embarcar.
É a voz das cinzas mortas

Dos mortos que deram vida

À tua vida vivida
À sombra do pátrio lar.
É voz de ossos sagrados

Do teu pai.  Restos amados
Não podes abandonar.
Aonde vais, velho marujo,
Insensível, como o mar?

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará!

Vê os coqueiros esbeltos,
Com seus flabelos em leques,
Com seus leques em cocar.
Vê, da curva do horizonte,
Enfileirados nas praias.
Vê que essas palmas são palmas
De mãos ternas a acenar.
Vê os coqueiros esbeltos,
Com seus leques em cocar.
Aonde vais, velho marujo,
Insensível, como o mar?

Vou-me embora, vou-me embora.
Pra Belém d-o Grão-Pará!

Os dois prantos da cidade
Que fêz tudo por te amar.
Deu-te o berço, deu-te a glória,
Deu-te o gênio, deu-te a história,
Pra que lhe desses, em troco,
Com teu amor, teu cantar.
Os dois prantos da cidade
São dois rios de saudade.
Os dois prantos da cidade
Que fêz tudo por te amar.
Aonde vais, velho marujo,
Insensível como o mar?

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará!

Não vislumbras, entre a névoa,
Uns braços a bracejar?
As torres dos velhos templos
Forcejam por te agarrar.
Não vislumbras, entre a névoa,
Uns braços a bracejar?
Aonde vais, velho marujo,
Insensível como o mar?

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará!

E aqueles montes altivos,

Tumba de heróis redivivos,

Nesses seus dias festivos,
Chamam por ti, a gritar,
Reclamando, reboantes,
Tua voz, teus gestos gritantes,
Que clamem altissonantes,
Aos céus, aos mundos distantes,
Sua glória trissecular.
Aqueles montes altivos
Chamam por ti, a gritar.
Aonde vais, velho marujo,
Insensível, como o mar?

Vou-me embora, vou-me embora,
Pra Belém do Grão-Pará!

A publicação deste poema continua amanhã.



Escrito por Fernando Jares às 21h49
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MENU DEGUSTAÇÃO

OUTRA DE UM PIONEIRO EM BELÉM

O chamado Menu Degustação, cardápio assinado por grandes chefs, é formado de inúmeros pratos em pequenas porções, com suas criações, servidos em uma só refeição. São, geralmente, releituras de pratos tradicionais, condensações e reutilizações de ingredientes, novos conceitos de sabores e técnicas, hoje presentes em muitos restaurantes. Mas é uma novidade da cozinha em todo o mundo, um típico produto popularizado no século XXI. Como estão no limite de obras de arte assinadas, com grifes requintadas, utilizando ingredientes raros, de fornecedores exclusivos, muitas vezes importados, têm normalmente preços elevados.

Aqui nesta quase quatricentona cidade, tenho conhecimento desta inovação desde o começo do século.

Veja este folheto:

 

Ao que me lembre, foi o primeiro menu degustação de que participei pelas ruas de Belém. Embora não tenha o ano, deve ter sido de 2005, quando o chef Paulo Martins (1946-2010) participou, na Espanha, do festival Madrid Fusion, que nesse ano aconteceu em janeiro. Visitou Adrià, o El Bulli, e outros templos da gastronomia mundial e voltou cheio de novidades. Logo tratou de colocar em prática os novos conhecimentos, dentro da tendência da novíssima gastronomia contemporânea.

Como curiosidade histórica, veja o cardápio escrito pelo próprio Paulo, recuperado diretamente de seu computador, ao qual acrescentei umas notas, para explicar alguns nomes citados como autores dos pratos apresentados. Foi um belo e gostoso desfile de sabores e inovações. Lembro-me de uma outra degustação, da qual tenho alguns anotados, que ainda vai ser assunto por aqui. Não tenho fotos, pois na época não era costume fotografar os pratos...

Menu degustação
11 e 12 de março
Restaurante O Outro

Prato 1   (Paulo Martins)
Fantasia de sushi
Ostra croc-croc
Carpaccio de filé

Prato 2   (Espanhola)
Mexilhões gratinados
Brocheta de marisco e tomate cereja com sopa de iogurte.  Arzak(1)
Bacalao alli-i-oli.    Andoni Aduriz(2)

Prato 3   (Italiana)
Ministrone
Spirale feijão bucho e mocotó
Lasanha de berinjela ao sugo

Prato 4   (Francesa)
Terrine de pato com lentilhas ao molho de mostarda. Bassoleil(3)
Escalope de vitelos com raiz-forte e massa de chocolate e gergelim. Bassoleil(3)
Magret, molho de acerola, pimenta verde, semolina com alho poro.  Laurent(4)

Prato 5   (Misto)
Paleta de javali com couscous marroquino
Burger de avestruz com arroz negro
Confit de pato com purê de castanha

Sobremesa   (Misto)
Crepe-suflê maracujá
Creme brulê de bacuri

(1) Juan Mari Arzak, que hoje com sua filha Elena Arzak, em 2013 a Melhor Chef do Mundo, comandam o “Arzak”.
(2) do hoje megafamoso restaurante “Mugaritz”.
(3) Chef Emmanuel Bassoleil, francês, um dos inspiradores da nova cozinha brasileira.
(4) Chef Laurent Suaudeau, outro dos franceses que revolucionaram a cozinha brasileira.



Escrito por Fernando Jares às 17h55
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CHUVAS EM BELÉM

IMAGENS DE ARTE

A chuva é um dos símbolos de Belém. E tem bons motivos para isso. Não aquela história folclórica de que aqui chove todos os dias às três da tarde. Talvez até já tenha sido mais ou menos assim – não tão rígido quanto a lenda, com certeza – mas não o é mais, pelas intervenções humanas no equilíbrio do clima global. Desarranjaram o despertador da chuva das três...

No entanto em Belém continua caindo a chuva mais bonita das cidades brasileiras. É bonito ver chover em Belém. Desde sempre. E continua assim.

Os artistas homenageiam essa manifestação natural das mais diversas formas, na literatura, na fotografia, na música, na pintura, etc.

Luiz Braga, por exemplo, tem uma foto da chuva na Praça de República que é um clássico. Uma chuva lindíssima!

Escolhi homenagear a chuva de Belém em três manifestações.

A primeira, que me perdoem os demais, é a maior. E a escolha não é minha... Merece ver a história.

Um dia pediram ao maior dos intelectuais paraenses, Benedito Nunes, que mostrasse uma verdadeira obra de arte. Ele subiu a famosa escadinha em seu gabinete na travessa da Estrela e pegou um pequeno quadro que estava na parede, apresentando a seu interlocutor, professor Jorge Coli, da Unicamp, esta pequena maravilha:


Uma foto de Gratuliano Bibas (Belém, 1917 – 1997). A primeira vez que ouvi falar deste senhor, oficial do exército, eu ainda jovem, é que ele tinha uma coleção de selos, inclusive um “Olho de Boi”. Na época apaixonado por filatelia, fiquei maravilhado. Depois fiquei sabendo que ele desenhava muito bem e que fotografava com arte extraordinária. Para situar na genealogia e na história: vem a ser o pai do também grande artista, arquiteto Jaime Bibas. A última vez que o vi foi em um almoço do Dia dos Pais, no restaurante “Berlim”, do Bernd Kielmann, ele cercado do amor de filhos e netos e Rita e eu com nossas duas filhotas ainda bem pequenas.

Não adianta querer explicar a foto. Melhor ouvir o que dizem os mestres Benedito Nunes e Jorge Coli em um vídeo feito para a série “Obra Revelada”, do Itaú Cultural, que você encontra clicando aqui. Em 2011 já apresentei este vídeo, em post dedicado a Benedito Nunes - para ler "BENEDITOSCRIPTOR", clique aqui.

Eles comentam a obra em detalhe, a “luminosidade que vem da chuva que está caindo, a luminosidade do calçamento”, ressalta BNunes que estima que a foto seja do começo dos anos 1960. Diz o professor visitante: “é tudo luz, é tudo transfigurado pela noite. Trata-se de um fotógrafo no sentido etimológico, que escreve com a luz”.

Jaime Bibas uma vez falou-me desta foto e disse que acompanhou o pai, em noite chuvosa, para a aventura de criar uma obra de arte. Ao fundo dá para ver o prédio do Hidroterápico, ao lado da Beneficente Portuguesa, que foi demolido há anos e hoje há lá um prédio em construção.

A chuva paraense também inspirou um capixaba, profissional da área de turismo, que um dia chegou a Belém mandado pela empresa em que trabalhava, a Varig. Há muitos e muitos anos. Acho que o conheço há bem uns 30 anos... Joacyr Rocha. Gosta de escrever, especialmente algumas poesias e muitas delas dedicadas a Belém, sempre cheias de amor pela cidade que passou a amar como sua.

Ele publicou esta “Chuva de Belém” em 1980 e hoje pensei em fazer esta associação com a obra clássica de Gratuliano Bibas, que há anos eu desejava destacar. Têm sentidos diversos, mas expressam sentimentos de quem ama a chuva e a trata com amor (e para o amor...).

 CHUVA DE BELÉM

Cai a chuva, forte, torrencial
Chuva da tarde, chuva de verão
Amainando o calor tropical
E fazendo vibrar meu coração.

Por que estás a meu lado
E novamente nós nos amando
Revivendo momentos do passado
Sem nos perguntarmos até quando.

As incertezas se foram nas águas
Também se foram as grandes mágoas
Paramos um pouco para pensar
E daqui pra frente é só um tal
De amar

Lá fora, a chuva ainda caindo
Aqui, entre abraços vou te despindo
E vamos sentindo de nossos corpos, o calor
Provocando uma inundação de amor
Joacyr Rocha

Para completar esta homenagem à chuva de Belém, uma outra manifestação, a arte instantânea da fotografia, bem atual, século XXI, que captei do perfil da publicitária Andrea Lima no Facebook, Aqui ela captou, com muita oportunidade, um momento belo da chuva sobre quem dirige pelas ruas de Belém. É o ver, entender que há beleza ali, clicar e curtir. Escreveu ela: “Sinal aberto pra ela! Belém com chuva, gosto muito.” Oportuníssima, nestes dias de início do Inverno Amazônico, mostrando o sinal aberto para o carinho da chuva sobre nós.




Escrito por Fernando Jares às 16h53
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FORTE DO CASTELO

TESTEMUNHA OCULAR DA HISTÓRIA BELENENSE

Na data em que se comemoram os 399 anos de fundação de Belém vale olhar para o local onde tudo começou. (Data que pode até ter sido antes, como alguns registros antigos... leia sobre isso em post de 2013 clicando aqui). Ali ao lado da atual doca do Ver-o-Peso os militares portugueses entenderam ser um ponto adequado para ancorar, descer a terra e, em seguida, construir um forte para defesa deste pedaço de mundo, por direitos e tratados pertencente à coroa portuguesa – por sinal, portuguesa/espanhola, já que, em 1616, estamos na época da “união” entre as coroas dos dois países (1580-1640), o que fazia andarem por cá inimigos da coroa de Espanha, como ingleses, holandeses, etc. a pilhar nossas riquezas, que no século anterior eram levadas somente pelos portugueses...

O tal forte foi denominado “Presépio”, em homenagem à época natalina em que ocorreu a viagem de Francisco Caldeira Castelo Branco de São Luís a estas plagas. Dizem os historiadores que o local teve muito mais importância estratégica do que militar propriamente dita. Se era o local das grandes decisões dos comandantes da época (especialmente Pedro Teixeira) sobre ações de defesa e conquista da Amazônia e, de certa forma, impunha respeito e demarcava a posição luso/espanhola na área, nunca foi palco de grandes batalhas. Ao que parece foi registrada apenas uma, ainda nos inícios, em 1619, e serviu para defender os portugueses de um violento ataque dos índios Tupinambás, por direito natural donos do pedaço, pois ali moravam há muitos e muitos anos... e logo eles, aliados dos colonizadores da primeira hora, que receberam os lusos muito bem, colaboraram nas construções, etc. Mas julgaram-se traídos, com justíssima razão, quando foram escravizados com violência pelo conquistador, coisa que provavelmente nunca lhes poderia ter passado na cabeça.

Mesmo na Cabanagem o forte não teve maior participação, pois estava desarmado na época, por decisão antibelicista (?) da Regência. Serviu de base nas lutas internas entre cabanos, quando recebeu muito sangue paraense.

Sofreu algumas reformas. Ainda nos 1700, quando estava bem mal, houve uma recuperação para a qual veio até um especialista de Lisboa. Foi quando deixou de ser Forte do Presépio passando a ser Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo, ou, simplesmente, Forte do Castelo, como é conhecido até hoje. Segundo Carlos Rocque em 1850 foi novamente recuperado e armado, para logo em 1876 ser novamente desarmado, ficando sem uso definido por muitos anos, sendo apenas depósito de material do exército e alojamento para alguns soldados. No final dos 1800 andava meio maltratado. A foto aqui é de 1884 e o Forte está ao fundo. À frente uma experiência de Júlio Cezar, o paraense voador, a tentar colocar no ar um dirigível. Leia sobre a importância dessa foto, clicando aqui.


Durante a II Grande Guerra, serviu de quartel para uma bateria de artilharia. Nos anos 1960/70 foi entregue a um clube chamado Círculo Militar, que muitas festas realizava e tinha em seu interior um importante restaurante regional com boa cozinha e uma visão belíssima para a baia. Era importante atração turística da cidade - tínhamos de levar lá todos os visitantes, que ficavam encantados com o lugar. Em 1962 Leandro Tocantins no livro-guia “Santa Maria de Belém do Grão Pará” abre seu texto sobre o Forte assim: AGORA QUE tendes Belém por menagem, saí, comigo, turista, para vos familiarizar com as graças da cidade. As insinuações da História fazem-me recomendar uma visita ao Forte do Castelo, antes de ir a outros sítios. Aí estão as nascentes de vida social e política da urbs, que se avolumaram através das várzeas molhadas pelos igarapés e pirizais, transformando a terra agreste, coberta de vegetação exuberante; em espaço aberto e manso, pelo progressivo extirpamento da floresta e dos bichos. E eis a campina, onde colonos e índios ergueram habitações, plantaram árvores frutíferas, e os pés humanos riscaram no solo os caminhos de mato — as primeiras sugestões para as ruas de Belém.”

 

É dessa época a foto acima, de um conhecido postal da cidade. A bela mangueira era um símbolo do local, junto aos canhões que, ao que parece, nunca foram utilizados. Muitos milhares de pessoas aí fizeram fotos recordatórias de visitas a Belém.

No final do século XX e no início dos 2000 foi feita uma grande intervenção na área, com o projeto “Feliz Lusitânia”, que restaurou muita coisa, criou outras, embelezou e utilizou muito bem o lugar. O Forte do Castelo perdeu seu muro frontal em meio a uma boa discussão. Depois ganhou uns estranhos trilhos na rua frontal, para receberem um bonde imaginado por um gestor municipal para circular como atração turística pelas ruas de Belém no centro histórico, projeto que não deu certo, para o bem de Belém, embora deva ter sido paga uma boa conta por essa aventura.



Escrito por Fernando Jares às 15h15
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CABANAGEM MODERNA

O CABANO PARAENSE

 

Comemoramos ontem os 180 anos da Cabanagem, o movimento em que o povo paraense, em memorável jornada, tomou o poder no Grão Pará, caso único na história do Brasil, e protagonizou uma das mais sangrentas revoltas populares do país. O assunto está nos dois posts imediatamente abaixo.

Como disse por lá, muito pouca coisa sobrou daqueles tempos. Os donos da história, vitoriosos, determinaram que os revoltosos eram bandidos a serem exterminados e colocados à margem da história, imagem que só foi revertida 150 depois.

No século XX, exatamente cem anos após o fim da revolta dos paraenses, foi pintado um quadro que virou a imagem do cabano. Justo “O cabano paraense”, reproduzido aí em cima, criação do italiano Alfredo Norfini, que vivia em São Paulo. A imagem reflete o que queriam que fosse o caboclo paraense. Segundo a professora Edilza Fontes, no “Blog da Professora Edilza Fontes”, naqueles idos de Estado Novo, “Havia toda a problemática da identidade regional e nacional sendo remodelada. Getúlio Vargas e Magalhães Barata procuravam encontrar feições ideais para o trabalhador brasileiro, o homem simples, o lavrador ou o operário que deveria ser educado e informado pelo governo” (Para ler esse post, clique aqui). Foi assim que, em 1940, nasceu o “Cabano paraense”, que virou a “cara” do guerrilheiro dos anos 1835 e até fazia parte do Memorial da Cabanagem.

Já no século XXI a imagem que seria do cabano, quando o termo já tinha nova conotação política, de lutador, de herói popular, a criação de Norfini teve uma releitura e, depois de mais de 60 anos despido, ganhou camisa nova (como ele, heroica...) no traço qualificado de Walter Pinto:

 

O cabano vestido com o manto do Paysandu Sport Clube virou “Cabano Bicolor” e foi publicado no jornal O Paraense, não mais aquele de Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, dos tempos dos motins políticos do século XIX, mas em versão para motins mais modernos, sob o comando de jornalistas dos tempos atuais, como Ronaldo Braziliense. Na época em que foi publicado, provavelmente 2002, ano em que já bicampeão brasileiro, o Papão foi o “Campeão dos Campeões”, ganhou a Copa Norte e foi campeão paraense, recortei a publicação, colei em um cartão, fiz-lhe uma base de apoio e virou um display na minha mesa de trabalho, por isso sofreu algum desgaste na cor. Mas era a imagem de lutador, de herói, que incomodava leões e outros bichos azulinos... Destinação essa que o Walter Pinto só veio a ter conhecimento hoje. A ilustração aqui ao lado é mais uma obra de arte neste post: o Walter homenageado em caricatura assinada por outro astro-maior dos traços paraenses, o JBosco, dono de um acabamento impecável – olhe bem, se você encontrar o Walter Pinto feliz da vida circulando pelas ruas de Belém, vai reconhecer com a maior facilidade. É esse aí mesmo. 



Escrito por Fernando Jares às 19h59
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CABANAGEM (2)

A LUTA HEROICA DA CABANAGEM
NA VISÃO DE NIEMEYER

 

O “Memorial da Cabanagem” em postal promocional produzido pela Paratur, na época da inauguração do monumento. Foto: Paulo Romeu Bissoli

Hoje, 07 de janeiro de 2015, é o aniversário do Memorial da Cabanagem, o magnífico monumento criado por Oscar Niemeyer em homenagem ao movimento da Cabanagem.

Naquela data foi comemorado o Sesquicentenário da Cabanagem (150 anos) como era hábito dizer na época. A festa foi grande na cidade: disse o idealizador de tudo isso, jornalista Carlos Rocque, que os cabanos tomaram novamente Belém naquele dia. É que alguns ossos e terra, cinza e pedras dos locais onde foram enterrados os líderes cabanos foram trasladados para a capital, desfilaram como heróis pelas ruas de Belém e foram colocados na cripta do monumento. Já contei a história desse monumento em “O Niemeyer de Belém – Um presente do artista aos paraenses” que você pode ler clicando aqui.

Como você pode ler nesse post citado, a Cabanagem antes era festejada no dia da derrota dos cabanos, e seu centenário teve festa, em 1916, com inauguração de um obelisco com a esfinge do general Soares Andréa, que expulsou os cabanos de Belém. A virada, para comemorar a vitória do povo cabano, veio com a ideia de Carlos Rocque. Lembro que nesse ano teve até uma peça teatral em estilo de grande produção, “Angelim, o outro lado da Cabanagem", escrita pelo muito jovem Edyr Augusto Proença, com nossos melhores astros do palco, as dançarinas de Teka Sallé, o brilho da manequim Sonhão, como a amada do Angelim, em audaciosa cena no palco, música de Antonio Carlos Maranhão – “Valsa Cabana” a música tema, que teve gravação para a peça por Fafá de Belém! e que foi gravada por Bárbara Lameira no CD da Secretaria de Cultura (2006) em homenagem ao Maranhão, que estou ouvindo agora!

O Memorial da Cabanagem foi criminosamente abandonado por gestores municipais – gente que não conseguiu compreender o valor de ter um dos raros monumentos de Niemeyer em uma rua! Infelizmente!

Desenho do monumento, de próprio punho do arquiteto, com a explicação escrita por ele mesmo: "O monumento representa a luta heróica da Cabanagem aniquilada pelas forças da reação mas ainda de pé na memória do nosso povo." Veja mais desenhos no sítio eletrônico de Niemeyer, clicando aqui.



Escrito por Fernando Jares às 13h29
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CABANAGEM (1)

A GUERRA DE UM POVO

Na madrugada de 7 de janeiro de 1835, enquanto a cidade dormia, quatro colunas de homens armados atacavam Belém. Desencadearam a partir daí a mais sangrenta e importante insurreição popular do império brasileiro. Mas a Cabanagem não se restringiu aos cinco anos de luta intensa entre rebeldes e legalistas. Suas origens podiam ser fixadas no momento em que o Estado português assumiu o controle absoluto da economia amazônica e impediu os possíveis protestos através de uma opressiva ditadura política. A "inteligência" nacional procurou revelar essa dominação, tornando-a um fato preferencialmente político, mas a revolta só irrompeu depois de uma irreversível polarização entre possuidores e despossuídos.”
(Trecho inicial de “Cabanagem: a revolta de um povo maltratado”, do jornalista Lúcio Flávio Pinto, no “Dossiê 9/Jornal Pessoal” – Cabanagem/180 anos)

Era um dia como o de hoje, de inverno amazônico, talvez amanhecendo com pouco sol, nuvens escuras sobre a cidade. Apenas 180 anos atrás. Com a conquista da capital que aconteceu nessa data, os revoltosos, a maioria do interior do Estado (ou da Província, para ser mais exato...) assumiram o poder, matando as altas autoridades. Eles não eram “cabanos”, seu movimento não se chamava “cabanagem”. Essa denominação veio muito depois, de certa forma até pejorativamente: gente pobre que morava em cabanas nas margens dos rios amazônicos.

Fizeram a única revolução em que o povo armado assumiu o poder no Brasil. Envolveram-se na mais sangrenta das revoluções brasileiras. Mataram muitos e muitos dos seus foram mortos. Um saldo, por aí, de uns 30 mil mortos, ou até mais, como querem alguns historiadores. O mesmo Lúcio Flávio, em artigo no dossiê acima (A revolta e a “revolta” dos patriotas, pág. 25) afirma que “Se tivesse ocorrido atualmente, nas mesmas proporções, a cabanagem teria produzido dois milhões de mortos em cinco anos”. Assim fica mais fácil entender a manumentalidade da matança ocorrida pelas ruas de Belém e outras cidades amazônicas naquele início do século XIX.

Para assegurar alguma reflexão sobre a data e sobre esse audacioso movimento o jornalista Lúcio Flávio Pinto editou, apressadamente, este dossiê, formado por matérias anteriormente publicadas no seu Jornal Pessoal e algumas inéditas:


Foi lançado esta semana, em 36 páginas, ao custo de R$ 10,00. Ele mesmo explica, em seu perfil no Facebook que “Foi editado às pressas para marcar em tempo a data dos 180 anos da revolta popular, que eclodiu em 7 de janeiro de 1835. Espero que seja útil aos interessados e estimule novas leituras sobre o tema. No final, há uma extensa bibliografia.” Essa bibliografia é uma das preciosidades do trabalho, citando 173 publicações dos últimos séculos, que tratam deste assunto. E, reconhece o autor, faltam ainda registros, como o livro de Geraldo Mártires Coelho, “Anarquistas, demagogos e dissidentes, a imprensa liberal no Pará de 1822”, Edições Cejup, 1993, 388 páginas, que ele logo se apressou em incluir. Como praticamente comecei a leitura pela bibliografia, senti a ausência do jornalista Álvaro Martins e seu valioso livro “A solução cabana para o meio circulante” (desastrosamente impresso pela Imprensa Oficial do Estado, 2013, 208 páginas). Mas ao ler o Dossiê deparei com um capítulo dedicado a esta preciosa pesquisa de Álvaro Martins, que eu li de um fôlego só... Também escapou a série de romances sobre o tema, de Antônio Pinheiro Cabral, “Em tempos Cabanos”, Editora Paka-Tatu, cujo primeiro volume é de 2012 – talvez o Lúcio não o tenha citado para poupar o leitor dos erros contidos no livro, que são muitos, praticamente sem revisão, linguística e de conteúdo histórico... diz-que o segundo volume veio muito melhor, tenho-o mas ainda não tive coragem de enfrentar...

Sem pretender ser um tratado sobre o assunto, mas sim uma apresentação em texto jornalisticamente agradável e de fácil entendimento, mesmo aos não especialistas em história, Lúcio Flávio faz aqui – naturalmente com muito esforço Pessoal – uma contribuição muito importante para a difusão deste histórico e heroico movimento paraense, ainda a merecer melhor tratamento pelas autoridades e intelectualidade paraoaras.

Pelo conteúdo muito valioso, esta publicação devia ser difundida, especialmente entre estudantes. O preço é convidativo, apenas R$ 10,00. Compre alguns, dê a seus filhos, irmãos, amigos. Assim homenageamos o esforço daqueles paraenses que, há dois séculos, queriam vida melhor para este rincão nortista e o esforço do Lúcio em produzir, imprimir e distribuir este documento – sem patrocínio de ninguém, a não ser dos possíveis compradores.

Viva a Cabanagem! Viva o povo Cabano! Viva o povo paraense!


Esta seria uma típica cabana, em Breves, dos moradores ribeirinhos, naqueles ido dos inícios dos 1800. Sobrou muito pouca coisa de registro daqueles tempos, que tentaram apagar da história paraense. Esta ilustração faz parte da quarta capa deste dossiê.



Escrito por Fernando Jares às 10h59
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